Lá. Eles. Aqui. Nós.

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O Brasil é enorme e bem poderia ser dividido ao meio. De um lado, mortadelas. Do outro, os coxinhas. A divisão já existe, só iria ser física, ou seja, além do campo das ideias. Aí, quem sabe, teríamos mais paz.

Veja bem. Quem apoiou o golpe, quem até hoje não enxerga o golpe, quem votou no Aécio ficaria de um lado. Quem denunciou desde o início o ataque à democracia, do outro.

Cada lado teria seu próprio presidente.

A galera que odeia PT ficaria com as escolas dominadas pelos projeto “Escola sem Partido”. Nessas escolas, os professores só passariam os conteúdos que sempre foram doutrinados a passar. Não promoveriam debates e nem incitariam os alunos a se revoltarem contra as mazelas do mundo porque se assim fizerem serão denunciados pelos próprios alunos. Os professores ou nada comentariam sobre o tema ou falariam que o mundo é assim, sempre foi assim e cabe ao aluno estudar muito para sobreviver a esse sistema.

Do outro lado, teríamos escolas em que debateríamos sobre desigualdade social, as diversidades do ser humano, quem quisesse ir de saia poderia ir de saia fosse homem fosse mulher fosse sem definição, primaríamos por um ensino coletivo e não individualista, prepararíamos o cidadão não somente para o “mercado de trabalho” mas, principalmente, para conviver com o próximo e consigo mesmo trabalhando sua auto estima o máximo que conseguiríamos. Jamais falaríamos para um jovem que ele tem que estudar para “ser alguém na vida” porque todos nós já somos um universo de potencialidades independente da idade, da classe social e do credo. Ensinaríamos que se deve estudar porque só o conhecimento transforma a si mesmo e o mundo.

Do lado de lá, as pessoas que nunca foram a museus não precisariam se preocupar porque lá não teria museus. Os prefeitos que fecharam os locais das exposições continuaria a fechar outros e ninguém se importaria. Pelo contrário. Ficariam felizes porque os artistas não estariam “mamando na Lei Rouanet”. Toda essa galera lá.

Daqui teríamos a arte como sempre muito incentivada em suas infinitas formas. Continuaríamos torcendo o nariz para muitas obras mas jamais proibiríamos o artista expressar o que pensa.

E já que estamos falando de artistas, aqui teríamos Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Duvivier, Xico Sá, Raduan Nassar. Lá, Lobão, Roger, Luana Piovani, Zezé e Luciano.

Lá. Bem longe daqui.

Aqui Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido na veia. Lá Alexandre Frota ditando o que deveria ser ensinado para os jovens daquela metade do Brasil.

Do outro lado, capitalismo capitalismo capitalismo por todos os lados. Eles que falam que o socialismo não deu certo em nenhum lugar do mundo e desconsideram que só no continente africano 236 milhões de pessoas passam fome – de acordo com dados da ONU – e o número de suicídios em países considerados grandes potências na economia, eles continuariam tentando dar certo. Lembrando que aquele lado estaria pleno de pobres. Os pobres de direita.

Eles ficariam com esse sistema que pode ser definido, de forma resumida, como o sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, na livre iniciativa e, sobretudo, na busca incessante por lucro. Como vivendo nesse sistema eles acabariam com a desigualdade social que é a liga que mantém o capitalismo um sistema sólido seria um problema só deles. Lá a concorrência continuaria sendo desigual pela natureza do capitalismo que privilegia aquele que já possui capital em detrimento daquele que nada tem. A elite lá ficaria bem consolidada e, claro, cada vez mais ávida por mais lucro.

Aqui deste lado não. Estaríamos buscando um novo sistema partindo do pressuposto de que toda a desigualdade social pode ser evitada por meio de atuação estatal e políticas públicas acertadas. Seria um sistema que não giraria em torno do Capital e do lucro pois entendemos que algo assim pode não trabalhar em favor dos princípios democráticos.

O comunismo seria um sonho que nos movimentaria de alguma forma, pois é o sistema que surgiu com o propósito de eliminar a desigualdade – e as próprias classes sociais – através da coletivização dos meios de produção.

Ah sim. A bancada evangélica ficaria lá. Claro. Aqui teríamos a convivência pacífica de todas as religiões já que a tolerância seria muito debatida em nossas escolas. Mas os valores morais de cada religião jamais transpassaria os muros das Igreja, muito menos chegaria ao nosso congresso e jamais em nossas escolas.

Lá a diminuição da maioridade penal já teria passado. O garoto de 16 anos pego assaltando seria preso e colocado nas celas com bandidos profissionais. Seria estuprado, aliciado para o crime, levaria muita porrada e em menos de dez anos, como previsto na lei, voltaria para a sociedade. Certamente, um ser renovado e pronto para cometer crimes muito piores. Direitos humanos continuariam sendo motivo de piada ainda assim para aquele lado do Brasil. Vai entendê-los…

Aqui investiríamos tudo o que tivéssemos em educação, arte e esporte. Somente por essa via o ser humano se transforma em um cidadão mais sensível e conseguiríamos mudar a sua essência. Bandido bom é bandido reabilitado. Esse seria nosso lema.

