Medusa Suburbana

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Foto: Pipo

Veja se a vida tem sentido:

Em tempos de censura, um grupo super bacana de artistas teve uma música retirada de uma rede social. Eu, que já tinha ouvido a canção por compartilhamentos de terceiros, lamentei profundamente assim como me aflijo, por exemplo, com o ministro da Educação falando mal de Paulo Freire e pela quantidade de pessoas dormindo nas ruas.

Lucas Bueno, Paulo Cesar feital e Nina Wirtti fizeram um CD chamado “lágrimas” que – como poderia explicar… – não tem músicas e sim hinos de resistência basicamente. É de chorar ao sentir tanta força (dessas que vemos somente nessa coisa mágica que chamamos por aí de Arte). Pelas redes, não se ouvia mais nada deles dado nosso Estado de Exceção.

Teve um show de lançamento do CD no Teatro Rival, aqui no Rio de Janeiro. Vi o público – que lotou a casa – aplaudindo o trio de pé por minutos. Saí do teatro emocionada como aqueles que sentem na pele muitas dores como da saudade de Marielle e dos tempos que víamos a desigualdade social diminuir.

Adquiri o CD na hora.

Enfim, virei fã e dependente química de Lucas, Paulo e Nina.

E teria acabado a história aí se o mundo fosse um lugar desinteressante de viver.

Um dia desses comuns em que Bolsonaro relincha aos sete ventos, eu resolvi não compartilhar as alucinações dessa galera e sim dividir uma sabedoria milenar. Isso posto, falei de manteiga e expliquei para quem quisesse me ouvir que se você colocar um pouquinho de água filtrada na temperatura normal em cima de qualquer manteiga dura, você consegue passá-la no pão com toda facilidade. Ela fica cremosa, macia e a água não se mistura com a manteiga. Depois é só jogar a água que fica no pote fora.

E teria morrido aí também essa outra história se o mundo fosse somente um lugar divertido de viver.

Mas ele é muito mais do que isso.

Lucas Bueno comentou nessa postagem que eu havia mudado a vida dele. Disse-me que estava eternamente grato e que não sabia nem como me agradecer. Eu, que não me enxergo, respondi assim que li: faça uma música para mim e estamos quites. Falei desse jeito como aqueles que jogam na mega sena e entendem muito bem de probabilidades.

Compreendi, hoje, que somando as loucuras é que se vive fascinantemente. Já havia entendido mais ou menos, mas hoje, especificamente, enxerguei melhor essa equação.

Dias depois, veja você, recebi a música que nem título tinha:

“Te vi na trincheira
Rara flor de Madureira
E quando me olhou
Foi apogeu
Medusa Suburbana
Com ares de Havana
Seus olhos puxados
Não me tornaram pedra
Mas uma ideia

Empoderada
Professora, Aquariana
Que não crê nos astros nem em Deus
Mas crê piamente
Nos artistas, nas suas manas
Em “NarayukiHideo”

Se Paulo Freire é seu griô
E Marielle é sua Orixá
Me sinto à vontade pra cantar o amor
Ninguém vai nos censurar
Pode negar os beijos meus
Mas por favor não solte a minha mão
Eu amo andar contigo assim na contramão
Pois eu encontrei na luta seu coração.”

Agora você vê. Provocar o outro é a única salvação individual que conheço: não estaremos jamais perdidos se jogarmos sementes e recebermos água em troca.

Eu ensinei o cara a passar manteiga no pão e ele vai e muda a configuração do universo para me agradecer. Concluo que Lucas Bueno é a pessoa que mais gosta de pão com manteiga no mundo. Não há outra explicação.

A responsabilidade do título dessa obra linda ficou por minha conta. Batizei de Medusa Suburbana porque… bem… ela já nasceu batizada.

A gravação foi feita hoje em um dos melhores estúdios aqui no Rio. Mas a história ainda não acabou porque a história, pelo fato do mundo ser tão provocativo, a história não acaba nunca, meu deus.

Sou ateia, como está na letra feita por Lucas. Mas tenho amado acima de todas as coisas e apesar de tantas coisas. Tenho visto o infinito conforme permito que devaneios entrem pelas minhas frestas e não sinta vergonha de fazê-los sair em forma de ideias vacilantes.

Ao ver tamanha beleza, pedi permissão para fazer um clipe e, em breve, teremos essa lindeza cantada até mesmo para as pessoas surdas de todo Brasil. Tenho estudado libras diariamente e tenho a pretensão de, no fim da vida, dizer que fiz desse mundo tão árido o melhor lugar para a gente ensaiar um grande espetáculo.

Meu tempo é sempre escasso porque aprender me consome muito e compartilhar tudo o que vejo foi a maneira mais emocionante que encontrei de existir.

Obrigada, Lucas e todos vocês, por aceitarem o pão (com manteiga) que ofereço.

2 comentários em “Medusa Suburbana

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