O Salto Alto da Princesa

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A princesa estava presa na torre do castelo. Fosse isso um conto de fadas, ela permitiria o cabelo crescer a la Rapunzel para que homens subissem na intenção de, no mínimo, tirar-lhe um pouco do tédio. Mas não, o conto é real. Portanto, a bruxa vinha de mês em mês cortar seu cabelo curtinho.

Até que um dia aparece um príncipe. Montado em um cavalo branco ainda por cima (A princesa era louca por cavalos). E sorri com o mais lindo dos sorrisos. E lhe chama com a mão.

– Oh meodeos!, pensava ela, como posso sair daqui!?!

A princesa, outrora tão desesperançosa, foi aspirada de repente, agora veja, pelos seus próprios suspiros que aumentaram freneticamente pelo sonho de viver uma vida acompanhada.

-Pula! Pula que eu te pego! – Gritou ele de braços abertos.

A princesa pensou não duas, mas três vezes. Talvez quatro. Cinco para não errar. E decidiu.

Encostou na parede oposta à janela.

Pegou impulso.

E pulou.

Fosse isso um conto de fadas, a princesa seria amortecida pelos fortes braços do rapaz. Mas não. Como já disse, o conto é real.

O príncipe estava todo pronto para segurá-la. Isso é verdade. Mas ao olhar para o alto, de onde vinha sua princesa, a luz do Sol entrou forte em seus olhos e fez com que ele espirrasse, fato que ocorre quando somos sugados pela escuridão.

Com um ímpeto involuntário, ele piscou forte e seus músculos tiveram um intenso e rápido espasmo.

Logo quando ela se aproximava.

Verdades e Mentiras

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A mulher, negra, forte, mal vestida e suja pede clemência para Juliana que insiste em não abaixar o vidro da janela. Juliana acabou de entrar em seu carro que estava estacionado na Avenida Afrânio de Melo Franco a alguns metros de onde morava. Parara ali porque, por sorte, tinha encontrado uma vaga quando voltava do trabalho e resolveu comprar pão na antiga padaria do bairro.

– Por favor, senhora, por favor! Tenha bondade nesse coração!

Juliana movimentou o vidro o suficiente para que um dedo passasse.

– Por favor, senhora, eu trabalhava de acessorista de elevador no prédio aqui perto há dez ano, mas desde que fizeram a reforma me mandaram embora e eu não consigo emprego em nenhum lugar. Tenho fome e queria um dinheirim só para comer alguma coisa. Não sou vagabunda nem filho eu tenho não senhora. Tenho dormido na rua porque não tenho mais como pagar o aluguel do barraco onde morava tenha piedade senhora.

A brecha do vidro era pequena como já registrado, mas não impediu que o bafo de cachaça da mendiga entrasse no carro perfumado de Juliana.

– A senhora está bêbada!

– Não estou não senhora, não tenho dinheiro para comer, senhora, tenha piedade. Juro que não é pra bebida não senhora.

– Em que prédio você trabalhava? De que rua? – Juliana morava no Leblon desde que nasceu e conhecia o bairro como conhecemos não a nós próprios porque isso é mentira, e muito menos a palma de nossas mãos porque isso é bobagem, mas como conhecemos, bem, como conhecemos… como bem conhecemos a nossa mesa de trabalho.

– Ali naquela rua, senhora.  –  E apontou para lá, qualquer lugar, lugar nenhum.

– Qual rua, moça? Fale o nome da rua!

– Me esqueci, senhora.

– Trabalhou há dez anos no mesmo prédio e se esqueceu do nome da rua? Ah, vá ver se estou na esquina, sua bêbada! Você mente descaradamente!

Quando foi levantar o vidro, a indigente colocou, na tentativa de impedir o gesto da madame, seus dedos no pequeno espaço aberto entre elas.

– Senhora peloamordedeos me dê qualquer coisa, tenho fome.

– Isso não justifica você mentir e abusar da boa vontade das pessoas! Poderia te processar por impostura!

Juliana havia descoberto na semana anterior a traição do namorado com uma colega da sua própria repartição. Juliana era gerente e acabou demitindo uma boa engenheira para não ter que lidar com a vergonha e as fofocas em seu trabalho. No mais, a outra aprenderia a não se meter no caminho de Juliana. Quanto a ele, o traidor, Juliana o amava e estava sofrendo, dizia, porque se tem uma coisa que eu não gosto é de mentiras! Eu não perdoo mentiras!

– Eu vou te processar! Você mentiu pra mim, sua bêbada mentirosa! Com um bafo desses e vem me dizer que não bebe! Ah vá…

– Tá bom, senhora! Eu menti! Eu menti! Mas o que a senhora faria no meu lugar? Por Deus, senhora! Como vou viver sem mentir! Se eu contar a verdade que tento procurar trabalho há vinte ano e ninguém me dá uma oportunidade sequer ninguém acredita! Só sabem me dizer que sou forte, gorda, mas ninguém emprega ninguém que não sabe ler nos dias de hoje! Querem sempre referença! Como vou arrumar referença se nunca trabalhei, senhora?

– O que fazer? Vai trabalhar ora!

– Onde,  senhora? Se a senhora me arrumar onde eu trabalho, eu vou! Onde?

– Vai lavar roupa pra fora!

– Lavo, senhora! Mas quais roupas? A senhora confiaria as suas roupas para que eu lavasse elas?

Juliana pensou. Pegou um pão e deu para a senhora. Mas antes de sair com o carro, disse-lhe que fosse no condomínio tal, na casa tal procurar por Juliana e que se ela lá chegasse, teria trabalho para fazer.

Chegando em casa, resolveu fazer uma sauna, avisou a empregada para colocar na mesa perto da piscina os pães recém-comprados com sucos e tudo o mais para compôr o lanche. Ao subir para o seu quarto, ouviu o som da campainha e logo depois a empregada veio lhe avisar que seu Jorge, o porteiro, estava diante de uma mulher negra e suja que estava procurando por ela na porta do condomínio, conforme ele foi avisado por dona Juliana que isso poderia acontecer.

– Kátia, vá buscá-la. Leve a mulher para a garagem e dê-lhe todos os tênis dos meninos para ela lavar no tanque. E quando ela terminar, me chame!

