Pedaço de Céu

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Foi ali, em plena Visconde de Pirajá, neste Domingo chuvoso pela manhã e ensolarado no início da tarde, que eu, ao sair da livraria que me acolheu do frio, tive um ataque de tosse. Pensei que fosse morrer. Mas não. Na calçada pisada pelas pessoas bem vestidas e também mal amadas como qualquer suburbano, vomitei um pássaro azul.

O bicho saiu inteiro das minhas entranhas e estivera tanto tempo dendimim que, agora vejam, sabia falar.

As pessoas olhavam, sem entender, o passarinho coberto de catarro que se debatia para se livrar da minha gosma. Mais leve, levantou o bico e perguntou o que estavam todos olhando.

– Ele fala? – Perguntou-me um senhor que vestia uma calça colada e um sapato esquisito.

Eu, ainda fraca daquele parto ao avesso, nada estranhei e respondi com a voz meio falhada, certamente irritada pelas penas:

–  Não vêem que sim? E acho bom não abusar dele. Não é de circo. Não foi treinado. Age por conta própria. -Avisei.

Peguei a ave, um pedaço de céu que estava crescendo no meu corpo, e arrumei-a em cima da minha cabeça com o cuidado que as madames dos séculos passados faziam de frente a um espelho quando colocavam um chapéu.

Eu suspeitava que meu estômago não é dado para borboletas e sim lagartas que viviam a confeccionar o casulo numa lentidão que pelo amor de deus… Mas qual o quê. Criava eu o tempo todo um passarinho.

Uma senhora chique, com cabelos grandes e grisalhos e um ar de cemitério sem flor, aproximou-se e disse a todos:

– Esse pássaro vem da fronteira da vida. Alguém perdeu um ente querido por agora? É uma oportunidade…

Pronto. Eu que queria ir embora logo e terminar o meu domingo acompanhada de meus filhos tive que voltar para dentro da livraria para uma sessão, digamos, espírita. Ave Maria…

– Jorge, disse uma outra senhora olhando para o pássaro que não saía da minha cabeça, você consegue contato com o Jorge?

O passarinho desatou a falar um monte de coisas.

– O que ele está dizendo? – perguntou-me a viúva de Jorge.

– É Jorge que está falando, senhora. Aproveite a ligação.- Esclareci.

– Mas com essa voz de passarinho?

– E a senhora quer que pássaro fale com voz de rinoceronte? – Respondi impaciente.

Puxei um livro recém comprado enquanto a senhora estava perguntando coisas como senha de banco, de que forma fazia para ver as milhas no cartão e que diabos a fatura no visa havia vindo tão alta no último mês se eles mal saíram de casa, ela pelo menos. Jorge, sempre para caminhar e conversar com os amigos no calçadão.

– Não enche, Juraci. – Disse o passarinho.

Cansada daquela ladainha que apenas começara mas que já tinha acabado com a minha paciência, levantei-me, pedi licença a todos que estavam boquiabertos ainda com tudo aquilo e ofereci meu dedo indicador para que o bicho nele subisse. Quem quiser apreciar a beleza de uma ave, jamais olhe para suas patas. Parece que Deus não trabalhou direito ou Darwin, muito. Os pés dos pássaros parecem guardar algo do passado, uma herança escamosa dos lagartos dos quais evoluíram. Com a ave nas minhas mãos, atordoada por aquela observação, saí novamente para a rua.

Vai, conte a todos que viverei não sei mais quantos verões, mas que vomitei as Primaveras.

E assim o passarinho voou e pousou numa lata de lixo cor de abóbora amarrada no poste.

Vim para casa sozinha. Aqui chove. E não paro de pensar naquela ave embaixo da chuva sem saber a quem se dirigir primeiro para dar o meu recado.

Enquanto isso na Índia, em Minas Gerais e na Nigéria…

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Aconteceu na Índia.

Quatro amigos monges budistas – Ryotan Igarashi, Shunyu Deshimaru, Taizen Rinpoche e Thich Susuki – estavam meditando há horas sem trocar uma palavrinha sequer entre eles. O local onde eles buscavam alcançar o nirvana,  o estado mais elevado e mais puro de existir, era em Madhya Pradesh, na Índia central, nos jardins do templo de Khajuraho.

Os budistas acreditam que quando atingimos este estado de pureza espiritual, o tal nirvana, conseguimos nos livrar do carma que todos temos por sermos condenados a reencarnar infinitamente. Somos por demais apegados ao mundo material e nossos, digamos, pecados nesta vida serão considerados nas nossas próximas vindas; esse é o nosso carma. Os budistas ainda creem que as reencarnações podem ser feitas em diversos tipos de seres vivos. Ao matar uma mosca, podemos estar dando fim ao nosso bisavô que veio nos visitar. Por isso, eles são meio São Francisco, amam os animais (até mesmo os mais peçonhentos) e não os comem de jeito maneira, nem assado nem frito. Nem com muito alho e com molho barbecue.

