A cura de mim mesma

Hoje acordei com uma dor de cabeça horrível. De vez em quando acontece. Tem a ver com hormônios, TPM, ansiedade, saudade, medo e coisa e tal. A última vez que ela me atacou cheguei a ter fotofobia.

Estava com meus filhos, Patropi, Marie Curie, meu irmão e Pipo, que assim que ouviu a minha queixa e a minha dúvida (tenho minhas resistências) se tomava ou não remédio para me livrar daqueles violinos desafinados sendo tocados em minha cabeça, me disse:

– Tenta relaxar. E me estendeu a sua mão.

Acabávamos de chegar na Lagoa. Os demais já seguiam bem lá na frente sendo puxados pela alegria de Marie ao se deparar com piqueniques de terceiros.

Ficamos à sombra de uma amendoeira, onde eu contei para Pipo uma história da primeira vez que fui a São Paulo sozinha para conversar com meu futuro orientador do doutorado lá na USP e acabei voltando com fotos que achei por um acaso (?) do meu avô, pai do meu pai, que morreu como prisioneiro de guerra.

Meu pai só tinha uma foto três por quatro de seu pai com um semblante sério que havia trazido quando veio do Japão. Eu achei várias outras sem ter por elas sequer procurado! E meu avô sorria para todos nós nesses registros!

Pipo ouvia tudo assustado. A história é mesmo de fazer eu rever minha ateinidade.

Depois, Pipo ficou maravilhado com a beleza das fotografias que lhe foram mostradas com as mãos trêmulas e com meus olhos mais úmidos do que o normal ao ter revivido toda aquela sensação e poder compartilhá-la de forma intensa, plena, cúmplice e verdadeira com ele.

Não me lembro mais de quase nada. Se ele me contou algo mirabolante em retribuição a minha história metafísica, sublimei. E peço-lhe perdão por isso.

Recordo-me bem da temperatura agradável e do vento que embaraçou meus cabelos e meu futuro. Rememoro seu carinho em minhas costas enquanto eu fingia olhar os pedalinhos na Lagoa mas, na verdade, mirava um quadro com nós dois nele.

Fomos almoçar.

Somente na volta me dei conta de que aquela enxaqueca dos diabos havia se transformado na leveza de uma fada que jamais menstrua.

Hoje acordei com a mesma dor de cabeça. Pipo está a mais de mil quilômetros de mim. Meu remédio não é tê-lo ao meu lado como acreditei ao começar a escrever esse texto.

Percebi nesse exato momento que, se estivéssemos perto, eu teria várias outras histórias para repartir como a que já narrei para ele de um cego que atingiu o nirvana lendo. Isso mesmo. Foi desse jeito. Ou a do monge budista que, meditando, foi incorporado pela pomba gira.

Mas, mesmo de longe,  ao ver de novo o tal quadro com nós dois, deslembrei rapidamente  do desconforto das pontadas em minha cabeça.

É preciso ficar atenta. Saber que a dor, inclusive da saudade, existe, mas perceber que há coisas além dela. É necessário compreender que não estou sentindo o tempo todo a falta dele. E sim a sua presença.

Depois (o processo foi recorrente), esqueci-me de que a infelicidade existe.

É só então voltei a respirar livremente.

Estou começando a entender como me curo de mim mesma.

4 Comentários

Arquivado em Crônicas

4 Respostas para “A cura de mim mesma

  1. Natalia Alioti

    Que bonito, Elika 🌹
    Aprendo a me curar tambem, fico feliz de ver que não estou só e que, mesmo sem nunca ter nos olhado, sob alguns aspectos, falamos a mesma língua ❤
    Um amigo (ou amor que é quase a mesma coisa) é sempre uma solidão a menos 😉
    Sigamos!

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  2. Gilberto Barros Vieira

    Amo de montão suas poesias. Com você estou aprendendo a viver um amor diferente.

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  3. Oww Elika, ler você me dá um alento refrescante, sã?! Fico encantada com as “partituras” desse amorzão com Pipo. Morro de rir com seus filhotes e, me sinto muito bem acompanhada com a sua indignação e questionamentos. Obrigada, belezura!

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