Flores para Laura e Maurício

Laura e Maurício estavam casados há uns 20 anos para mais. Laura já tinha tomado para si como verdade de que com mais de quarenta anos, a mulher perde a libido e o poder de sedução. Maurício não pensava sobre essas coisas.

Um dia, mais precisamente na terca-feira, a campainha tocou quando o casal estava vendo o jornal na televisão da sala. Laura se prontificou, como sempre, a atender. Era da floricultura e o buquê era “para a mulher que morava naquele apartamento”.

Laura recebeu o buquê de rosas ornamentado lindamente. Colocou em um vaso bem no meio da mesa da cozinha. Virou a cabeça de lado lentamente conferindo a imensidão de formosura.

Correu para beijar Maurício.

Ele – que não tirou os olhos da televisão – estranhou o carinho. Acho que até se sentiu um pouco incomodado, mas Laura seguia faceira adulando seu marido.

Quando Maurício chegou na cozinha, estranhou o colorido e perguntou para Laura o que era aquilo.

– Como assim, Maurício? São as flores que você me deu.

– Eu? Eu?! Não comprei flor nenhuma não, Laura. Quem te deu isso?

Laura não sabia responder. Procurou algum cartão escondido no meio das flores e nada.

– Não faço ideia, Maurício. Eu jurava que tinha sido você.

Maurício ficou, como dizem, bolado. Boladaço. Disse que sabia que Laura não fazia questão de flores e muito menos via graça em rosas. E complementou que seja lá quem fosse que tivesse dado aquilo não conhecia Laura como ele, Maurício, seu marido.

– Se te conhecesse bem, daria um… daria um… daria…

– Maurício, quem te disse que não gosto de flores, Maurício? Quando você me ouviu dizendo que não gosto de rosas, Maurício. Hein, Maurício?

Maurício buscou nos porões mais profundos e empoeirados de sua memória alguma frase de Laura para lhe jogar na cara.

– Você nunca falou que gostava, respondeu como aqueles que concluem que não existe aquecimento global quando estão diante de um inverno rigoroso.

Foram dormir.

No dia seguinte, Laura teve dificuldade em escolher a roupa para ir trabalhar e colocou brincos maiores. Laura demorou-se mais no banho do que de costume.

Maurício perguntou, assim que ela chegou do trabalho, se ela havia descoberto quem havia lhe dado aquilo.

– Não faço ideia, Maurício. Pensei que tivesse sido você. Já te disse.

– Ninguém falou nada lá na empresa?

– Não, Maurício.

Durante a semana que se passou, Laura trocou a água das flores duas vezes e o corte de cabelo, uma.

Na terça-feira, a campainha tocou novamente quando ambos estavam no sofá. Laura lia a autobiografia da Rita Lee. Maurício assistia qualquer coisa na TV.

Laura fechou o livro, ajeitou a blusa e foi ver quem era.

– Boa noite. Entrega para dona Laura.

Gente do céu que era de novo o florista com um buquê daqueles…

Laura recebeu as flores sem remetente e foi mostrar para o marido.

– Foi você dessa vez, Maurício? – perguntou como as pessoas que têm muitos medos, mas também determinadas esperanças.

– O que é isso, Laura? De novo? Não! Não fui eu, Laura. – respondeu enquanto olhava para o rosto da Laura que se misturava com as flores em que ela mergulhava o nariz.

Laura cuidou do segundo buquê melhor do que se encarregou do primeiro e ocupou-se dela – como se fizesse parte de um jardim cheio de pólens e abelhas.

Maurício seguiu questionando. Ambos buscavam na mente quem poderia estar por trás daquele gracejo e abuso, como Maurício já estava considerando. Mas nada. Laura era muito tímida, vivia para a casa, nem conversava direito com vizinhos, trabalhava em uma repartição em que as pessoas mal tinham tempo de ir ao banheiro, enfim, não dava para desconfiar de ninguém.

Laura chegou a ligar para o pai que morava em outra cidade. Além de não ter sido ele, ainda aconselhou Laura a não ficar “se engraçando por aí com qualquer um”.

Vou resumir a história porque hoje as pessoas andam sem tempo. E essa história melhora muito daqui para a frente.

Laura seguiu se arrumando melhor. Mais animada. Passou a se exercitar com mais frequência. Maurício que, no início, sentiu sabe deus o quê (mas, sentiu), do segundo buquê para cá, agiu.

Maurício voltou a usar perfume e na quarta, quando Laura chegou em casa, havia um jantar especial pronto.

Laura e Maurício foram ao cinema no fim de semana.

Na terça seguinte… dim dom! Lá estava o florista de novo que repetiu sua visita pelo menos umas três vezes.

Mas houve uma segunda-feira. Laura ainda não havia chegado do trabalho quando tocou a campainha.

Maurício atendeu.

Não era o florista e sim a vizinha de cima do 504.

Pela porta meio aberta com a antipatia dada aos moradores dos prédios, Maurício cumprimentou a vizinha.

– Boa noite, senhor. Um amigo me mandou um buquê de flores, perguntou se eu havia recebido, disse ele que foi na terça. Era para ser uma surpresa e estava esperando pela minha resposta. Hoje, teve coragem de me perguntar o que eu havia achado das flores. Eu não sabia o que dizer porque não as havia recebido. Perguntei ao porteiro sobre elas que me disse que um florista veio na terça e entregou um buquê no 404. Não quero as flores não, já devem estar murchas, só gostaria de saber se vocês receberam esse buquê ou se meu amigo está brincando com a minha cara. Sei lá, senhor. Desculpa incomodar, mas é importante eu saber.

Maurício olhou para o buquê ainda viçoso na mesa da cozinha que era cuidado com toda atenção por Laura. Olhou para a vizinha.

– Realmente, senhora, recebemos um buquê que foi jogando ontem fora. Não havia remetente. Mas certamente era para a senhora.

A vizinha riu animada batendo palminhas rapidinhas fazendo carinha de criança em véspera de praia e foi-se como se tivesse uma Lua só sua para uivar.

Maurício nunca tocou no assunto com Laura.

Assim que Laura abriu a porta, Maurício sugeriu uma viagem linda para os dois.

Nunca mais o florista apareceu.

Fim.

Não. Pera. Faltou uma coisinha.

Foi Laura que comprou, com exceção do primeiro, todos os buquês para ela.

4 comentários em “Flores para Laura e Maurício

  1. Amei, amei, amei. Amei principalmente a perspicácia dos dois que utilizaram-se do episódio para incrementar o casamento para voltar a se cuidarem a se olharem a se interessarem por uma vida em comum e passaram a agir. Muitíssimo interessante.

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