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O Aborto é o Roubo Infinito*

*Como disse Mário Quintana, o aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo! Fernando Sabido corrobora: “matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser”.


Por que tenho esta terrível necessidade de fazer os outros enxergarem as coisas da mesma forma que eu? É infantil, eu sei. Nada os obriga a fazer isso. O significado disso é que tenho medo de sentir as coisas sozinha…

Quando era menina, chegando à adolescência, lembro-me de perguntar com freqüência à minha mãe (católica fervorosa naquela época) a opinião dela sobre o aborto. Mas e se você soubesse que o neném vai nascer doente? E se você fosse estuprada? E se você corresse risco de vida? E se…? E se…? Duas coisas me motivavam a insistir nesse assunto. Uma era o fato d’eu querer descobrir a magnitude da força imensurável de mamãe e a outra era eu querer encontrar algo parecido dentro de mim. Apesar de religiosa e de ser tão firme em tantas ocasiões, mamãe me deixou várias vezes sem resposta. Mais tarde entendi que o seu silêncio era porque ela sabia demais. Como ocorre com todas as mães.

E a vida nos ensina. Eu leio muito, mamãe também, mas em nenhum livro aprendemos a sobreviver à dor não da perda mas da chegada de alguém completamente inesperado. Aos 19 anos, no meio de uma alucinada faculdade de física, engravidei. Papai, japonês e, como todos orientais um homem de poucas palavras, foi incisivo: aborta. Mamãe que andava pela casa dizendo que estava com saudades de ouvir choro de neném, pouco antes de saber de minha gravidez, entrou em desespero com a notícia. Estava aflita sobretudo pelo fato d’eu não ser mais virgem. O que será dessa menina, meodeos? Que futuro ela terá agora? Cheguei um dia em casa e me assustei ao ouvir mamãe conversando no telefone com a tia Isa. Ela mal conseguia falar de tanto que chorava. Será que se eu tivesse morrido mamãe ia sofrer tanto assim? Senti-me péssima por gerar tamanho sofrimento.

Com exceção de um colega da faculdade, todos para quem eu contei sobre a minha gravidez perguntaram (como se eu tivesse outra opção) o que eu ia fazer. Hugo foi o único que abriu um sorriso e me deu os parabéns. Talvez nunca um sorriso tenha tido tanta importância na minha vida como esse dado por Hugo. Por conta desse episódio, apesar da distância e dos anos que não o vejo sou capaz de, hoje, desenhar seu rosto. Essa recepção social, no entanto, em nenhum momento fez com que eu ficasse em dúvida quanto ao próximo passo que deveria ser dado. Pensando bem, esse foi o único momento na minha vida em que não precisei perguntar para ninguém o que eu deveria fazer. Nem mesmo quando ouvi o que qualquer mulher grávida se desespera só em pensar.

Aos três meses de gravidez estive, munida do exame de sangue, no consultório da doutora (?) Denise Ataliba. Ao ler aqueles números seguidos do símbolo de percentagem, Denise (me recuso a colocar Dra antes desse nome) olhou para mim e perguntou se eu estava sozinha. Seu marido não veio junto? Seus pais então? Hmmm… quer voltar outro dia acompanhada deles? Pode falar, doutora, estou só mas sou muitas. Bom, se é assim: teremos que fazer uma micro-cesariana e interromper essa gravidez. Você está com toxoplasmose e seu filho vai nascer deficiente. Falou algo sobre hidrocefalia, acefalia…sei lá! Não me lembro o termo clínico mas sei que deixou claro que meu filho não sobreviveria logo após o parto e eu corria um sério risco de ficar cega se insistisse na gravidez. Algo mais para me dizer, Denise? Se você pensou que eu iria permitir que você matasse o meu filho com essa mão imunda, se enganou.

Voltei andando para casa pensando em como acabaria de privar a minha mãe da alegria de viver com o fato, agora, de seu primeiro neto ser completamente deficiente. Não houve hesitação nem durante essa longa caminhada. Porém, não me lembro de ter dormido uma noite sequer durante essa gravidez sem antes encharcar meu travesseiro. Não ter opção significou “ter força”. Mas “ter força” não significou “não ter medo”.

