Filhosofia

1-Nara, minha filha, pare de andar no meio dos nerds na escola. Eles são muito sem-graça. Fique no meio dos bagunceiros. Eles são muito mais divertidos (contanto que não faltem o respeito com ninguém! aiaiai!) Garanto que vc morrerá de saudades de seus amigos quando sair da escola. Hideo, meu filho, saia da bagunça peloamordedeos! Sente lá na frente pelo menos uma vez na vida, criatura! Não vê que eqto vc está rindo igual um bobo tem um japonês prestando atenção na aula, meu filho! Sai dessa vida, jesuis! Como educar essas crianças hoje é complicado, né não!? Fala sério!

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2- -Mãe não quero comer isso não. – Yuki mais uma vez testando minha paciência.
-Ótimo, meu filho, come mesmo não, viu? Porque você nem sabe o que aconteceu com o último que comeu essa lasanha das galáxias.- Dá-lhe criatividade, Elika!
– Ãh? – Ele se interessou…Estava indo por um bom caminho!
– Lasanha das galáxias!tá ligado? Isso mesmo, garoto. Come nada disso não. Porque senão vc vai correr mais rápido que um foguete e ninguém quer ver isso por aqui…vou fritar um ovo para vc. – Mantém, Elika, mantém!!!
– O ovo dos dinossauros que vc pegou e que vai me fazer ficar grandão? – Vixi… tinha esquecido do super ovo que só eu sabia como pegar…
– Não. Ovo de galinha mesmo que vai te encher de pena. – Surtei. Dá-lhe psicologia, depois eu resolvo essa. Um problema de cada vez…
– Eu não quero ficar com pena! Eu quero a lasanha das galáxias! – Rá!!! Ponto pra mim!

Não basta ser mãe. Tem que alimentar!

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3- De onde é que eu vim, mamãe? Perguntou Yuki com a testinha franzida. É. Bem… Embora eu já tenha passado por isso duas vzs a pergunta sempre me faz gaguejar. Mas tudo certo. Calma, Elika. Vc se preparou para esse momento. Bem… Vc já viu como o corpo do papai é diferente do corpo da mamãe? Viu que papai tem um rabo? Quer dizer, tipo um rabo? Então. Lembra daquele feijão que a gente plantou no algodão? É…bem… Agora imagina a semente no rabo. Ok. Enquanto eu alucinava nas reprodução, Yuki suspirou de desânimo. E expirando e inspirando sem entender patavinas falou: O Davi Peruzo veio de Minas, o Gabriel Almeida de São Paulo, o Ian de Florianópolis. Todo mundo sabe de onde veio. Eu queria saber de onde eu vim…

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4- Aí vc fala pro filho que só vai sair se arrumar o quarto e o filho vai e arruma tudo em 5 segundos. Vc pega o filho, leva pra onde ele quer e no caminho vai elogiando como ele consegue ajudar nos serviços de casa qdo ele quer. Que não tomou tempo nenhum arrumar o quarto e bababá bububú. O filho concorda com tudo te dá um beijo e sai do carro. Daí vc chega e vê que ele esqueceu um troço jogado no banheiro. Pega o bagulho e vai guardar no quarto do filho obediente. Abre o armário do filho e o quarto cai em cima de vc… Daí vc pega, arruma a bagunça e imprime a cara da menina do Exorcista pra qdo o filho abrir o armário…

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5- Cara, fala sério. Nara ganhou um rímel ma-ra-vi-lho-so da Victoria secret. Me pegou usando e reclamou que nem uma velha coroca. Disse que não. Não pode! Só qdo for festa! E ainda assim com ela olhando. Ela disse que eu passo dez vzs e desperdiço muito. Eu só queria passar um pouquinho todos os dias. Fala sério! Daí eu peguei e disse pra ela: o dia que vc tiver uma filha, ela não vai te emprestar nada! E eu vou dar tudo pra minha neta! E vc vai ficar babando e nós vamos ficar lindas e vc horrorosa! Ouviu? Horrorosa! Comigo é assim. Não tenho paciência com essas infantilidades da Nara… #chateada

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6- Filha mulher faz falta viu. Não consigo mais viver sem minha filha por perto Uma semana sem Nara. Uma semana saindo sem passar delineador…

#tábrabo #tásinistro #tátorto #tátudoborrado

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7- Nara, estou perdidinha sem vc. Completamente desencantada e morrendo de saudades! Não é só pela pipoca doce, é também pelo chá de camomila e pelo arroz empapado. Pelo cookie duro igual uma pedra também. No mais, não tem mais ninguém que me entenda tanto qto vc. Como viver sem isso?