Lá. Ana Paula do vôlei. Aqui. Joanna Maranhão.

Lá. Malafaia. Aqui. Leonardo Boff.

Lá. Marta Suplicy. Aqui. Marcia Tiburi.

Lá. Constantino. Aqui. Sakamoto.

Lá. Janaína Paschoal. Aqui. Qualquer uma de nós em seu lugar.

Lá. Bolsonaro.

Aqui ficaríamos com aquele que é reconhecido no mundo inteiro por ter diminuído a mortalidade infantil e a desigualdade social. Ele. No meio do povo sempre conversando olhando nos nossos olhos como só ele sabe fazer.

Aqui. Lula.

20 Comentários

Arquivado em Crônicas

20 Respostas para “Lá. Eles. Aqui. Nós.

  1. Tereza

    Elika,pensei sobre isso quando li seu texto anterior”precisamos conversar sobre tudo”.. NAo conseguiria colocar em palavras e você fez isso brilhantemente,acho que o desgaste emocional dessa discussão sobre td esta cansativo demais então a solução proposta por você seria perfeita.merecemos viver em paz.quem não quer paz que fique com temer,frota,aecio,mbl,bolsonaro,Dória,criveLla ,Gilmar e tantos outros.

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  2. LUCIA MARIA VIEIRA DA ROCHA

    Estou me alistando no ladecá

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  3. jose de oliveira

    Que fique claro, ladecá não abrirá mão de Chico Buarque, Paulo Freire e Lula.

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  4. Não sei se essa seria a solução para o Brasil, mas que deu uma bela crônica, isso deu!

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  5. Raquel Ferreira Silva Rodrigues

    Este texto nos faz sonhar!! Um sonho doce, o fim dos discursos de ódio!!! Ou seria a perpetuação deles??! Não sei!!!

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  6. Elied Barbosa de Oliveira

    Meu sonho! Oladicá! Seria o paraiso!

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  7. geralda

    Gostei muito dessa cronica. quando começa…

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  8. Alexandra

    Adorei o texto Elika!

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  9. Yahra

    Serã que o Trump financia esse muro??? Tamo precisando pra ontem!!!

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  10. Eneida

    Seria interessante uma outra crônica comparando o ladecá com o ladelá cinquenta anos depois…o ladelá ainda existiria? Qual seria o idioma oficial? Quantos teriam debandado? Teriam se matado uns aos outros? Virado canibais? Estariam pastando? Ou teriam construído uma Dubai gigantesca?

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  11. Antônio Faria

    Excelente crônica. Sua capacidade intelectual de argumentar a favor do discurso do ódio é sem precedentes! Fundemos, portanto, dois Brasis: o dos bons e, o dos maus. Um terceiro nos dominará…

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  12. Mario Arkus

    Uma excelente reflexão. Acho que você esta expressando isso que no Brasil -e também aqui na Argentina- as pessoas percebem, mas a maioria não fala: a divisão da sociedade não tem jeito. Pelo menos não tem uma à vista.
    Hoje só a esquerda mais radical reduz tudo a termos simples de conflito de classe. Acho que na base pode ser isso, mas o fenómeno é mais complexo. Essa redução nem pode sempre nos dizer como atuar.
    Aqui chamamos essa divisão de “la grieta” (a fenda, a rachadura, a fissura) e por enquanto tem caraterísticas menos violentas que no Brasil e também não esta presente essa religiosidade cristã que vem a complicar as coisas.
    Penso que seu “desabafo” expressa uma construção utópica naquele sentido que o conceito tem: o ou-topos, o não-lugar. Mas ele presta para pensar o estado atual onde não sabemos como seria possível construir um eu-topos, onde o bem prevaleça sobre tudo. Mas nesta época de confusão, o que é o bem?
    Abraços de Buenos Aires, hermanita!

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  13. Rodolpho Oliva

    Parabéns, excelente texto de estimulo à reflexão!

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  14. Guilhermina Leite Ribeiro

    Eu já estou do lado de cá, nem preciso trocar o CEP.
    Eta sonho Bom!! !!

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  15. Marta Ruggiero

    Por incrível que pareça, quem não aprovaria a idéia de separação seria a elite: quem vai limpar as latrinas deles?

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  16. Luiz Hortencio Ferreira

    Olá Elika, conheci seus belos textos e suas belas idéias pela minha esposa Denise que tb a admira muito e lendo o texto acima no final de semana junto a minha Denise me ocorreu uma dúvida ou ideia que talvez, se avaliada a muitas mão e mentes, possa se tornar uma atitude.
    Minha ideia, um tanto simplista, a de se convir, mas a meu ver, interessante, seria elaborar um questionamento popular através da internet, considerando a ideia do seu texto sobre a separação do Brasil em dois países com dois regimes políticos/econômicos distintos. Um sendo conservadoramente capitalista e outro pais sendo uma social democracia.
    O que acha? Acho eu que seria interessante esta pesquisa!

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