A ordem para os  budistas é se desapegar. Eles buscam o entendimento correto, o pensamento correto, a ação mais correta, o modo correto de se viver (virando monge) e para conseguir se livrar de todo desejo material e alcançar todo esse estado iluminado, o melhor caminho é a meditação que consiste em tentar limpar a mente de qualquer pensamento durante o tempo que suportarmos o desafio. Isso deve ser feito em um lugar de pouquíssimo ruído e em uma posição confortável para que nada nos incomode ou desvie a nossa atenção. Se não eliminarmos totalmente o carma, pelo menos, conseguimos diminui-lo um tanto assim considerável para a nossa próxima visita nesse mundo; isso, claro, se muito meditarmos. De fato, enquanto não fazemos nada e somente respiramos, não fazemos nada também de errado. Faz  todo sentido…

Isto posto e entendido, Ryotan, Shunyu, Taizen  e Thich estavam meditando, como já dito. Todos estavam sentados, com a coluna ereta, o pé esquerdo apoiado sobre a coxa direita e o pé direito apoiado sobre a coxa esquerda. Inspira. Expira. Inspira. Expira…

De repente, Shunyu  coloca as mãos para trás e dá-lhe de balançar os cotovelos.

Ryotan abriu um olho ao perceber uma vibração no olhar. Viu o corpo de Shunyu começar a tremer. Shunyu soltou uma alta gargalhada. Levantou-se de uma forma extremamente afeminada, deu alguns giros ainda mexendo os cotovelos para frente e para trás, aproximou-se de Taizen e disse:

– Que Conouó mais odubauê… – (Que quer dizer: que nego mais cheiroso) E deu-lhe uma forte fungada no pescoço do amigo revirando os zóio.

Thich caiu para trás.

– Mas que silenço é esse? Kadê o atabakê? Cadê meus baluás e meus arimbós? – Perguntou em uma língua que misturava sânscrito com umbandês colocando as mãos nos lóbulos das orelhas como se procurasse por brincos e no colo catando por cordões.

Shunyu segurou o koromo (uma espécie de kimono usados pelos monges) pela barra e levantou-a colocando as mãos na altura do quadril. Gargalhou alto de novo com as pernas cabeludas e branquelas à mostra e saiu correndo rindo alto para dentro do templo enquanto gritava como fazem os recém-libertos:

– Eu quero Irubuá, eu quero Unuiê!

Antes que Ryotan, Taizen e Thich tivessem se recomposto, Shunyu voltou com uma garrafa de sakê segurando pelo gargalo. Pegou uma folha seca no chão, enrolou-a e colocou o charuto assim feito no canto da boca.

– Suncês ké sabê como se livrá do karmá? – Perguntou olhando bem na alma dos outros três.

Ryotan, Taizen e Thich balançaram a cabeça de uma forma lenta, mas positivamente.

Shunyu riu estridentemente. Agarrou ligeiro um gato que por ali passava. Com um golpe seco de kung-fu, decapitou o felino e se lambuzou todo com o sangue do animal. Ryotan, Taizen e Thich que nunca tinham ouvido o nome de Cristo colocaram lentamente a mão na testa, depois um pouco acima do umbigo, depois no ombro esquerdo e, finalmente, no ombro direito.

Shunyu rodava e gargalhava ensandecido com as mãos apoiadas no quadril e segurando o koromo. De repente, balançou os braços como um boneco de posto e caiu como os que desmaiaram vendo Elvis Presley ao vivo.

Fez-se o silêncio.

Shunyu, depois de lentos segundos, se mexeu.

– O que vocês fizeram com o gato???

Shunyu largou o koromo e mudou de espírito sem que o corpo tivesse morrido. Passou a escrever. Atualmente, ganha rios de dinheiro vendendo livros sobre poesias eróticas e parece bem mais feliz.

Até hoje, Ryotan, Taizen e Thich, a despeito de muito procurarem em livros e conversarem com monges mais experientes, não entenderam o que aconteceu naquele dia. Também pudera. Para acharmos a resposta certa, devemos saber fazer a pergunta que nos leve a ela e, cá entre nós, “Por que  diabos a Pombagira baixou em Shunyu?” jamais sairá da mente dos monges budistas de Khajuraho.

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Aconteceu em Minas.

No dia 16 de julho, quer faça um Sol de rachar o cocoruco ou caia chuva de encharcar a alma, ocorre a procissão das Comunidades na Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, na cidade do Carmo que fica em Minas Gerais. A Procissão acontece sempre nesse dia em louvor a Padroeira da cidade, de novo: a Nossa Senhora do Carmo. Vejam bem, eu disse Carmo e não carma.

O dia era desses de céu limpo e bem azul e a hora era pela manhã. A procissão seguia quando, de repente, nuvens começaram a aparecer do nada. Lúcia, Jacinta e Francisco, três crianças que iam à frente da procissão, ajoelharam-se onde estavam, bem no meio da rua. Quem olhou para o céu naquele dia viu vapor d´agua condensado de todos os formatos aparecendo do nada e voando em direção a rua onde passava a procissão. Do dia fez-se a noite já que névoas cinzentas eclipsaram por completo o Astro Rei.

Acima das três crianças, que continuaram ajoelhadas com as palmas das mãos juntas, abriu-se um buraco nas nuvens e raios de Sol rasgaram mais ainda a fresta iluminando, como um holofote, somente o local onde estavam Lúcia, Jacinta e Francisco. Daquela brecha, todos viram apontar dois pés. Lentamente, conforme era a descida, as pernas começaram a aparecer. Percebia-se que estavam vestidas com uma calça larga e brilhosa a la Alladin. Logo depois, apareceu o barrigão que teve sua passagem dificultada pela abertura insuficiente. A saída foi feita com a ajuda de duas mãos ornamentadas de anéis e pulseiras. A – até então – Santa continuava descendo e aparecendo bem devagar e com muito menos charme do que se espera para uma imaculada. Mais duas mãos surgem e finalmente os devotos de Nossa Senhora do Carmo viram uma cabeça de elefante com uma presa quebrada e que tinha, ainda por cima, um desenho esquisito no meio da testa! Minha Nossa Senhora que não era a Nossa Senhora do Carmo! Era Ganesha!

