O sábio japonês e seu cão

A história que eu vou contar não se passa em uma aldeia isolada no Japão há milênios e sim na década de oitenta em Madureira. O sábio japonês é meu pai.

Isso posto vamos à história real que me deu um grande ensinamento, a dizer, que nem tudo o que a gente aprende nos torna mais inteligentes.

Meu pai veio do Japão com 28 anos sem saber falar nada de português. Aos 30, com um vocabulário limitadíssimo, casou-se com minha mãe e tiveram quatro filhos. Minha mãe – que já foi freira – sempre nos falava que para se comunicar no amor há outras línguas. Eu nunca soube se ela estava sendo romântica ou tarada, mas isso não vem ao caso nessa história. Foco no sábio japonês e seu cão.

Morávamos em um casa em Madureira com um quintal enorme onde havia uma mangueira e um coqueiro. Para proteger a casa, meu pai comprou um cão. Na verdade, era uma cadela toda cheia de pedigree que prometia lealdade e inteligência pela sua raça: collie.

Abre parêntese:

Para quem tem mais ou menos a minha idade, sabe que a raça ficou famosa por conta da série Lassie, uma collie que sempre salvava humanos que por algum motivo entravam em perigo. Até hoje, Lassie é o animal mais famoso do cinema superando com folga o porquinho Baby e a coruja do Harry Potter.

Fecha parêntese.

Para minha infelicidade, colocaram o nome da cachorra de Laika. Digo isso porque me chamo Elika e todos lá de casa viviam trocando o nosso nome a ponto de eu latir quando acertavam. Mas foco no sábio japonês e seu cão.

O sábio japonês tinha várias habilidades, dentre elas, a marcenaria. Assim que Laika chegou, meu pai fez uma casinha de madeira bem parecida com a do Snoopy, pintou de amarelo e finalizou colorindo algumas partes de azul. Ficou uma graça! A gente se divertia só vendo.

Em cima da portinha da casinha, lia-se LaIKA. O “a” minúsculo foi porque meu pai havia se esquecido de colocar o primeiro “A” e, depois, expremeu-o entre o “L” e o “I”.

Nada que estragasse a obra.

Mas meu pai foi além.

Ele resolveu fazer um banheiro do lado de fora da casa, na verdade, bem distante da casinha da Laika porque meu pai é higiênico.

Ele fez uma caixa grande de madeira, pintou também de amarelo, coloriu da mesma forma que na casinha algumas extremidades com o azul e escreveu W.C.. Comprou alguns sacos de areia e tcharã: uma caixa de areia para cachorro. Foi a primeira e única vez que vi isso na minha vida. Achei muito interessante.

Logo de cara eu, lá com meus 6 anos de idade, não entendi por que diabos W.C. significava Banheiro de Cachorro. Quando perguntei para meu pai, ele respondeu que no lugar do “B”, ele havia se enganado e colocado o “W”. Como ele já havia errado o “A” de LaIKA anteriormente, concluí que aqueles erros poderiam ser por causa da falta de familiaridade com o português. Até hoje quando leio W.C., traduzo como banheiro de cachorro como se meu pai tivesse pintado todas as portas de banheiro pelas quais passei.

Foco na história.

Laika inicialmente cagou para a caixa de areia e não NA caixa de areia. Ela corria, brincava por todo aquele quintal e fazia cocô e xixi em um outro cantinho daquele vasto espaço acimentado.

Meu pai, com toda a paciência e sabedoria que trouxe do oriente, sempre que via a Laika fazendo as necessidades dela fora do B.C., esfregava o focinho da Laika no xixi dizendo “não”. Depois corria com ela para a caixa de areia, apontava e dizia: aqui xixi. Aqui cocô.

Como meu pai não ficava muito tempo no quintal, ele pedia para a gente gritar por ele sempre que nós víssemos a Laika se preparar para eliminar as sobras da ração. É muito importante o cachorro saber quem é o dono, dizia meu pai.

Por dias, semanas talvez, vi meu pai esfregando o focinho da Laika e, depois, roçando-o na caixa de areia. Não. Aqui xixi. Aqui cocô.

Nada daquele filhote de collie responder a tamanha dedicação e ensinamento.

Meu pai falava que todo mundo tem seu tempo e que era para a gente respeitar o da Laika.

Eu observava tudo atentamente.

Até que um dia aconteceu.

Laika começou a fazer xixi no cantinho que ela sempre gostava de fazer.

Gritamos “PAI! CORRE!”. Meu pai veio correndo lá de dentro da casa como aqueles que sabem o que querem da vida. Se alguém me contasse, eu não acreditaria. A comunicação entre um animal e um ser humano, de fato, é uma coisa muito doida e linda de se ver.

Eu apreciava tudo com o semblante dos que vivenciam a iminência de um gol.

O olhar da Laika cruzou com o do seu Takimoto.

Milésimos de segundo de tensão.

É agora, pensei.

Imediatamente, Laika esfregou sozinha o focinho no xixi e correu para limpá-lo na caixa de areia.

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