A maltrapinha acompanhou a moça de uniforme branco até a casa de dona Juliana. Da janela de seu quarto, Juliana conseguiu perceber a chegada das duas. A mulher mentirosa vinha atrás de Kátia, mas nada feliz como aqueles que arrumam uma saída na vida. Vinha porque estava com o orgulho ferido por ter sido chamada de mentirosa e queria mostrar para Juliana que o que ela havia feito tinha uma justificativa. Pois sim que tem. Pois sim!

Juliana desceu sem fazer barulho. Kátia havia percebido que a mulher imunda estava cheirando vodca e fraca de tanta bebida. Ao mostrar-lhe os tênis dos meninos que eram três e jogavam futebol na lama toda semana, Kátia explicou-lhe o que teria que ser feito. Da cozinha, andando nas pontas dos pés e com os ouvidos esticados para a porta, Juliana escutou:

– Dona Lourdes, a senhora tem esses tênis para lavar. Dona Juliana gosta deles brilhando, está entendendo? Não sei onde ela está com a cabeça ao colocar a senhora aqui dentro! Até parece que uma mulher como a senhora, que não consegue nem se limpar, vai conseguir lavar esses tênis dos filho dela! Se não ficar direito, ela mandou avisar que não paga! E se eu fosse a senhora nem perdia seu tempo! Dona Juliana é chata com as coisa dela!

Juliana riu para dentro e tornou a subir para o seu quarto como se tivesse andando nas nuvens. Por pisar suave para que as duas não a ouvissem, mas também porque estava com o corpo mais leve por estar perto de comprovar que quando se quer, tem jeito sim e quem se esforça para fazer tudo certinho tem suas recompensas. Que podemos viver sem mentirmos uns para os outros. Que não precisamos arrumar justificativas por termos mentido. Não há desculpas para qualquer mentira! Que se Carlos chegasse e contasse para ela que não gostava dela e que estava interessado por outra que ela entenderia perfeitamente, quer dizer, que seria muito melhor do que ele ter mentido e tê-la obrigado a demitir uma excelente engenheira como a Tatiana.

Após uma hora mais ou menos, Kátia pediu que Juliana descesse, pois a mulher tinha terminado o serviço. E que tinha ficado bom como dona Juliana gosta.

– Muito bem, dona Lourdes. – Juliana rateou. Como sabia o nome da bêbada se jamais havia perguntado? – A senhora volte aqui na semana que vem e fará o mesmo serviço.

Deu-lhe trinta reais. Dez por cada par de tênis.

Na semana seguinte, Lourdes apareceu de novo com o mesmo bafo de cachaça e foram-lhe entregues os mesmos tênis imundos. Kátia recebeu a esmolambada com a mesma impaciência novamente ouvida pela danada da Juliana que espreitava atrás da porta da cozinha.

– De novo com essa cara imunda?!? Como dona Juliana permite que a senhora entre assim aqui? Pois bem, aqui a esponja, aqui os tênis dos menino e comece a lavar porque a senhora não pode ficar aqui muito tempo! Dona Juliana pediu para que eu não deixasse a senhora fazer hora nos serviço de lavági dos tênis!

Juliana não poderia ter ficado mais satisfeita com a sua ideia. Nem contava com essa da Kátia que estava se saindo melhor do que encomenda. Quem diz que quer, quem diz que precisa, quem diz que ama, suporta os trancos da vida e segue em frente mantendo o foco. Só os fracos, os infelizes, os que não têm mais jeito arrumam uma desculpa para a incompetência de respeitar e amar o próximo! Vamos ver se essa negra bêbada volta de novo! Vamos ver! Pois sim que volta, pois sim!

Os tênis ficaram de novo limpíssimos. Lourdes voltou durante três meses, todas as semanas. Juliana arrumou-lhe roupas e sapatos novos. Permitiu-lhe banho no banheiro dos empregados. Após esse tempo, Carlos foi perdoado e Juliana resolveu oferecer algo maior para Lourdes que já não mais cheirava a vodca, run ou cachaça. Pediu para que Kátia  ensinasse a ela como cuidar dos cachorros. Depois pediu para Kátia ensinar-lhe a passar roupas. Depois acabou indicando Lourdes para sua amiga.

Ao visitar Andréia, quem atendeu a porta foi Lourdes vestida com um uniforme alvo e cheirando a produtos de limpeza.

– Muito bem, Lourdes! – disse juliana muito feliz – Fico muito contente por você! De certa forma, me sinto como uma madrinha, sabe? Fui eu  afinal de contas que perdoei a sua mentira, se lembra? E que te ajudei a ter hoje dignidade que antes parecia que te faltava! Fico realmente muito feliz em ver você livre do vício da bebida, dona Lourdes, e perceber o quanto eu contribuí para isso.

– Muito gradecida, dona Juliana. Por suas palavra bonita e suas atitude. Por ter oferecido os tênis dos menino pra mim lavar. Muito gradecida. Mas quem me tirou do viço foi aquela alma boa da menina que trabalha com a senhora.

Juliana que bem tinha ouvido todo o tratamento dado de uma para a outra, riu-se:

– A Kátia? Alma boa? Com você? Pois sim, dona Lourdes! E eu não sei como ela te tratava? Vivia te chamando de bêbada, de suja e ofendendo a senhora!

– Ela gritava muito comigo. Principalmente no iniço. Desde o primeiro dia. Mas depois que ela me chamava de fedorenta, de bêbada e de tudo o mais e via que eu não fazia nada mesmo, acho porque não tinha as força nos braço por causa das bebida mesmo que a senhora bem sabe que eu bebia e muito, ela vinha e lavava tudim pra mim. Vou te dizer, dona Juliana, eu só fui lavar os tênis dos meninos depois de muitos dia indo na casa da senhora! Põe mês nisso! Ela todo dia brigava muito sim senhora, mas vinha depois chorando, secando o nariz com as mão e lavava tudim pra mim. Por qual motivo eu parei de beber olhando a dona Kátia fazer essas coisas comigo, eu não sei. Mas foi por causa dos xingamento dela e por causa que depois ela vinha fazer os serviço que era pra mim fazer e eu não ia fazer mesmo porque não queria saber de lavar tênis dozoto, alguma coisa aconteceu dendimim. Ela me acorrigiu e nunca mais eu quis beber. Alguma coisa, aquilo significou pra mim. A senhora aceita um cafezim?

