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Diálogos

fisicosb

Em uma rua perpendicular ao tempo que fica em Universo paralelo, Einstein, Newton e Galileu se encontraram no botequim da esquina que fica no alto de um morro.

– Se a gente combinasse não daria certo! Cara, que coincidência! Bom ver vocês! – Só faltou o Maxwell! Mas aí era pedir demais, né? – Disse o de peruca. – Ei, Alberto! Desde quando você não se penteia?

O de barba caiu na gargalhada.

– O tempo é relativo. Mas desde o meu primeiro casamento. Minha primeira mulher quase me enlouqueceu… me fez assinar aquelas teses que revolucionaram a física e tiraram o meu sossego. Lembram-se? Em 1905…
– Também… Quis se casar logo com a melhor aluna da Polytechnische de Zurique…
– Eu acompanhei tudo do alto da torre com a pouca vista que me restou. Achei que você estava ficando louco com aquele papo, mas logo vi que era coisa de mulher…querer dilatar o tempo para frear as rugas e diminuir o espaço por preguiça de varrer… não podemos negar, a ideia é criativa, mas muito me admirou você aceitar assinar aquilo.
– Pois é, não sabia que as evidências da teoria da louca da Mileva chegariam tão depressa e que veria as consequências daquela ideia insana ainda em vida. Assinei porque você sabe, se eu não assinasse… a única coisa que me restou foi colocar o meu nome naquela coisa… lembro de ter balançado a cabeça negativamente e ter me lamentado profundamente em pensamento… triste mundo em que a imaginação é mais importante que o conhecimento…
– A minha teoria fazia tanto mais sentido…
– Ah, fala sério, Isaque! – Disse Galileu – Não foi à toa que não durou quase nada aquela ideia débil de inércia, espaço e tempo absolutos! Até uma mulher conseguiu ver o quanto aquilo era inconsistente…
– Mas Mileva não conta, era inteligente pacas! – Lembrou Einstein. – E braba que só, tá ?
– Por isso eu não casei. Tive lá meu namorico com o Halley. Que ombros… pareciam ombros de gigantes… – Falou olhando o horizonte no mar.

O barbudo e o descabelado se olharam meio sem-graça com aquela revelação. O de peruca percebeu.

– O que vocês sabem é uma gota e o que todos ignoram é um oceano, valeu? Hooke quando soube ficou fulo da vida e quase queimou meu nome na Academia… Daí que fui ver que julguei errado… só assim entendi que é melhor construir muros do que pontes.
– Também, ninguém manda ser marica!
– Caramba… é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito! Fala sério, Galileu! Onde já se viu falar assim do amigo?
– Ok. Mas que ele é marica ah isso é.
– É… aquele papo só durou uns duzentos anos… – Newton retomou o assunto anterior – nada comparado a ideia de Aristóteles que durou uns milequinhentos… – Disse cabisbaixo. – Mas, cara, falar que “tudo que move é movido por alguma coisa” todos sabem! Nem coisa de filósofo isso é! Eu pelo menos tentei inovar com a inércia…
– Mas que a sua inércia não faz sentido, ah isso não faz… – Disse Galileu de implicância. – Não foi à toa que não durou quase nada… por isso eu desisti logo de cara em tentar descobrir as causas das coisas. Entender como elas acontecem já é um cazzo!
– Que horas são? Perguntou Einstein. – Elsa falou para eu não me demorar…
– Já se passaram 587 batidas no meu coração. – Disse o barbudo. Após ver a cara assustada do amigo, explicou. – Não sei ver horas. Na minha época só tinha ampulheta. No mais, fiquei cego.
– Valeu, rapeize. Vou nessa. Nos vemos em outra história!

Assim que desapareceu, Newton falou:

– Eu posso ser o que você falou que eu sou, mas ele largou Mileva para casar com a prima… Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas…
– Elsa é boa de cama, Isaque. Mas também não vai durar nada esse casamento. Ela é burra e quando menos a pessoa entende, mais discorda. Eles andam brigando a beça.
– Ih! Leibniz vem lá! Cara, fui. Esse cara é chato pra cacete. Até a próxima!

Galileu que também não era bobo nem nada, disfarçou, se levantou e desceu sentado num papelão com uma aceleração constante o morro com sua encosta bem inclinada.

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Frases dos grandes físicos que ilustram o texto:

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.” (Newton)

“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.” (Newton)

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” (Newton)

“Construímos muros demais e pontes de menos” (Newton)

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.” (Galileu)

“Eppur si muove ou E pur si muove” (Galileu) Tradução: Mas que ela se move, ela se move!

“A imaginação é mais importante que o conhecimento.” (Einstein)

“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein)

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A Arte e a Ciência (2)

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Já tem alguns dias em que comecei a ler Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato para o Yuki.  Esse livro por muito pouco não foi proibido por conter passagens racistas com a Tia Nastácia. A despeito de Monteiro Lobato ter me chamado a atenção de uma forma negativa em algumas partes da narrativa, Caçadas de Pedrinho arrancou do Yuki altas risadas a ponto d´eu correr na livraria e comprar Reinações de Narizinho. E foi lendo esse livro que um fato se deu.

