O dia é 15 de Outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores.

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Hoje, Dia dos Professores, 15 de Outubro de 2019, ouço ecos do discurso de que o ensino deve formar um cidadão e que ao professor não lhe cabe a tarefa de educar e sim de ensinar. Entende-se por “ensinar” enfiar goela abaixo do aluno conteúdos distantes de sua realidade e domesticá-lo para servir a um sistema que insiste na ideia de que “ser alguém na vida” é um ser que tem muito dinheiro para consumir coisas supérfluas.

Discutir o pluralismo de ideias significa, para essa gente pequena, uma ameaça, pois implica preparar o educando não somente para desenvolver pensamento crítico, mas também para respeitar a diversidade, a alteridade e a divergência de opiniões que caracterizam as sociedades democráticas. Por incrível que pareça, isso é visto como algo perverso.

Hoje, há professores estimulando o debate sobre o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ainda é tão seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações. Hoje, há professores estimulando a discussão sobre as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos. Isso tem feito o futuro cidadão pensar e, por isso, estamos sendo considerados inimigos da sociedade.

Querem nos fazer acreditar que será através dessa nova escola pública militarizada que estão nos impondo que vamos tirar as pessoas da pobreza. Não somos idiotas, Bolsonaro. Sabemos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Só mudaram os atores, os personagens são os mesmos e não nos enganam.

Sigo muito animada. Sei que é impossível essa profissão morrer ainda que agonize em praça pública. Verdade seja dita, nunca falamos tanto em Educação como hoje e a venda dos livros de Paulo Freire bateu recorde.

Quem odeia paulo Freire odeia professor. Se leram o mestre, viram o amor com que ele trata a nossa profissão e as reflexões profundas que ele fez sobre o educar. Não tem como não citá-lo no dia de hoje: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

Ainda que me falte a danada da esperança, continuarei lutando porque não quero passar por esse mundo como alguém que foi amputado sem grito, resistência e  repúdio diante de tanta atrocidade e dor. A esperança está acabando. Mas a nossa paciência também. E bem se sabe o quanto a falta desta nos move para outros lugares.

Sou uma professora. Acho que nasci assim. Por uma necessidade ontológica do meu ser e da minha carreira que se fundem, onde estou não pode ser  um espaço de conformismo social, cultural e intelectual.  Uma Escola que não promove um livre debate não é uma Escola. Precisamos dar a esse espaço que o governo Bolsonaro quer administrar um outro nome.

Estão fazendo de tudo para acabar com a nossa profissão que em essência estimula o vôo do pensamento. Enquanto as asas de muitos professores e professoras desse país estão sendo cortadas, muitos e muitas de nós já estamos usando as leis da física-  e as que estão na Constituição – para fabricar um modelo novo de asa delta.

O dia é 15 de Outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores. Não há festa entre nós hoje. Com as pedras que nos tacam, estou com muitos colegas aprendendo a construir um castelo. E, teimosos que somos, usamos o dia de hoje também para trabalhar nesse projeto.

Aquele sonho de melhorar o mundo pela educação que sempre tivemos… aquele sonho nem Bolsonaro vai tirar de nós. Posso lhes garantir. Daremos o nosso jeito.

Deus me livre ser fanático pelo PT!

Preciso lhes contar uma história que aconteceu hoje.

Passei o dia com um grupo de petistas que me fazem sentir um polvo. Explico: tenho agora vários braços para além dos meus que parecem dez. Quando vocês me virem andando por aí saibam que não sou eu e sim um coletivo de nós.

Antes que vocês venham julgar, saibam que estamos longe de ser fanáticos pelo partido. Inclusive, vale observar, temos problemas sérios com quem é fanático pelo PT.

São insuportáveis.

Eles acham que o PT é o melhor partido do mundo e ficam levantando teorias.

Meu grupo não.

Tudo petista sério.

Aqui não achamos nada. Temos certezas. Não levantamos teorias. Chegamos com a prática.

Um petista sério pode ter visto o PT tirar o país do mapa da fome, criar milhares de empregos, construir Universidades e Institutos Federais e o salário mínimo aumentar, mas ele vai e diz: falhamos nisso falhamos naquilo.