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O Elo perdido

Diálogos

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Em uma rua perpendicular ao tempo que fica em Universo paralelo, Einstein, Newton e Galileu se encontraram no botequim da esquina que fica no alto de um morro.

– Se a gente combinasse não daria certo! Cara, que coincidência! Bom ver vocês! – Só faltou o Maxwell! Mas aí era pedir demais, né? – Disse o de peruca. – Ei, Alberto! Desde quando você não se penteia?

O de barba caiu na gargalhada.

– O tempo é relativo. Mas desde o meu primeiro casamento. Minha primeira mulher quase me enlouqueceu… me fez assinar aquelas teses que revolucionaram a física e tiraram o meu sossego. Lembram-se? Em 1905…
– Também… Quis se casar logo com a melhor aluna da Polytechnische de Zurique…
– Eu acompanhei tudo do alto da torre com a pouca vista que me restou. Achei que você estava ficando louco com aquele papo, mas logo vi que era coisa de mulher…querer dilatar o tempo para frear as rugas e diminuir o espaço por preguiça de varrer… não podemos negar, a ideia é criativa, mas muito me admirou você aceitar assinar aquilo.
– Pois é, não sabia que as evidências da teoria da louca da Mileva chegariam tão depressa e que veria as consequências daquela ideia insana ainda em vida. Assinei porque você sabe, se eu não assinasse… a única coisa que me restou foi colocar o meu nome naquela coisa… lembro de ter balançado a cabeça negativamente e ter me lamentado profundamente em pensamento… triste mundo em que a imaginação é mais importante que o conhecimento…
– A minha teoria fazia tanto mais sentido…
– Ah, fala sério, Isaque! – Disse Galileu – Não foi à toa que não durou quase nada aquela ideia débil de inércia, espaço e tempo absolutos! Até uma mulher conseguiu ver o quanto aquilo era inconsistente…
– Mas Mileva não conta, era inteligente pacas! – Lembrou Einstein. – E braba que só, tá ?
– Por isso eu não casei. Tive lá meu namorico com o Halley. Que ombros… pareciam ombros de gigantes… – Falou olhando o horizonte no mar.

O barbudo e o descabelado se olharam meio sem-graça com aquela revelação. O de peruca percebeu.

– O que vocês sabem é uma gota e o que todos ignoram é um oceano, valeu? Hooke quando soube ficou fulo da vida e quase queimou meu nome na Academia… Daí que fui ver que julguei errado… só assim entendi que é melhor construir muros do que pontes.
– Também, ninguém manda ser marica!
– Caramba… é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito! Fala sério, Galileu! Onde já se viu falar assim do amigo?
– Ok. Mas que ele é marica ah isso é.
– É… aquele papo só durou uns duzentos anos… – Newton retomou o assunto anterior – nada comparado a ideia de Aristóteles que durou uns milequinhentos… – Disse cabisbaixo. – Mas, cara, falar que “tudo que move é movido por alguma coisa” todos sabem! Nem coisa de filósofo isso é! Eu pelo menos tentei inovar com a inércia…
– Mas que a sua inércia não faz sentido, ah isso não faz… – Disse Galileu de implicância. – Não foi à toa que não durou quase nada… por isso eu desisti logo de cara em tentar descobrir as causas das coisas. Entender como elas acontecem já é um cazzo!
– Que horas são? Perguntou Einstein. – Elsa falou para eu não me demorar…
– Já se passaram 587 batidas no meu coração. – Disse o barbudo. Após ver a cara assustada do amigo, explicou. – Não sei ver horas. Na minha época só tinha ampulheta. No mais, fiquei cego.
– Valeu, rapeize. Vou nessa. Nos vemos em outra história!

Assim que desapareceu, Newton falou:

– Eu posso ser o que você falou que eu sou, mas ele largou Mileva para casar com a prima… Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas…
– Elsa é boa de cama, Isaque. Mas também não vai durar nada esse casamento. Ela é burra e quando menos a pessoa entende, mais discorda. Eles andam brigando a beça.
– Ih! Leibniz vem lá! Cara, fui. Esse cara é chato pra cacete. Até a próxima!

Galileu que também não era bobo nem nada, disfarçou, se levantou e desceu sentado num papelão com uma aceleração constante o morro com sua encosta bem inclinada.

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Frases dos grandes físicos que ilustram o texto:

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.” (Newton)

“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.” (Newton)

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” (Newton)

“Construímos muros demais e pontes de menos” (Newton)

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.” (Galileu)

“Eppur si muove ou E pur si muove” (Galileu) Tradução: Mas que ela se move, ela se move!

“A imaginação é mais importante que o conhecimento.” (Einstein)

“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein)

Sofia, Marilene, Clarice e Mais Tantos Outros.

Sofia possuía o hábito de ir toda semana a um mesmo salão de beleza perto de sua casa, localizado no subúrbio do Rio de Janeiro, para que a manicure Marilene cuidasse das unhas de suas mãos e de seus pés. Avessa àquele ambiente, Sofia sempre ia acompanhada de um livro, costume esse que não passava despercebido aos olhos de Marilene. Entre um cuidado e outro com as extremidades dos dedos dos pés de sua cliente, Marilene procurava ao menos ler (pronunciando sílaba por sílaba sem que se ouvisse um som saindo de sua boca) o título do livro quando a capa era-lhe acessível aos seus olhos verdes. Quando Sofia fechava o livro por algum motivo, Marilene sempre perguntava do que se tratava a leitura e a resposta de Sofia era vaga demais para a pobre da Marilene: literatura. Na semana seguinte ou no máximo quinze dias depois, a mesma pergunta já que o livro era sempre diferente. E a mesma resposta ininteligível para Marilene. Sofia era amante de livros cheio de histórias e Marilene não entendia como sua cliente não se cansava de ler sempre sobre um mesmo assunto. Literatura.

Por um motivo que é bastante óbvio ligado à matemática e à cifrões e que não aprofundaremos no assunto, o salão faliu. Marilene diante dessa notícia e espertinha que só resolveu manter algumas de suas clientes atendendo-as em domicílio. Ao invés de Sofia ir até Marilene, agora Marilene que ia até Sofia tal como Maomé foi às montanhas com a diferença de que essas jamais tinham ido até Maomé.

