Não basta dar Feliz Dia das Mães. Abrace todas todos os dias.

 

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Hoje é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade doente. Poderia ter sido tudo tão mais tranquilo se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém. Mas a nossa realidade é que andamos com dedos na nossa cara nos julgando o tempo todo.

Engravidei com 19 anos na faculdade. Na época, perdi as contas de quantas pessoas me chamaram de puta.

Minha mãe super católica entrou em desespero porque eu não era mais virgem e nem sombras havia de um casamento.

Meu pai disse que teria que dar meu filho.

“Amigos” se afastaram de mim para sempre.

Não teve uma noite que não molhei o travesseiro de tanto chorar de desespero.

A palavra aborto era a que saía da boca de todas as pessoas. Não recebi parabéns de ninguém.

Com três para quatro meses de gravidez tive toxoplasmose. A médica disse que teria que tirar o bebê porque ele ia nascer deficiente e eu poderia ficar cega ou ter outros problemas irreversíveis de saúde.

Tinha força para encarar o que viesse mas não para me submeter a um aborto já sentindo a barriga se mexer. Minha mãe, hiper católica, conversou com um padre que disse que Deus me perdoaria se eu abortasse.

Eu já era ateia e, portanto, não tinha cometido pecado nenhum já que esse conceito não existe no meu mundo-não-religioso. Expliquei para minha mãe que não iria abortar por medo de Deus e sim porque não queria. Que era um direito da mulher abortar (ou não) e que ninguém tem o direito de julgá-la.

Nem Deus.

Minha mãe que era radicalmente contra o aborto por questões religiosas (e que também tinha me julgando mal por questões religiosas), pediu para que eu pensasse bem. Afinal, eu corria muito risco e ela estava desesperada em me ver sofrer ou me perder.

Disse que um filho “perfeito” já iria ser difícil para eu criar sozinha. Ainda mais um com deficiência. Falou que ela estaria ao meu lado sempre me ajudando mas que a cruz quem carregaria seria eu. E ela poderia ser muito pesada para mim.

Cada uma sabe a estrutura que aguenta. Minha barriga já se mexia e alguma coisa metafísica já havia sido criada. Não quero romantizar nada. Mas acho que foi o que chamam por aí de maternidade. Eu já era uma mãe.

Cuidei o máximo da saúde corporal já que a mental nunca foi lá grandes coisa e grávida com a sociedade-classe-média-cristã- década-de-90 me julgando já viu.

Meu pai não falou comigo mais durante toda a gravidez. Minha mãe chorava como seu eu estivesse com uma doença incurável. Puxei 9 matérias na faculdade de Física para não atrasar na minha formação. Geralmente enlouquecemos lá fazendo quatro…

De tanto ficar sentada estudando minhas pernas incharam a ponto de eu não conseguir enfiar nem chinelo nos pés. Passei a estudar fazendo contas deitada de barriga para cima. E andava na rua com sapatos de pano tipo pantufas. Tinha coleguinha e professor na faculdade fazendo graça com isso.

Quando fui ter o nenem não sabia o sexo e nem o nome.

Ganhei o enxoval de uma colega que havia passado pelo mesmo “problema” que eu. O berço foi um carrinho emprestado. Comprei fraldas de pano com dinheiro de aula particular.

Ia sozinha para o hospital ter o nenem quando meu pai apareceu no caminho dizendo que me levaria. No carro, pediu para que se fosse menino que colocasse o nome do pai dele que morreu na guerra quando ele tinha 7 anos e que ele morria de saudade: Hideo.

Na hora eu pensei: que nome esquisito… e que diabos esse homem deixou de falar comigo a gravidez inteira e hoje vem me pedir uma coisa dessas?

Assim como não acho certo julgar ninguém, perdoei meu pai sem que ele me pedisse perdão e disse que se fosse menino, Hideo se chamaria.

Quando Hideo nasceu, relaxei como nunca havia relaxado na vida. Disse sorrindo para o médico que estava vendo estrelas e tudo girando. Era minha pressão caindo e eu tendo uma parada cardíaca.

Desmaiei por minutos. Acordei sendo massageada literalmente no coração e toda enfaixada como se fosse uma múmia para que a circulação fosse ativada. Lembro que ouvia o médico gritar meu nome pedindo que eu desse algum sinal de que estava escutando.

Não tinha força para responder que estava ouvindo ele gritar. Só sentia felicidade e uma vontade louca de mandar toda essa sociedade se fuder.

Quando tive forças, arranquei o oxigênio que estava no meu nariz e pedi meu filho.

O médico enfiou o tubo de oxigênio de novo e disse que estavam trazendo Hideo para mim. Ganhou 10 no apgar que é a nota que se dá para a saúde do bebê assim que ele nasce.

Se Hideo nascesse com algum “defeito” eu não estava nem aí porque o defeito está na sociedade. Todos nós, em alguma medida, somos defeituosos.

Me sentia preparada emocionalmente para recebê-lo do jeito que ele viesse.

Acho que cada mulher tem que decidir o que vai fazer diante a notícia de uma gravidez. Não estou contando isso para me comparar a ninguém. Mesmo porque sou uma mulher branca de classe média e meus problemas não se comparam aos que passam as mulheres pretas periféricas.

Lembrei disso agora porque é dia das mães e há 26 anos eu me tornei uma nessa sociedade que sabe vender flores neste dia mas é cega com o sentimento de tantas de nós.

Não tinha que ter sido nada tão sofrido. Estava bem, queria ter meu filho, tinha saúde para trabalhar, “estrutura familiar” e, na pior das hipóteses, a criança também tinha um pai que não foi cogitado no julgamento de ninguém.

Como disse, se simplesmente ninguém soltasse a mão de ninguém, poderia ter sido tudo mais tranquilo.

Mas a nossa realidade, até hoje no século 21, é muitas de nós ainda andam sozinhas e são julgadas por esse povo que nasceu “perfeito” mas que carece de muitos sentimentos.

Essa história não é nada diante das mulheres mães que estão encarceradas, mulheres de periferia que têm crianças especiais, mulheres que não têm comida para dar para os filhos.

Não basta dar feliz dia das mães hoje.

Abracem todas todos os dias.

6 comentários em “Não basta dar Feliz Dia das Mães. Abrace todas todos os dias.

  1. Ah Elika, que vontade de fazer voltar o tempo e estar lá, segurando sua mão e dizendo: “vai dar tudo certo”. É a mesma vontade que tenho de me encontrar com a mulher de 40 anos, abortada, dilacerada e sozinha que fui há 9 anos atrás…queria também ter ouvido que tudo daria certo, que outro filho viria e que eu não ficaria com aquilo sozinha.
    Chorei lendo seu texto. Chorei por todas nós.

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    1. Vc é uma inspiração! Não no sentido bíblico, mas pq é humana paca! É aquela que não faz pose, chega pertinho, segura a nossa mão e fala: estamos juntas! Valeu!!!

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  2. Essa história aquece meu coração de mãe aos 17 anos…eu lia nos olhos dos outros: puta! Meus pais me expulsaram de casa, meu pai correu atras de mim e do meu entao namorado c uma faca e depois sofri violencias do pai do meu filho. Eu era uma criança, ms a culpa congênita q carregamos como mulheres não vê idade, nem pondera ou se solidariza.
    Hoje tenho 34 e meu filho 17.
    Obgda, Elika por nos dar as mãos!

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