Numa determinada tarde, ao me ver chegar da faculdade, mamãe veio aflita conversar comigo. Minha filha, você sempre me perguntou o que eu faria se soubesse que meu filho iria nascer doente. E, nesse dia, mamãe cometeu talvez o seu maior pecado e revelou a sua maior fraqueza (que eu supunha inexistente) ao olhar em meus olhos e dizer filha, eu estou ao seu lado, você sabe disso, mas a cruz quem vai carregar é você. Ser mãe solteira de um filho saudável será muito pesado mas sei que você suporta. Porém, temo em te ver cair agora com tamanha carga nas costas. Sob o risco de vida da mãe, minha filha, não creio que seja pecado interromper uma gravidez. Aqueles olhos verdes de mamãe estavam seguros. Não piscaram. Os meus também não.

Senti o neném se mexer na minha barriga logo após ouvir aquelas palavras cortantes.

Não tive forças para permitir que alguém me rasgasse e matasse a vida que estava sendo gerada dentro de mim. Percebi, naquele momento, que se eu virasse para o médico e dissesse “pode matar” estaria tudo acabado. Inclusive a Elika com toda a sua pluralidade. Agüentaria ficar cega, ter um filho deficiente, aceitaria morrer se preciso fosse mas descobri que não suportaria viver com o peso de ter dado a ordem de uma execução para ser indefeso.

Que eu sou contra qualquer tipo de religião, principalmente as judaico-cristãs, todos que me conhecem já sabem. Se hoje eu não acredito em nada não foi por falta de busca e muito menos de necessidade. Simplesmente na minha cabeça não entra qualquer espécie de ser invisível – que mora no céu – que observa tudo que eu faço a cada minuto de cada dia. Que esse ser invisível tenha uma lista especial com dez coisas que ele não quer que eu faça! E, se eu fizer uma dessas coisas, o ser invisível tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, de tortura e angústia, para onde vai me mandar para que eu sofra e me queime e me sufoque e grite e chore para todo o sempre. Mas que esse ser invisível me ama! Ora, poupe-me dessa ladainha.

Porém, apesar de todo esse radicalismo eu sou a primeira a defender a posição da Igreja Católica em relação a um único tema: o aborto. Sou tão inflexível quanto o Papa nessa hora e comungamos da mesma opinião. Somos contra, definitivamente contra, em qualquer ocasião. Para mostrar a força da minha falta de moderação quando o assunto é o aborto darei um exemplo: o caso da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos pelo próprio padrasto no início deste ano. A gravidez só foi descoberta depois que a criança se queixou de dores e foi levada pela mãe à Casa de Saúde São José, em Pesqueira (PE). Os médicos classificaram a gestação da menina como de alto risco, pela idade e por ser de gêmeos. Aqui reafirmo.Essa criança tinha que ter levado essa gravidez adiante.

Fácil falar que ela deveria interromper a gravidez que já se estendia para três meses de gestação. Mas, para esses que se manifestam a favor desse aborto eu pergunto: e se fosse você a realizá-lo, a dizer, se fosse você o responsável por transformar duas vidas em imagens como essas que acompanham esse texto, você teria coragem de fazê-lo? Ao invés de uma, o infeliz desse padrasto juntamente com a equipe médica fizeram três vítimas. O aborto, embora muitos não saibam, pode causar dor em fetos ainda pouco desenvolvidos a partir da décima-sétima semana de gestação. Já existe hoje a opção de anestesiar o feto durante a interrupção da gravidez, porém, até onde eu pesquisei ainda não existe nada que anestesie a consciência. A não ser a covardia.

Em tempo, Hideo hoje tem 15 anos e é de longe, a melhor escola que já freqüentei. Tão (im)perfeito quanto qualquer um de nós.

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ERRATA:

Assim que postei o texto, minha filha de 11 anos quis ler. Ao ver Nara ali, sentadinha, assustada de frente para a tela do computador percebi que errei ao dizer que a minha postura seria a mesma em qualquer ocasião. Se a vida da Nara estivesse em risco eu seria a primeira a fazer o que fosse necessário para que a vida dela fosse preservada.

Enfim, encontrei em mim a mesma fraqueza de minha mãe que outrora mencionei…

Como viver pode se tornar algo complicadíssimo, não é mesmo?

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