Sofia agora, no silêncio de sua casa, permitiu que alguns diálogos fossem travados com sua manicure de forma que algo além de unhas pintadas era somado àquela relação. Os filhos de ambas passaram a ser tratados pelos nomes. Da vida de uma, a outra grande parte sabia e a vida da outra, que frequentara a escola por apenas seis anos, Sofia sem querer modificou.
Houve um dia em que Marilene, sentindo-se enfim segura, resolveu perguntar algo que ela jamais havia tido coragem. Por que Sofia lia tanto sobre o mesmo assunto. A moça demorou a entender a pergunta de sua curiosa manicure e após algumas frases desconexas relembrando o passado em que trabalhava no salão e alguns títulos de livros associados à cores de esmalte, Sofia enfim compreendeu. E da posse dessa compreensão sobre o mundo de Marilene, Sofia resolveu que responderia à sua manicure. Mas sem explicar. De uma forma que Marilene além de entender, entrasse um pouco nesse universo formado de letras impressas que emocionam e modificam quem por ele viaja. Literatura.

Foi então que ao invés de ler em silêncio, Sofia agora lia em voz alta contos de Clarice que cabiam naqueles rápidos e meu Deus cada vez mais rápidos minutos enquanto as cutículas lhe eram subtraídas. Seria um conto por semana. O primeiro foi “Felicidade Clandestina”. Conforme o conto avançava e a menina de Clarice sofria por não conseguir um livro emprestado, Marilene acelerava o abrir e fechar do alicate e por fim, antes de ter terminado o serviço, tinha seus olhos verdes úmidos que acompanhavam fixos as frases de Clarice lidas por Sofia. O conto terminara e Marilene não voltara ao seu serviço imediatamente. Levou alguns minutos digerindo todo o alimento recebido pelos ouvidos. Voltou em silêncio o delicado trabalho. Coloriu as unhas dos pés de Sofia. Em silêncio. Limpando de forma intermitente seus olhos e seu nariz com a parte de fora de sua mão direita. Silêncio.

Na semana seguinte, Sofia lera “Restos de Carnaval” para Marilene. No momento que a menina de Clarice conseguiu uma fantasia de papel crepom porque havia sobrado material da vestimenta de carnaval de outra criança, Marilene disse aahhhh no mesmo instante em que levou a mão que segurava o pincel úmido de esmalte ao peito sujando-lhe a camisa. Quando Clarice ao fim, mostra-nos o desabrochar de uma rosa, lá estava Marilene de novo com o serviço parado. Nem se importando com o vidro de esmalte destampado que perdia sua fluidez ao contato com o ar que Marilene inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava até que as lágrimas enfim corressem pela sua face contraída.

Quando Sofia leu “Miopia Progressiva”, Marilene ficou atônita. A ideia de um menino míope que percebe que a chave de sua inteligência não estava nem com ele e nem com ninguém, que por intermédio dessa prematura aceitação este menino tenha vivido em serena curiosidade, ao perceber pelos olhos míopes do menino de Clarice o relance mais profundo e simples do universo em que vivia e que por vezes devemos tirar nossos óculos para melhor enxergar… ah isso tudo perturbou muito a pobre da Marilene como desnorteia a qualquer leitor que descortina Clarice.

“Perdoando Deus” Marilene não entendeu. De fato Clarice lispectora muito intensamente. Fala que jamais se habituará a ela porque ela, que dela só conseguiu foi se submeter a ela mesma, pois é muito mais inexorável do que ela, ela estava querendo se compensar dela mesma com uma terra menos violenta que ela. Isso era demais realmente para qualquer mortal. Sofia que pensava que havia entendido Clarice, não conseguiu explicá-la para Marilene. E bem se sabe que o que não conseguimos ensinar é porque não se foi apreendido. “O Ovo e a Galinha” não foi feito para ser entendido mesmo e sim acomodado à forma da mente de quem o lê. Sofia preparou bem Marilene para recebê-lo seja lá do jeito que ela recebesse. Explicou que se lesse outro dia, Marilene sentiria outra coisa e quantas vezes fosse lido as mesmas tantas o conto seria diferentemente recepcionado. Marilene adorou.

Durante o intervalo de uma semana em que Marilene demorava para voltar à casa de Sofia, ela tentava relembrar de cada parágrafo de Clarice, cada etapa do conto para que pudesse ela também contar para outras pessoas e enternecê-las. Ao fazê-lo, percebeu que as pessoas para quem repetia a história não se emocionavam tanto quanto ela ao receber Clarice. Marilene não entendia porque não comovia. Ao retornar à casa de sua cliente ledora, pedia para que Sofia lesse o conto que ela, Marilene, havia tentado reproduzir por si mesma e falhara. E falhou. E continuava falhando toda vez que resolvia contar um conto que lhe fora lido.

Até que um dia Marilene pediu que Sofia imprimisse no “computadô alguns conto” para que ela pudesse ler para seu marido e para seus filhos. Sofia fez melhor e deu para sua manicure um presente comprado há tempos e que estava só esperando ser desejado: Clarice na Cabeceira, um livro de contos consagrados de Clarice Lispector.

Na semana seguinte: Fernando Sabino, Marilene. Marilene, Fernando Sabino. E lá ia Sofia após breves apresentações fazer Marilene morrer de rir com “Deixa o Alfredo Falar”, “Aflições de um Noivo” e “Conversa de Botequim”. Marilene, Rubem Braga. Rubem, Marilene. Pronto. Marilene queria levar Rubem Braga para casa de qualquer jeito. Mário tem que conhecer isso, dizia a Manicure. Luis Fernando Veríssimo, J.J. Veiga, Millôr, Raquel de Queiroz … Marilene queria que todos fossem morar com ela.

Sofia até onde sabemos ainda lê para Marilene enquanto suas unhas recebem seus cuidados. A manicure que estava acima do peso sempre gostou de receber de suas clientes uma amostra de um prato feito por elas em casa, mas sempre perguntava como prepará-lo para que toda a sua família pudesse, na medida do possível, também degustá-lo. Sendo assim, Sofia mostrou para Marilene os melhores sebos do Rio e as bibliotecas públicas as quais todos tem acesso.

