Aprendemos na aula de hoje que…

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Hoje fui andar de skate com o Pipo no Aterro do Flamengo. Estamos, a despeito de morarmos juntos há um ano, naquela fase (que eu espero que dure para sempre) que a gente está se conhecendo.

Hoje, particularmente, nesta linda tarde de Sol, levei um susto com o fato de Pipo ter se mostrado um pessoa completamente ignorante, irresponsável e sem noção. Guardei para mim toda essa impressão porque sou dessas de carregar as dores em silêncio.

Estávamos parados no sinal de uma avenida super movimentada. Tinha gente andando pelas calçadas e muita criança animada com os pais em nossa volta. De repente, passou bem na nossa frente um homem andando de patinete na rua praticamente no meio dos carros carregando um bebê num tipo de bolsa canguru.

Meu instinto materno veio com tudo em forma de julgamento e indignação.

– Que perigo! Onde já se viu expor a criança assim! Ela pode se machucar feio! Que gente irresponsável! Tinha que ter prova para saber se podia ser pai nesse mundo! Onde já se viu! Coitada da criança! Que perigo!

Pipo imediatamente discordou de tudo.

– Amor, isso foi feito para carregar criança, não tem como se machucar…

– Se o adulto cair, vai cair por cima da criança que está na frente, Pipo! E apontei para o cara que já tinha sumido.

Pipo nem me olhava. Ele estava ansioso para atravessar a rua como se vidas de bebês não importassem. O sinal abriu e ele foi atravessando puxando a minha mão.

– Não tem como cair, amor. O brinquedo é estável. Deixa disso. A criança está segura. Vai por mim. Vamos. Abriu.

Engoli a seco. Não vou discutir com maluco que não vê perigo num bebê andando de patinete no colo do pai no meio de uma avenida, gente. Queria relaxar nessa tarde de Domingo, fazer exercício, tomar água de coco sem estresse, sem notícias, sem celular…

Andamos de skate, tirei foto dele, vimos árvores bonitas, as nuvens avermelhadas ao fundo e sentimos a brisa de fim de tarde.

Mas a coisa ruim estava ali. Guardada nos porões de onde produzimos de forma natural um tipo de tabaco para nossos pulmões.

Uma pena esse homem lindo ter essa indiferença sem tamanho com todos os bebês deste planeta, pensava como aquelas pessoas gripadas que comem um doce sem sentir o gosto.

Agorinha, veja, vocês, já com a Lua e Vênus no céu, a gente estava sentado na grama tomando uma água de coco. Pipo me apontou um bebê sentadinho em um triciclo que estava sendo empurrado por uma alça (que faz parte do brinquedo) pelo adulto que o estava acompanhando.

– Ali, amor, observe. O brinquedo é todo protegido. Tem uma frente grande. É estável. Não tem como a criança cair ali não. – explicou ele todo cheio de calma.

– Ali não tem né. Mas e em um patinete no colo do pai andando junto com os carros na rua? – perguntei balançando a cabeça como um sino e com o queixo mole pendurado.

– Onde cê viu isso, amor? Que absurdo! disse Pipo assustado.

Pois então, gente…

Por achar que todo mundo enxerga com os meus olhos, quase fiz um estrago num diamante aqui. Um professor de história um dia me disse que grandes guerras acontecem sempre por falta de diálogo.

Aprendi hoje que as grandes guerras são também aquelas que travamos dentro da gente.

A história que queria lhes contar

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Nem sei como começar a contar essa história porque não sabemos quando as histórias nascem e, caso procuremos uma cadeia causal vendo a vida (que é algo tão difuso, complexo e cíclico) como linear, teremos que começar pelo Gênesis.

Ainda assim, vou tentar.

E vou fazer mais, vou ser precisa.

Tudo começou no dia 19 de Abril de 2019.

A história é tão louca que vou dividir em capítulos para ver se consigo mostrar o quão imprevisível é esse negócio chamado encontro e quão poderoso é esse outro negócio chamado reencontro.

Capítulo 1: Seu Carlos e Michelle

Mudei-me há um ano para o Largo do Machado e, por aqui, como em muitos lugares do Brasil, vemos muitas pessoas fazendo a calçada de cama. Pelo fato de andar mais pelas ruas e ajudar no que consigo essa população vulnerável, já conheço pelo nome muitas pessoas que não têm onde morar e algumas de suas histórias.