Ganesha, o mais conhecido e venerado dos deuses do hinduísmo que tem um cabeção de elefante simbolizando a inteligência, quatro braços e corpo de menino e representa uma solução lógica para nossos problemas, parecia mais ainda atordoado com o que via. Coçou a cabeça com uma das quatro mãos e decidiu por descer assim mesmo.

Todos se afastaram menos Lúcia, Jacinta e Francisco que seguiam de joelhos no asfalto. Ganesha acariciou a cabeça dos três ao mesmo tempo enquanto segurava a flor de lótus com a mão que lhe restava. Beijou as pétalas e entregou aquela parte de vegetal à Jacinta.

As três crianças cresceram. Tornaram-se adultas, jamais engordaram e passaram, de primeira, em concursos públicos federais.

Muitos moradores de Carmo, depois do episódio, evitam comer carne e acendem, ainda hoje, vela para a Nossa Senhora do Carmo que apareceu, assim do nada, no meio de um ritual africano em Kaduna, na Nigéria.

O Nirvana de Clinton Blaindi e Pou Pipa

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Clinton Blaindi nascera cego e infanciou normalmente a despeito de sua eficiência em jogar bilboquê e de sua falta de medo do escuro. Pou Pipa apareceu no morro da Rocinha, onde se passa parte dessa história, adultecendo. Tinham os dois a mesma quantidade de invernos. Clinton Blaindi sabia do mundo muito pouco. Foi criado pela sua mãe que o deixava com a vizinha para trabalhar. A vizinha era uma moça desambiciada e achava que para viver basta estar vivo. Pouco conversava e tinha preguiça de descer o morro para levar cego à escola.

Pou Pipa era pedreiro. O primeiro nome foi escolhido pelo seu pai que se dizia fã dos Beatles e que, de fato, o era à maneira dele. Amava, como quem ama Imagine, Rélpi. O segundo nome (que é um adjetivo como já percebido) veio de sua fixação (que não se foi com a sua chegada à vida adulta) em botar pipa no céu.

Nos finais de semana e das tardes de verão, Pou Pipa colocava pipa para atrapalhar as correntes de ar e tinha como companhia Clinton Blaindi que sempre estava sentado em um banquinho do lado de fora do barraco. Escuta, meu amigo, o que é isso que você faz?, perguntou Clinton Blaindi quando, enfim, chegou novembro. Pou, que não sabia se divertir de outra forma, recebeu a pergunta como se tivesse visto uma equação do segundo grau. Começou sem entender como se vive sem diversão. Mas muito menos lhe ocorria como fazer um cego dimensionar o céu.

– Primeiro você tem que entender o que é o mundo. – Respirou Pou a responsabilidade.

E assim, Clinton Blaindi, ao avesso de São Tomé, cria sem ver e entendeu como o céu fora feito para justificar as pipas e que os pássaros eram pipas sem linhas. Tempo fechado era quando o céu, o espaço absoluto newtoniano, acordava repleto de portas e janelas fechadas. Ventos fortes eram o espaço curvo einsteiniano. As nuvens eram como um tecido estampado. Não entende, Blaindi? Ah é. Você não entende. Tecido estampado é… Vem comigo, Blaindi. Pou fez Blaindi colocar as mãos nos muros. Muro de tijolo sem reboco e muro rebocado de cimento salpicado com pedrinhas. Muro rebocado de cimento sem granulado. Tudo muro, Blaindi, com estampas diferentes. Blaindi entendeu perfeitamente o que eram as nuvens e estava extremamente feliz por ter um amigo como Pou Pipa.

Pou resolveu ensinar Blaindi não a soltar pipa e sim a segurá-la. Blaindi com sua cabeça andorinhando compreendeu o céu e sua extensão. Percebeu o infinito com clareza.  Quantas dessas têm no céu, Pou? A mesma quantidade de estrelas, Blaindi.

Blaindi já sabia que, de noite, as estrelas apareciam. Noite, diferente do dia,  como lhe explicara Pou, era algo bem distinto de tempo fechado. Noite é quando o céu se transforma em portão trancado para as pipas. E tem hora de abrir: dia. Estrelas são grãos de feijão jogados no chão que ficam atrás desse antipático portão e esses grãos de feijão atrapalham o movimento das pipas, entende, Blaindi? Blaindi entendia tudo.

Um dia Clinton Blaindi quis saber um pouco mais. Você vê Deus, Pou? Não. Claro que não. Tem gente que diz que ele está em tudo, mas ele não está em nada. Se esconde atrás do céu. E como O explicam? Pou não soube responder, embora, tivesse certeza de Sua existência porque tudo existia e para sermos temos que nascer e as pedras nascem de algum lugar porque são pedras, logo, Deus existe porque o que não cresce não procria e sim se cria.

Livro serve para quê, Pou? Para quem não gosta de soltar pipa e não quer conversar. Quem lê fica em silêncio se ocupando de virar as folhas bem devagar, explicou Pou. Pareceu a Blaindi que  ler era algo que ele poderia fazer e ele quis experimentar isso, então, em dias de chuva.

