A história que queria lhes contar

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Nem sei como começar a contar essa história porque não sabemos quando as histórias nascem e, caso procuremos uma cadeia causal vendo a vida (que é algo tão difuso, complexo e cíclico) como linear, teremos que começar pelo Gênesis.

Ainda assim, vou tentar.

E vou fazer mais, vou ser precisa.

Tudo começou no dia 19 de Abril de 2019.

A história é tão louca que vou dividir em capítulos para ver se consigo mostrar o quão imprevisível é esse negócio chamado encontro e quão poderoso é esse outro negócio chamado reencontro.

Capítulo 1: Seu Carlos e Michelle

Mudei-me há um ano para o Largo do Machado e, por aqui, como em muitos lugares do Brasil, vemos muitas pessoas fazendo a calçada de cama. Pelo fato de andar mais pelas ruas e ajudar no que consigo essa população vulnerável, já conheço pelo nome muitas pessoas que não têm onde morar e algumas de suas histórias.

Na noite do dia 19 de Abril deste ano, ao voltar para casa, depois de ter levado meu irmão até a porta do metrô, vi Seu Carlos e, como sempre, falei com ele. Mas esta noite especificamente, eu e ele estávamos a fim de conversa e ficamos mais de uma hora numa prosa sem fim.

Seu Carlos sempre me chamou a atenção pelo seu talento. É um artesão de mão cheia. Usa folhas velhas de jornais e revistas para fazer bandejas, pratos, cachepôs, … tudo com um cuidado danado como aqueles que não têm pressa.

Naquela noite, soube de uma grande parte da história dele. A nossa troca me sensibilizou muito e fiz o que faço quando fico emocionada: escrevo e compartilho com quem quiser me ouvir.

O texto foi postado no Facebook e dizia assim:

Esse é seu Carlos. Ele tem dormido na rua como tantas pessoas que temos visto. Seu Carlos já foi pescador. Hoje está com a perna quebrada (sem gesso e atrofiando porque não consegue usá-la) e cheio de artrite. Mas diz que não consegue ficar parado porque “cabeça vazia moradia do cão”, como ele disse.

Seu Carlos é um artesão. Faz coisas lindas usando revista velha. Todas as vezes que passo ali perto da Praça do Largo do Machado, lá está ele tricotando papel. Passa um dentro do outro e vai tecendo cachepôs, caixas, baús e muitos pensamentos. Tudo isso com o braço meio torto e sem uma posição boa para sentar.

Eu quis ajudar. Perguntei a seu Carlos o que ele queria muito no momento. Ele disse que era uma perna nova. Rimos os dois por fora como aqueles que ganham um presente indesejado.

Daí ele disse que se comprassem o que ele fazia já ajudava bem. Comprei algumas coisas e deixo aqui umas fotos do trabalho dele. Quem quiser, ele está por ali nos arredores da Praça perto da Igreja.

Seu Carlos mandou avisar a todos vocês que, se alguém quiser, ele ensina de graça e com prazer.

Está hoje por ali no Largo do Machado porque foi expulso das ruas do Leblon. A polícia pegou todo o material do seu Carlos e disse para ele sumir para sempre.

Não sei quanto tempo ele ficará onde está e muito menos como vou conseguir dormir depois de ter ficado tanto tempo olhando no fundo dos olhos deste Brasil.

 A seguir, postei essa foto:

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E milhares de seguidores e seguidoras curtiram e comentaram. Mas uma, em especial, por um motivo que me escapa, resolveu mudar a vida de Seu Carlos. Essa era a intenção.

Michelle acabou mudando a vida de mais de 40 pessoas.

Menos a do Seu Carlos.

Capítulo 2: Juramento de Hipócrates

Michelle assim que viu a postagem, recém operada, tomou uma decisão. Toda trabalhada no juramento de Hipócrates, saiu de Copacabana para ver a perna do seu Carlos. Queria porque queria internar seu Carlos num hospital, tirar seu Carlos da rua, arrumar um lar para seu Carlos, ajeitar os documentos dele, colocá-lo cadastrado em uma feirinha de artesanato e mais um tanto de coisa que não dei conta nem de ler.

Michelle, no dia seguinte, me mandou uma mensagem pedindo para que eu me encontrasse com ela ali “no Seu Carlos” para a gente se conhecer e ver o que faríamos por ele. “Leva um Isaac”, me pediu se referindo ao meu livro Isaac no Mundo das Partículas.

Na minha cabeça e no meu universo que tem o tamanho de uma uva passa, tudo o que eu poderia fazer pelo seu Carlos havia feito e fiquei meio assustada com a animação da moça que sequer conhecia.

Mas não sou de negar chamado de gente animada.

Desci com Isaac para ver Michelle de perto com a curiosidade daqueles que vão conhecer um templo.

Michelle estava com a filha, com disposição e com esparadrapo no nariz e com pontos na região dos seios. Com um lenço, secava a coriza vermelha que saía das narinas. Falava sem parar. Tinha planos para seu Carlos e me contou como faríamos para tocá-los adiante. Eu a olhava e a ouvia como fazem aqueles que chegam atrasados na aula de cálculo.

