Sobre a sexualidade feminina.

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Não importa o tema. Se a pessoa diz que é simples e fácil de entender eu já sei que estou diante um ser que não aprofundou o assunto. Somos por demais complexos para sermos explicados de uma forma imediata. Quando discutimos seja lá o que for raramente existe uma verdade cristalina e isso serve também para o feminismo e suas bandeiras.

Eu me pego confusa. Converso com mulheres de todas as idades e tenho acompanhado essa juventude nos diálogos abertos que travo com eles. Não sei o que pensar. Quando vejo as manas muito certas procuro buscar a mesma clareza. Mas cadê que a encontro? Outro dia, por exemplo, estava sendo falado que atualmente colocar roupas que exaltam o corpo feminino é sinal de empoderamento. Entendo que sob um ângulo pode ser, porém percebo que, por outro viés, podemos compreender como mais uma forma de opressão. O tal shortinho é uma afirmação da sexualidade ou a sua exploração? Eu, sinceramente, não sei.

Vejo essa mulherada linda, por exemplo, nos palcos. Tipo Beyoncé, Anita e algo que o valha. Fico me perguntando quem está derrubando, de fato, padrões de beleza e quem está criando novos. Não pode estar ocorrendo as duas coisas ao mesmo tempo? Se elas não fossem tão lindas, tão sexys, tão sexualizadas… será que estariam na mídia defendendo a causa feminista? Essas estrelas trabalham em um sistema que requer que as mulheres tenham uma determinada aparência porque se não forem lindas do jeito que são e rebolarem como fazem não serão expostas na televisão.

Entendo perfeitamente que, hoje, fazer pole dance, por exemplo, posar nua e coisa e tals pode ser um reivindicação da sexualidade. Acho bacana. De verdade. O que não percebo é uma mudança real no mundo. Olhando por um lado, vejo heroínas. Olhando por outro, marionetes. Constato que muitas manas são estrategistas bem perspicazes que sabem usar essa sexualidade e obter muito lucro. Palmas para elas. Pergunto-me, contudo, por que tanta restrição nas escolhas para as mulheres e amaldiçoo esse mundo machista de entretenimento que coloca a sexualidade feminina em uma caixa de forma que ela seja a mais chamativa possível.

Daí fico analisando tudo e não tem como deixar de falar nos filmes pornôs. Foi ali que – se não começaram pelo menos – fortaleceram os esteriótipos de corpos perfeitos, bundas enormes, seios redondos, bocas molhadas e os homens de todas as formas parecendo desentupidores de pia  lidando de um jeito, acho eu, violento com todos os orifícios femininos. Posso errar feio agora, pois falo baseada em mim mesma, mas acho que a maioria das mulheres não se sente bem quando os homens agem como nesses filmes ditos eróticos. Sei que há atualmente filmes pornôs feministas onde as mulheres são tratadas com respeito, mas não é nem de longe o que os homens têm consumido. O que o mercado vende é o roteiro que mostra que para o homem gozar é necessário uma certa degradação moral da mulher. Não é à toa que  em muitas cenas vemos, se não a agressão física propriamente dita, a verbal e as atrizes respondendo a elas fazendo cara de muito prazer.

Hoje, com a internet, consome-se pornografia cada vez mais cedo e com mais frequência. Sei que muitos jovens conseguem diferenciar o que é um filme da realidade, porém, qualquer ser humano exposto repetidamente a certos temas acabam internalizando alguma fração do que lhe é mostrado.  E isso pode afetar a nossa forma de ver o mundo.  As pessoas que consomem pornografia têm muito mais dificuldade em entender o que seja um estupro pelo fato do pornô apresentar a agressão como algo sexy e fazer da mulher um ser alheio à violência por ela sofrida.

Há muitas mulheres que descobrem, nas conversas com outras, que foram estupradas. A opressão é tão grande que as vítimas têm dificuldades de convencer a si mesmas de que houve crime.