Na noite do dia 19 de Abril deste ano, ao voltar para casa, depois de ter levado meu irmão até a porta do metrô, vi Seu Carlos e, como sempre, falei com ele. Mas esta noite especificamente, eu e ele estávamos a fim de conversa e ficamos mais de uma hora numa prosa sem fim.

Seu Carlos sempre me chamou a atenção pelo seu talento. É um artesão de mão cheia. Usa folhas velhas de jornais e revistas para fazer bandejas, pratos, cachepôs, … tudo com um cuidado danado como aqueles que não têm pressa.

Naquela noite, soube de uma grande parte da história dele. A nossa troca me sensibilizou muito e fiz o que faço quando fico emocionada: escrevo e compartilho com quem quiser me ouvir.

O texto foi postado no Facebook e dizia assim:

Esse é seu Carlos. Ele tem dormido na rua como tantas pessoas que temos visto. Seu Carlos já foi pescador. Hoje está com a perna quebrada (sem gesso e atrofiando porque não consegue usá-la) e cheio de artrite. Mas diz que não consegue ficar parado porque “cabeça vazia moradia do cão”, como ele disse.

Seu Carlos é um artesão. Faz coisas lindas usando revista velha. Todas as vezes que passo ali perto da Praça do Largo do Machado, lá está ele tricotando papel. Passa um dentro do outro e vai tecendo cachepôs, caixas, baús e muitos pensamentos. Tudo isso com o braço meio torto e sem uma posição boa para sentar.

Eu quis ajudar. Perguntei a seu Carlos o que ele queria muito no momento. Ele disse que era uma perna nova. Rimos os dois por fora como aqueles que ganham um presente indesejado.

Daí ele disse que se comprassem o que ele fazia já ajudava bem. Comprei algumas coisas e deixo aqui umas fotos do trabalho dele. Quem quiser, ele está por ali nos arredores da Praça perto da Igreja.

Seu Carlos mandou avisar a todos vocês que, se alguém quiser, ele ensina de graça e com prazer.

Está hoje por ali no Largo do Machado porque foi expulso das ruas do Leblon. A polícia pegou todo o material do seu Carlos e disse para ele sumir para sempre.

Não sei quanto tempo ele ficará onde está e muito menos como vou conseguir dormir depois de ter ficado tanto tempo olhando no fundo dos olhos deste Brasil.

 A seguir, postei essa foto:

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E milhares de seguidores e seguidoras curtiram e comentaram. Mas uma, em especial, por um motivo que me escapa, resolveu mudar a vida de Seu Carlos. Essa era a intenção.

Michelle acabou mudando a vida de mais de 40 pessoas.

Menos a do Seu Carlos.

Capítulo 2: Juramento de Hipócrates

Michelle assim que viu a postagem, recém operada, tomou uma decisão. Toda trabalhada no juramento de Hipócrates, saiu de Copacabana para ver a perna do seu Carlos. Queria porque queria internar seu Carlos num hospital, tirar seu Carlos da rua, arrumar um lar para seu Carlos, ajeitar os documentos dele, colocá-lo cadastrado em uma feirinha de artesanato e mais um tanto de coisa que não dei conta nem de ler.

Michelle, no dia seguinte, me mandou uma mensagem pedindo para que eu me encontrasse com ela ali “no Seu Carlos” para a gente se conhecer e ver o que faríamos por ele. “Leva um Isaac”, me pediu se referindo ao meu livro Isaac no Mundo das Partículas.

Na minha cabeça e no meu universo que tem o tamanho de uma uva passa, tudo o que eu poderia fazer pelo seu Carlos havia feito e fiquei meio assustada com a animação da moça que sequer conhecia.

Mas não sou de negar chamado de gente animada.

Desci com Isaac para ver Michelle de perto com a curiosidade daqueles que vão conhecer um templo.

Michelle estava com a filha, com disposição e com esparadrapo no nariz e com pontos na região dos seios. Com um lenço, secava a coriza vermelha que saía das narinas. Falava sem parar. Tinha planos para seu Carlos e me contou como faríamos para tocá-los adiante. Eu a olhava e a ouvia como fazem aqueles que chegam atrasados na aula de cálculo.

Com a delicadeza de quem arranca uma flor, expliquei para a danada da Michelle que não poderia pedir dinheiro para vaquinha já que me tornei uma “pessoa pública” e recebo inúmeras mensagens de pessoas me pedindo algum tipo de ajuda por dia. Disse que não entendo nada de hospital, nem de perna, nem de documento e que não saberia como ajudar mais do que havia feito. Estava sendo sincera. Sou limitada e extremamente perdida.

