Sem as mãos!

Quando era criança e adolescente, eu ia muito para Itajubá que fica no sul de Minas. A família toda da minha mãe é de lá. Lembro-me que andava demais de bicicleta e conseguia pedalar durante muito tempo sem as mãos até mesmo em estrada de terra.

Há pouco mais de um ano, pela primeira vez em minha vida, mudei meu CEP. No local em que estou agora, há ciclovias. Acabei vendendo meu carro e comprando uma bicicleta. Um privilégio. Eu sei.

Assim que voltei a pedalar, com 46 anos, com a forte recordação de já ter feito isso de braços abertos, soltei o guidão e imediatamente me desequilibrei e fui ao chão. 

Tentei de novo. 

Nada. 

Mais uma vez… não adiantava. Não conseguia. 

Poderia ter me conformado como fazem as pessoas que têm aversão à rebeldia. Mas isso está longe de ser o meu caso e não houve um dia em que eu tenha andado de bicicleta que não tenha soltado as minhas mãos e sentido a Terra toda balançar.

Até que aconteceu. 

E foi hoje.

Meu corpo se lembrou de como faz e, do mesmo jeito que abrimos um álbum de fotos e nos projetamos para aquele tempo, virei novamente criança pedalando sem usar as mãos numa manhã de Domingo.

Fui pegando cada vez mais autoconfiança.

Já estava pedalando rápido, desviando das pessoas, fazendo curvas e com as mãos sem qualquer compromisso. Vivi uma espécie de alegria tal qual a de um surfista vendo a onda perfeita chegar. 

Foi quando de tão feliz resolvi pegar o celular dada a segurança que estava sentindo. A intenção era filmar e mostrar para quem não acreditasse que euzinha sou rainha do meu castelo, dona do meu nariz, Cleópatra do Egito, Anitta do funk, tenho capacidade para elevar o PIB do Brasil e posso encerrar minha carreira de professora e ir trabalhar no circo.

A manhã estava linda e eu, plena na orla de Copacabana vendo o dia nascer. 

No exato momento em que me preparava para mostrar ao mundo a beldade, a diva, a ninfa, a crisálida da firmeza, da constância e da estabilidade que há em mim, um cocô de passarinho caiu bem em cima de meu braço. 

E garanto que não foi de um sabiá porque o volume daquela merda toda era maior, muito maior, do que essa ave tão querida pelos poetas.

Olhei para o céu e vi lá perto do infinito um bando de urubu voando em círculos. 

A manga comprida do braço direito de minha blusa branca que me protege de raios ultra violentos foi toda cagada de bosta de urubu justamente na hora em que imitava o Cristo redentor.

Aquele cocô se espalhou rápido pela roupa dados o vento e a falta de solidez de qualquer excremento desses bichos cobertos de penas.

Parei como freiam os indignados.

Pensei em todas as variáveis daquela equação. 

Medi, pelo olho, a distância entre mim e a estratosfera onde rolava aquela revoada urubuzenta. Avaliei a velocidade que pedalava em linha reta com a das aves fedorentas que adejavam numa trajetória curva. Olhei para o mar e para a quantidade de asfalto e chão que me cercavam. Lembrei da minha felicidade minutos antes. Fiz contas rápidas de cabeça porque sou boa nisso e concluí que a probabilidade daquilo acontecer – somente por ocasião do acaso – era zero.

Achei Deus parecido com minha mãe, embora minha mãe não seja tão boa assim em matemática.

Ambos têm esse jeitinho meio bizarro meio estúpido de se comunicar comigo oferecendo proteção. Se falassem de outra forma, eu – que diante algo lúdico me lambuzo – jamais pararia.

Como só se vive no rascunho e nunca saberemos o que teria acontecido caso não houvesse essa intersecção vinda do céu, olhando aqui essa mancha de bosta na minha roupa que não sai fácil e percebendo que meu capacete também não foi poupado dessa chuva de merda, não sei se agradeço a brutalidade do recado porque tenho consciência da grandeza da minha teimosia ou se me ofendo por terem jogado, literalmente, na minha cara que a minha volátil exuberância seria um abuso – como se não soubessem o quanto gosto de ser superlativa.

Há ainda uma terceira opção.

Posso desistir de fazer qualquer conexão e ser humilde a ponto de aceitar a contingência do mundo.

A impetuosidade assim como a rudeza divinas seriam desconstruídas e eu me daria a bênção e a paz de voltar a aceitar tudo o que não compreendo.

 

 

 

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