Se os sintomas persistirem, procure um professor.

Dentre uma das coisas mais tristes que vejo nesse governo é o tratamento que se dá para a nossa Educação que tem problemas urgentes como falta de motivação de alunos e professores, as péssimas condições das escolas, péssimos salários, professores sem tempo de fazer a formação continuada e o alto índice de evasão, somente para citar alguns exemplos.

Em três meses de (des)governo, é inacreditável o que já foi feito para piorar todo nosso quadro e o fato de não termos ainda nenhuma proposta ou projeto para melhorarmos os índices.

Com demissões em série, recuos e interferências externas, o Ministério da Educação está sem rumo nenhum até a presente data.

Para quem não está acompanhando, segue o resumo dessa desgraça:

– O escolhido para ministro da Educação de Bolsonaro foi Ricardo Vélez Rodríguez, indicação de Olavo de Carvalho, sem experiência em gestão no setor público.

– Em sua posse, Vélez exaltou o combate ao “marxismo cultural” nas escolas mostrando na largada que era mais um que sofria dessa alucinação endêmica.

– Antes da posse, a cúpula do MEC sofreu a primeira baixa – de muitas outras que ainda viriam. Antônio Flávio Testa, que assumiria secretaria-executiva, rompeu com Vélez por discordar da forma como as indicações eram feitas.

– Houve, pasmem, uma mudança em edital para livros didáticos. Deixava-se de exigir referências bibliográficas, o que, por óbvio, fazia cair a qualidade do material abrindo margem para erros.

– Após protestos… advinha. Bolsonaro recuou e atribuiu a culpa à gestão Temer.

– A gestão Temer negou a responsabilidade pelas mudanças no edital.

– Sabemos que a equipe de Bolsonaro participou de 17 reuniões de transição desde o início de dezembro.

– Vélez declarou ao jornal Valor Econômico que não é possível haver universidade para todos.

– Para Veja, Vélez disse que o brasileiro é um canibal que rouba aviões e hotéis.

– Na guerra contra o “marxismo cultural”, o MEC anuncia que vai criar comissão para fazer um pente-fino ideológico de questões do Enem. Segundo o INEP, abordagem de gênero nas questões é inadequada.

– MEC manda e-mail a escolas pedindo para que alunos, professores e funcionários fossem colocados em fila para cantar o hino em frente à bandeira do Brasil e que o momento fosse filmado e enviado ao governo. A mensagem ainda continha o slogan de Bolsonaro.

– Vélez admitiu erro no episódio. Desistiu do pedido de vídeo alegando questões técnicas e de segurança.

– Em março, começam as demissões em série no MEC.

– O coronel Ricardo Wagner foi exonerado do cargo de diretor do Programa da Secretaria-Executiva da pasta. Olavo o apontava como responsável pelo episódio do hino.

– Inicialmente foram seis exonerações, duas delas de dois ex-alunos de Olavo de Carvalho.

– Logo depois, Vélez demitiu o número 2 do MEC, Luiz Antônio Tozi, a pedido de Olavo de Carvalho, em meio ao turbilhão de disputas internas.

– A inesquecível professora Iolene Lima foi anunciada por Vélez como a nova número 2 do MEC. Seu nome não agradou nem olavistas, nem a bancada evangélica, e Iolene foi demitida.

– Nessa semana, governo Bolsonaro anunciou a suspensão por dois anos da avaliação de alfabetização.

– Logo depois, Vélez recuou mais uma vez e revogou a portaria que suspendia avaliação de alfabetização por dois anos.

– A suspensão da avaliação de alfabetização resultou no pedido de demissão da secretária de Educação Básica do MEC, Tania Leme de Almeida, que não foi previamente consultada sobre a medida do governo.

– O episódio derrubou também o presidente do INEP, Marcus Vinícius Rodrigues. O ministro não teria ciência da suspensão da avaliação e se irritou por não ter sido comunicado.

– No total, houve 15 exonerações somente neste mês de março. Segundo Vélez, elas foram motivadas “por critérios técnicos”.

– Vélez, ontem, chamou Paulo Freire de inimigo e elogiou o trabalho de Pablo Escobar com as crianças da Colômbia.

– Sabatinado na Comissão de Educação da Câmara ontem, o ministro mostrou nervosismo. Deputados cobraram ações e metas mais consistentes para a área, não apenas intenções.

– A deputada Tabata Amaral pediu gentilmente que Vélez pedisse demissão do cargo para que foquemos no que de fato interessa já que nossos problemas são urgentes. O vídeo viralizou na internet e, mais uma vez, o ministro foi humilhado e mostrou total despreparo para o cargo.

Nada é surpresa vindo de quem já escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”.

O ministro da Educação comparou, pasmem, a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como do “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa.

A forma como ele se referiu à Comissão da Verdade é assustadora. Para quem não sabe, essa comissão buscou elucidar crimes cometidos pela repressão militar, como torturas e assassinatos de civis.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou relatório com os nomes de 434 pessoas que morreram ou desapareceram durante o regime. Após o golpe, vale lembrar, os militares permaneceram por 21 anos no poder.

Quem comanda a Educação do país sobre isso disse:

“Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64”. “A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”.

Debochar de Direitos Humanos virou modalidade olímpica nesse novo governo. O eleito chegou onde chegou sendo aplaudido elogiando torturador e dizendo que se matou pouco na ditadura.

O ministro da Educação não deixa nada a desejar nessa esteira: ele ironiza sempre que pode o conceito de direitos humanos e faz saudações ao “patriótico papel” desempenhado pelos militares no período.

Eles vão fazer de tudo para acabar com essa profissão linda que em essência estimula o vôo do pensamento. As asas dos professores e das professoras desse país estão sendo cortadas.

Há um déficit imenso de profissionais na área da educação, principalmente nas escolas públicas. Essas novas políticas vão desestimular ainda mais quem se interessa por essa profissão já desgastada, desvalorizada e, agora, emudecida.

Defender o que aí está demonstra fragilidade na saúde e no caráter. Se os sintomas persistirem, procure um professor.

6 comentários em “Se os sintomas persistirem, procure um professor.

  1. Deixou de falar da nomeação de uma fulana que iria colocar o ensino básico aprendendo tudo cpm Deus no contexto… ciência de acordo com a bíblia… Esquecendo que o estado e teoricamente o ensino, é laico…

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  2. E.ASSUSTADOR E.TRISTE ESTES ACONTECIMENTOS E O STF NAO FAZ NADA PARA MUDAR ESTE CENÁRIO. PIOR DE TUDO É VER PESSOAS APOIANDO ESTE DESGIVERNO.

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