Michelle não me ouviu assim como fazem meus filhos. Juntou mais uma advogada que comentou na minha postagem e criou um grupo no whatsapp chamado “Grupo do Cláudio” e começou a falar lá um monte de coisas que a gente tinha que fazer.

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As duas foram tocando o barco. Conseguiram, enfim, tirar seu Carlos daquela calçada,. Ela estava super feliz até que…

Capítulo 3: Oi, Elika. Não trago boas notícias.

No dia 14 de Maio acordei e fiz que fazemos até mesmo antes de abrirmos os dois olhos. Verifiquei as mensagens no celular. Qual foi minha surpresa, Michelle estava cuspindo marimbondos e só não chamava seu Carlos de bonito.

Começou assim:

Oi, Elika. Não trago boas notícias.

Michelle estava com raiva e desanimada com o mundo.

Seu Carlos que foi para uma “hospedaria administrada por chilenos que o receberam com todo carinho teve uma discussão com uma hóspede e mesmo sem ter sido convidado a se retirar em momento algum, porque estavam honrando o acertado comigo, saiu e sem dar satisfação alguma não mais voltou para a hospedaria. Regressou às ruas, ao mesmo local e a Renata ao encontrá-lo gravou o áudio que segue na sequência com ele repetindo que não gosta “dessa raça” de japoneses e chilenos.”

No áudio, seu Carlos xingava todo mundo. Mandava todo mundo enfiar tudo no famoso orifício. Falava de um pão que não quiseram dar a ele, mandava o chileno enfiar o pão na busanfa, reclamava que não pediu nada a ninguém, mandava enfiar o material que Michelle arrumou para ele fazer os artesanatos no buraco da Renata…

olha… que áudio, minha gente, que aúdio…

Michelle devolveu o dinheiro que havia arrecadado da vaquinha para as pessoas e estava indignada como ficamos diante de uma ingratidão.

Ela era um misto de raiva, abatimento, desalento, desesperança e prostração assim como ficam aqueles que acabaram de sofrer um assalto.

Eu, que até aquele momento havia me colocado como observadora, resolvi escrever algo no grupo.

Calma, Michelle.

Capítulo 4: Calma, Michelle.

Vou reproduzir aqui parte do que falei para ela:

As pessoas são muito complexas. A pobreza não se resume a não ter dinheiro mas também a uma carência de troca de experiências e amor.

Não o julgue. Não fique chateada. Seu Carlos não fez porque é ruim e até mesmo o preconceito (neste caso, em relação aos chilenos e japoneses) é carência de outros estímulos.

As histórias de cada pessoa que carrega sofrimentos são muito diferentes de quem sempre teve família, casa e recebeu amor.

Quem não tem sequer família certa não pode ser comparado com quem teve muita coisa nessa vida. Cada ser humano é um universo limitado pelos nossos pretéritos imperfeitos.

[…]

Como disse, Michelle, o ser humano é muito complexo. Não sabemos os gatilhos que nos fazem melhorar. Mas entendi – com o que já testemunhei por aí – que dinheiro nem sempre resolve a situação.

Não é para ficar triste e nem desanimada. Já vi pessoas carentes roubando quem lhes ajudava. Não guardei ódio. Não sei que ser humano seria se eu (não) tivesse recebido o mesmo.

Você deu o melhor de você e é isso que sempre importa. Se ele não correspondeu, paciência.  Não raro, acontece isso com uma amizade e  com um companheiro. A gente faz e não tem o feed back.

Porque não é assim mesmo que funciona a vida. A simetria de sentimentos não é a regra. Expectativas e realidades são coisas muito distintas.

Volto a dizer, a pobreza é super complexa. Quem dera fosse só dar oportunidade, dinheiro e casa… Quem dera. Quem dera a miséria se resolvesse com dinheiro. Somos, em vários sentidos, Michelle, também miseráveis.

Com esse episódio, temos só motivos para ficar felizes. Foi uma oportunidade de crescermos, nos conhecermos e fazermos o bem à nossa maneira, do jeito que sabemos. Se ele não se sentiu bem, ele carrega lá suas histórias.

Não é culpa dele.

Nem nossa.

Nem de ninguém.