O pouco que eu vi desse mundo pornográfico afetou a minha vida por completo. É necessário ter uma auto estima de aço e do tamanho de um elefante para sair imune àqueles corpos “perfeitos”. Até hoje morro de vergonha de ficar nua. Olho para meu corpo e não me sinto atraente, aliás, penso todo santo dia que se tivesse muito dinheiro ia contratar o melhor cirurgião plástico e mexer nessa bagaça toda para me sentir melhor na hora do sexo. Maldito patriarcado. O meu corpo só me incomoda quando me lembro de que ele é visto por um homem.

E voltamos para as estrelas. Muitos clipes musicais são, a meu ver, pornoficados exacerbando essa cultura da hipersexualização. Pergunto-me quando os vejo: cadê a ideia de que ser sexy pode ser algo diferente disso que estou assistindo? Cadê o ensinamento maior para as manas que o modo como elas percebem seus corpos é  mais importante que a forma como os homens as veem? Cadê a mensagem clara que o empoderamento nada tem a ver com bunda? Cadê aquela força necessária reforçando que as mulheres têm o direito de ter encontros sexuais mutuamente prazerosos? Em que medida ser sexualmente desejável é sinônimo de saber explorar seu próprio desejo?

Agora imagine todas essas informações chegando para milhares de mulheres cuja educação sexual pode ser resumida em uma única palavra: “não”. O mundo está mudando, é verdade. Mas a gente não se transforma na mesma velocidade. Traumas estão aí para serem nossa companhia até sabe deus quando. Quando criança ouvia de minha mãe que homem nenhum podia encostar em lugar algum do  meu corpo antes do casamento. Fui educada sob o mantra que se soubessem que eu havia feito relação sexual a minha reputação estaria no lixo. E dá-lhe filmes da Disney para desgraçar todo o resto da cabeça.

Grazadeus superei muita coisa e hoje tenho uma visão bem do tipo prafrentex.  Mas veja só o quanto crescemos sem contudo estarmos próximas de sermos grandes. Outro dia, por saber o prazer que um bom sexo nos dá, cheguei a rir e achar ridículas as meninas que querem em pleno século 21 se casar virgens. Peguei-me lembrando de minha própria filha, das amigas de minha filha e de minhas alunas que conversam sobre tudo comigo. Muitas consideravam a virgindade como um entrave e achavam que o fato de terem uma relação sexual iriam lhes transformar, outras a encaravam como um “presente” que deveria ser dado a quem merecesse e assim o entregaram. Houve quem visse a virgindade como um problema a ser resolvido e o quanto antes melhor. Todas, no entanto, as que querem casar virgens e as que não são mais virgens e eu nesse meio definimos o que somos, em grande medida, pelo o que acontece entre nossas pernas. Estamos, de fato, evoluindo?

Conversei com uma mãe evangélica, uma mana empoderada que me disse que estava educando a sua filha a resistir as pressões modernas e a evitar seguir os esteriótipos que não são sinônimos de liberdade. Ela conversa abertamente com a sua filha sobre sexo. A linguagem, se duvidar, é mais desenvolta que a minha com a Nara, mas o objetivo é completamente diferente. Quem está certa, afinal? Não seria muito melhor se todas nós mães conseguíssemos ensinar para nossas filhas que como elas lidam com o sexo não pode ser um fator importante para o seu valor moral?

E vamos aprofundar a questão. O que é virgindade afinal? Nessa esteira, o primeiro beijo não pode ser considerado uma forma de perder a virgindade? Outra questão: quem pode ser considerada mais experiente: uma pessoa que já fez sexo com muitos parceiros ou outra que teve somente um, ficou horas e horas beijando e semanas aprendendo sobre prazer mútuo? E mais: o que é sexo? Entendemos o último quase como uma corrida rumo a um objetivo: satisfação plena que se alcança com um orgasmo. Mas será isso? Não há a possibilidade de considerá-lo como uma maneira de explorar a intimidade e o prazer de todos os envolvidos? E o primeiro sexo oral? É sexo? E o primeiro orgasmo? O que seria tudo isso? Há necessidade de definir? Mas se não conceituarmos, como dialogar a respeito?