Volta logo da padaria, minha filha.

Beijo

mamãe

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8- -Yuki, eu amo ser sua mamãe. – Disse eu deitada na minha cama no instante em que ele entra no quarto.
– E eu amo ser seu filho. – Disse ele fofamente.
– Mas como sabe se não gostaria de ser filho de qualquer outra? – Cutuquei.
– Eu sei disso porque eu te amo demais, mãe.
– É nessa hora que eu me levanto e te esmago!!!
– É nessa hora que eu caio fora! – E saiu correndo.

Não adiantou. Alcancei, amassei muito a criança e deixei ele todo babado de tanto beijinho.

Amor com amor se paga. *-*

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9- Eu sempre quis bater em aluno. Meu sonho. Mas nunca pude. Por isso era dooooida para dar aula pra filho. Louca pra socar um filho-aluno e ficar livre do estresse e voltar para casa leve e feliz sem que ninguém viesse me apurrinhar.

Agora que finalmente consegui, não via a hora de meter a porrada na Nara, sai essa ‘lei da palmada’. Fala sério! Vou ter que me contentar em só ficar chamando com vontade e aos berros a lerdinha da minha filha de burra quando ela pergunta algo durante a aula. Já é bom, muuuuuito bom, mas eu queria muito mais…

Chateada viu.

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10 – – Yuki, pra vc, o que é um ‘irmão’?

Olhou para a Nara, olhou para o Hideo e respondeu:

– Para mim, ‘irmão’ é uma pessoa da família que pode ser mais velho que vc, pode ser mais novo que vc e pode ter até a mesma idade que vc, mas é uma pessoa com quem podemos fazer de tudo!

Isso é um irmão pra mim. Né, maninha? Né, Hideo?

*-*

Ser mãe de três filhos é muito bom. Ser mãe de três filhos de idades completamente diferentes é um barato! Ser mãe de três filhos de idades completamente diferentes e super amigos é tipo viver na praia em dia de Sol. Deleite total por aqui viu.

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11- Compramos a coleção do Chaplin pra ter em casa e, como quase tudo o que compramos, deixamos ao alcance de quem quise pegar. Ouvi do próprio mestre uma vez que a beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la – mas quem consegue descobre tudo.
Segue daí, ora vejam vocês, que todas as vzs que cheguei em casa nesta semana Yuki estava vendo Carlitos e morrendo de rir. Descobriu a beleza e não quer, pelo menos por enquanto, saber de outra coisa.

*-*

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12- Todas as vezes que Yuki vem me mostrar choroso um machucado, eu recebo a notícia com muita felicidade. Que bom que você se machucou! É sinal que estava fazendo o que devia! Me conte como isso aconteceu. E segue daí que ele me conta a tripulice e morremos de rir com as histórias que vamos trocando, eu de meu turbulento passado quando criança e ele com o presente ornamentado com sangue escorrendo – como da última vez, por exemplo – dos joelhos que, ao meu ver, são laços belíssimos de fita. E finalizo sempre: tomara que deixe cicatriz. Daí você sempre vai lembrar dessa história mega maneira e entender, penso silenciosamente comigo, como já dizia Hannah Arendt, que toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.

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13- Yuki vai comigo para SP na festa da premiação da Saraiva que será na noite de terça. Na verdade, todos daqui vão. Mas ele, hoje, estava chorando por causa disso. O que foi, filhote? Não quer ir? E ele respondeu apavorado: onde vamos tomar banho em São Paulo, mãe? Lá não tem água! Não vê jornal?

Daí eu contei sobre os franceses, sobre como os gatos tomam banho, sobre o poder dos lenços umedecidos, sobre como devemos nos adaptar às várias situações na vida, que isso pode acontecer com o Rio também e vai ser legal viver a experiência antes, que nunca é bem assim como as pessoas falam, que bababá bububu e que era para ele tratar de se acalmar.

Ele estava ficando menos tenso depois daquela conversa. Mas depois de alguns segundos, ele me olhou assustado e perguntou:

– Mãe, mas quem é Alckmin?

Daí, fudeu.

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14- Sempre que Yuki vem me mostrar choroso um machucado, eu recebo a notícia com muita felicidade. Que bom que você se machucou! O mesmo sentimento vale para os mais velhos que se arranham, agora, por dentro. Quando Nara ou Hideo vem para mim sentindo dor de doença da alma e não do corpo – permitam-me o uso de clichês – eu fico feliz ao vê-los assim. Que bom que meus filhos estão dolentes por aí.