Clinton Blaindi passou a ler, dessa maneira assim ensinada sem alfabeto, sílabas nem palavras escritas – já que a Pou também foi-lhe negada esta paisagem – nas noites, quando os portões eram trancados para as pipas, sempre o mesmo livro que ganhou de presente de Pou. Usufruiu, sem que o sábio amigo lhe guiasse, do bem que a leitura, assim por ele assimilada, faz para a mente e ficou viciado nesse passatempo por ele inventado. Agora era Blaindi que esclarecia a Pou de que  maneira uma simples atividade pode levar a gente para sei lá aonde meu deus.

Blaindi vislumbrou que talvez as pessoas que liam mudavam de página depois de passar por um determinado número de respirações que, por sua vez, era dado pelas batidas do coração já que Clinton Blaindi jamais aprendera a contar por números e muito menos entender o tempo por relógios. Passava por um processo mental não discursivo naquela estranha atividade de inspiração e expiração entendida por ele como leitura e, em plena quarta-feira anuviada, experimentou, de repente, um vazio iluminador, um êxtase quase místico e um soltar de sua alma.

Blaindi entendeu por quê um Sol de meio dia não faz sombras, assimilou-as sem nunca ter sentido a luz. E visualizou pipas coloridas na página quarenta e sete. Nuvens intateáveis e estrelas-grãos-de-feijão suspensas no ar. Meu deus como era bom ler. Clinton Blaindi que havia apreendido o tamanho do mundo com a ajuda das pipas de Pou quis lhe descortinar o Universo.

Vem, Pou, vou ensinar pra tu o caminho.

E assim, lá na Rocinha, ainda hoje, esses dois rapazes experimentam dessabendo um estado de cessação completa do sofrimento pela leitura da eterna graça alcançada somente pelos monges budistas do Tibet.

O Salto Alto da Princesa

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A princesa estava presa na torre do castelo. Fosse isso um conto de fadas, ela permitiria o cabelo crescer a la Rapunzel para que homens subissem na intenção de, no mínimo, tirar-lhe um pouco do tédio. Mas não, o conto é real. Portanto, a bruxa vinha de mês em mês cortar seu cabelo curtinho.

Até que um dia aparece um príncipe. Montado em um cavalo branco ainda por cima (A princesa era louca por cavalos). E sorri com o mais lindo dos sorrisos. E lhe chama com a mão.

– Oh meodeos!, pensava ela, como posso sair daqui!?!

A princesa, outrora tão desesperançosa, foi aspirada de repente, agora veja, pelos seus próprios suspiros que aumentaram freneticamente pelo sonho de viver uma vida acompanhada.

-Pula! Pula que eu te pego! – Gritou ele de braços abertos.

A princesa pensou não duas, mas três vezes. Talvez quatro. Cinco para não errar. E decidiu.

Encostou na parede oposta à janela.

Pegou impulso.

E pulou.

Fosse isso um conto de fadas, a princesa seria amortecida pelos fortes braços do rapaz. Mas não. Como já disse, o conto é real.

O príncipe estava todo pronto para segurá-la. Isso é verdade. Mas ao olhar para o alto, de onde vinha sua princesa, a luz do Sol entrou forte em seus olhos e fez com que ele espirrasse, fato que ocorre quando somos sugados pela escuridão.

Com um ímpeto involuntário, ele piscou forte e seus músculos tiveram um intenso e rápido espasmo.

Logo quando ela se aproximava.

Verdades e Mentiras

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A mulher, negra, forte, mal vestida e suja pede clemência para Juliana que insiste em não abaixar o vidro da janela. Juliana acabou de entrar em seu carro que estava estacionado na Avenida Afrânio de Melo Franco a alguns metros de onde morava. Parara ali porque, por sorte, tinha encontrado uma vaga quando voltava do trabalho e resolveu comprar pão na antiga padaria do bairro.

– Por favor, senhora, por favor! Tenha bondade nesse coração!

Juliana movimentou o vidro o suficiente para que um dedo passasse.

– Por favor, senhora, eu trabalhava de acessorista de elevador no prédio aqui perto há dez ano, mas desde que fizeram a reforma me mandaram embora e eu não consigo emprego em nenhum lugar. Tenho fome e queria um dinheirim só para comer alguma coisa. Não sou vagabunda nem filho eu tenho não senhora. Tenho dormido na rua porque não tenho mais como pagar o aluguel do barraco onde morava tenha piedade senhora.

A brecha do vidro era pequena como já registrado, mas não impediu que o bafo de cachaça da mendiga entrasse no carro perfumado de Juliana.

– A senhora está bêbada!

– Não estou não senhora, não tenho dinheiro para comer, senhora, tenha piedade. Juro que não é pra bebida não senhora.

– Em que prédio você trabalhava? De que rua? – Juliana morava no Leblon desde que nasceu e conhecia o bairro como conhecemos não a nós próprios porque isso é mentira, e muito menos a palma de nossas mãos porque isso é bobagem, mas como conhecemos, bem, como conhecemos… como bem conhecemos a nossa mesa de trabalho.

– Ali naquela rua, senhora.  –  E apontou para lá, qualquer lugar, lugar nenhum.

– Qual rua, moça? Fale o nome da rua!

– Me esqueci, senhora.

– Trabalhou há dez anos no mesmo prédio e se esqueceu do nome da rua? Ah, vá ver se estou na esquina, sua bêbada! Você mente descaradamente!

Quando foi levantar o vidro, a indigente colocou, na tentativa de impedir o gesto da madame, seus dedos no pequeno espaço aberto entre elas.

– Senhora peloamordedeos me dê qualquer coisa, tenho fome.

– Isso não justifica você mentir e abusar da boa vontade das pessoas! Poderia te processar por impostura!