Marilene enfim entendeu que um mesmo tipo de assunto pode ser inesgotável.

A mente que não conseguia imaginar um mundo sem água e energia elétrica agora é incapaz de conceber um mundo sem livros. A manicure que morria de medo da solidão agora com isso não se preocupa mais. Ela que imaginava o paraíso repleto de cachoeiras, árvores e anjos agora pressupõe que ele seja uma espécie de livraria. A mulher que se julgava analfabeta porque lia com dificuldade (que ainda não foi sanada por completo) agora se pergunta sobre os que sabem ler e não leem. Os olhos verdes que se viam prazenteiros de algumas maneiras agora somaram a essas tantas uma outra .

Incomensurável pela sua infinitude, mas que também é uma forma de felicidade.

Literatura.

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A ilustração desse texto é obra do artista Sergio Ricciuto Conte.


 

Despindo Maria Lúcia

Maria Lúcia havia tomado um banho demorado. Após secar-se, hidratou a pele com óleo de semente de uva. Perfumou-se. O dia estava lindo e combinava com o seu vestido longo e estampado. De salto Anabela, levemente maquiada e com uma bolsa grande e estilosa pendurada no ombro direito entrou no seu carro possante cujo estacionamento era em uma das ruas de Copacabana. Virou a chave na ignição, ligou o ar condicionado, colocou o novo CD da Marisa Monte, ajeitou os retrovisores quando foi surpreendida por uma menina suja que batia na janela.

A princípio, Maria Lúcia sem ao menos saber o que a pobre menina queria, balançou o indicador de um lado para o outro, intercalando esse gesto com outro meneio negativo quando apontamos o polegar para baixo. A menina insistiu para que Maria Lúcia abaixasse o vidro e a moça de pele macia e aromatizada permitiu que somente uma frase passasse por dois centímetros de sua atenção.

– Posso ir com você até o centro? – Perguntou Stéphanny que de princesa nem o nome conseguiu ter.

– Queridinha, não estou indo para a cidade tá, meu bem? – Mentiu com serenidade e de forma espontânea Maria Lúcia que apesar de ter pronunciado inverdades o fez com carinho – não perceptível pelo vidro.

Assim, Maria Lúcia saiu da vaga em que estacionara e em menos de dois minutos estava deslizando pelo asfalto negro da Avenida Atlântica. A moça cuja pele estava coberta com estampas de flores partia otimista em direção ao centro da cidade para enfrentar a única possibilidade umbrosa naquele dia desanuviado: a consulta marcada com o seu ginecologista.

No entanto, algo aconteceu. O rosto sujo de Stephanny aparecia no meio dos carros, nos sinais fechados, na negritude do asfalto. Por que você mentiu, Maria Lucia? Era uma dessas vozes que parecem ser do além, mas que na verdade são de um grilo-falante. Ora, por que! Porque eu posso ser assaltada, a menina pode estar armada com um caco de vidro, roubar meu relógio da Mikael Kors! Ora, Maria Lúcia, não seja ridícula! Disse o Grilo-falante. Aquela menina lá tinha jeito de quem queria seu relógio? Por que diabos uma pessoa que pretende assaltar outra pediria carona com tanta humildade? Mas, Maria Lúcia estava relutante. Mandou o Grilo para os confins do inferno, pois não havia do que se culpar. A menina poderia muito bem pegar uma condução. Estava aparentemente bastante saudável para isso.

Como os mais prósperos e afortunados são insensíveis! Nós todos que já vimos uma cena semelhante sabemos que Stéphanny não pega ônibus porque não tem dinheiro algum! A pobre-menina passará o dia todo pedindo esmolas e muitos nem terão a delicadeza de Maria Lúcia de contar-lhe uma mentira.

E lá seguia Maria Lúcia com o corpo limpo e a alma lavada, toda dona de si dentro daquele vestido adornado com flores não cheirosas. Porém, antes mesmo de entrar no túnel, Maria Lúcia não mais se sentia tão bonita quanto outrora. A roupa lhe parecia muito papagaiada, os sapatos não combinavam com a estampa do tecido, o batom era vermelho demais…O que me custava ter dado uma carona a uma menina? Deixa isso pra lá, Maria Lúcia. O mundo não vai mudar com esse audacioso gesto de caridade! Mas e se essa menina foi a minha “prova” aqui na Terra? Às vezes pensamos que Deus será claro ao nos oferecer a redenção e a salvação, mas vai que estamos enganados? Vai que Ele se disfarça como o Diabo? Vai que Deus queria decidir o meu destino hoje com esse pedido de carona? Aquela tamanha humildade bem estava me parecendo suspeita… De onde viria? Porra, Maria Lúcia, como você é burra! Deus é super dissimulado! Aquele pedido de carona era fingimento! O que Deus queria ao usar aquela máscara era te testar!

Maria Lúcia ficou pálida. O túnel Rebouças lhe pareceu como o caminho para as profundezas do inferno e ela não poderia passar por ele de maneira alguma. Pegou o primeiro retorno.

E agora, Maria Lúcia, vai dizer o que para a menina? Que esqueceu alguma coisa? Que se arrependeu de ter mentido? E se a fedelha não estiver mais lá, Maria Lúcia? O que será de você?

Stéphanny estava ali perto no sinal segurando uma moeda de dez centavos mendigando pelos vidros mais moedas iguais a que firmava entre os dedos. Os motoristas fingiam nada ver. Maria Lúcia chamou a pequena gritando “Ei, garota! Ei! Vem cá!”. Stéphanny foi até Maria Lúcia que começou a gaguejar se explicando, dizendo que havia se esquecido para onde ia, que o médico dela possuía dois consultórios, que ela estava ficando surda e que não havia entendido direito o que a menina queria, que patati patatá…Stéphanny não parecia interessada em nada daquilo. Entrou no carro como se já soubesse que a madame voltaria e ficou o caminho inteiro respondendo com um português todo errado às perguntas de Maria Lúcia. A vida de Stéphanny daria um outro conto que deixarei para uma outra oportunidade. O ponto é que Maria Lúcia estava feliz e aliviada em ter ajudado uma coitada desafortunada e carente, a despeito do carro ter ficado com um odor desagradável mesmo depois da guria ter saído.