No caso do Yuki sempre digo: É sinal que você estava fazendo o que devia! Me conte como isso aconteceu. E segue daí que ele me conta a tripulice e morremos de rir com as histórias que vamos trocando, eu de meu turbulento passado quando criança e ele com o presente ornamentado com sangue escorrendo – como da última vez, por exemplo – dos joelhos que, a meu ver, são laços belíssimos de fita. E finalizo sempre: tomara que deixe cicatriz. Daí você sempre vai lembrar dessa história mega maneira!

No caso dos outros dois maiorezinhos, o processo varia muito. Há vários tipos de dor, padecemos por causas diversas e a minha reação, ainda que sempre muito satisfeita e leve por vê-los aflitos, varia conforme a flagelação. Eu acho que no fundo eu tenho um pouco de Schopenhauer e acredito nessa ladainha de que quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre. E talvez eu seja assim porque na maior parte do tempo os ponteiros dos relógios aqui de casa sorriem. Então, ao ver meus filhos atormentados, torço para que a dor deles beire o insuportável, que o sofrimento seja real e, claro, breve mas que seja vivido em sua plenitude.

Acima de tudo, é uma honra saber que eles se sentem à vontade em deixar escapar pelo nariz, pelos olhos, pela boca e pelas mãos rígidas a dor na minha frente. Confiança é tudo o que temos entre nós. Mas saibam que eu, assim como protejo a felicidade deles, faço o mesmo com a infelicidade. Do mesmo modo que peço para eles se abrirem à alegria, incentivo a chegada do sofrimento, que deve ser fruto dela e seu antagônico desassossego. Se foram capazes de se perder nas festas e de se encontrar na música, é bom deixar que o luto trabalhe sem melindres para aprender a sublimar qualquer ilusão.

Conheço várias pessoas que vivem sem problemas. Percebi que são as mesmas que não interagem com outros, que são menos solidárias e que pouco ou nada se apaixonam. Deve ter sido por isso que desenvolvi tanto essa minha genuína empatia pela dor, principalmente, pela dor dos meus filhos.

(Que fique claro que não sou nem um pouco apegada às ideias de Vinícius para o amor e concorde “que todo grande amor só é bem grande se for triste”. Não estou falando da dor de amor, falo da dor por uma decepção com outras pessoas em geral. Falo da dor da solidariedade e da compaixão. Em matéria de amor, se querem saber, simpatizo-me muito com Renato Russo: se o amor é verdadeiro não existe sofrimento.)

A vida é engraçada e parece só consumir aquilo que a alimenta. Então que sofram depois de terem sofrido, e amem ainda mais depois de terem amado. Rezo, portanto, à minha maneira, que no tormento deles haja encanto, ou melhor, que o primeiro exista por causa do segundo, pois creio que a dor que pode ser suportada é somente aquela que sobre ela puder ser contada uma primorosa história.

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15-

Ontem fui ver As Férias do Pequeno Nicolau no cinema com Yuki. O filme, como o nome indica, é tipo sessãozona da tarde. Mas Yuki abriu o berreiro no final quando Nicolau se despede da amiguinha. Terminado o filme, passado os créditos, as luzes acesas, eu dei uma cutucada.

– Mas, você, hein! Chora sempre em filme. Fala sério! Nas próximas férias eles vão se reencontrar. Ou não. De qualquer forma, não era para tanto.

– Mãe, eu sou libra. Sou sensível. Será tão difícil entender

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16-

Mãe, disse Yuki, anda mais devagar, por favor. Vê se passa por menos buraco. Não deixa o carro tremer tanto. Não passei muito gel e o topete está abaixando com essa tremedeira toda.

Aff. Mais essa.

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17-

Yuki estava atacado e tive que colocá-lo de castigo sem videogame.

– Quanto tempo, mãe?
– Meia hora.
– Meia hora não, mãe! Por favor, dez minutos!
– Nem eu nem você. Vinte minutos. Mas com uma condição. Que neste tempo, você se distraia com um livro.

Nunca usei livro como castigo, que fique claro. Yuki lê sem que eu tenha que obrigá-lo a fazer isso. Mas a ideia que dei foi no sentido de ele ocupar a cabecinha com alguma coisa ao invés de ficar ao meu lado de minuto em minuto perguntando quanto tempo falta para sair do castigo.

– Vai lá no seu quarto e escolha um do seu gosto e volte para ficar lendo ao meu lado.