Perdoem, seu Carlos. Não estou dizendo para ajudá-lo de novo, mas para não guardar mágoa.

A gente não está na pele dele e não conseguiremos jamais entender o que ele sentiu com a nossa intervenção.

Saber o que cada um precisa e como melhorar o mundo para as pessoas é o grande desafio de cada dia.

Só para terminar, vou dar dois exemplos que me vieram à cabeça agora:

Havia uma comunidade. Alto índice de criminalidade. Pessoas brigavam por tudo ali. Energia péssima. Um grupo de artistas que anda por aí resolveu “pintar” a região. Com o tempo, as pessoas começaram a ver cores e se voluntariar para pintar também. A comunidade ficou toda colorida e o índice de criminalidade diminuiu drasticamente ali. Quem poderia adivinhar que o efeito seria esse?! Como assim era só pintar? Pois é.

Outra: uma escola em outra comunidade. Crianças brigavam muito. Ninguém prestava atenção em aula alguma. Professores em surto. Daí chegou um cara que sabia meditar. Resolveu colocar todo mundo para meditar vinte minutos assim que chegasse. A escola mudou da água para o vinho.

O que leva as pessoas a enxergarem o amor? Tinta? Respiração? Jamais sabemos…

Temos que fazer a nossa parte. E só. Sem esperar jamais nada em troca. Seja do seu Carlos, do marido e dos filhos.

Você é ótima. Estou muito feliz por ter te conhecido. Parabéns por tudo!

Bola para frente.

Escrevi tudo isso assim que acordei. Nunca mais teve nenhuma interação no grupo.

Agora começa a história que queria lhes contar.

Capítulo 5: A história que queria lhes contar

Michelle, eu soube muito depois, mais precisamente no dia 19 de dezembro, se emocionou com o que eu havia escrito. Não quero aqui dizer que fui eu quem “mudei” Michelle. Longe disso. Desde o início, quis deixar claro que havia uma pessoa animada em ajudar outras pessoas. A minha postagem mostrando Seu Carlos foi um estímulo mas se não fosse ela, seria outra coisa. Quando queremos mudar o mundo e a nós mesmos, qualquer folha caindo pode ser o estopim dentro da gente para uma grande metamorfose, ou seja, quando queremos transmutar é porque já estamos transformados.

Michelle não desistiu do mundo. Amém. Entendeu que ser grato não é obrigação e sim um privilégio.

Pasmem, com o texto que escrevi, Michelle pegou algumas frases e fez as primeiras camisas de um projeto grandioso não somente pelo número de pessoas assistidas mas por ele ter nascido.

O mais difícil de tudo é sempre começar. Por isso, há muita coisa que já nasce gigante mesmo vindo de uma semente pequenina.

Michelle iniciou as vendas das camisas e, com o dinheiro arrecadado mais as histórias que tem ouvido das pessoas que estão dormindo nas ruas, Michelle já conseguiu que 42 pessoas voltassem para o seu lar. Muitas pessoas que vemos pelas ruas vieram de outras cidades, de outros Estados, estão por aqui porque não têm dinheiro para voltar.

Michelle conseguiu fazer vários reencontros com os familiares.

Hoje, há um site que tem tudo organizado:

http://www.devoltaaolar.com.br

Mais as páginas nas redes onde são compartilhadas alegrias:

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/

Todos o recurso que se arrecada é revertido imediatamente para a causa. Aqui se faz todo o trabalho de pesquisa da vida do acolhido, contato com familiares, custeiam a viagem e fazem o acompanhamento da chegada. Tudo isso é sempre narrado para quem quiser acompanhar.

Essa é a história que queria contar para vocês.

Há várias dentro dela, percebem?

Não dá para ficar feliz com tudo o que foi narrado porque caridade não traz felicidade e muito menos conforto. Pelo contrário, traz angústias porque encaramos de frente a inapetência do poder público e a injustiça. Porém, essa inquietude no peito é um tipo de motor.

Não lhes contei tudo isso por vaidade, ou vá lá, talvez um pouco. Fiquei feliz em ter conseguido ter calma e escrito o texto para Michelle no dia em que ela estava desanimada. Não gosto de ver energia boa dizimada por aí.

A necessidade de compartilhar essa história também não é pela surpresa que tive ao ter reencontrado Michelle, de ter ganhado uma camisa e ela ter me dito: é de sua autoria essa frase!

–  Ôxi  jura, Michelle?