Falando em orgasmo…

Não sei se os homens sabem, mas as mulheres, de uma forma geral, têm muita dificuldade nesse quesito. Muitas mas muitas mesmo fingem que têm orgasmo para deixar o homem feliz ou para que ele simplesmente pare o que está fazendo. É comum ouvirmos que os parceiros não têm paciência e demonstram isso de várias maneiras diferentes. Não raro, as manas dizem que sentem vergonha de falar o que as fazem gozar e infinitas não sabem mesmo como chegar a isso. Conheço um tanto que desistiram de chegar ao clímax com seus companheiros e se resolvem sozinhas. Como superar isso? Conversando? Como colocar essa mulherada traumatizada para profanar sobre sua intimidade com homens?

E põe nesse balaio uma quantidade considerável de mulheres que dizem que a identidade delas não pode ser construída em um relacionamento e sim fora dele. Ou seja, uma confusão dos diabos. Em que medida se ocupar profissionalmente exclui a possibilidade de um romance? E que medo é esse de se frustrar? De onde vem? Por que não considerar um encontro – mesmo que seja ruim – como uma possibilidade de melhor conhecer a si mesma?

Conversamos muitas entre nós. Haja discurso bacana sobre sexualidade, gênero, feminismo e tudo o mais. Até que daqui a pouco tudo descamba e estamos ensinando umas para as outras como se faz um bom sexo oral, como masturbar bem o companheiro, como… ô patriarcado maldito. O foco sempre sai de nós… Não é fácil. Revisamos e reformulamos a definição de “puta” mas por que não a descartamos de uma vez?

Enfim, sigo sem concluir patavinas. De qualquer forma, a única coisa que me pareceu clara é que se quisermos entender mais sobre o assunto, não devemos perguntar aos mais velhos e sim aos adolescentes. Não que eles saibam mais. Nada disso. Estamos todos perdidos. Mas eles têm me parecido muito mais sábios e abertos para debater o tema que é inesgotável dada a complexidade do universo de cada um.

Esse texto foi apenas um desabafo. Não entender sobre muita coisa e, principalmente, sobre mim mesma me deixa angustiada. Escrever alivia um pouco esse sentimento. Compartilhar as minhas nuvens, um tanto mais.

É imprudente viver sem a arte

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Há tempos ando brigando com o sistema tradicional de ensino, falando mal dessa Reforma do Ensino Médio e colecionando inimigos por onde passo por afirmar que as escolas são fábricas de zumbis. Somos produtos dessa sociedade e basta olharmos para nós e para os lados para constatar que eu não estou delirando.

Para começar, mal conhecemos a nós mesmos e somos demasiado atrapalhados para lidar com o pouco da gente que vem à tona. Não importa  o saldo de sua conta bancária. Dá-lhe remedinhos para dormir, para ansiedade, para pressão, terapias para lidar com o medo, frustrações e inseguranças. Estivemos grande parte de nossas vidas em uma sala de aula aprendendo coisas que jamais usamos em nosso dia a dia quando poderíamos simplesmente ter aprendido a aprender. Hoje? Cadê a motivação de muitos para sequer abrir um livro? Quem são esses que não veem a serventia de uma poesia?

Lembro-me de quando entrei para aula de latim e, logo depois, para o curso de italiano. Muitos me perguntavam para quê estava aprendendo algo que não tinha utilidade nenhuma já que “latim é uma língua morta” e  a “língua universal é o inglês”. Nem preciso dizer que não foi diferente quando fui fazer meu doutorado em filosofia e estudar sobre a metafísica presente na mecânica do século 17. Simplesmente fui considerada um ET por uma infinidade de gente por estudar o que gosto sem a menor pretensão de um retorno financeiro.

Leio muito e sou viciada em literatura. Em termos materiais, nunca tive um só retorno por passar tanto tempo diante dos clássicos pelo simples prazer de viajar com os personagens animada somente pelo desejo de, através deles, analisar a mim mesma.