Yuki foi e voltou em um pé só, como dizem. Trazia Ziraldo para ajudá-lo a passar vinte minutos como se fossem dez. Ficou lendo cinquenta. Quando fechou o livro me perguntou quanto tempo faltava para que ele pudesse voltar a “brincar”.

– Você estava brincando, não percebeu? E ficou lendo durante quase uma hora!
– Mentira sua… Que mágica foi essa, mãe? – Perguntou ele sem acreditar.

Expliquei a ele sobre essa parada de tempo psicológico e o quanto varia um minuto na vida de cada um dependendo de como esse tempo está sendo usado. Quando fazemos o que gostamos, o tempo voa, meu filho, já dizia a minha avó!

– Posso voltar para o videogame?

Placar do dia até agora: Mamãe um. Wii um.

Ainda ganho esse jogo…

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18-

– Mãe, eu posso jantar na casa do Artur? – Artur é o amiguinho-vizinho.

– Não. Você não come direito se não for em casa.
– Mas, mãe, posso? Deixa eu jantar na casa do Artur? Lá tem nuggets!
– Não. A janta já está pronta aqui e está mega saudável para você.
– Mãe, deixa eu jantar lá? Deixa? Deixa eu jantar na casa do Artur?
– Não. Você come pouco quando conversa.
– Mãe, deixa vai deixa? Posso jantar na casa do Artur?
– Yuki, eu já respondi isso. Quantas vezes eu tenho que responder a essa mesma pergunta? E quantas respostas diferentes você precisa?
– Até eu obter o que quero ouvir.
– Mas você repetindo a mesma pergunta não vai mudar os fatos!
– Você não está ficando cansada?
– … – Contei até três em pensamento.
– Posso jantar na casa do Artur?
– Não.
– Mãe, posso jantar aqui em cas…?
– Não!
– Então eu posso jantar na casa do Artur? Oba!!!! Eu te amo, mãe!

Aff. Ainda bem que é bonitinho. Se fosse feio, defenestrava esse molequinho viu.

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19-

Ontem Hideo chegou em casa de madrugada torto, ruim ruim ruim. Bebeu tudo o que o dinheiro de dez aulas (dadas por ele mesmo) deu. Viu que o meu quarto estava com o ar condicionado bombando. Foi, então, no quarto dele e pegou um colchonete e levou arrastando para o meu, deixando a porta escancarada enquanto entrava e saía. Saiu e não mais voltou. Levantei para fechar a porta e voltei a dormir sem me dar conta do que estava acontecendo.

Hoje às seis, acordei e vi o colchonete vazio. Fui ao quarto dele. Lá estava Hideo dormindo de cueca e camisa babando horrores com a luz acesa.

– O que aconteceu, Hideo?
– Não consegui ir. Não consegui ir… – balbuciou.

Levantou-se coçando o saco e foi andando com o joelho meio dobrado, como aqueles que se recusam a ficar em pé, e deitou-se na minha cama.

Agora há pouco, ele veio aqui e me explicou que ao voltar para pegar o travesseiro, acabou sendo meio que fagocitado por ele. Por isso não conseguiu voltar e deitar no colchonete que, também, acabou dormindo sozinho, sem peso de gente em cima.

Hideo sóbrio ou ébrio é quase a mesma coisa.

Que assim continue sendo.

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20-

Mãe, quando eu estiver falando no telefone não fica me gritando! Muito chato isso… Se eu não te respondo é porque não posso te atender naquele momento. Eu estava tratando de negócios e você me berrando… Fala sério isso. Será que você não consegue esperar o momento certo para falar comigo?

Disse Hideo me vendo fazer xixi.

¬¬

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21-

Hoje pela manhã, eu e  Nara vimos um porco rosa do tamanho de um rinoceronte atravessando a Marechal Rondon com ar de quem sabia o que estava fazendo. Um tanto lá na frente, vimos uma anã loira toda arrumada de salto alto subindo no ônibus. Nara, toda adolescente e imatura, acha que tudo foi uma coincidência engraçada e segue a manhã sem esperar grandes coisa do dia. Eu não. Percebi claramente que estou dentro de um conto de fadas. Vou passar o resto do dia na expectativa de ver meu príncipe encantado montado em um cavalo branco vindo sorrindo na minha direção.

Uma feliz sexta-feira para todos nós!

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22-

Hoje eu e Nara acordamos mais bonitas do que os outros dias. Ontem fizemos a festa com um rímel novo que alonga os cílios que é uma maravilha e que não sai nem se esfregar palha de aço umedecida com água sanitária. Dormimos e nem viramos panda!