Com a delicadeza de quem arranca uma flor, expliquei para a danada da Michelle que não poderia pedir dinheiro para vaquinha já que me tornei uma “pessoa pública” e recebo inúmeras mensagens de pessoas me pedindo algum tipo de ajuda por dia. Disse que não entendo nada de hospital, nem de perna, nem de documento e que não saberia como ajudar mais do que havia feito. Estava sendo sincera. Sou limitada e extremamente perdida.

Michelle não me ouviu assim como fazem meus filhos. Juntou mais uma advogada que comentou na minha postagem e criou um grupo no whatsapp chamado “Grupo do Cláudio” e começou a falar lá um monte de coisas que a gente tinha que fazer.

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As duas foram tocando o barco. Conseguiram, enfim, tirar seu Carlos daquela calçada,. Ela estava super feliz até que…

Capítulo 3: Oi, Elika. Não trago boas notícias.

No dia 14 de Maio acordei e fiz que fazemos até mesmo antes de abrirmos os dois olhos. Verifiquei as mensagens no celular. Qual foi minha surpresa, Michelle estava cuspindo marimbondos e só não chamava seu Carlos de bonito.

Começou assim:

Oi, Elika. Não trago boas notícias.

Michelle estava com raiva e desanimada com o mundo.

Seu Carlos que foi para uma “hospedaria administrada por chilenos que o receberam com todo carinho teve uma discussão com uma hóspede e mesmo sem ter sido convidado a se retirar em momento algum, porque estavam honrando o acertado comigo, saiu e sem dar satisfação alguma não mais voltou para a hospedaria. Regressou às ruas, ao mesmo local e a Renata ao encontrá-lo gravou o áudio que segue na sequência com ele repetindo que não gosta “dessa raça” de japoneses e chilenos.”

No áudio, seu Carlos xingava todo mundo. Mandava todo mundo enfiar tudo no famoso orifício. Falava de um pão que não quiseram dar a ele, mandava o chileno enfiar o pão na busanfa, reclamava que não pediu nada a ninguém, mandava enfiar o material que Michelle arrumou para ele fazer os artesanatos no buraco da Renata…

olha… que áudio, minha gente, que aúdio…

Michelle devolveu o dinheiro que havia arrecadado da vaquinha para as pessoas e estava indignada como ficamos diante de uma ingratidão.

Ela era um misto de raiva, abatimento, desalento, desesperança e prostração assim como ficam aqueles que acabaram de sofrer um assalto.

Eu, que até aquele momento havia me colocado como observadora, resolvi escrever algo no grupo.

Calma, Michelle.

Capítulo 4: Calma, Michelle.

Vou reproduzir aqui parte do que falei para ela:

As pessoas são muito complexas. A pobreza não se resume a não ter dinheiro mas também a uma carência de troca de experiências e amor.

Não o julgue. Não fique chateada. Seu Carlos não fez porque é ruim e até mesmo o preconceito (neste caso, em relação aos chilenos e japoneses) é carência de outros estímulos.

As histórias de cada pessoa que carrega sofrimentos são muito diferentes de quem sempre teve família, casa e recebeu amor.

Quem não tem sequer família certa não pode ser comparado com quem teve muita coisa nessa vida. Cada ser humano é um universo limitado pelos nossos pretéritos imperfeitos.

[…]

Como disse, Michelle, o ser humano é muito complexo. Não sabemos os gatilhos que nos fazem melhorar. Mas entendi – com o que já testemunhei por aí – que dinheiro nem sempre resolve a situação.

Não é para ficar triste e nem desanimada. Já vi pessoas carentes roubando quem lhes ajudava. Não guardei ódio. Não sei que ser humano seria se eu (não) tivesse recebido o mesmo.

Você deu o melhor de você e é isso que sempre importa. Se ele não correspondeu, paciência.  Não raro, acontece isso com uma amizade e  com um companheiro. A gente faz e não tem o feed back.

Porque não é assim mesmo que funciona a vida. A simetria de sentimentos não é a regra. Expectativas e realidades são coisas muito distintas.

Volto a dizer, a pobreza é super complexa. Quem dera fosse só dar oportunidade, dinheiro e casa… Quem dera. Quem dera a miséria se resolvesse com dinheiro. Somos, em vários sentidos, Michelle, também miseráveis.

Com esse episódio, temos só motivos para ficar felizes. Foi uma oportunidade de crescermos, nos conhecermos e fazermos o bem à nossa maneira, do jeito que sabemos. Se ele não se sentiu bem, ele carrega lá suas histórias.

Não é culpa dele.

Nem nossa.

Nem de ninguém.

Perdoem, seu Carlos. Não estou dizendo para ajudá-lo de novo, mas para não guardar mágoa.

A gente não está na pele dele e não conseguiremos jamais entender o que ele sentiu com a nossa intervenção.

Saber o que cada um precisa e como melhorar o mundo para as pessoas é o grande desafio de cada dia.