Para vivenciarmos uma verdadeira metamorfose no – digamos por falta de uma palavrinha melhor – espírito, acredito que precisamos nos deparar com um conhecimento verdadeiro que só é adquirido através de nós mesmos e porque o queremos. E isso se deu comigo ao encontrar escritos das mais diversas naturezas. Sinto necessidade de estudar sobre assuntos variados como preciso das funções vitais para viver. A necessidade de criar e imaginar em cima do que assimilo, para mim, é tão fundamental quanto respirar. E isso não aprendi na escola. Pelo contrário. Se dependesse dela, estudaria “para ser alguém na vida”- subtende-se que “ser alguém na vida” é um ser que tenha o poder de consumir muito em nossa sociedade. Foi isso que ensinaram e que recusei a introjetar.

Nas escola, sequer aprendemos coisas que podemos utilizar para fins técnicos. O que praticamos é estudar para “fazer prova” e, logo depois que a fazemos, esquecemos tudo o que foi lá depositado. Que lindo seria se ao invés disso pudéssemos lidar com conhecimentos e atividades que conduzissem a nós mesmos…

Não sou louca em colocar em dúvida a importância da preparação profissional como um objetivo das escolas. Pergunto-me somente se o foco da educação não poderia se estender para além da formação de médicos, engenheiros ou advogados. Temos mania de equiparar a pessoa com a sua profissão desconsiderando que em todo ser há algo de muito valioso e essencial que vai muito além do que lhe rende dinheiro. E é exatamente esse algo que é muito pouco trabalhado nas escolas e, dada a Reforma do Ensino Médio, se reduzirá a nada. Falo de uma formação cultural mais ampla que encoraja os alunos e as alunas a mergulharem em si mesmos (as).

Nesses dias em que estamos vivendo onde os nervos estão expostos pela falta de dinheiro e o país em crise, essa ideia de que devemos focar em estudar “coisas úteis” para a vida fica mais ainda exacerbada. E, por tabela, percebo mais pessoas depressivas, perdidas, sem saber o que fazer com seu destino. Essas não foram incentivadas a refletir que  as atividades que não servem aparentemente para nada são aquelas que nos ajudam a fugir dessa prisão, a transformar a vida não em algo superficial ou o seu corpo em uma máquina e sim fazem de nós seres humanos mais humanos. Se não estou sendo clara, falo  da arte no sentido mais amplo que a sua mente conseguir alcançar.

Com essa onda conservadora crescendo e a censura toda hora nos rondando, é comum vermos os artistas sendo chamados de vagabundos e exposições, shows, peças teatrais e livros serem ridicularizados pela sua “falta de utilidade”. Mal sabem esses que não se combate uma crise como a nossa cortando fundos destinados à cultura e destratando quem a produz. Pelo contrário. É preciso duplicar o investimento naquilo que nos torna mais sábios para que não caiamos de vez no abismo da ignorância.

Tenho falado por onde ando que só a arte, a coisa mais inútil que existe – segundo o mercado -, vai dar jeito nesse mundo porque através dela conseguimos lidar com (sem, contudo, compreender) a essência do que somos. Vale observar, não vejo muita diferença entre arte e ciência (não essa que é ensinada nas escolas, mas aquela de Galileu, Newton e Einstein, por exemplo, que não tem nos livros didáticos). A ciência também pode ser estudada e vista como uma forma de expressão do espírito humano. Grande parte dela ao ser criada não tinha como objetivo outro a não ser trazer uma grande satisfação pessoal pelo espanto que ela é capaz de provocar por aqueles que lidam com a soma: criatividade + vontade de conhecer a natureza.

Há duas maneiras de vivermos. A primeira é olhar para esse inferno que nos rodeia, aceitá-lo e tornar-se parte dele. Essa é fácil e é o que aprendemos a fazer nas escolas e nas universidades: sermos passivos ao aprendizado, acreditar que o mundo sempre foi assim e temos que nos adaptar a ele. A segunda é mais complicada e requer uma coragem e uma disposição eternas: saber que esse inferno não foi feito por Deus e sim pelo homem, portanto, é bastante suscetível de ser implodido.

O quão diferente seria a sua vida se a educação que lhe deram focasse nas oportunidades (de olhar para dentro e de ganhar força) e não nas obrigações (impostas de fora e que lhe enfraquecem)?

Sobre a representatividade das mulheres na política.