Gostei da sensação. Agora pronta para deitar passei um batonzinho de longa duração e espero acordar mais formosa ainda! Que venha a segunda-feira!

Boa noite para vocês.

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23-

Hideo, meu filho guitarrista e trabalhador, há dias está boladaço com uma casa que ele foi dar aula particular. Na verdade, era um apartamento e bem pequeno. Em um determinado momento, meu filho pediu para ir ao banheiro que era dentro do quarto onde estava a esposa do aluno dele. A esposa estava vestida e coisa e tal, mas continuou no quarto enquanto ele entrou no banheiro. Qual foi o desespero de Hideo ao perceber que não havia porta alguma. Como eles cagam, gente? Um fica olhando o outro? Como pode banheiro não ter porta??? A mulher não vai sair dali? Como assim? Eles são loucos?, repetia essas perguntas que lhe ocorreram na hora para toooooodos que ele contava e recontava a história.

Acabou que, após  muito se concentrar, ele fez um xixizão com mulher do cara ali ao lado, depois pediu dá licença para ela e voltou a dar aula achando aquele povo da casa muito estranho.

Ontem, ele contou essa história pela milionésima vez, mas pela primeira vez para meu irmão que conhece o tal do cara que vive em um micro apartamento que nem porta no banheiro tem.

– Tony, você já foi naquele banheiro?- perguntou ele indignado.
– Sim. Qual o problema?
– Não tem porta! Como pode o banheiro não ter porta! Como eles cagam, gente? Um fica olhando o outro? – e bababá bububú…

Qual foi a surpresa do Hideo ao ouvir que havia sim uma porta.

Mas era de correr…

E o meu filho é lesado.

Mas gente…

Agora fico imaginando o que a mulher do cara e o cara estão pensando do meu filho.

Moral da história: O julgamento precipitado é sempre uma merda.

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24-

 Expliquei (erradamente) ao Yuki, meu caçulinha de oito aninhos, que antigamente não havia as letra K, Y e W nos teclados.

– Então, como é que vocês riam?

Kkkkkkkkkkkkkk

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25-

Estamos no aeroporto indo passar férias em Floripa. Yuki fez uma bolinha de papel alumínio para o detector de metal pará-lo e ele ter que explicar para a moça que se tratava de um projétil de grande alcance se fosse lançado assim e assado. Se ele passasse sem ser notado, ele ia virar quase um terrorista, assim me falou ele.

Passou a primeira vez pelo detector. Apitou. E ele fez cara de quem não entendeu o que estava acontecendo. Mandaram ele passar de novo e ele passou sem que apitasse.

Agora estamos prontos para desligar o celular no avião e Yuki pronto para atacar Hideo que está a dois bancos na frente com a super bolinha de metal. É isso. As férias estão apenas começando.

Beijo pra quem fica.

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26-

Hoje foi o primeiro dia de aula do semestre para o Yuki e para as crianças de quase todo o Brasil. Yuki, meu caçula de oito anos, foi avisado que tinha um “trabalhinho de férias” antes delas começarem. Eu pensei que fosse facultativo e fiz pouco caso. Afinal, as notas dele estão satisfatórias e brincar para mim é coisa muito séria. Brincadeiras despertam a curiosidade, a criatividade e coisa e tal. Deixei, então, a criança solta. Ele jogou muito futebol, viajou com os irmãos, foi ao Parque de Diversões, andou muito de skate, leu muitos livrinhos comigo, rabiscou e pintou o sete, enfim, férias!, né?

Mas logo no primeiro dia de aula, ele chega da escola nervoso dizendo que a tia vai cobrar o tal “trabalhinho de férias” e que eles eram obrigados a fazer sim senhor e que eu, infelizmente, havia me equivocado. Na agenda, havia nos orientado a fazer um pouco por dia com a criança porque são no total 30 páginas(!!!). Fala sério! Alguma recomendação de livrinho para ler despretensiosamente? Nananinanão.

Enfim, imprimo as 30 folhas para fazer com o guri que já está estressado no primeiro dia de aula. Qual é a minha surpresa que a primeira página estava como título em letras garrafais: MINHAS FÉRIAS. Iniciando com matéria ‘português’ que por sua vez começava com o texto que dizia o seguinte (presta atenção, minha gente, presta atenção!):

“Brincar é uma arte que encanta o ser humano desde a Antiguidade. Com brinquedos e brincadeiras,além de nos divertimos, aprendemos a interagir com o outro e compreendemos melhor as pessoas e o mundo à nossa volta.

