Precisamos conversar sobre tudo.

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A tática fascista é tentar desmoralizar o inimigo. Portanto, não raro vejo uma gama de comentários me atacando com o intuito de mostrar que falta a mim inteligência por defender o que acredito. É possível que estejam certos.

Então, fiz aqui uma seleção de alguns tópicos que considero importante discutirmos já que a violência tem aumentado em todo Brasil. Coloquei tudo o mais detalhado que consegui para que os que estão enxergando coisas que a minha mente limitada não consegue observar, mostre-me onde estou errando.

Não citarei a fonte porque entendo que não é nada pessoal e o discurso se repete apenas de formas diferentes. Vou dividir os assuntos da postagem para que eu mesma não me perca.

1 – Sobre a desmilitarização da polícia:

“Se for assaltado……em hipótese alguma deve chamar a PM !!!! A PM deveria estar sem armas…desmilitarizada………ligue para LIGHT….e peça uma iluminação melhor no local do delito……isso vai reduzir a criminalidade no seu bairro !!!!!!!

Há um equívoco sério nesse discurso. Para começar, desmilitarizar a polícia nem de longe significa a extinção de policiamento e sim de uma transferência desse “serviço” para uma polícia sem arquitetura militar.

Temos hoje duas polícias: a civil e a militar. A primeira tem como obrigação cuidar da investigação e apuração de infrações penais. A segunda, o policiamento ostensivo e “preservação da ordem pública”. Uma função que é importante ressaltar é a do combate ao tráfico de drogas. Até aí não há problema algum. Quer dizer, há. Mas o que está em jogo é o treinamento nos moldes das Forças Armadas que a polícia militar recebe. Militares são treinados e preparados para defender o país contra inimigos e o povo não pode ser considerado inimigo. Isso só faz sentido se estivermos em um Ditadura.

Quem defende a desmilitarização da PM percebe que o modelo de segurança pública que temos, do qual a PM é uma parte primordial, está basicamente falido. Basta olhar em torno, andar pela cidade e você vai perceber que há algo inseguro no ar.

Há um atrito entre a Polícia Civil e Militar bem conhecido. Criando-se uma instituição única não haverá motivo de rixa entre elas. Mas o principal ponto é que o projeto visa diminuir a própria fonte da violência da PM: a hierarquia que existe ali dentro.

A falta de critérios para utilização de armas “não letais”, a truculência, a gratuidade da violência, a atitude de colocar a tropa de choque, reintegrações de posse se tornarem espetáculos de carnificina, bombas de gás e balas de borracha ao lado de manifestantes já mostram o seu caráter repressor e violento desnecessário nesses momentos.

Unificar ou transformar não são coisas que se consigam de uma hora para outra. Por isso, é necessário que comecemos a discutir o tema de forma séria.

Então, desmilitarizar a polícia significa desmantelar a estrutura militar da PM, tanto no que se refere à subordinação ao exército, como à sua estrutura interna. A PEC nº 51 que trata disso prevê a unificação das polícias civil e militar e criação de uma única força de segurança pública. Esse é o modelo mais comum no mundo, vale observar.

2 – Sobre a legalização da maconha:

Se vc pegar seu filho FUMANDO MACONHA…….não o repreenda….e compre mais 100 gr para ele se divertir !!!!

Vale observar que o álcool e o cigarro matam muito mais gente e destroem milhares de famílias e são legalizados. O ponto que a pessoa quis atacar foi que eu defendo a legalização da maconha. Tenho meus motivos , um deles é saber que a maconha causa muito menos dependência do que álcool ou tabaco.

No mais, o uso do cigarro, como todos podemos perceber, diminuiu drasticamente sem que fosse proibido, apenas usando campanhas de conscientização. Se for legalizada, a sociedade vai ter que aprender a conviver com mais essa droga, tal e como tem feito com o álcool e o cigarro. Se há efeito negativo em seu uso, o processo de aprendizagem social será extremamente valioso para poder diminuir esses efeitos como vimos com o cigarro.