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Todos sabem que a representatividade das mulheres na política no mundo é baixa. Com a projeção que ganhei nas redes sociais e a exposição de minhas opiniões sobre diversos assuntos, acabei recebendo o telefonema de Lula, conhecendo-o pessoalmente e me filiando de forma consciente ao Partido que mais fez pelos pobres no Brasil.

Depois disso, surgiram convites para participar de forma mais orgânica da política que vai desde participação de plenárias até a ideia de eu me candidatar para algum cargo em 2018. Amei tudo isso.

Porém.

Moro em Madureira, subúrbio do Rio. Tenho dois filhos e uma filha que vivem e contam comigo. Sou provedora desta casa. Faço tudo sozinha. Conserto bomba de caixa d’água, troco resistência de chuveiro, resolvo vaso entupido, vou ao supermercado, levo um à aula de bateria, outra na aula de piano, participo da vida deles o máximo que posso, além de trabalhar. Conto com a ajuda de meus pais que moram ao meu lado e por esse apoio, dentre outros motivos, não saio daqui. Sem eles, nem sei o que seria de mim.

Tenho um carro velho que vive na oficina e o caminho de casa até o centro da cidade onde tudo acontece – inclusive onde trabalho – fica em torno de uma hora.

Se saio de casa à noite para uma reunião do partido ou de algum movimento social isso significa ter que deixar meu caçula sob os cuidados da empregada. Os mais velhos estão sempre fazendo curso, faculdade ou em ensaios. Meu pequeno sempre me pergunta que horas eu volto e se vou almoçar ou jantar em casa com ele. Abro mão do que consigo para ele não se sentir muito só em casa.

Fora isso, saio e retorno sempre sozinha de quase todos os lugares e, para vocês terem uma ideia, aqui não se renova mais seguro de carro e nem entregam nada comprado na internet por ser considerado área de muito risco.

Sempre tive o sonho de me mudar para mais perto de onde trabalho, no Maracanã. Quando meu casamento acabou, meu ex marido foi morar no Leme em um apartamento de um quarto praticamente em frente a praia. No que pese o reconhecimento pela atenção que ele jamais deixou de dar a nossa prole, a carga máxima ficou nas minhas costas e entendi bem o que é ser homem e ser mulher em nossa sociedade.

Um apartamento minúsculo de três quartos mais próximo ao centro é quase o dobro do preço da casa onde eu moro que tem quatro quartos. Não tenho como arcar com essa despesa e não cogito a hipótese de morar sem meus filhos e minha filha.

Não ganho mal, mas não sobra nada porque invisto tudo nos cursos da molecada. Paguei a faculdade do mais velho sozinha que não é filho biológico do meu ex-marido e pretendo investir agora em sua pós graduação. Sou, financeiramente, a única pessoa com a qual ele pode contar.

Tudo isso para dizer que é extremamente difícil eu conseguir atuar de forma mais eficiente na política e aumentar a representatividade das mulheres por eu ser, exatamente, uma mulher típica de nossa sociedade. Mãe que prioriza o futuro da cria acima de tudo. Pessoa que sofre com o deslocamento em uma cidade grande e abandonada como o Rio. Mulher que sabe que é alvo fácil de bandido. Gente que quer fazer sem ter como.

White Pipo Problem

Ontem senti algo horrível em relação a Pipo, quem namoro há pouco meses e infinitas diástoles. Não me lembro bem a ocasião que apareceu essa desgraça. Certamente emergiu da necessidade de ser abraçada nesses últimos dias somado a algo que li em alguma rede social já que é a forma mais comum que o vejo interagir socialmente – dada a distância de mais de mil quilômetros entre nós.

Quando vi estava morta de ciúmes depois que me deparei com um comentário feito por uma admiradora ou amiga, sei lá, e que sequer havia tido uma resposta dele.

Estranhei a sensação. Estava burra. Havia sentido isso quando adolescente e no início do meu casamento lá pelos idos de mil novecentos e tals. Depois, parece que meu corpo entendeu muita coisa devido às próprias mudanças pelas quais passei.

Nada mais sem sentido do que jurar amor eterno. Não temos como dar conta das mutações e das metamorfoses que são inerentes a quem vive. É por demais insensato ordenar uma constância que é impossível encontrar em nós. Prometer a imutabilidade dos sentimentos é pedir atestado de ignorância sobre a vida.