É como a Gisele Bündchen passando um batom.

A gente acha que sempre pode ser melhor daquilo que vemos no espelho.

Não somos simpatizantes do PT. Nananinha. Aqui a gente faz reunião com bandeiras estendidas. Petista que é petista não desperdiça tempo com sentimentos pequenos como a simpatia. Aqui é paixão eterna para cima.

A gente se reúne toda semana para decidir o que queremos decidir na semana que vem. Tem votação sempre porque temos apego a esse conceito: o voto.

Votar para nós é um tipo de modalidade olímpica. Se não tiver nada para votar na semana, a gente inventa. É importante a prática.

Quando uma amiga saiu de uma plenária que não pude ir, ela me ligou e disse:

– Elika, quando saí da reunião algo horrível aconteceu. Levei um tombo e quebrei os dois pulsos.

Eu, petista linda e doce que sou, disse:

– Sinto muito. Me conta: o que foi decidido hoje na reunião?

Claro que isso é um exagero. Minha amiga não quebrou dois pulsos e sim um.

Petista que é petista arruma confusão com qualquer um que não consegue ter opinião. Arruma confusão também com quem pensa diferente. E gasta uma energia infinita tentando convencer até quem concorda com a gente para garantir que não vai mudar de opinião lá na frente.

O nível é esse.

Acabada a nossa reunião hoje que durou o dia inteiro com um breve intervalo para o almoço, alguns falaram que iam pedir uber.

Houve confusão.

Normal.

Afinal, precisamos fazer nossa economia interna movimentar e não estamos aqui para dar dinheiro para empresa estrangeira, disseram uns.

Teve debate depois de sete horas reunidos debatendo.

Nós, petistas sérios, somos incansáveis.

Votei a favor do táxi-rio e tratei de pedir minha corrida com 40% de desconto que o aplicativo me dá. Para quem não sabe, o aplicativo oferece descontos nas corridas que variam de 10 a 40%. Petista não é burro e vai lá e escolhe o maior desconto que muitas das vezes fica até mais barato do que Uber.

E quem pensou que a história está no fim se enganou mais do que aqueles que acharam que tirando o PT do poder o povo melhoraria de vida.

Aqui começa a minha saga.

Mal entrei no táxi – acompanhada de Lucimar e meu amigo Paulo – o taxista começou a reclamar “do cliente que só escolhe o maior desconto e se lixa para o motorista que precisa fazer a manutenção do carro e tem família para sustentar”.

-Tem gente que paga no cartão oito reais, moça! Não dá. É muita falta de senso!

A minha corrida ia dar 28 reais com aquele desconto gostoso. Eu já havia separado 30, crente que estava arrasando no exercício da cidadania deixando o troco para o motorista.

Eu precisava me explicar.

-Mas o aplicativo dá essa opção de desconto, Miguel. Quem vai escolher um desconto menor podendo escolher o maior?

– Quem? Quem pensa no outro, moça! Por isso táxi tá acabando! Crivella que inventou esse aplicativo!

– Mas vocês não estavam gostando do Crivella? Ouvi de um colega seu dizer que…

– Moça, eu tenho muito colega burro. Não é porque é taxista que eu vou defender. – E desatou a reclamar de tudo de ruim que a categoria estava passando dizendo que em vinte anos trabalhando nunca esteve tão mal de vida. – Pior é ver gente doente balançando a bandeira do PT. – Falou Miguel.

Desse jeito, gente. O papo mudou que nem sei como.

O PT está para o Brasil tal e qual Platão para a filosofia. Você cita qualquer político, elogia a reforma de uma calçada, se queixa do preço do gás ou pede Anitta no Rock in Rio e o cidadão vai e desata a falar do PT.

– Minha filha entrou para Universidade Federal e ficou doente. Deu de balançar a bandeira do PT também. Para mim, moça, quem balança bandeira do PT é doente!

Galera, eu fatidicamente estava, pela primeira vez na vida, carregando na mochila cinco bandeiras do partido e dois bonés porque fiquei com a incumbência de lavar nosso manto sagrado e nosso capacete da alegria.

Imagina.

Só imagina.