O médico deu péssimas notícias à Maria Lúcia. Ela teria que começar urgentemente uma quimioterapia e, muito em breve, possivelmente ser submetida a uma mastectomia.

Stéphanny realmente não reconheceu todo o esforço de Maria Lúcia.

Maldita seja.

Gestação

Lá estava Juliana caminhando em direção à central para pegar o trem das 16:50h. Vinha sem pressa, sem ambição, sem desespero e também sem raiva embora, no fundo de seu coração Juliana carregasse, como todos, uma certa incompreensão sobre algumas coisas que acontecem no mundo e  sobre outras que não se realizaram. Principalmente com ela. Juliana.
Vinha a moça portando seu útero inútil e uma bolsa que dentre outras coisas trazia uma marmita vazia, um livro de Paulo Coelho e um batom que ela já não via mais necessidade de usar, mas  que carregava por precaução, pois a esperança é assim. Como uma maquiagem sem utilidade guardada na bolsa de Juliana que em nada contribui para a beleza desse mundo. Vinha com a humildade de uma a criança descalça que pede para a gente alguma moedinha. Ia como tantas mulheres que vem e vão por todas as calçadas, que já tiveram dias vividos com os nervos expostos e incontáveis noites sem sonhos e sem gozo.
Andava com seus passos sem importância e sem marcação. O tempo de viagem para casa não era contado regressivamente por ninguém. Seguia, portanto, com a força da conformação, semelhante aquela que nos empurra para o cinema e que nos permite o riso mesmo após termos lido uma notícia de um crime hediondo nos jornais.
Voltava para casa essa Juliana como voltam as Marias e as Lúcias da Igreja. Com a falsa leveza conquistada ao preço de alguma parca penitência. Seus cabelos estavam soltos como seus pensamentos. Preocupava-se com uma conta atrasada, comprou pipoca doce, olhava para algumas bijuterias expostas por um chileno e achou a blusa daquela senhora muito bonita.
Trazia consigo seus quarenta anos, a disposição para viver mais trinta e uma vontade muda de fazer alguma coisa bem excêntrica.
Foi então que aconteceu.
Esperando na calçada o sinal fechar para poder, enfim, após metros de insípidas divagações, atravessar a Presidente Vargas, Juliana viu dentro de um táxi que acabara de parar quase em cima da faixa de pedestres, um menino de aproximadamente cinco anos que a olhava. Juliana se assustou. O menino sorriu e mostrou-lhe a palma da mão dando-lhe um tchau como vinha fazendo para todos que o notavam desde que saiu de casa. Juliana, tão indiferente para o mundo e tão insuficiente para ela mesma, interpretou aquele gesto como um doce olá dado somente por aqueles que se conhecem e se reconhecem no meio de uma multidão.
Juliana sorriu e enquanto seus lábios ganhavam um novo formato, levou às mãos ao ventre e lembrou-se de Pedrinho, o nome dado ao fruto de uma gestação de três meses que não perseverou por problemas hormonais jamais solucionados. Retribui a moça aquele cumprimento – mal sabia ela – indiferente com a inércia de seu corpo ou – que diferença faz?,- com a sua própria alma.
        As pessoas a empurravam ou simplesmente se desviavam da Juliana do mesmo modo que se desviam de um poste para cruzar a avenida. Resistente a insensibilidade e a desatenção dos transeuntes, o olhar dessa Juliana mantinha-se fixo naquela mãozinha, o seu coração infértil disparava, suas pernas tremiam e as buzinas emudeceram.  Aqueles segundos de sinal fechado tiveram, para essa senhora, a densidade das horas.
Ao ver o automóvel partir, Juliana correu desesperada na tentativa de sei lá, meu deus. Nada mais incompreensível do que a dor de uma mulher vendo um álbum de belas imagens fotografadas de seus tantos devaneios ser levado por um táxi.
A impura poeira do asfalto tratou de enegrecer o corpo e os sonhos desta pobre moça. Coube ao ônibus 373, impetuoso e desatento, como todos aqueles que viram e veem tantas Julianas, dar fim a essa história.
 

 
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O Bem, O Mal e Eu com Tudo Isso.

Pensei muito se deveria compartilhar essa história. Afinal, muitos podem se afastar de mim depois de ouvi-la ou pior, por curiosidade e por preocupação se aproximar. Mas fato é que certos acontecimentos na vida são como um bolo de aniversário que só cumpre seu destino se for dividido entre amigos. Então, não vejo outra opção senão contar a vocês o que aconteceu comigo na semana passada, mesmo sabendo que as consequências dessa partilha podem ser desastrosas.

Era para ter sido uma segunda-feira como tantas outras. Marilene viria até aqui em casa fazer as minhas unhas no início da tarde e depois disso eu voltaria para meus livros para continuar minha pesquisa sobre o desenvolvimento da física no século XVIII. Como ocorre em todas às vezes que nos vemos, perguntei sobre como anda a vida e a sobrinha de minha manicure enquanto minhas cutículas eram subtraídas pelo ligeiro alicate.

– Como vai a vida, Marilene? Lorena vai bem?

– Lorena está cada dia mais abençoada. – Marilene, como ela mesma me explicou, é de Deus e quem é Dele responde assim quando a pessoa vai bem. No entanto, parece que a benção tinha sido mal dada por esses dias e Marilene continuou. – Mas, ela anda com diarréia e vomitando.

– Desde quando? – Perguntei preocupada lembrando do rotavírus que Yuki pegou esse ano e que quase o desidratou em um dia.

– Desde que apagou a vela da macumba semana passada. Eu e Janete tava conversando numa esquina e quando vimos ela já havia soprado a vela. Para você vê. Como criança é ingênua. Não percebe o mal que pode causar mexendo nessas coisa.

Eu cansei de ouvir bobagens desse tipo da Marilene e sempre dizia hum hummmm para não me estender no assunto. Nós, ateus, agimos estranhamente com as pessoas religiosas respeitando o que elas tem de sagrado. A nossa descrença por esse motivo é muitas vezes silenciosa. Evitamos um confronto de ideias para não machucar ou tirar o chão de quem vive em “solos firmes”.

O problema é que agora envolvia a Lorena e eu não me contive.

– Marilene, ingênua é você! Essa menina precisa ir ao médico! Já ouviu falar em dengue, vírus, rotavírus, hepatite, meningite e patati patatá? – Eu falei patati patatá porque eu não me lembrava mais nome de doença nenhuma.