Todas as vezes que disse eu te amo para Pipo nunca quis encarcerá-lo. Que ele segure a minha mão, mas que ela não seja jamais uma jaula e sim um leito, um travesseiro no qual ele possa encostar sua cabeça, falar sobre o que quiser e dormir se assim preferir.

Porém, ontem, se eu tivesse um poder, ordenaria ao vento que não encostasse no meu e somente meu amor. Esqueci-me de como é bom conviver admitindo o risco da perda porque assim encaramos de frente a real fragilidade e a intrínseca precariedade de qualquer amor. Tive o ímpeto de ligar para ele exigindo a garantia da indissolubilidade de nossa relação, dizer que me recuso viver com a dúvida.

Alô. Oi. Então. Quero proteção, segurança, aliança de ouro e que na sua pele esteja escrito o meu nome em português. Quero a verdade absoluta, a transparência total e a paz da ilusão do cumprimento da promessa. Pensei em dizer.

Sofria o diabo e sabe deus o quanto sofria por querer falar o que sentia com a plena ciência do quão estava surtada.

Todo o meu amor estava sendo transformado nesse inferno de ciúme. Não queria mais saber de somente me doar, como outrora, e sim desejava com força ser amada por alguém que me pertença. Se pudesse, marcava território. Sujava, literalmente, tudo à volta dele. Queria-o como meu escravo, meu esposo, exclusivo. Vislumbrei o cárcere privado.

Coisa horrível sentir isso.

Para iniciar o ritual do exorcismo, criei, em pensamento, uma situação. Se eu pudesse, se fosse, de fato, possível eu ter como saber de tudo o que passa na cabeça dele, queria eu esse conhecimento?

Vai. Reflita, Elika.

Entre a curiosidade da sapiência e a prudência do ignorar fiquei, ontem, finalmente, com a segunda pois tive novamente – com a graça de deus nosso senhor – a clareza de que é muito autodestrutivo procurar aquilo que não quero encontrar.

Hoje, já estou repensando.

Amar, afinal, significa abrir mão das certezas.

Mas amar Pipo… não tenho ideia do que seja.

Amigo Oculto no Congresso

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Já rolou amigo oculto (ou secreto, vá lá) no Congresso.

– O meu amigo oculto está na lista da Odebrecht. – Disse Gleisi Hoffmann sorrindo de forma festeira.

Todos caíram na gargalhada e pediram mais dicas.

– Ele fez uma obra estimada em R$ 500 milhões mas que custou aos cofres públicos R$ 2,3 bilhões. – continuou.

Silêncio. Todos se olhavam ainda sem saber quem era.

– Ok. Ele desviou R$7,6 bilhões da saúde quando foi governador…

– Opa! Foi governador! – gritou Carlo Caiado animado.

– Ele está como mineirinho na lista da Odebrecht! – arrematou Gleisi dando uma piscadinha para Dilma que estava ali como convidada.

Aécio se levanta sorrindo. Pega o presente. Dá um abraço em Gleisi e começa:

– O meu amigo oculto, no seu primeiro mandato… – iniciou Aécio.

Todos já olharam para Lula sorrindo.

– … no seu primeiro mandato, houve denúncias de tráfico de influência e corrupção no contrato de execução do Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia.

Silêncio. Não era Lula…

Aécio prosseguiu:

– A sua reeleição custou caro ao país. Gravações revelaram que deputados ganharam R$ 200 mil para votar a favor do projeto e ele resolveu o problema abafando-o e impedido a constituição de uma CPI. E a PF diz que ele recebeu R$ 975 mil da Odebrecht!

– Fernando Henrique! – gritou Jandira Feghali.

FHC se levantou todo sorridente no meio de aplausos, trocou abraços com Aécio e começou:

– O meu amigo secreto está envolvido no Escândalo Banestado! – falou seguro de que ninguém ia acertar quando ele mencionasse o escândalo em que se apurou como 124 bilhões de dólares foram lavados no exterior.