Dizem que a legalização pode restringir melhor o acesso a menores do que proibição. Há quem acredite no contrário. Eu não sei o que pensar, mas há muitos lugares no mundo em que a legalização não significou, de fato, um aumento, a longo prazo, no número de usuários.

Não legalizar é apenas dizer que tudo continua como está, ou seja, com um lucro exagerado do negócio do narcotráfico. A legalização certamente reduziria de forma considerável o preço das drogas, pois acabaria com os altíssimos custos de produção e intermediação que a proibição implica.

É sabido e muito denunciado que existe uma ligação entre o narcotráfico e o poder político. A legalização acabaria com esta aliança. E mais, poderia significar o fim de uma relevante fonte de corrupção. Como disse, não é nenhuma novidade nem segredo que uma parte crucial dos políticos tem sido extorquida por narcotraficantes.

Outra possível consequência da legalização das drogas seria a economia de um bom montante da ordem de grandeza de milhões de reais que é usado em seu combate. Esse dinheiro poderia ser destinado para outra coisa como o combate a outros tipos de crime.

Enfim, se eu pegar meu filho fumando maconha quando ela estiver legalizada, é possível que eu aja da mesma forma quando o vejo tomando uma cerveja. Junto-me a ele sem medo de ser feliz conversando (sempre) sobre o perigo do excesso de seja lá o que for.

3. Sobre Direitos Humanos:

Se alguém da sua família for assassinado……não fique revoltado com o bandido……ele não passa de um coitado, oprimido pela sociedade, faz isso pq não teve aulas de filosofia na escola….e tiraram a educação física que o tiraria da vida do crime pra ser jogador de futebol !!!!

Achar que os defensores de Direitos Humanos são insensíveis às ações dos ditos “bandidos” e “vagabundos”, e que bastaria estar cara a cara com um revólver ou ver um filho ou parente ser morto para mudarem de opinião mostra o quanto não entendeu o assunto.

Para começar, não há possibilidade de prisão perpétua no ordenamento jurídico brasileiro. Ninguém, eu disse ninguém, segundo o que determina a lei, fica mais de 30 anos em cumprimento de pena. O que isso quer dizer? O cara pode ter cometido o crime que for, ele vai voltar para a sociedade.

O ponto é que não se constrói um prédio começando pela cobertura. Cabe uma pergunta: em que medida preferir ou incentivar medidas paliativas como as polícias (militares!) que invadem as favelas e as comunidades pobres pegarem infratores e jogarem em instituições carcerárias utilizadas como o depósito do “lixo humano” resolve os nossos problemas?

A grande maioria das pessoas tem capacidade de mudar. Seja através da religião seja da educação seja pelo trabalho. E muitas se tornam mais humanas e sensíveis quando lidam diretamente de forma séria com artes e esportes.

Deve-se, então, oferecer, intensivamente, o estímulo à reabilitação e a promoção de uma reintegração eficaz. É nesse momento que somos taxados de sonhadores. Sim. Sonhamos! Mas saibam que o fazemos em cima do texto da Constituição, dos Códigos, da Declaração Universal dos Direitos Humanos que já existe! Apenas não é colocado em prática. Então, de forma clara, só queremos o que está na nossa constituição e nunca foi aplicado de forma efetiva.

Ninguém defende bandido. Aqui se defende o ser humano e uma sociedade melhor. Se você tem uma dor de cabeça devido a um problema de pressão, por exemplo, não adianta ficar tomando analgésico e sim trabalhar no que está causando essa dor.

Por isso, é muito mais coerente brigar para que o Estado, como um ente que garante os Direitos individuais e coletivos, trabalhe no sentido de oferecer as mesmas condições de desenvolvimento a todos em qualquer etapa da vida e não tire das escolas disciplinas que são essenciais na formação de um ser humano mais empático.

