“Só tem espaço para os melhores”, disse aquele que confunde Kafka com kafta.

O ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, defendeu na última quarta-feira que o país “só tem espaço para os melhores” ao dirigir-se a crianças e adolescentes homenageados na cerimônia Destaques na Educação.

“Tem que haver uma dinâmica para aumentar a competição e mostrar que quem vai melhor recebe mais, que quem melhora mais recebe mais. É um critério de gestão”, afirmou mostrando que não entende absolutamente nada de Educação pois a confunde com o Mercado.

Aos alunos, o ministro disse que a importância da educação de qualidade é “para que vocês sejam livres e fortes para pensar por vocês mesmos e ter uma profissão e uma renda sem depender de bolsa.”

Claro que o ministro estava se referindo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao projeto Bolsa Família elogiado pela ONU, pelo Banco Mundial e reconhecido internacionalmente como o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Muito a dizer, gente.

Para começar, é claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal (como faz o ministro da Educação) e não de um arranjo socioeconômico.

Para todos os estudantes que não receberam prêmio algum, eu gostaria de parabenizar vocês também.

Certamente, vocês são pessoas bacanas, esforçadas, cheias de potencial, empáticas, amigas e criativas. O que não quer dizer que esses que ganham prêmios não sejam serumaninhos legais, mas não foram premiados por isso.

Muitos prêmios significam que eles se adaptaram bem a um sistema de ensino que prima pela competitividade e exclusão dos que dele fazem parte e dos que não conseguem a ele se moldar.

Vale observar que se Einstein vivo fosse e estudasse em muitas escolas tradicionais (quiçá militares) que existem hoje poderia ter sido expulso dado seu comportamento rebelde com esse modelo que não estimula os alunos a perguntar, a questionar e sim a responder e obedecer regras.

Um Prêmio é legal, mas absolutamente nada diz sobre a capacidade de lidar com o próximo e sobre a felicidade que os premiados terão no futuro e até mesmo se tem alguma no presente.

O mundo é extremamente complexo e, em certa medida, pode ser muito cruel. É triste quando testemunhamos essa crueldade sendo vivenciada e estimulada nas escolas.

Possivelmente, muitos de vocês que não foram premiados estão se sentindo burros e incapacitados por não terem conseguido, por exemplo, obedecer regras de redação que se Guimarães Rosa e Mário de Andrade tivessem obedecido não teriam escrito o que escreveram.

Preciso acrescentar que eu reconheço a necessidade em certas instâncias de uma política de seleção rigorosa. Mas me recuso a chamar isso de “Educação” já que o meu conceito de Educação envolve um bem estar de uma maioria.

Rigor, competição e disciplina são muito valorizados nesse conceito de Bozo-Educação. O que eles desprezam (ou admiram) é o fato de nunca na história termos tantas crianças e jovens frustados, infelizes, doentes e egoístas.

Aos premiados, parabéns! Aos que não foram, parabéns também! Cada um tem uma história, um ritmo para aprender e uma forma de fazer o mundo um lugar mais agradável de se viver. Não desistam dos seus sonhos, jamais deixem de acreditar no potencial de vocês e cuidem de todas as pessoas. O bem que fazemos é nosso melhor alimento.

Para finalizar, vindo de quem acha que Educação é mercadoria, o discurso não surpreende. Irônico e didático, porém, foi ouvir toda essa ode à meritocracia de um ministro da Educação que confunde Kafka com kafta, já mostrou que entende pouco de matemática e escreve ‘suspenção’ e ‘paralização’.

2 comentários em ““Só tem espaço para os melhores”, disse aquele que confunde Kafka com kafta.

  1. A falta de autoconhecimento dos bolsonarianos nem Freud consegue explicar. De outro mundo. Que autoestima da porra. Só que não. São extremamente burros. A única vantagem é justamente uma combinação de nascer em berço de ouro, ter a pele branca e sedosa, ser do sexo hetero masculino tóxico, ter alguma capacidade de decoreba e a esperteza de não ter escrúpulo algum numa sociedade que foi fundada com base na falta de princípios básicos de decência humana.

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