– Você nem sabe o quanto de histórias tenho para lhe contar, Elika.

A ânsia de deixar tudo isso registrado nos detalhes vem da vontade de apresentar esse projeto tão bacana e ter constatado mais uma vez que a beleza não é coisa que se vê e sim que se semeia sem fantasias.

Já dizia o poeta: A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida.

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Em tempo, seu Carlos segue no mesmo lugar e continua conversando muito animado com quem por ali freia para ouvi-lo e queira conhecer seu artesanato. Fica feliz quando compramos algo dele.

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Repetindo:

http://www.devoltaaolar.com.br

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/

 

Iti Malia Luiza, Márcia e seu Lúcio.

Já falei muito sobre a Márcia aqui, a pessoinha que conheci que ajuda pessoas em situação de rua há mais de 20 anos. Hoje quero falar da Maria Luiza, a netinha da Márcia de quatro anos.

Maria Luiza cujo nome completo é Iti Malia Luiza acompanha a avó em várias atividades.

Para a criança que cresce em um ambiente repleto de pessoas que não têm sequer onde dormir, a forma de olhar o mundo é outra. O conceito de amor, beleza e amizade que Maria Luiza já tem em sua cabecinha é bem diferente do que vemos nas novelas.

Márcia fica doida com Maria Luiza que não para quieta. Vejam vocês, outro dia a menina saiu do carro da vovó, viu um guardador de rua imundo, fedorento e não pensou duas vezes. Correu para lhe dar um abraço e conversar com ele.

Quando Márcia olhou, a neta já estava agarrada na perna do homem que, ao ver o rosto da avó, colocou as mãos para cima assustado dizendo – no olhar apavorado – que foi Maria Luiza que havia tomado a iniciativa daquela união.

Márcia não pensou duas vezes. Deu uma bronca daquelas.

Na Maria.

– Maria! Você sabe lá se ele quer esse abraço? Quantas vezes já te falei que não pode sair abraçando as pessoas assim, Maria Luiza? Perguntou a ele se podia abraçar antes? Desculpa, moço, ela é muito levada!

O moço que se chama Lúcio abriu um sorriso como aqueles que veem o garçom chegando com a comida.

Maria Luiza aprendeu a abraçar as pessoas que gosta. Ela já sabe que a verdadeira beleza é coisa que não se vê e sim que se semeia.

E seu Lúcio tem conhecimento, como qualquer ser humano, que muitas dores se dissolvem com um abraço e que é no abraço, mais do que qualquer outro gesto, que as pessoas se encontram e se gostam.

Mas seu Lúcio sabe mais do que isso.

Sabe que um abraço pode ser dado sem que dois corpos se encontrem e que Márcia quase lhe quebrou uma costela.

Por quem as sementes florescem?

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Aconteceu, gente. Eu vi uma forma de felicidade. Vou tentar descrevê-la.

Perdi a noção um dia e convidei Maria Gadu para cantar para pessoas em situação de rua que Márcia ajuda há mais de 20 anos ali em São Cristóvão (Rua Bela, 795). Fiz o pedido como aqueles que nos estendem a mão nas calçadas esperando uma moeda.

Qual foi minha surpresa ela aceitou de pronto!

A data seria especial: nossa festa de Natal.

Ontem preparamos, com tudo o que foi nos doado (inclusive por muitos de vocês) uma ceia maravilhosa e Maria Gadu cantou lindamente para um público bem diferente do qual ela está acostumada. Maria Gadu cantou com a alegria de uma mãe batendo palmas no aniversário de um filho.

Hideo, meu filho músico, deixou tudo preparado para ela no palco que veio direto de São Paulo para nossa festa. Mal Gadu sentou e pegou no violão, pediu para que Hideo ficasse ao lado dela.

Réchi tégui emocionada

Yuki também se apresentou ao lado da Gadu porque Hideo achou que seria legal o caçula aproveitar a oportunidade. Cedeu a vez para o irmão como um faminto que divide um prato de comida.

Réchi tégui chorei baldes

Gadu emocionou demais.

Vou colocar aqui uma mensagem que mandei para ela por Whatsapp assim que ela topou, eu anunciei nas redes a novidade e algo aconteceu:

“Oi, Gadú. Vou falar uma parada aqui para você.

Sou muito sem noção. Eu sei. Esse negócio de ser suburbana me fez ficar assim. Acho que foi isso.