Numa passagem em que a Dona Aranha – que é manca – está falando com a Narizinho e contando que já teceu lindos vestidos para muitas princesas, Narizinho pergunta: e para Branca de Neve também costurou? Como não? Responde Dona Aranha. Pois foi justamente quando eu estava tecendo o véu de noiva de Branca que fiquei aleijada. A tesoura caiu-me sobre o pé esquerdo, rachando o osso aqui neste lugar. Fui tratada pelo doutor Caramujo, que é um médico muito bom. Sarei, embora ficasse manca pelo resto da vi… Cara, peraí! Interrompeu-me Yuki. E desde quando aranha tem osso??? E desde quando você sabe que aranha não tem osso? Desde que vi a tia falando na aula de ciências que a aranha é um aracnídeo e que o esqueleto dela é a “casca”. Quando a aranha cresce, ela troca de esqueleto como se tirasse uma roupa. Então, que história é essa, mãe?!? Ué! Já vimos boneca andando, peixe falando, besouro cantando, uma baratinha que é a Dona Carochinha de óculos e brigando! com a Narizinho… e você vem questionar a veracidade da história agora? Por que não posso ter uma aranha com osso? Só porque a “ciência” disse que não existe? E o que a ciência diz existir, existe de fato???

Yuki passou batido pela minha viagem filosófica, é claro. Me olhou como se eu fosse um ET. Pensou certamente nos outros personagens e viu que nada daquilo tinha mesmo sentido. Por fim disse: agora você me pegou… Tá. Pode continuar.

Continuei até Yuki fechar os olhos ainda com o sorriso no rosto. Mas eu… custei a dormir.

Estávamos no mundo da imaginação onde tudo era permitido e a ciência apareceu para frear a viagem criativa da minha criança. Arte e ciência pareceram, assim, universos beeeeem distantes naquele momento. Mas será de fato isso? Será que os cientistas assassinaram o Sol, transformando-o numa bola de fogo com manchas e aranhas em aracnídeos? Pensar cientificamente é proibir que a emoção se meta? Como observamos a rotação interna do Sol? Os cientistas só trabalham com imagens realistas? Há alguma imaginação mais simbólica do que os números? O que seria uma fórmula química? Por que acreditamos nas imagens que construímos com os microscópios eletrônicos? Não estamos amparados por uma teoria ao construí-las? Novas teorias não são novas representações? E as novas representações não criam diferentes realidades? Como poderemos saber o que é realidade? Será que a teoria realmente é a origem da confiança que temos na forma como vemos as coisas? As palavras foram criadas para fins práticos? Como a racionalidade é definida? Não é a partir do que pensa a comunidade da época? Será que existe um corpo de conhecimento coerente o qual não pode ser reduzido à história e à psicologia das crenças subjetivas? Por que a astrologia oriental não pode ser chamada de ciência? Existe uma única caracterização correta para lidar com um determinado aspecto da natureza? Falar de pedaços espaçotemporais de lagartixidade é o mesmo que falar lagartixa? A teoria pode funcionar para nós e ainda assim ser falsa a respeito do Universo? Há um relato completo a respeito de uma pessoa? Como termos que denotam entidade teóricas adquirem seu significado? A ciência é um fenômeno histórico? Por que a ciência é um sucesso? O que queremos dizer quando afirmamos que encontramos a explicação de um evento? Que diabos significa dizer que “o colapso do pacote de ondas” que ocorre durante a medição microfísica se dá numa interação com a mente humana? Será que pode existir cargas elétricas mínimas ainda que os elétrons não existam? Quando eu encho o quadro de setas pra cá, setas pra lá, gráficos, desenhos de cargas positivas e negativas, e bababá bububú… não estou falando de fenômenos criados? Os fenômenos que são criados em laboratório são criações de Deus ou do homem?

Definitivamente, ainda que eu não saiba responder a quase nenhuma  dessas perguntas de forma clara – se é que elas tem respostas-, há muita arte na ciência. Ensinar física, biologia, química é expôr um lado bastante criativo do ser humano. Einstein, um grande cientista, tem uma frase muito conhecida que afirma “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”. Vai muito ao encontro do que estou querendo dizer ou “desdizer” com todo esse devaneio. Mas é pouco.  Junto o físico com o poeta Mário Quintana e consigo passar o que sinto “A imaginação é a memória que enlouqueceu.”

Deveríamos receber a explicação científica de um fenômeno com a mesmo sentimento de quando entramos pela porteira aberta do Sítio do Pica Pau Amarelo…

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A Arte e a Ciência

– Mãe, o desenho está bonito? – perguntou o menino de seis aninhos para a mãe que dava aulas de física.

– Está, está lindo, mas está errado. Gotas de chuva são iguais as bolinhas e não assim como o Zé Gotinha com a cabeça afunilada.

– Por que?

Segundos de silêncio para a mãe pensar…

Mais alguns segundos…

O menino olhava para o desenho sem entender que mundo é esse em que as gotinhas de chuva não são como o Zé Gotinha.

(Custava a mãe ter falado para o menino que o desenho estava lindo e ponto final?)

Ok. A mãe pensou em algo.

– Porque as moléculas que formam as gotinhas de chuva dão as mãos de uma forma que  a menor quantidade delas fique com as costas de fora pegando vento. E elas só conseguem fazer isso formando uma bolinha perfeitinha! Qualquer outro formato que elas escolhessem teria mais moléculas pegando vento nas costas e isso não é legal como já cansei de te falar.

– Se não a mãe das moleclas briga?

– Exatamente isso, meu filho.

– E a mãe vai dar sopa pras moleclas depois?

– hm hmmm. Isso.

– E vai mandar as moleclas colocarem camisa?

– É.

– E a mãe vai levar as moleclas pra tomar vacina depois, é?

– É.

– E a mãe das moneclas…

-…meu filho, o desenho está lindo!!!!

– Brigado. Mas eu vou fazer um outro com menos moneclas pegando vento.

Entre a ciência e a arte, vivemos aqui com uma inominável terceira opção.

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Mais de nós dois em:

Limpando a cabeça

Biciquétala

A História do Meu Novo Amor

Viver é desenhar sem borracha

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