Sobre Ensino e Aprendizados

Sempre amei dar aula. Quanto mais agitada a turma, sentia-me mais desafiada. Tive e mantive amizades com alunos e alunas que eram extremamente rebeldes.

Passei anos estudando e aplicando novas metodologias em sala de aula que podemos trabalhar, para além dos conteúdos, novas competências como o prazer de atuar no coletivo. Daí veio a pandemia e com ela um ensino remoto que não é sinônimo de ensino à distância (que há todo um preparo das aulas com muita antecedência, material didático impresso voltado para isso e encontros presenciais esporádicos).

O ensino remoto é outra parada.

Aqui a gente se vira com o que tem em tempo recorde. A aula começa e as câmeras estão todas fechadas. A aula termina e continuo sem ver nenhum rosto. Não dá para obrigar ninguém a abrir a câmera porque muitos não têm câmera. Outros ficam com vergonha da casa ou tem um irmão dormindo ali atrás. Ou seja, seria uma invasão de privacidade. O jeito é ninguém ver ninguém.

O mundo acabando lá fora – até mesmo dentro de muitas casas – e eu, às sete da manhã, com minha mesa digitalizadora projetando meus gráficos, minhas equações e resoluções de problemas que envolvem variáveis como velocidade, aceleração, valor da carga, massa…

Todos os dias, vem à minha cabeça a imagem dos músicos do Titanic. No meu caso, não sei tocar violino e o que me deram sequer tem cordas. Mas sigo tentando fazer algo bonito. É isso que quero dizer.

Durante o contra turno, fico à disposição para tirar dúvidas. Sempre aparece alguém para justificar alguma falta ou atraso na entrega de uma atividade assíncrona.

Tem de tudo.

Mãe que fugiu de casa, vó que foi morar com a família depois da morte do avô, morte do avô, morte do tio, morte d… e faltas. Faltas que se justificam com outras faltas como falta de Internet, falta de vontade e falta de comida.

Há muitos que conseguem se concentrar. Isso é um fato. Tenho alunos e alunas que demoravam quase 3 horas para ir e voltar do CEFET e estão aproveitando esse tempo extra que o ensino remoto dá para ler e estudar.

Uma questão preocupante é a cola. Não dá para passar nenhuma atividade ou mesmo prova à distância sem que haja transferência e troca de informações entre eles. Antes da pandemia, eu já estava modificando a minha forma de avaliar. Utilizando uma metodologia adequada, permitia que a prova fosse feita por um grupo. Quando diga feita é feita mesmo. Era um grupo que fazia as questões da prova. Elaborava cada problema. Há tempos acho que uma boa pergunta feita com conhecimento e criatividade vale mais do que uma resposta.

Mas com ensino remoto tudo fica mais difícil.

Estou tentando fazer algo com a mesma essência que fazia presencialmente: incentivo pelo trabalho coletivo, pela pesquisa e pela criatividade. Não encontrei ainda um caminho. Enquanto isso, aposto no velho e poderoso diálogo.

“No lugar de colar, formem grupos, aproveitem a oportunidade. Explique o que fez para quem não conseguiu. Lembrem-se que passaremos mais alguns meses assim e que há uma formação em curso que é a sua. Se não conseguir, venha até mim. Te darei quantas avaliações forem necessárias para que você suba sua nota. Mas quero ver o que você fez.”

Todo dia esse discurso. Hoje, uma nota sete me traz muita mais alegria do que um dez. Começou o ano letivo com todo mundo gabaritando e, agora, já tenho notas diferentes e debates sobre erros. Bem se sabe o quanto aprendemos com eles…

Por que estou dividindo isso com vocês? Pela vontade de compartilhar uma experiência que me trouxe muita dor e aprendizado nesses tempos tão difíceis. Sei que muitos que me lêem estão passando por isso e possuem diversas outras histórias para contar.

Saudade demais de entrar numa turma barulhenta, de encontrar colegas no corredor da escola e esperar a minha vez de beber água no bebedouro.

Dói quando ouço que a categoria não quer trabalhar e por isso insistimos ficar em casa. Estamos trabalhando. O conceito de escola transcende um lugar cercado de muros. A escola está acontecendo. O ponto é que não é fácil ensinar presencialmente quando temos medo de morrer. Nós, da Educação, temos um quê de Paulo Freire e ensinamos, sobretudo, o respeito pelo coleguinha, mais precisamente, pela vida do coleguinha.

Já tem pesquisa feita em lugares pelo mundo mostrando que profissionais da saúde e da educação são os que mais têm morrido em relação a outras profissões.

Sobre aulas, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino remoto dando condições para que crianças e jovens tenham boa Internet em casa e equipamento adequado para isso. E, antes de um tablet, que tenha comida dentro de casa porque com fome ninguém faz nada muito menos tarefas assíncronas.

Eu sei o quanto está sendo extremamente difícil. Para vocês, professores e professoras, eu queria deixar meu abraço. Mas um abraço daquele que só dá quem entende a dor do outro. Um abraço de troca. De conexão e de apoio.

7 comentários em “Sobre Ensino e Aprendizados

  1. Um abraço aos professores, e em especial para você Elika um abraço com axé. Tenho muito admiração por você e pelo seu trabalho.

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  2. Sinto o mesmo, ausência do olhar , aquelas caras de que não estão entendendo, o uso excessivo de celular em sala de aula não sinto não, mas, difícil mesmo conseguir uma câmera aberta, vozes já consegui. Abraços , sinto que preciso me transformar muito para ser um bom professor virtualmente.

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