As crianças brasileiras não brincam o bastante. Esse é o cenário revelado pela maior e mais minuciosa pesquisa já feita no Brasil sobre o hábito de brincar de meninos e meninas entre 6 e 12 anos. O resultado é preocupante porque dedicar pouco tempo aos jogos pode comprometer o desenvolvimento infantil. Brincar é uma das quatro medidas usadas para avaliar o bem-estar de uma criança ao lado da qualidade do sono, da alimentação e da higiene. ”

E assim começava a primeira de 30 páginas de “trabalhinho de férias”.

Piada pronta, não?

Mas não termina aí. No trabalhinho de férias de geografia está pedindo:

“a) É possível que durante as férias, você sinta saudades da convivência com os amigos. A escola também é um local importante para você. Escreva três atividades importantes que você aprendeu na escola.”

Resposta de Yuki: Copiar, ficar sentado de boca fechada e o que mais posso dizer, mãe?

Aff. Socorro!

E nem vamos falar da ‘matemática financeira’ que perguntou se uma pessoa comprasse todos os bonecos-mascotes que serão vendidos na olimpíada em uma loja durante 12 dias (por que cargas d´água alguém ia querer fazer isso???) e quisesse dar a mesma quantidade de bonecos para cada um dos seus oito sobrinhos, quantos bonecos cada sobrinho receberia? (para que dar tanto boneco-mascote ridículo para cada sobrinho, meu deus? Para quê?)

Não é à toa que o grande mestre Albert Einstein disse ser “nada menos que um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não estrangularam por completo a sagrada curiosidade”.

Enfim, se me leu até agora, obrigada por me ouvir. Precisava desabafar.

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27-

Minha mãe, a vovó Ruth, sempre estuda com o Yuki, meu caçula de oito anos, e ele ama ficar com ela. Hoje, o texto que eles discutiram foi um curtinho do Carlos Drummond. Para quem não conhece vou colocá-lo aqui antes de terminar de contar o que vovó Ruth acabou de me narrar.

“Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.

Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

– Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.”

Esse foi o texto do poeta que estava no dever de casa de português. Papo vem papo vai entre avó e neto, trabalhinho de casa, enfim, terminado. E vovó Ruth resolveu brincar com a cara do Yuki:

– Então, garoto, você não sabia para que servia uma bigorna?
– Sabia, vó. Claro que sabia.
– Sua mãe escreveu no facebook que não. Que você não sabia e ela contou mais um monte de coisas de como fez você entender o que é uma bigorna e para que ela serve.
– Vó, entenda uma coisa. – disse Yuki. – Minha mãe é um caso de poesia.

*-*

Aqui jaz eu. Morta de amor.

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28-

– Mãe, você vai correr? – perguntou Hideo.
– Vou. Vamos?
– Vamos. – e se deitou ao meu lado.
– Ué. Vamos!
– No três a gente levanta. Pode ser?
– Pode.
– Um, dois…
– Pera. Vai até 13 que eu tenho que pensar numa coisa aqui.
– … 10, 11… Mãe, e se a gente for para o Resenha tomar um chopp com meus amigos?
– Pode ser depois da corrida?
– Ok. Pode. No três a gente levanta então.
– tá.

Me levantei e liguei o ar. Deitei de novo.

– Mãe, por que você ligou o ar? Eu já vou começar a contar até três!
– Escureceu. Será que correr no escuro é bom?
– Mãe, tem luz nos postes. No três, mãe.
– Bora então! Começa logo a contar.
– Mãe, será que não vai ficar muito tarde para depois a gente sair pro chopp?
– Correr de barriga cheia faz mal, né?
– Ué. A gente não ia correr antes?
– Então. De barriga vazia deve ser até pior.

Mas gente…

Moral da História: Quando dois não querem um não faz.

Partiu buteco com filho.

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29- Se Nara me disser que é lésbica e Hideo e Yuki me disserem que são gays… Tô nem aí para isso. Mas acreditarem em astrologia?!? Onde foi que eu errei, meu pai? Onde foi que eu errei?!? Por que, jesus? Por quê?

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 30– Mãe, você já percebeu que quando a gente sonha que morre isso é tipo um despertador? – sondou-me Yuki com seus nove anos.
– A gente sempre acorda, né? – corroboreim
– É.Passaram-se uns dois minutos e ele volta.

