Brincando de gangorra

Há exatos exatinhos quatro anos, esta foto foi tirada. Foi na noite em que conheci Pipo e ficamos conversando por sei lá meodeos oito, nove, dez horas e nunca mais nos largamos.

Estávamos cheios de planos antes da pandemia. Em 2020, o filme Hermanoteu seria lançado e iríamos participar de várias estreias pelo país. Eu como a primeira dama da Warner. Vejam vocês. Saindo de Madureira e entrando com convite vip nas sessões honrosas nas grandes salas de cinema. Também teríamos livros meus sendo lançados porque sou dessas de falar pelos cotovelos e escrever com os indicadores. E, claro, uma campanha na qual me imaginei correndo a cidade do Rio de Janeiro do Oiapoque ao Chuí.

Pandemia.

Desde março de 2020, estou trancada em um apartamento com ele que sofre diariamente pelas mortes que poderiam ser evitadas e por abstinência de palco. Pipo é do teatro e como integrante do grupo de comédia Os Melhores do Mundo já fez milhões de pessoas caírem na gargalhada por todo esse país.

Tinha espetáculo todo santo final de semana. Eu, que sempre dei aula e palestras em várias universidades e Institutos quase não sossegava em casa. A gente parecia aquele filme Feitiço de Áquila. Quando eu virava águia, ele virava o Pipo. Quando ele virava lobo, eu ia dar aula. Algo assim para vocês entenderem onde quero chegar. Agora somos o Feitiço do Átila.

Ontem caí na gargalhada no meio de uma frase. Eu tinha feito uma comidinha diferente e ele elogiou. Fiquei super feliz porque em 2021 a gente fica feliz por coisas que jamais iríamos imaginar. Tentei externar tamanho sentimento. “Ah, meu amor, eu cozinho pensando em voc…”. Quem disse que era capaz. Parecia a minha avó falando. Achei graça de lembrar da minha avó, mas mais do que isso. Ri como os que percebem o mundo girando e o quanto precisamos nos equilibrar em cima dele. Gargalhei como quem entende o que estamos fazendo por aqui. Abracei Pipo como os que agradecem.

Está difícil escrever para contar sobre outras gargalhadas esquisitas que ocorrem aqui entre nós. História não tem faltado. Mas quatro mil mortos por dia com cada vez mais pessoas pelas calçadas pedindo comida requer foco e tenho medo de ser um agente que dispersa nessa luta urgente. Queria, porém, dizer para vocês que dentre tantas coisas, temia por esse relacionamento que tanto me fez bem desde o primeiro dia. A gente nunca sabe como iremos reagir quando nos trancam dentro de casa e tem um vírus mortal lá fora.

Há muita miragem no deserto e eu sempre soube, como professora de física, explicá-la. Mas há os oásis também e tento usar a minha sobrevivência nesta pandemia para compreendê-los.

Pipo tem sido como aqueles que brincavam com a gente na gangorra do parquinho. Quando estávamos lá embaixo, somente com a ajuda do outro conseguíamos subir sorrindo. E quando estávamos lá em cima, era nossa vez de fazer o outro subir.

Permanecemos aqui trancados cuidando um do outro. Limpando a casa e testando os produtos de limpeza como ele acabou de me mostrar agora a embalagem de uma cera que prometeu fazer nosso chão de espelho e cadê.

Seguimos fazendo abdominais, pilates, comida e amor como aqueles que entendem a profundidade de um encontro que aconteceu a exatos exatinhos quatro anos atrás.

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