– Você não acredita no Diabo não, Elika? – Marilene segurava o alicate em riste, mas eu só pensava na Lolô doente e não me intimidei.

– Marilene, eu não acredito em Deus vou acreditar no Diabo? Olha aqui, eu vou te dar um soro com sabor de tutti frutti para você dar para a Lolô e você vai fazer assim assim e assim! – Na verdade assim assim e assim pode ser substituído, na cabeça do leitor, por um discurso surreal sobre o que acontece com as crianças que não vão ao médico quando mexem com a macumba de terceiros.

A unha ficou com a graça de Deus muito boa e Marilene foi embora depois de ter me prometido que cuidaria da Lorena direitinho.

Voltei rapidamente ao trabalho no meu escritório, mas percebi que algo estranho acontecia. Eu tinha que fazer uma força descomunal para manter meu livro aberto. A mesma que fazemos quando passamos pelas portas que foram feitas para ficarem fechadas. Se perdermos o contato, elas se fecham sozinhas. Jamais uma obra impressa aqui em casa se comportou com tamanha antipatia. O que estava acontecendo com o Cassirer? Ao forçar a leitura novamente, o livro pulou da mesa e caiu todo aberto no chão. Abaixei-me rapidamente para apanhá-lo e na primeira tentativa ele escapou de minhas mãos parecendo um peixe ensaboado. Estranho… Tentei de novo. Foi, então, que vi algo parecido com as patas traseiras de um cavalo aparecerem de repente ao lado do livro estatelado no chão. O meu olhar foi subindo lentamente acompanhando aquelas pernas cobertas com pelos vermelhos donde já se via uma capa também rubra por trás delas que deveria estar amarrada no pescoço, ainda longe do meu campo visual. Continuei vagarosamente a aumentar a distância entre o meu queixo e meu colo. Passei pelos joelhos que eram meio de gente meio de bicho, pelo sexo coberto por uma sunga preta, depois pela barriga muito parecida com essas que vemos em modelos masculinos que fazem propaganda de cueca em outdoors e, finalmente, cheguei ao rosto que possuía dois chifres na testa.

Eu estava diante do Capeta.

– Vade retro, Satanás! – Gritei, por reflexo, essa frase católica medieval.

Confesso que me deu um certo medo ao olhar diretamente por aquelas íris felinas, mas também estava muito preocupada e irritada com o estado que o Diabo havia deixado meu livro que nem sequer ainda estava em minhas mãos.

– Que história é essa de você não acreditar em mim?- Perguntou-me o Belzebu com um bafo de onça.

– Ora. Deixe de conversa besta!- Falei após pegar rapidamente o livro no chão e começar a ajeitar as folhas amassadas pela falta de cuidado com que ele havia sido arrancado de mim e arrastado por todo o piso do escritório.

– Há o Bem e há o Mal. Isso é tão claro, Érika, que fico possesso quando vejo alguém que despreza essa diferença! Quem você pensa que é para ainda ficar falando pros outros que Eu não existo?

Dei as costas pro Diabo.

– Você é uma ignorante, menina! – Satã falava com ardor.- Você não sabe nada de mim e fica me desprezando! Pois eu vou te dizer, eu fiz uma revolução contra Deus, tá? Perdi? Perdi! Fui vencido? Fui! Mas NUNCA mais O afrontei de novo! Agora? Eu estou doido para derrotá-Lo! Você vai ver, Erika. Vou expulsá-Lo do paraíso. Ele e todos aqueles anjinhos sem-graça! E aquelas virgens infelizes! E daí, Erika, você vai ver que EU existo pra valer! Você vai ver as atrocidades que hei de cometer! – O Diabo estava cada vez mais irritado com meu desprezo e começou a falar mais alto. – Você é uma idiota, Erika! Você conhece por um acaso o meu passado? Eu era o mais inteligente da minha turma, o mais bonito, o mais amigo, o mais tudo, sabia disso? E Ele que me expulsou. Aí foi o Seu erro porque eu estudei mais ainda, corri por fora como vocês dizem e estou pronto de novo para uma nova guerra!

– Lucífer, deixe de ser chato e burro! Mas se quer fazer isso eu te pergunto: o que você acha que vai acontecer depois? O que você pensa em fazer com as pessoas que dedicaram a vida à Deus?

– Vão todos pro inferno para deixarem de ser imbecis! Tomarei conta do paraíso, substituirei os anjinhos pelos capetinhas e as santas pelas mais belas putas! Daí você verá a diferença. – Respondeu-me sem pestanejar.

– Reflita um pouco, seu Demônio. Olhe o mundo ao seu redor! Se existe o Bem e o Mal, como você afirma, e se houve briga no passado… o vencedor foi Ele? Se Esse Deus fosse bondoso e todo-poderoso por que não fez exclusivamente o bem? Como podemos justificar o câncer, os micróbios, a difteria e milhares de outras doenças que atacam as crianças? Já contou a quantidade de pedófilos nesse mundo? Quantos inocentes morrem por causa dos ciclones, dos terremotos, da pestilência e da fome? Jamais considerarei bondoso um ser que, tendo poder de criar um mundo sem dor, cria deliberadamente o contrário!

– É, pensando bem… – Refletiu Satanás – se ele deixou a Amy Winehouse que tinha uma voz divina chegar no estado que chegou… Imagina com o resto. – Delirou. – Mas eu vou assumir esse volante e vamos ver se você não acreditará no Meu potencial, sua incrédula ridídula!!!

– E você acha que tomando o poder vai fazer melhor do que isso ou vai conseguir piorar essa situação? Acha que vai mudar alguma coisa? Pois saiba, seu Satã, que nada vai mudar.

– Farei novas leis, sua idiota. Aliás, nem vou precisar. Só trocarei nas leis que estão em vigência, o sim pelo não e o não pelo pode.

– E a idiota sou eu? O povo continuará desobedecendo ou se confundindo mais ainda com essas regras, não percebe? Veja os Dez Mandamentos! Parece claro para você? Pois, então, me responda, Satã: eu deveria honrar a vontade de meus pais se eles me pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Posso roubar para prevenir um assassinato? É certo quebrar o sábado santo ou mentir para salvar a vida de alguém? Se fizer novas regras ou modificar as que já existem tudo vai continuar na mesma. O bem e o mal serão sempre relativos!