Dito e feito. Então, Fernando Hernrique completou:

– No Banestado, estavam envolvidos grandes empresas como a Globo e políticos expressivos, mas no seu grande primeiro caso nas mãos, meu amigo secreto jogou pesado com laranjas, prendendo apenas chinelões!

Muitos começaram a cochichar.

– É político?! – perguntou Rodrigo Maia.

– É tipo isso… Vou ajudar: Ele nunca julgou casos relacionados ao PSDB! – entregou FHC.

– É o Moro!!!! – falaram vários rindo alto.

Moro se levanta, troca abraços com FHC e inicia:

– Meu amigo oculto não sabe nada de economia!

– Bolsonaro! Bolsonaro! – gritavam todos gargalhando.

– Meu amigo oculto – começou Bolsonaro – de todos os presidenciáveis, dizem que foi ele que teve mais processos!

Lula e Dilma caíram na gargalhada. Muitos ainda não sabiam quem era. Moro, suspeitando, ajudou:

– Foi o que recebeu R$ 23 milhões via caixa dois, conforme afirmou a Odebrecht?

– Acho que foi esse mesmo… – respondeu Bolsonaro.

– É o Serra! – matou Lindbergh certeiro.

E assim continuou a brincadeira por mais alguns minutos onde foram lembrados áudios, fotos, festas, escândalos, desvios, nomes de empreiteiras, malas de dinheiro… até que chegamos ao último que adivinharam quando se falou em “vice decorativo”.

Temer, então, começou:

– Meu amigo oculto já recebeu uma carta minha onde falei da minha lealdade: “Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal”, assim escrevi.

Aí geral não se aguentou.

O barulho das risadas foi ouvido por toda cidade.

Pipo pelado.

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Vamos falar de intimidades porque é isso que o Brasil quer saber.

A primeira vez que vi Pipo pelado foi em um motel. Deus sabe o quanto eu tenho asco desse ambiente. Acho nada romântico, tudo entra em choque com o meu conceito de sexo que deve envolver espontaneidade e naturalidade.

A nossa relação, porém, já estava super avançada. Era a segunda vez que nos víamos, já sabíamos o nome completo de um e do outro e que nascemos no mesmo mês e no mesmo ano. Ou seja… faltava só eu ver como ele dormia pois no primeiro dia em que nos conhecemos ele me disse que tinha problema de bruxismo que implica em ficar trincando os dentes quando cai no sono. As condições para verificar isso em outro lugar não eram muito favoráveis e tivemos que ir para esse que é cheio de espelhos. Argh.

Quem dirigia era eu já que Pipo é de Brasília e não tem carro mas sim um fusca. Tenho lá meus probleminhas de cabeça e não tive tempo de trabalhar tudo na terapia que sequer faço. Sabia que estava diante uma pessoa maravilhosa pela qual me apaixonei antes de ver. Tinha que fazer a bonitinha mas as condições não estavam muito favoráveis para isso. Anos de opressão na caixola. Por mais que hoje eu seja prafrentex e toda empoderada daí para chegar na recepcionista do motel, mostrar o carão de mãe de três filhos e gritar que preciso de um quarto para gozar gostoso vai um abismo.

Travei um pouco antes da entrada. Parei o Pafúncio (o Takimóvel) e anunciei que não ia conseguir.

Pipo me olhou assustado. Ele não queria, príncipe que é, forçar nenhuma situação e fazer nada contra a minha vontade. Começou a propor uma pizzaria e eu desesperada – mas crismada que fui – querendo dar e receber não sabia como dizer para Pipo que para mim bastava que ele assumisse o volante ali na porta do motel.

Empaquei muda quase chorando de vergonha lembrando de quantas vezes fui chamada de puta quando engravidei no meio da faculdade e depois que me separei.

Sei lá como consegui fazer com que Pipo entendesse todo meu sofrimento e ele, fofo, mas também crismado e desesperado disse:

– Ah era só isso? Anda com o carro até ali que eu resolvo.

As condições não estavam favoráveis para trabalharmos o meu trauma. Era de noite e na Taquara.

Engatei a primeira. Assim que cheguei na cabine, abri o vidro e, rapidamente, me abaixei para não correr o risco de ninguém olhar nos meus olhos e saber que eu ia ficar peladona e toda sorridente em instantes.