4- Sobre a redução da maioridade penal:

Se sua filha chegar em casa desesperada dizendo que foi estuprada………não dê ouvidos……procure o menor que fez isso…..o acolha….pague um psicólogo para ele……pq ele não tinha discernimento suficiente pra saber o que estava fazendo !!!!!

Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar: número maior de policiais, de escreventes judiciais, de juízes, criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas, ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem, ampliação do espaço físico em fóruns, criação e ampliação de presídios, contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Complicado. Presos mais antigos serão liberados, certamente. E que tudo isso aconteça da melhor forma possível. O jovem entra com 16 anos na prisão. Que fique 10 anos preso nesse sistema falido. Sairá com 26 anos… bom? Reabilitado?

Quem defende a redução se esquece que daqui a 5, 6 ou 10 anos (dependendo do crime) eles estarão na rua novamente. E muito piores pois a prisão no Brasil não ressocializa ninguém como todos estamos vendo.

No mais, a redução da maioridade penal pode até piorar a violência no Brasil. O sistema prisional no brasileiro está degradante. Todos sabemos. O que resultaria unir jovens de 16 a 18 anos aos criminosos adultos? Respondo: eles, certamente, assim creio, seriam qualificados para mais crimes.

A ideia do Estatuto da Criança e do Adolescente e suas medidas socioeducativas buscam a recuperação desses jovens para o retorno a sociedade, pois eles também sofrem pena de internação. Por que não lutar para a melhoria desse setor? Qual a origem da dificuldade de olhar para o Estatuto com mais carinho?

5- Sobre discussão de gêneros:

Se o seu filho chegar em casa dizendo que gosta do amiguinho……não se assuste……incentive-o………pois na verdade ele não tem sexo…..e pode escolher seguir o caminho que quiser…

Isso não é pauta de esquerda, vale observar. Isso é questão de ser apenas um ser humano que aceita o outro do jeito que ele é.

Se meu filho chegar dizendo que gosta do amiguinho, por que deveria me assustar? Me surpreenderia e me entristeceria se ele chegasse dizendo que odeia o amiguinho.

Acho que me estendi demais, mas achei importante esclarecer porque não se trata de ficar brigando. Penso que devemos discutir mesmo cada ponto porque o barco é um só.

Que venham outros comentários como esses para que possamos mesmo debater esses temas que são urgentes em nossa sociedade e correr para a solução que não seja ficar enxugando gelo.

3 Comentários

Arquivado em Crônicas

3 Respostas para “Precisamos conversar sobre tudo.

  1. Arrasou!!! Falou tudo!!
    As questões sociais, econômicas e culturais no Brasil são muto mais profundas e mais urgentes do que a mídia vendida nos informa. E é preciso sim, haver muitos debates de mente aberta, respeitando as opiniões divergentes, até chegarmos a um denominador comum em prol de todos nós. E mais que isso, “remar” para que esse “barco” saia realmente do lugar. Que não fiquem só no papel as boas idéias, mas que os brasileiros lutem pela evolução em todos os sentidos.

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  2. Gilberto Barros Vieira

    Palmas, mil palmas para você Elika. Você é uma mulher corajosa. Agora nesse momento é muito difícil o diálogo, você nós olhos dos facista o ódio estampado. Eles não querem o diálogo, a imprensa golpista e vendida muito menos é um luta inglória. Fico incrédulo quando vejo um juíz, um membro do ministério público, defensores públicos e até a OAB darem entrevistas sobre o momento do Brasil. Falam tantas abobrinhas que fico de cabelos em pé. Eles pisam, rasgam todos os dias a nossa constituição.

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  3. Naiara

    Li seu texto n’ O Cafezinho, achei muito didático, útil nestes tempos de cólera (raiva) e retrocessos nível brasil-colônia (deixa assim corretor). Gostei muito e super me identifiquei! Parabéns!

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