Juliana havia descoberto na semana anterior a traição do namorado com uma colega da sua própria repartição. Juliana era gerente e acabou demitindo uma boa engenheira para não ter que lidar com a vergonha e as fofocas em seu trabalho. No mais, a outra aprenderia a não se meter no caminho de Juliana. Quanto a ele, o traidor, Juliana o amava e estava sofrendo, dizia, porque se tem uma coisa que eu não gosto é de mentiras! Eu não perdoo mentiras!

– Eu vou te processar! Você mentiu pra mim, sua bêbada mentirosa! Com um bafo desses e vem me dizer que não bebe! Ah vá…

– Tá bom, senhora! Eu menti! Eu menti! Mas o que a senhora faria no meu lugar? Por Deus, senhora! Como vou viver sem mentir! Se eu contar a verdade que tento procurar trabalho há vinte ano e ninguém me dá uma oportunidade sequer ninguém acredita! Só sabem me dizer que sou forte, gorda, mas ninguém emprega ninguém que não sabe ler nos dias de hoje! Querem sempre referença! Como vou arrumar referença se nunca trabalhei, senhora?

– O que fazer? Vai trabalhar ora!

– Onde,  senhora? Se a senhora me arrumar onde eu trabalho, eu vou! Onde?

– Vai lavar roupa pra fora!

– Lavo, senhora! Mas quais roupas? A senhora confiaria as suas roupas para que eu lavasse elas?

Juliana pensou. Pegou um pão e deu para a senhora. Mas antes de sair com o carro, disse-lhe que fosse no condomínio tal, na casa tal procurar por Juliana e que se ela lá chegasse, teria trabalho para fazer.

Chegando em casa, resolveu fazer uma sauna, avisou a empregada para colocar na mesa perto da piscina os pães recém-comprados com sucos e tudo o mais para compôr o lanche. Ao subir para o seu quarto, ouviu o som da campainha e logo depois a empregada veio lhe avisar que seu Jorge, o porteiro, estava diante de uma mulher negra e suja que estava procurando por ela na porta do condomínio, conforme ele foi avisado por dona Juliana que isso poderia acontecer.

– Kátia, vá buscá-la. Leve a mulher para a garagem e dê-lhe todos os tênis dos meninos para ela lavar no tanque. E quando ela terminar, me chame!

A maltrapinha acompanhou a moça de uniforme branco até a casa de dona Juliana. Da janela de seu quarto, Juliana conseguiu perceber a chegada das duas. A mulher mentirosa vinha atrás de Kátia, mas nada feliz como aqueles que arrumam uma saída na vida. Vinha porque estava com o orgulho ferido por ter sido chamada de mentirosa e queria mostrar para Juliana que o que ela havia feito tinha uma justificativa. Pois sim que tem. Pois sim!

Juliana desceu sem fazer barulho. Kátia havia percebido que a mulher imunda estava cheirando vodca e fraca de tanta bebida. Ao mostrar-lhe os tênis dos meninos que eram três e jogavam futebol na lama toda semana, Kátia explicou-lhe o que teria que ser feito. Da cozinha, andando nas pontas dos pés e com os ouvidos esticados para a porta, Juliana escutou:

– Dona Lourdes, a senhora tem esses tênis para lavar. Dona Juliana gosta deles brilhando, está entendendo? Não sei onde ela está com a cabeça ao colocar a senhora aqui dentro! Até parece que uma mulher como a senhora, que não consegue nem se limpar, vai conseguir lavar esses tênis dos filho dela! Se não ficar direito, ela mandou avisar que não paga! E se eu fosse a senhora nem perdia seu tempo! Dona Juliana é chata com as coisa dela!

Juliana riu para dentro e tornou a subir para o seu quarto como se tivesse andando nas nuvens. Por pisar suave para que as duas não a ouvissem, mas também porque estava com o corpo mais leve por estar perto de comprovar que quando se quer, tem jeito sim e quem se esforça para fazer tudo certinho tem suas recompensas. Que podemos viver sem mentirmos uns para os outros. Que não precisamos arrumar justificativas por termos mentido. Não há desculpas para qualquer mentira! Que se Carlos chegasse e contasse para ela que não gostava dela e que estava interessado por outra que ela entenderia perfeitamente, quer dizer, que seria muito melhor do que ele ter mentido e tê-la obrigado a demitir uma excelente engenheira como a Tatiana.

Após uma hora mais ou menos, Kátia pediu que Juliana descesse, pois a mulher tinha terminado o serviço. E que tinha ficado bom como dona Juliana gosta.

– Muito bem, dona Lourdes. – Juliana rateou. Como sabia o nome da bêbada se jamais havia perguntado? – A senhora volte aqui na semana que vem e fará o mesmo serviço.

Deu-lhe trinta reais. Dez por cada par de tênis.

Na semana seguinte, Lourdes apareceu de novo com o mesmo bafo de cachaça e foram-lhe entregues os mesmos tênis imundos. Kátia recebeu a esmolambada com a mesma impaciência novamente ouvida pela danada da Juliana que espreitava atrás da porta da cozinha.

– De novo com essa cara imunda?!? Como dona Juliana permite que a senhora entre assim aqui? Pois bem, aqui a esponja, aqui os tênis dos menino e comece a lavar porque a senhora não pode ficar aqui muito tempo! Dona Juliana pediu para que eu não deixasse a senhora fazer hora nos serviço de lavági dos tênis!