Pipo gritou para a mulher da recepção que ele – somente ele – queria um quarto já que eu estava deboa. Passou por cima de mim dentro do carro para alcançar a chave que a moça deu e pronto.

Ufa. Super discretos. Ninguém me viu amém.

Príncipe príncipe príncipe.

No quarto, aconteceu algo extraordinário. Não foi sexo. Pelo menos nada parecido com o que entendia, até então, que fosse isso.

Foi outra parada que rolou ali.

O dia amanheceu e eu nunca havia passado tanto tempo praticando escambo de fluidos e ideias em um nível tão profundo.

Pipo não dormiu. Nem eu. As condições não estavam favoráveis para isso. Havia muito mosquito e tesão. Tivemos que combinar outro dia para eu ver como ele se comporta quando sonha.

Foi a primeira e última vez que fomos ao Motel. Depois disso, como a relação já estava ultra mega advanced plus de avançada dormimos juntos aqui em casa mesmo com todos meus filhos presentes. Foi quando lhe disse que ele podia ficar para sempre.

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Quem guarda tudo em segredo vive numa ilha.

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Levar Yuki à escola pode, por vezes, significar irmos juntos a lugares inusitados dendagente.

Outro dia, fomos até a estratosfera ver Dominguinhos sanfonar enquanto voava. Cheguei a escrever sobre isso. Hoje, assim que Casuarina começou a cantar Caymmi, Yuki já se manifestou:

– Bonito isso, mãe…

Sim. Estava divino.

O ponto é que logo depois na minha playlist vinha algo na sequência não muito, digamos, nobre. Caça e Caçador com Fábio Júnior.

Bicho. Devo confessar. Eu me transformo em outro ser quando ouço o refrão de Caça e Caçador, mais precisamente, uma lagartixa no cio.

Fiquei nervosa.

A vida é muito curta e a distância de casa até a escola muito menor. Usar esse lapso de tempo para apresentar Fábio Júnior para uma criança sensível como Yuki pode significar um desperdício tão precioso quanto feriado no domingo ou olhos claros em gente feia – e Deus me perdoe por essa.

Vocês me entenderam.

O futuro do Brasil estava em minhas mãos.

Enquanto pensava sobre a minha responsabilidade com o equilíbrio do universo, Fábio Júnior foi mais rápido do que eu.

Como é que eu posso dizer não
Fugir do paraíso
Você me faz o que eu sou
Caça e caçador

Num impulso, meti a mão no volume do rádio para baixar. Mas o instinto de caçadora assim como o sangue de Jesus tem muito poder e acabei girando o botão com força no sentido horário.

Bradei:

– A gente nem pensa na hora! Passa dia e noite assim! O amor não tem que ser uma história! Com princípio, meio e fim!

Pronto. É mais forte que eu sempre. Lá estava a lagartixa rebolando de olhos fechados ao volante com os braços para cima como um boneco de posto em um sinal fechado da Intendente Magalhães.

– Mas o que está acontecendo aqui? perguntou a criança rindo.

– Filho, esquece. Isso é brega demais…

– Isso é música chiclete. O refrão gruda no nosso cérebro!

O estrago já estava feito. Peguei rápido a letra na internet e dei para ele ler e cantar comigo a segunda parte.

Lá estávamos nós em plena setimeia da manhã de sexta-feira aos berros dentro do Pafúncio (o nome do Takimóvel):

Não há mistérios na paixão!
Verdades ou mentiras!
A gente é o que é!
Homem ou mulher!

– Pode ser homem com homem também, meu filho!

– Eu sei, mãe!

– Solta a franga! Aumenta tudo!

Mas se um grande prazer!
Rola pelo ar!!
Brilhante como uma estrela!
Leve e louco sem pressa de acabar!

É isso, gente. Nem sempre acerto (na verdade quase nunca). Hoje, porém, tenho lá minhas dúvidas se me excedi.

Resolvi compartilhar essa história porque sabem como é né. Como diz o mestre: quem guarda tudo em segredo vive numa ilha.

Se fiz bem ou mal para o cosmos só o futuro dirá.