– Eu votei no Bolsonaro, moça. Falam que ele é homofóbico porque arrumou treta com o Jean Uílis que só virou deputado porque foi bígui broder. Nem no Brasil o cara tá mais e ficam chamando Bolsonaro de homofóbico por causa desse Jean.

Não me calei. Claro. Fiz algumas perguntas.

– Miguel, na época do PT, o senhor estava ruim, economicamente falando?

-Eu tinha tudo, moça. Tinha assinatura de tudo. Sky, Net, Claro… Minha geladeira era cheia de longui néqui. Agora não tenho uma para beber quando chegar em casa. Ontem não tinha dez reais para dar para meu filho, moça. Mas é mole governar quando se tem dinheiro. Quero ver sem nada! – terminou Miguel.

-Miguel, que medidas estão sendo tomadas pelo seu presidente para que pessoas como o senhor melhorem de vida?

-Não sei, moça. Mas preciso confiar no cara né.

Não vou me estender mais. Daí para frente, é suficiente dizer que estava diante de um eleitor confesso de Bolsonaro que dizia que o Brasil não está bom porque vai levar tempo para consertar e que o PT isso o PT aquilo.

É necessário observar que tive um dia muito produtivo e havia felicidade e esperança dentro de mim.

A corrida terminou. Miguel soube que eu era petista quando estava quase chegando em casa.

Paulo ouviu tudo em silêncio e resolveu reiniciar, pasmem, no mesmo táxi, uma outra viagem até sua casa na Cruz Vermelha. Logo ali perto.

Chegando no destino, Miguel disse para meu amigo que achava que tinha me chateado e Paulo (que sabia que ele ia dizer isso) respondeu:

– Ela com certeza não ficou chateada. Ela ficou muito preocupada com você que está perdendo tudo e dando o apoio para quem está pouco se lixando para sua categoria.

Paulo estava se referindo ao estranho fenômeno do gado que aplaude quem lhe tira o pasto.

Miguel pensou por três segundos.

Talvez menos.

Apertou a mão do Paulo e foi pegar, certamente, outros petistas porque muitos de nós temos essa mania de escolher o táxi para fortalecer a economia nacional.

Terminamos o dia satisfeitos como aqueles que tiram do forno um bolo cheiroso. E não há bolo de festa sem cereja. A nossa foi esses míseros segundos que Miguel (quero acreditar nisso) cogitou que algo estava fora de lugar.

Petista fanático tem essa mania de acreditar que a Terra é redonda e que o mundo dá voltas.

Nós, petistas sérios, vamos além.

Miramos na reviravolta.

Cremos que nossa missão é infinita, a ditadura, não. E, fofos e sérios que somos, acreditamos que (juntamente com o amor) o diálogo vencerá.

Me julguem

De uns tempos para cá, tenho frequentado mais lugares na zona sul do Rio. Ter sido moradora de Madureira há 45 anos e do Flamengo há 10 meses fez com que eu observasse tudo com atenção e me movimentasse pelos lugares novos de forma cuidadosa para me socializar bonitinha.

A risada altíssima permanece seja lá em que lado estiver do túnel Rebouças, mas o que falo tem passado por um crivo do meu superego pela necessidade da sobrevivência.

Ouvi, numa reuniãozinha em Copacabana, uma mulher dizendo que ia para Miami renovar o guarda roupa porque lá tem tudo muito barato e de qualidade. Quem sou eu para julgar a economia e os valores de cada um, mas as pessoas que estavam em volta olharam de cara feia.

Observei tudo.

Eu, a atenta. A safa. Eu.

Precisava me enturmar e mandei na lata com a naturalidade daqueles que não olham preço no cardápio, enfim, falei que tenho planos de ir para o centro histórico de Bérgamo, uma cidade na Itália, ver umas roupas artesanais em uma feirinha de coisas usadas que ocorre sempre na Primavera. Detalhei porque sou dessas.

Pronto.

Me amaram.

Esquerda Cult tem dessas coisas. Disseram que a feirinha é ótima e enquanto eu ouvia elogios tentava adivinhar de qual região do meu cérebro eu inventei aquilo. Começaram a me dar dicas de brechós pelo mundo. Beleza.