Juliana não poderia ter ficado mais satisfeita com a sua ideia. Nem contava com essa da Kátia que estava se saindo melhor do que encomenda. Quem diz que quer, quem diz que precisa, quem diz que ama, suporta os trancos da vida e segue em frente mantendo o foco. Só os fracos, os infelizes, os que não têm mais jeito arrumam uma desculpa para a incompetência de respeitar e amar o próximo! Vamos ver se essa negra bêbada volta de novo! Vamos ver! Pois sim que volta, pois sim!

Os tênis ficaram de novo limpíssimos. Lourdes voltou durante três meses, todas as semanas. Juliana arrumou-lhe roupas e sapatos novos. Permitiu-lhe banho no banheiro dos empregados. Após esse tempo, Carlos foi perdoado e Juliana resolveu oferecer algo maior para Lourdes que já não mais cheirava a vodca, run ou cachaça. Pediu para que Kátia  ensinasse a ela como cuidar dos cachorros. Depois pediu para Kátia ensinar-lhe a passar roupas. Depois acabou indicando Lourdes para sua amiga.

Ao visitar Andréia, quem atendeu a porta foi Lourdes vestida com um uniforme alvo e cheirando a produtos de limpeza.

– Muito bem, Lourdes! – disse juliana muito feliz – Fico muito contente por você! De certa forma, me sinto como uma madrinha, sabe? Fui eu  afinal de contas que perdoei a sua mentira, se lembra? E que te ajudei a ter hoje dignidade que antes parecia que te faltava! Fico realmente muito feliz em ver você livre do vício da bebida, dona Lourdes, e perceber o quanto eu contribuí para isso.

– Muito gradecida, dona Juliana. Por suas palavra bonita e suas atitude. Por ter oferecido os tênis dos menino pra mim lavar. Muito gradecida. Mas quem me tirou do viço foi aquela alma boa da menina que trabalha com a senhora.

Juliana que bem tinha ouvido todo o tratamento dado de uma para a outra, riu-se:

– A Kátia? Alma boa? Com você? Pois sim, dona Lourdes! E eu não sei como ela te tratava? Vivia te chamando de bêbada, de suja e ofendendo a senhora!

– Ela gritava muito comigo. Principalmente no iniço. Desde o primeiro dia. Mas depois que ela me chamava de fedorenta, de bêbada e de tudo o mais e via que eu não fazia nada mesmo, acho porque não tinha as força nos braço por causa das bebida mesmo que a senhora bem sabe que eu bebia e muito, ela vinha e lavava tudim pra mim. Vou te dizer, dona Juliana, eu só fui lavar os tênis dos meninos depois de muitos dia indo na casa da senhora! Põe mês nisso! Ela todo dia brigava muito sim senhora, mas vinha depois chorando, secando o nariz com as mão e lavava tudim pra mim. Por qual motivo eu parei de beber olhando a dona Kátia fazer essas coisas comigo, eu não sei. Mas foi por causa dos xingamento dela e por causa que depois ela vinha fazer os serviço que era pra mim fazer e eu não ia fazer mesmo porque não queria saber de lavar tênis dozoto, alguma coisa aconteceu dendimim. Ela me acorrigiu e nunca mais eu quis beber. Alguma coisa, aquilo significou pra mim. A senhora aceita um cafezim?

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O Elo perdido

Diálogos

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Em uma rua perpendicular ao tempo que fica em Universo paralelo, Einstein, Newton e Galileu se encontraram no botequim da esquina que fica no alto de um morro.

– Se a gente combinasse não daria certo! Cara, que coincidência! Bom ver vocês! – Só faltou o Maxwell! Mas aí era pedir demais, né? – Disse o de peruca. – Ei, Alberto! Desde quando você não se penteia?

O de barba caiu na gargalhada.

– O tempo é relativo. Mas desde o meu primeiro casamento. Minha primeira mulher quase me enlouqueceu… me fez assinar aquelas teses que revolucionaram a física e tiraram o meu sossego. Lembram-se? Em 1905…
– Também… Quis se casar logo com a melhor aluna da Polytechnische de Zurique…
– Eu acompanhei tudo do alto da torre com a pouca vista que me restou. Achei que você estava ficando louco com aquele papo, mas logo vi que era coisa de mulher…querer dilatar o tempo para frear as rugas e diminuir o espaço por preguiça de varrer… não podemos negar, a ideia é criativa, mas muito me admirou você aceitar assinar aquilo.
– Pois é, não sabia que as evidências da teoria da louca da Mileva chegariam tão depressa e que veria as consequências daquela ideia insana ainda em vida. Assinei porque você sabe, se eu não assinasse… a única coisa que me restou foi colocar o meu nome naquela coisa… lembro de ter balançado a cabeça negativamente e ter me lamentado profundamente em pensamento… triste mundo em que a imaginação é mais importante que o conhecimento…
– A minha teoria fazia tanto mais sentido…
– Ah, fala sério, Isaque! – Disse Galileu – Não foi à toa que não durou quase nada aquela ideia débil de inércia, espaço e tempo absolutos! Até uma mulher conseguiu ver o quanto aquilo era inconsistente…
– Mas Mileva não conta, era inteligente pacas! – Lembrou Einstein. – E braba que só, tá ?
– Por isso eu não casei. Tive lá meu namorico com o Halley. Que ombros… pareciam ombros de gigantes… – Falou olhando o horizonte no mar.

O barbudo e o descabelado se olharam meio sem-graça com aquela revelação. O de peruca percebeu.

