Sobre caiaque e a contingência das minhocas

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Andei pela primeira vez de caiaque com o Pipo. Para quem ainda não sabe, fiquei casada quase 20 anos, separada quatro e quando não acreditava mais no amor, Pipo apareceu como se eu estivesse numa livraria buscando um livro para passar o tempo e me deparasse com O Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Dito de outra forma, como se andasse passeando a esmo para distrair a mente e, de repente, me defrontasse com uma orquestra ensaiando ao ar livre.

Eu e Pipo, de alguma forma, estamos juntos desde que nascemos mas, fisicamente, pelas minhas contas e pelo o que entendo de tempo, há 14 bilhões de anos quando o Universo foi criado (Fiquei superlativa como os poetas depois de conhecê-lo). Quantos minutos ficaremos ainda nessa conexão foi o que a experiência de ontem no caiaque me mostrou.

O caiaque tinha dois lugares. Antes de entrar no mar, recebemos as instruções do moço bronzeado e experiente:

– O “motor” vai atrás. As remadas têm que ser sincronizadas para o barco andar melhor. Andem inicialmente contra o vento. Na volta, já cansados, o vento ajudará vocês a retornar.

O “motor” era quem ia remar com mais força e dadas minhas raízes feministas, marxistas e taxistas, que como toda mulher inteligente e preguiçosa eu as mando para o espaço quando me convém, fui logo me fazendo de meiguinha-frágil e me sentando na frente.

Nunca havia remado na vida. Não há mistério algum. Só muita dificuldade mesmo. Não no movimento físico em si, mas em entender como vim parar no meio do mar, sem celular, sem saber onde fica o norte, sem saudade do passado, sem expectativas sobre o futuro, sem culpa alguma, com sinusite e a paz dos que desistiram de entender. Sou assim. Plena de paradoxos.

Não consigo dançar por falta de ritmo e não seria com algum compasso frequente que as minhas remadas amadoras seriam dadas. A sincronia ficaria por conta do Pipo que estava atrás e ficou responsável por ser o espelho dos meus movimentos.

Se o amor tem algo a ver em reproduzir a pulsação da marcha do outro, com algum tipo de sincronia, seria no mar que ele seria colocado à prova.

Assim pensei na largada animada com a certeza de que Pipo reproduziria fácil o que eu fizesse.

Pipo lindamente correspondeu às minhas braçadas não periódicas e em questão de poucos minutos saímos do posto 3 no Aterro do Flamengo rumo ao aeroporto Santos Dumont. Chegamos até a ponte Rio-Niterói e ficamos algum tempo nos beijando longamente.

Assim imaginei que seria. Qual o quê.

A vida está aí para zuretar com as nossas expectativas. Em menos de 5 minutos, Pipo descobre algo:

– Amor, sua braçada da direita é mais forte que a da esquerda. A gente tá fazendo curva.

Pipo descobriu uma das minhas assimetrias. Meu pé direito é virado para fora, meu ouvido direito não ouve mais as frequências agudas e meu olho direito é mais míope que os outros dois olhos juntos, se é que me entendem. Do lado esquerdo, o coração, uma costela proeminente que não me deixa usar biquíni sem me sentir constrangida e um relógio no pulso. Nenhuma dessas assimetrias foi problema para nós até aquele momento.

– Mas é que sou destra. Acho que todo mundo tem esse problema, não?- perguntei como fazem os que não sabem pedir desculpas e ficam justificando os erros.

– Tenta remar mais longo do lado esquerdo para compensar. – orientou-me Pipo como os professores que têm esperança no futuro no Brasil.

Acho que consegui fazer o que ele me sugeriu por uns vinte segundos. O resto foi só tentativa. Ainda assim – e é o que importa – estava feliz movimentando o remo ora com o braço esquerdo ora com o direito com um sorriso típico de quem acaba de comprar um algodão doce.

Empolguei-me e dei mais força para aqueles torques. Senti-me uma atleta olímpica competindo. A água espirrava no meu rosto – dado a velocidade da luz do meu remo.

– Amor, você está trocando muito rápido. Respira entre uma remada e outra!, ouvi Pipo como se fosse a voz da terapeuta que nunca tive ou do Mufasa saindo das nuvens.

Empenhei-me em seguir as orientações e só sentia nossos remos bater por falta total de simultaneidade nos gestos.

– Só olhar para um foco e ir reto, amor! – pediu Pipo mais para Deus do que para mim.

Nunca na vida consegui andar em linha reta. Meu pretérito é imperfeito e meu futuro é do pretérito. Jamais fui guiada pela luz do fim do túnel. Inspiro-me na suavidade dos indelicados, a mesma que faz com que um cavalo ande bonito. Não consegui seguir sequer uma religião – mesmo precisando de perdão para meus inúmeros pecados – e Pipo me pedia foco. Justamente quando o horizonte estava lindo e tão distante meu Deus. Não seria ali que iria conseguir me livrar dessa minha ânsia de mandar as bússolas às favas…

Por outro lado, era o meu amor que não queria decepcionar.

Tensão no mar.

Aceitei humilde o que Pipo havia me falado como quem aceita um batismo. Possuo uma certa paz interna e a tirania de uma mulher que necessita ser amada – e, por não saber o que uma mulher precisa fazer, foquei em tudo o que via: no aeroporto Santos Dumont, no Dedo de Deus, na ponte Rio-Niterói, em Niterói, no Museu do Niemeyer, no forte que não sei o nome, na gaivota que era uma fragata e no Pão de Açúcar. Como não ficar alucinada com o Pão de Açúcar? Mirava e ia. O importante é sempre ir. A bicicleta só fica em pé equilibrada quando está em movimento – e minha serenidade encontra o centro de gravidade quando me aposso dessas metáforas.

O barco navegou em várias direções por algum tempo. Em um determinado instante, depois de não mais ouvir nossos remos batendo, Pipo chegou perto do meu ouvido direito e falou com sua voz grave que sempre me acalmou o semblante e fez meus hormônios entrarem em guerra com os dogmas de muitas igrejas.

– Amor, pode descansar, se quiser. Você está remando sozinha há algum tempo. Posso conduzir agora.

Não estava cansada e muito menos surpresa. Queria mesmo era ver o que Pipo faria com aquela vista toda.

Se ele andou reto, foi por pouco tempo.

– Amor! Olha aquilo amarelo! Vamos lá ver o que é!

E desatamos a remar loucamente com nossos remos batendo um no outro até um pote de margarina.

– Amor! Olha ali!

E lá fomos atrás de uma havaiana perdida.

Com remadas de ritmos bem particulares e cada hora mirando em algo pairado no mar, conseguimos encher o caiaque de lixo. Andamos em zigue-zague, em círculos, em espiral e, enfim, em linha reta e perpendicular ao vento – já que havia dado o tempo e tínhamos que retornar de onde saímos. Pescamos vários plásticos que boiavam e descobrimos que, de algum jeito, chegamos juntos remando onde queremos.

Assim como jamais gritei de alegria ao ver um filho dando os primeiros passos para que ele não se assustasse, saí do caiaque contida falando para o Pipo que precisava escrever sobre a assombro de ter visto tanto resíduos e a sensação boa de ter conseguido chegar até eles e limpado o mar.

Dizem por aí que o amor tem a ver com sincronia. Talvez alguns sim. Mas há infinitas formas de amar. Descobri, dentro de um maiô, que podemos falar em eternidade nos iludindo com a paz de um passarinho pousado em um galho ou descobrindo formas jocosas de lidar com a nossa contingência e a das minhocas.

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2 comentários em “Sobre caiaque e a contingência das minhocas

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