– Mãe.
– Oi.
– Eu fiquei pensando… E se a morte for tipo isso? um despertar? mas para outra vida? como você diz? dimensão? Eu sei que não tem como provar isso, mas não seria legal se fosse assim? Vamos acreditar nisso? Acredita comigo?
– Formô. É nóis.

E eis que pela primeira vez eu não consigo negar uma espécie de religião.

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 31-
Antigamente Nara e Hideo perguntavam, antes do nome, a operadora da pessoa que estava sob a mira deles. Hoje eles perguntam a operadora, o signo, o ascendente e dependendo do que ouvirem o nome. Aff. Onde foi que eu errei???
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 32-
 – Mãe – disse Yuki agora pouco ao telefone que está com a avó em Mangaratiba – ontem peguei doce pra caraca aí.- Estão dando doce ainda? – pensei me lembrando de São Cosme e Damião.
– Se liga, mãe. É raloim!
– Garoto, tu é brasileiro. Deixa disso.
– Mãe, fala sério. Hideo usa aifone e eu não posso pegar doce?

Se não fosse filho meu eu ia ficar com mó cara de pamonha mal assada. Como é, estou só com cara de pamonha mesmo.

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 33-Cheguei em casa. Havia deixado Hideo e Nara cuidando de tudo enquanto dei um pulo ali em Minas e em SP. Algumas observações:

Hideo faz bagunça por onde passa e pelo que estou entendendo aqui ele andou em todos os lugares da casa. Aff.

– Tem baquetas de bateria no meu banheiro e um violão na minha cama. Como assim? O que com teseu?

– Ou eles comeram miojo durante três dias seguidos ou rolou a festa do miojo com umas vinte pessoas. Concluo pelo lixo.

Nara tomou banho todos os dias.

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 34-
É a primeira vez que participo de um evento importante sem Nara por perto. Estou completamente perdida de tanta falta que sinto dela. Não consigo acertar passar esse fucking delineador sozinha! Vou dar autógrafos parecendo um panda! Mas gente…
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 35-

Eu hoje fui dar bom dia para Nara.
– Bom dia, filha.
– Nossa! Bom dia. Nossa!

Fui tomar café e Hideo veio me dar bom dia.
– Bom dia, mãe! Nossa!
– Bom dia, filho. O que houve?
– Nossa!

Resolvi me olhar no espelho. Saí ontem a noite. Me entupi de rímel e delineador. Cheguei em casa dormi, entrei em coma na verdade e ressuscitei pela manhã com cara de panda. Escovei os dentes mas, devo confessar, eu sempre babo. Todas as minhas camisolas tem baba de pasta de dentes. Dessa vez, não sei o que aconteceu, ela foi também para as bochechas. Acrescente a isso que eu tenho sete graus de miopia e estava com meus óculos fundo de garrafa de vinho São Roque e mais!, dormi com o cabelo preso e de manhã resolvi libertá-los sem contudo discipliná-los com pente.

Assim que vi a minha imagem, caí na gargalhada.

Estava, de fato, infinitamente feia. Mas insuportavelmente serena.

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 36-
A gente percebe que o filho está bem informado e politicamente consciente quando ele pede dinheiro, eu nego e ele me ameaça gritando impeachmãe!
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 37-
Tô aqui querendo ver DivertidaMente pela quarta vez e Yuki, meu caçula de nove anos, querendo saber se alguém já puniu os diretores da Samarco… Aff. Não é fácil ser mãe de adultos viu…
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 38-

– Mãe! – acabou de me chamar Yuki, meu caçula de nove anos – eu jurava que a sombra obedecia a gravidade…

– Como assim, Kinho? E sombra lá tem matéria? Tem peso, afinal?

– Mas, mãe, elas sempre estão no chão. A maioria das vezes! Agora que eu estou vendo que tá cheio de sombra no teto! As sombras desobedecem a gravidade! São surdas para essa lei aí! E nem vem me falar que elas não são feitas de nada porque senão nem existiriam!

Aff. Explicar física para filho poeta é complicado viu… Ele ganha sempre.

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 39-
Passei pela sala Nara estava de novo ouvindo Wesley Safadão. Me irritei e joguei todos meus CDs do Fábio Júnior nela para ela aprender o que é música ruim da boa.
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 40-

Hoje eu passei o dia de camisola e Nara com blusa de vereador em casa. As duas prostradas no sofá. Eu lendo e ela vendo animes, filmes, seriados… Em um determinado momento, ela resolveu me passar cultura.

– Mãe, para você deixar de ser esse poço de ignorância, preciso te mostrar algumas coisas.