– O que vocês sabem é uma gota e o que todos ignoram é um oceano, valeu? Hooke quando soube ficou fulo da vida e quase queimou meu nome na Academia… Daí que fui ver que julguei errado… só assim entendi que é melhor construir muros do que pontes.
– Também, ninguém manda ser marica!
– Caramba… é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito! Fala sério, Galileu! Onde já se viu falar assim do amigo?
– Ok. Mas que ele é marica ah isso é.
– É… aquele papo só durou uns duzentos anos… – Newton retomou o assunto anterior – nada comparado a ideia de Aristóteles que durou uns milequinhentos… – Disse cabisbaixo. – Mas, cara, falar que “tudo que move é movido por alguma coisa” todos sabem! Nem coisa de filósofo isso é! Eu pelo menos tentei inovar com a inércia…
– Mas que a sua inércia não faz sentido, ah isso não faz… – Disse Galileu de implicância. – Não foi à toa que não durou quase nada… por isso eu desisti logo de cara em tentar descobrir as causas das coisas. Entender como elas acontecem já é um cazzo!
– Que horas são? Perguntou Einstein. – Elsa falou para eu não me demorar…
– Já se passaram 587 batidas no meu coração. – Disse o barbudo. Após ver a cara assustada do amigo, explicou. – Não sei ver horas. Na minha época só tinha ampulheta. No mais, fiquei cego.
– Valeu, rapeize. Vou nessa. Nos vemos em outra história!

Assim que desapareceu, Newton falou:

– Eu posso ser o que você falou que eu sou, mas ele largou Mileva para casar com a prima… Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas…
– Elsa é boa de cama, Isaque. Mas também não vai durar nada esse casamento. Ela é burra e quando menos a pessoa entende, mais discorda. Eles andam brigando a beça.
– Ih! Leibniz vem lá! Cara, fui. Esse cara é chato pra cacete. Até a próxima!

Galileu que também não era bobo nem nada, disfarçou, se levantou e desceu sentado num papelão com uma aceleração constante o morro com sua encosta bem inclinada.

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Frases dos grandes físicos que ilustram o texto:

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.” (Newton)

“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.” (Newton)

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” (Newton)

“Construímos muros demais e pontes de menos” (Newton)

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.” (Galileu)

“Eppur si muove ou E pur si muove” (Galileu) Tradução: Mas que ela se move, ela se move!

“A imaginação é mais importante que o conhecimento.” (Einstein)

“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein)

Sofia, Marilene, Clarice e Mais Tantos Outros.

Sofia possuía o hábito de ir toda semana a um mesmo salão de beleza perto de sua casa, localizado no subúrbio do Rio de Janeiro, para que a manicure Marilene cuidasse das unhas de suas mãos e de seus pés. Avessa àquele ambiente, Sofia sempre ia acompanhada de um livro, costume esse que não passava despercebido aos olhos de Marilene. Entre um cuidado e outro com as extremidades dos dedos dos pés de sua cliente, Marilene procurava ao menos ler (pronunciando sílaba por sílaba sem que se ouvisse um som saindo de sua boca) o título do livro quando a capa era-lhe acessível aos seus olhos verdes. Quando Sofia fechava o livro por algum motivo, Marilene sempre perguntava do que se tratava a leitura e a resposta de Sofia era vaga demais para a pobre da Marilene: literatura. Na semana seguinte ou no máximo quinze dias depois, a mesma pergunta já que o livro era sempre diferente. E a mesma resposta ininteligível para Marilene. Sofia era amante de livros cheio de histórias e Marilene não entendia como sua cliente não se cansava de ler sempre sobre um mesmo assunto. Literatura.

Por um motivo que é bastante óbvio ligado à matemática e à cifrões e que não aprofundaremos no assunto, o salão faliu. Marilene diante dessa notícia e espertinha que só resolveu manter algumas de suas clientes atendendo-as em domicílio. Ao invés de Sofia ir até Marilene, agora Marilene que ia até Sofia tal como Maomé foi às montanhas com a diferença de que essas jamais tinham ido até Maomé.

Sofia agora, no silêncio de sua casa, permitiu que alguns diálogos fossem travados com sua manicure de forma que algo além de unhas pintadas era somado àquela relação. Os filhos de ambas passaram a ser tratados pelos nomes. Da vida de uma, a outra grande parte sabia e a vida da outra, que frequentara a escola por apenas seis anos, Sofia sem querer modificou.
Houve um dia em que Marilene, sentindo-se enfim segura, resolveu perguntar algo que ela jamais havia tido coragem. Por que Sofia lia tanto sobre o mesmo assunto. A moça demorou a entender a pergunta de sua curiosa manicure e após algumas frases desconexas relembrando o passado em que trabalhava no salão e alguns títulos de livros associados à cores de esmalte, Sofia enfim compreendeu. E da posse dessa compreensão sobre o mundo de Marilene, Sofia resolveu que responderia à sua manicure. Mas sem explicar. De uma forma que Marilene além de entender, entrasse um pouco nesse universo formado de letras impressas que emocionam e modificam quem por ele viaja. Literatura.

Foi então que ao invés de ler em silêncio, Sofia agora lia em voz alta contos de Clarice que cabiam naqueles rápidos e meu Deus cada vez mais rápidos minutos enquanto as cutículas lhe eram subtraídas. Seria um conto por semana. O primeiro foi “Felicidade Clandestina”. Conforme o conto avançava e a menina de Clarice sofria por não conseguir um livro emprestado, Marilene acelerava o abrir e fechar do alicate e por fim, antes de ter terminado o serviço, tinha seus olhos verdes úmidos que acompanhavam fixos as frases de Clarice lidas por Sofia. O conto terminara e Marilene não voltara ao seu serviço imediatamente. Levou alguns minutos digerindo todo o alimento recebido pelos ouvidos. Voltou em silêncio o delicado trabalho. Coloriu as unhas dos pés de Sofia. Em silêncio. Limpando de forma intermitente seus olhos e seu nariz com a parte de fora de sua mão direita. Silêncio.