Conheci a Márcia no ano passado. Ela trabalha com pessoas em situação de rua há 20 anos. A bicha tem é história viu.

Me senti uma ameba diante dela. Uma vida dedicada a ajudar o outro.

A população vulnerável aumentou. Comecei a entrar em desespero quando vi tudo de perto e a pedir socorro nas minhas parcas redes que cresceram sabe Deus por quê.

Pede daqui pede dali e a gente vai dando conta com o que conseguimos do nosso jeito.

Daí fui falar com você. Você topou. Nenhuma data amarrada ainda em nome de Jesus mas Deus viu nossa boa vontade (Digo isso desse jeito por retórica porque sou ateia por parte de pai).

Daí, feliz que estava, compartilhei a novidade na rede. “Maria Gadú topou cantar para a galera, gente”. Não falei em data. Não falei mais nada. Disse isso. Desse jeito.

Um fenômeno aconteceu.

Pessoas se prontificaram a ajudar também. Mas muitas! Pencas de pessoas! Epidemia de gente do bem. Enxame de amor. Coletivo de luz. Impressionante.

A associação passou o dia todo recebendo ligações. Doações já começaram a aparecer.

Estamos falando para as pessoas que estão entrando em contato que se você for, não será aberto ao público de fora e sim só para as pessoas que frequentam o local.

Não importa. Geral quer ajudar mesmo assim porque Maria Gadú isso Maria Gadú aquilo amo Maria Gadú…

Estou te contando tudo isso porque estou impressionada com o que estou vendo aqui. Sei que você é uma artista e tanto e não é isso que me surpreende, digo, as pessoas te amarem.

Estou impressionada com a mobilização e a força de um(a) artista para fazer o bem (ainda que nada aconteça, a dizer, o show em si).

Espero que você conheça a Márcia e as pessoas que trabalham ajudando outras. Espero que você possa cantar e emocionar quem nada tem.

E ainda que tudo tenha sido um sonho doido da minha cabeça, quero te agradecer pela confiança e por você existir.”

Ela estava em turnê internacional quando lhe fiz o convite e, alguns dias depois, mandei a mensagem acima.

Verdade foi que conseguimos tudo bem antes do dia da festa que foi ontem. Teve comida, roupa, enfeites, tudo! A festa já seria perfeita mas, ainda assim, Deus nos mandou Maria Gadu. Agradeci em silêncio sorrindo olhando tudo como aqueles que acreditam Nele, pois o que seria lindo teve um quê de divino.

No carro, saindo do evento, ela me contou uma coisa: no dia em que recebeu o meu convite, ela estava muito triste lá em Portugal por estar longe de casa e ter recebido uma notícia extremamente ruim sobre a perda de uma amiga.

Disse para mim, a seguir, que a minha mensagem equilibrou seu universo particular e me agradeceu muito por isso com a cabeça encostada no meu ombro.

Chorei disfarçadamente como aqueles que, depois de muita suspeita, deparam-se com uma prova esperada.

Era isso e muito mais que queria compartilhar com vocês hoje. Tem algo além que as palavras não alcançam mas espero que vocês consigam captar daí.

O amor é muita coisa, gente.

A arte resiste. E, de fato, faz um bem danado para nossas vidas.

Obrigada a todas as pessoas que contribuíram para a realização dessa festa de um jeito ou de outro.

Obrigada, Márcia, pela oportunidade de me fazer crescer tanto ao lado dos meus filhos.

Obrigada, Maria Gadu, por ter confiado em mim e por existir.

Para finalizar, as pessoas em situação de rua precisam de ajuda o ano todo. Toda as quartas, faça chuva com enchente faça chuva sem enchente aqui no Rio, estamos na rua Bela em São Cristóvão oferecendo oportunidade para banho, roupas limpas e um jantar para quem lá chegar.

Como vocês sabem, o número de gente sem casa aumentou muito e precisamos de doações sempre. O ano todo.

Independente de Natal, se você quiser doar roupa, comida e tempo para ajudar, só chegar lá. Faço esse aviso como aqueles que compartilham a descoberta de um curso gratuito.

Deixo aqui o celular da Márcia para quem quiser maiores informações 21 98627 5163

Foi lindo, gente. E há de ser sempre assim. E, se tudo correr bem, com menos caridade e mais políticas públicas.

O amor resiste porque viver só não basta. E floresce porque as sementes servem para isso.

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