Daí que quero contar para vocês que agora estou diferente. Não sei exatamente se melhor. Sinto-me turbinada nível advanced plus na música atual universal brasileira. Agora sei quem são e o que cantam Wesley Safadão, Nego do Borel, Ludmila é Hoje, Anitta e mais outros que fiz questão de esquecer.

Devo confessar, aprendi também algumas coreografias. Nara e eu dançamos. Ela empurrou a mesinha de centro para o lado e vestida com blusa de estampa de político com cara de presidiário me puxou para mexer o popozão que estava coberto de carinhas da Peppa.

É isso. A gente sempre vem aqui para postar vitórias mas acho que as derrotas também devem ser compartilhadas.

Banoite procêis.

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 41-

A Nara, minha filha adolescente, sai de casa e agora tenho que ver filme sozinha e nem sei qual é o bom, passar delineador sozinha, não tenho com quem me lamentar do desapegado do crush, não tenho a quem perguntar se a roupa que vou sair está boa, não tenho como comer pipoca doce, não sei se o texto que escrevi está bom para postar, não sei se é melhor eu ficar em casa ou sair…

A sorte dela é que eu sou super mega hiper advanced plus bem resolvida e consigo esperar sem surtar ela ir ali visitar a avó e voltar. Um dia sem ela tá super tranquilo. Consigo na boa.Tô super bem mesmo. Impressionante.

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 42-

– Mãe! – acabou de me chamar Yuki, meu caçula de nove anos – eu jurava que a sombra obedecia a gravidade…

– Como assim, Kinho? E sombra lá tem matéria? Tem peso, afinal?

– Mas, mãe, elas sempre estão no chão. A maioria das vezes! Agora que eu estou vendo que tá cheio de sombra no teto! As sombras desobedecem a gravidade! São surdas para essa lei aí! E nem vem me falar que elas não são feitas de nada porque senão nem existiriam!

Aff. Explicar física para filho poeta é complicado viu… Ele ganha sempre.

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Hoje Yuki, meu caçula de 9 anos, me acordou falando empolgado: mãe! Bora fazer um vídeo sobre os ovos de Páscoa e o capitalismo para eu conscientizar outras crianças?

Meodeos… criei um monstro…

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44-

– Mãe, qual o nome que se dá à impressão que temos claramente de que sempre tem alguém nos olhando, nos observando,…? – perguntou Yuki.
– Consciência. – Respondi no reflexo.
– Lembrei, mãe. Mediunidade.
– …

Eita nóis…

45-

– Mãe, o que é Baladinha TOP? – perguntou-me Yuki, meu caçula de 9 anos.
– É um lugar que você deve evitar quando for adolescente e for convidado.
– Por que, mãe?
– Pelo que me contam, não tem gays, só tem playboyzinho com camisa pólo e sapatênis e tocam funks machistas e não tocam MC Carol. Me parece tedioso. Mas é necessário confirmar a informação…
– E onde eu devo ir quando ficar maior?
– Onde você quiser, mas certamente você vai comigo com a Nara e com Hideo em lugares como o Buraco da Lacraia que adoramos.
– O que tem lá?
– Muita alegria genuína porque preconceito de nenhuma espécie tem lugar ali dentro. São esses os lugares que você deve buscar, meu filho.
– Entendi.

E assim vou educando meus filhos. Com certeza Mendonça Filho não me receberia para uma conversa…


46-

Yuki está mudando de escola e é de praxe respondermos um looooongo questionário sobre o nosso filho para que a escola o conheça melhor. Pois então, uma pergunta foi: “Qual episódio marcou a vida de seu filho?”. Eu por não saber responder, resolvi perguntar ao próprio. Ele me disse “Todos os dias que meu pai me levou para passear de trem ou de metrô. Eu achei muuuuito legal, mãe… Ah! Tb não me esqueci de muitos livrinhos que vc leu pra mim, tipo o ” Pita, a Coelhinha diferente” e todos do Menino Maluquinho.” Já me falaram uma vez que a felicidade está nas pequenas coisas… E foi assim que fechei o meu dia com chave de ouro: confirmando um sábio clichê. :0)

5 Respostas para “Filhosofia

  1. Débora Goularth

    Rindo até 2050… vou mandar pra minha irmã! Ela fala que eu sou doida nos ‘causos’ com meus sobrinhos…rhá,me achei aqui! Adorei,parabéns!!! Virei fã!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Vou levar minha filha pra passar uns 8 anos com você.

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  3. Maelle Barbieri

    apaixonada pelo seu “blog ao vivo”

    Curtido por 1 pessoa

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