Era uma vez no meu banheiro…

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Ontem, último dia de 2019, eu e Pipo passamos a tarde e parte da noite vendo filmes. O último tinha sido Era uma vez em… Hollywood de Quentin Tarantino. O filme é tão bom que ainda vou fazer um texto sobre ele e contar para vocês algumas observações que me ocorreram. A cena do Brad Pitt e Leonardo di Caprio fazendo uma chacina num grupo de hippies foi antológica. Há um momento em que Di Caprio usa um lança chamas para acabar de matar uma pessoa que estava na piscina toda ferida que é algo memorável que mexe com coisas dentro da gente.

Mas aconteceu algo aqui que tomei como prioridade e não tem nada a ver com o filme.

Lá pelas tantas da noite, deu vontade de fazer parte do mundo e resolvemos sair para ver os fogos ali no Aterro.

– Vou tomar banho, falei como falam todos quando vão tomar banho e tem mais gente em casa.

Fui.

Feliz que estava, abri o chuveiro cantando, ensaboei-me rebolando o popozão, saí do box como a Beyoncé entrando no palco, peguei a toalha e me enrolei nela como a Pablo Vittar num vestido longo.

Mal saí pela porta do banheiro, senti algo estranho incomodado e me espetando.

Levantei parte da toalha, passei a mão e peguei… argh! uma barata.

Abre parênteses

Eu tenho pavor de qualquer inseto, mas besouros e baratas causam muito mais do que pânico em mim. Perco o controle e sou sim capaz de sair correndo pelada pelos corredores de um prédio ou, como já aconteceu sem maiores prejuízos físicos, de um carro em movimento.

Pipo já viu o quanto eu padeço com eles.

Fecha parênteses

Pipo estava ainda sentado no sofá, mas ao ouvir minha gritaria veio rápido, como se estivesse galopando em um cavalo de um filme de western, ver o que estava acontecendo.

Eu gritava pelada e apontava a nojenta, asquerosa, nauseante, porca, bolsominian barata que estava já na parede enquanto pisoteava a toalha arremessada no chão.

Na tela,  em plano fechado, há uma mulher gritando. O vídeo não tem som. Só vemos a expressão de terror da coitada aos berros em slow motion puxando os cabelos que estão começando a ficar grisalhos.

A nossa gata que deveria ter vindo imediatamente se escondeu debaixo da poltrona assustada com a gritaria, o escarcéu, a inferneira e a grulhada que tomou conta de um lar que, outrora, seguia super em paz.

Pipo aparece em cena. Pediu para eu tomar distância com um sinal feito com a boca e o queixo somente.

Pipo pegou rápido um tapete no chão, jogou na nojosa, capturou o bicho ascoso, correu para outro banheiro e jogou a barata no vaso. 

Eu corri para o chuveiro de novo.

Vi, de repente, um clarão entrar pela porta.

Pensei que fossem fogos.

Vi outro.

– Pipo?

Na tela agora, Pipo está no banheiro dos fundos. A câmera está em linha reta com a nuca dele de forma que vemos o mocinho olhando a barata que está meio tonta se afogando porque ele tinha acabado de dar um jab, um cruzado e um direto nela por cima do pano.

A câmera agora está de novo em um plano fechado.

Pipo está puto porque sua amada estava feliz e não merecia esse trauma.

Plano fechadíssimo nos olhos do Pipo que se contraem de ódio e visualiza uma ideia.

Pipo toma uma decisão.

Sai correndo se apoiando pelas paredes de casa e derrapando nas curvas.

Eu estou me lavando com esponja de aço e veja limpeza pesada tentando arrancar meu coro debaixo do chuveiro.

Movimentos bruscos da minha mão direita esfregando meu braço esquerdo em plano detalhe na tela.

Corta para o Pipo de novo.

Ele pega um isqueiro e um spray multiuso wd40 que usamos para tirar ferrugem de nossas bicicletas e que é altamente inflamável.

Pipo volta na velocidade da luz para o vaso onde está a hedionda imergindo naquela água com as pernas para cima.

Pipo acende o isqueiro e lança o spray do wd40 em direção à imunda passando pela flama do pequeno acendedor de fogo.

Gente do céu que Pipo fez um maçarico.

Primeiro clarão.

Eu paro o que estou fazendo e olho para o teto tentando entender.

Segundo clarão.

Não entendo e fico assustada. Não ouço barulho de fogos e sim algo que parece um furacão dançando como um boneco de posto.

Vuuushshsvvuuuuuuoooooooo

Terceiro clarão.

– Pipo?

Saio do chuveiro sem pegar toalha nenhuma porque estou traumatizada.

Encontro-me nua, molhada e arranhada de bucha com Pipo cheio de fuligem preta no rosto limpando o suor da testa no meio do corredor.

– Essa não volta mais. Te garanto, meu amor.

Rimos muito. Nos abraçamos e tive que tomar mais um banho.

Em plano americano, está nós dois de branco e de costas olhando a queima de fogos na praia. A tela vai se fechando e abaixando. Perto de nosso pés descalços, uma maria farinha, uma espécie de caranguejo branco de areia, se aproxima de meus pés sem que percebamos.

Barulho de fogos com a tela toda escura.

 

2 comentários em “Era uma vez no meu banheiro…

  1. Acho que me esqueceram no apto. Da janela vejo a Maria se aproximando de teus pés, ajeito bagunça do apto e já fui😊😘 Feliz Ano Novo seus lindos!🥂💫

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