Réchi tégui enturmada.

Lá pelas tantas, quando serviram bolinhas de mussarela de búfala com damasco, eu falei que estou planejando uma viagenzinha pela CVC há tempos e vendo quantos filhos o orçamento permite que eu leve.

Bola fora, Elika, bola fora.

Jamais falem em CVC aqui. Meu alarme bullying disparou e tive que recuar na conversa.

Para essa galera que faz festinha sem ter panelão na mesa com prato fundo descartável e que curte queijo muito mofado com taça de vinho francês, viagem em excursão e caravana para ir ao programa do Silvio Santos são coisas semelhantes em essência.

Eu que precisava avançar nas relações respirei fundo para não perder o pouco que havia construído em termos de contatos. Busquei segurança nos confins dos porões dos museus abandonados do meu Bacurau particular e disse que estava também pensando em ir fazer um Brit Movie Tours na Europa.

Dei um gole longo daquela bebida esquisita numa taça que tinha o diâmetro de uma moeda e mantive a postura.

Bingo.

Recebi várias dicas de caminhadas cults com temas de arquitetura, artes de rua, espionagem e outros motes que eu nem sonhava que existia. Me mandaram na hora roteiro pronto pelo whatsapp que farei um dia quem sabe quando tiver dinheiros e a paz de espírito necessária para passear em Paquetá.

Empolguei-me com a receptividade deste grupo específico. Verdade seja dita. Estava indo bem.

Havia a necessidade de dar um passo além para aprofundar a intimidade.

– Gente, amei visitar a exposição permanente do Pierre Choinier em Paris. – falei com a segurança daqueles que tem o mapa do mercadão de Madureira decorado na cabeça.

Paris. Nunca fui também.

Não vou dizer que é meu sonho porque sonhar a gente sonha com o resgate da autonomia do CEFET, com a diminuição da desigualdade social, com a liberdade de Lula e que o Uber tenha bala 7 belo. Paris a gente deseja com o sorriso nos olhos daqueles que vêem um sorvete ser bem servido pela moça do outro lado do balcão.

Quanto ao Pierre Choinier, para quem não sabe, é um grande artista renascentista francês inventado por mim na década de 80 em uma apresentação da escola quando o professor pediu para eu citar o nome de um pintor famoso e contar um pouco sobre ele em um trabalho oral. Não havia estudado nada mas não podia tirar zero. Mandei essa e, pasmem, ganhei um 10. Desde então, compreendi como me comportar no mundo.

Mas quase coloquei tudo a perder, gente.

Dei uma rateada e disse empolgada, super sem querer, que fui passar Lua de Mel em Cancun.

Jamais, eu disse jamais, façam isso quando estiver no meio dessa tribo específica porque eles vão achar que você também nunca experimentou palmito pupunha assado e isso pode ser fatal no julgamento de sua inteligência.

Se foi a Cancun, diga calmamente que foi para um lugar onde pode ver as antigas civilizações maias, astecas e toltecas, que esteve no Complexo de las Monjas e que a astronomia, a geometria, a matemática, a engenharia e as artes plásticas dos Maias são obras de arte.

Não satisfeita, falei que Guillermo del Toro faria a festa com aquele cenário. Não tenho a menor noção do sentido dessa frase mas isso é o que menos importa. Saber proferir expressões como está na página 1 do livro 1 do manual de sobrevivência que escrevi somente na minha cabeça.

Consegui corrigir tudo no tempo certo.

Vi orgasmos múltiplos e fui respeitada por ser burguesia-cultural-nível-hard.

Me acharam hiper cool.

Réchi tégui amigos de infância.

Se souber se comportar direitinho, você tem o mundo em suas mãos. Vai por mim.

Hoje, depois de votar no Conselho Tutelar, visitei a vila que morei em Madureira.

Encontrei meu vizinho lavando o carro na calçada e dei um berro de longe:

– Fala, corno! Teu time, hein! Vou te contar!

Ele me mostrou o dedo do meio, largou a mangueira na rua e veio me receber com um abraço. Não faço ideia para quem ele torce e do campeonato que está rolando.

Assim sigo caminhando, gente. Me julguem.