Na semana seguinte, Sofia lera “Restos de Carnaval” para Marilene. No momento que a menina de Clarice conseguiu uma fantasia de papel crepom porque havia sobrado material da vestimenta de carnaval de outra criança, Marilene disse aahhhh no mesmo instante em que levou a mão que segurava o pincel úmido de esmalte ao peito sujando-lhe a camisa. Quando Clarice ao fim, mostra-nos o desabrochar de uma rosa, lá estava Marilene de novo com o serviço parado. Nem se importando com o vidro de esmalte destampado que perdia sua fluidez ao contato com o ar que Marilene inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava até que as lágrimas enfim corressem pela sua face contraída.

Quando Sofia leu “Miopia Progressiva”, Marilene ficou atônita. A ideia de um menino míope que percebe que a chave de sua inteligência não estava nem com ele e nem com ninguém, que por intermédio dessa prematura aceitação este menino tenha vivido em serena curiosidade, ao perceber pelos olhos míopes do menino de Clarice o relance mais profundo e simples do universo em que vivia e que por vezes devemos tirar nossos óculos para melhor enxergar… ah isso tudo perturbou muito a pobre da Marilene como desnorteia a qualquer leitor que descortina Clarice.

“Perdoando Deus” Marilene não entendeu. De fato Clarice lispectora muito intensamente. Fala que jamais se habituará a ela porque ela, que dela só conseguiu foi se submeter a ela mesma, pois é muito mais inexorável do que ela, ela estava querendo se compensar dela mesma com uma terra menos violenta que ela. Isso era demais realmente para qualquer mortal. Sofia que pensava que havia entendido Clarice, não conseguiu explicá-la para Marilene. E bem se sabe que o que não conseguimos ensinar é porque não se foi apreendido. “O Ovo e a Galinha” não foi feito para ser entendido mesmo e sim acomodado à forma da mente de quem o lê. Sofia preparou bem Marilene para recebê-lo seja lá do jeito que ela recebesse. Explicou que se lesse outro dia, Marilene sentiria outra coisa e quantas vezes fosse lido as mesmas tantas o conto seria diferentemente recepcionado. Marilene adorou.

Durante o intervalo de uma semana em que Marilene demorava para voltar à casa de Sofia, ela tentava relembrar de cada parágrafo de Clarice, cada etapa do conto para que pudesse ela também contar para outras pessoas e enternecê-las. Ao fazê-lo, percebeu que as pessoas para quem repetia a história não se emocionavam tanto quanto ela ao receber Clarice. Marilene não entendia porque não comovia. Ao retornar à casa de sua cliente ledora, pedia para que Sofia lesse o conto que ela, Marilene, havia tentado reproduzir por si mesma e falhara. E falhou. E continuava falhando toda vez que resolvia contar um conto que lhe fora lido.

Até que um dia Marilene pediu que Sofia imprimisse no “computadô alguns conto” para que ela pudesse ler para seu marido e para seus filhos. Sofia fez melhor e deu para sua manicure um presente comprado há tempos e que estava só esperando ser desejado: Clarice na Cabeceira, um livro de contos consagrados de Clarice Lispector.

Na semana seguinte: Fernando Sabino, Marilene. Marilene, Fernando Sabino. E lá ia Sofia após breves apresentações fazer Marilene morrer de rir com “Deixa o Alfredo Falar”, “Aflições de um Noivo” e “Conversa de Botequim”. Marilene, Rubem Braga. Rubem, Marilene. Pronto. Marilene queria levar Rubem Braga para casa de qualquer jeito. Mário tem que conhecer isso, dizia a Manicure. Luis Fernando Veríssimo, J.J. Veiga, Millôr, Raquel de Queiroz … Marilene queria que todos fossem morar com ela.

Sofia até onde sabemos ainda lê para Marilene enquanto suas unhas recebem seus cuidados. A manicure que estava acima do peso sempre gostou de receber de suas clientes uma amostra de um prato feito por elas em casa, mas sempre perguntava como prepará-lo para que toda a sua família pudesse, na medida do possível, também degustá-lo. Sendo assim, Sofia mostrou para Marilene os melhores sebos do Rio e as bibliotecas públicas as quais todos tem acesso.

Marilene enfim entendeu que um mesmo tipo de assunto pode ser inesgotável.

A mente que não conseguia imaginar um mundo sem água e energia elétrica agora é incapaz de conceber um mundo sem livros. A manicure que morria de medo da solidão agora com isso não se preocupa mais. Ela que imaginava o paraíso repleto de cachoeiras, árvores e anjos agora pressupõe que ele seja uma espécie de livraria. A mulher que se julgava analfabeta porque lia com dificuldade (que ainda não foi sanada por completo) agora se pergunta sobre os que sabem ler e não leem. Os olhos verdes que se viam prazenteiros de algumas maneiras agora somaram a essas tantas uma outra .

Incomensurável pela sua infinitude, mas que também é uma forma de felicidade.

Literatura.

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A ilustração desse texto é obra do artista Sergio Ricciuto Conte.