Só para terminar, vou dar dois exemplos que me vieram à cabeça agora:

Havia uma comunidade. Alto índice de criminalidade. Pessoas brigavam por tudo ali. Energia péssima. Um grupo de artistas que anda por aí resolveu “pintar” a região. Com o tempo, as pessoas começaram a ver cores e se voluntariar para pintar também. A comunidade ficou toda colorida e o índice de criminalidade diminuiu drasticamente ali. Quem poderia adivinhar que o efeito seria esse?! Como assim era só pintar? Pois é.

Outra: uma escola em outra comunidade. Crianças brigavam muito. Ninguém prestava atenção em aula alguma. Professores em surto. Daí chegou um cara que sabia meditar. Resolveu colocar todo mundo para meditar vinte minutos assim que chegasse. A escola mudou da água para o vinho.

O que leva as pessoas a enxergarem o amor? Tinta? Respiração? Jamais sabemos…

Temos que fazer a nossa parte. E só. Sem esperar jamais nada em troca. Seja do seu Carlos, do marido e dos filhos.

Você é ótima. Estou muito feliz por ter te conhecido. Parabéns por tudo!

Bola para frente.

Escrevi tudo isso assim que acordei. Nunca mais teve nenhuma interação no grupo.

Agora começa a história que queria lhes contar.

Capítulo 5: A história que queria lhes contar

Michelle, eu soube muito depois, mais precisamente no dia 19 de dezembro, se emocionou com o que eu havia escrito. Não quero aqui dizer que fui eu quem “mudei” Michelle. Longe disso. Desde o início, quis deixar claro que havia uma pessoa animada em ajudar outras pessoas. A minha postagem mostrando Seu Carlos foi um estímulo mas se não fosse ela, seria outra coisa. Quando queremos mudar o mundo e a nós mesmos, qualquer folha caindo pode ser o estopim dentro da gente para uma grande metamorfose, ou seja, quando queremos transmutar é porque já estamos transformados.

Michelle não desistiu do mundo. Amém. Entendeu que ser grato não é obrigação e sim um privilégio.

Pasmem, com o texto que escrevi, Michelle pegou algumas frases e fez as primeiras camisas de um projeto grandioso não somente pelo número de pessoas assistidas mas por ele ter nascido.

O mais difícil de tudo é sempre começar. Por isso, há muita coisa que já nasce gigante mesmo vindo de uma semente pequenina.

Michelle iniciou as vendas das camisas e, com o dinheiro arrecadado mais as histórias que tem ouvido das pessoas que estão dormindo nas ruas, Michelle já conseguiu que 42 pessoas voltassem para o seu lar. Muitas pessoas que vemos pelas ruas vieram de outras cidades, de outros Estados, estão por aqui porque não têm dinheiro para voltar.

Michelle conseguiu fazer vários reencontros com os familiares.

Hoje, há um site que tem tudo organizado:

http://www.devoltaaolar.com.br

Mais as páginas nas redes onde são compartilhadas alegrias:

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/

Todos o recurso que se arrecada é revertido imediatamente para a causa. Aqui se faz todo o trabalho de pesquisa da vida do acolhido, contato com familiares, custeiam a viagem e fazem o acompanhamento da chegada. Tudo isso é sempre narrado para quem quiser acompanhar.

Essa é a história que queria contar para vocês.

Há várias dentro dela, percebem?

Não dá para ficar feliz com tudo o que foi narrado porque caridade não traz felicidade e muito menos conforto. Pelo contrário, traz angústias porque encaramos de frente a inapetência do poder público e a injustiça. Porém, essa inquietude no peito é um tipo de motor.

Não lhes contei tudo isso por vaidade, ou vá lá, talvez um pouco. Fiquei feliz em ter conseguido ter calma e escrito o texto para Michelle no dia em que ela estava desanimada. Não gosto de ver energia boa dizimada por aí.

A necessidade de compartilhar essa história também não é pela surpresa que tive ao ter reencontrado Michelle, de ter ganhado uma camisa e ela ter me dito: é de sua autoria essa frase!

–  Ôxi  jura, Michelle?

– Você nem sabe o quanto de histórias tenho para lhe contar, Elika.

A ânsia de deixar tudo isso registrado nos detalhes vem da vontade de apresentar esse projeto tão bacana e ter constatado mais uma vez que a beleza não é coisa que se vê e sim que se semeia sem fantasias.

Já dizia o poeta: A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida.

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Em tempo, seu Carlos segue no mesmo lugar e continua conversando muito animado com quem por ali freia para ouvi-lo e queira conhecer seu artesanato. Fica feliz quando compramos algo dele.

————————————————————–

Repetindo:

http://www.devoltaaolar.com.br

https://www.facebook.com/devoltaaolarprojetosocial/

https://www.instagram.com/devoltaaolarprojetosocial/

 

3 comentários em “A história que queria lhes contar

  1. Tao emocionada, o ser humano é sempre surpreendente. Parabéns Michelle, e a você Elika obrigada por existir. Peço licença pra espalhar uma frase sua deste relato que me toucou muito. ¨¨Quando queremos mudar o mundo e a nós mesmos, qualquer folha caindo pode ser o estopim dentro da gente para uma grande metamorfose, ou seja, quando queremos transmutar é porque já estamos transformados.¨¨

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