O Demônio ficou olhando pro teto com a mão no queixo pontudo. Depois de uma longa reflexão, falou:

– Puxa, eu estava tão animado. Agora estou confuso…você acha mesmo que a minha luta será em vão? Acha mesmo que não devo tentar? O meu exército estava com uma animação do capeta! Pronto para a Guerra, Érika. Acha que devo dispensá-los depois desse trabalho infernal que tive? O que eu faço agora, Érika?

– Quer saber? Faça o que você quiser, faça o diabo a quatro, vá pro diabo que te carregue, mas me deixe estudar pelo amor de deus!

Belzebu percebeu que havia perdido seu tempo comigo. Bufou descontente. Foi para a janela do escritório, ajeitou a capa como se estivesse preparando para alçar vôo.

Percebi, então, que aquele pobre-diabo tinha mesmo esperança de modificar alguma coisa nesse mundo. Assim como os monges budistas. Quem sabe ele tem razão? Quem sabe há o Bem e há o Mal? Quem sabe o que realmente está acontecendo com o mundo? E ainda, como cansa de me lembrar o meu orientador: Quem sou eu para afirmar alguma coisa?

Antes que ele fosse embora precisava tirar isso tudo a limpo.

– Espere, Satã, por favor. Preciso saber de uma coisa.

– Fala, querida.- Disse ao virar somente a cabeça em minha direção.

– A vela que a Lorena apagou … tem alguma coisa a ver com tudo o que ela está passando?

– Vela? Que vela, Érika?

– Esquece. Pode ir.

Mesmo com a capa toda aberta não o vi voar. Pelo contrário. A gravidade atuou no coitado como atua numa pedra. Ouvi lá de cima um barulho de algo pesado se chocando com o chão. Coloquei imediatamente o pescoço para fora da janela e olhei para baixo. Vi somente meu cachorro olhando assustado para mim.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Eis o pedaço do bolo de aniversário que te ofereço hoje. Perdoe-me se não coloquei a cereja.

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O Elo Perdido

O corpo de dona Roberta teria que ser exumado. Passados sete anos desde que a mãe de Dulcinha havia sido enterrada, o pai da moça veio a falecer. Por falta de espaço no túmulo da família a exumação foi aconselhada uma vez que Dulcinha queria mesmo os pais juntos mesmo depois de mortos. E disso ela não abriria mão, pois, a lembrança que guardava de seus pais se assemelhava a uma árvore com o seu pai sendo o tronco desse imponente vegetal e a mãe, a copa responsável não só pela fotossíntese como também, e principalmente, pela sombra que dá vontade da gente fazer piquenique. Tronco sem folhas não respira, mas fica em pé, serve para colocar rede. E folhas sem tronco? A gente só varre sem perceber a menor resistência mesmo que seja um punhado. Dulcinha usava essa imagem para se consolar quando a saudade da mãe doía-lhe até os ossos. Imagina se o seu Mauro lhe falta primeiro, como a alegria de dona Roberta se sustentaria? Melhor assim já que tem que ser de um jeito ou de outro. Melhor assim. Diante, porém, da possibilidade de uni-los novamente, Dulcinha faria o que fosse preciso para que a majestade do arbusto fosse imposta para a eternidade.

O fato de ter ficado órfã de mãe e de pai aos vinte e quatro anos de idade e ter que administrar não só sua vida como também uma casa com quintal trouxe muito sofrimento para Dulcinha. Para sermos sinceros, ela sobreviveria bem, pois não era dada a grandes reflexões. Aconteceu, porém, algo que tirou a jovem do seu eixo.

O coveiro, seu Inácio, era homem honesto e devolveu à Dulcinha uma aliança encontrada não em uma das falanges onde deveriam jazer todos os anéis, mas entre as costelas de dona Roberta se é que ainda podemos chamar o esqueleto pelo nome de quem o carregou. Seu Inácio poderia ter somente entregado o aro dourado para a moça. Se somente isso fizesse diríamos que teria feito uma boa ação, agido corretamente e consolado uma filha devolvendo-lhe algo que a terra quase sorveu. Mas não. Seu Inácio deu com a língua nos poucos dentes que carregava e descreveu com detalhes para a senhorinha o local exato onde encontrou a pequena argola de ouro dezoito. Foi bem mesmo na região onde deveria ser o estômago.

Dulcinha sabia que sua mãe havia morrido durante um assalto. Houve um arrastão no túnel Rebouças e os ladrões subtraiam de suas vítimas bolsas, celulares e as jóias das madames chiques que moram na zona sul da cidade. Dona Roberta, coitada, moradora de Madureira, estava indo visitar o irmão doente internado no hospital da Lagoa. Quando estava bem no meio do túnel, os veículos que estavam na sua frente pararam de repente e ela também freou bruscamente. Viu, em seguida, algumas pessoas correndo com cara de pânico e abandonando seus próprios carros, mulheres gritando sem conseguir sair do lugar e não sabemos mais o que Dona Roberta viu. O corpo dela foi encontrado a poucos metros de seu carro com um tiro alojado na parte de trás da cabeça.

Foi seu Mauro que contou para Dulcinha, que nessa época estava se preparando para o vestibular, o triste acontecido. A morte de Roberta saiu até nos jornais já que ela era professora de história da rede estadual da cidade maravilhosa. Dulcinha chorou, sofreu, quis morrer também, mas sete meses depois já estava matriculada na faculdade de matemática. Mesmo antes de dona Roberta passar por aquele túnel que acabou por ligar a terceira com a quarta dimensão, a menina já queria ser professora como a mãe. O infeliz encontro de um projétil com o crânio da pessoa que mais havia lhe entendido nessa vida serviu à moça como o ar quente serve aos pássaros que planam de asas abertas ganhando altura sem nenhum esforço. Dulcinha tinha essa facilidade de transformar dor em escada. Semelhante efeito poderia ter acontecido depois do infarto fulminante de seu Mauro. Elevaria alguns metros e veria muito mais coisas, embora todos saibamos que lá do alto o campo visual aumenta, mas o único barulho que chega cá de baixo aos ouvidos de quem vê as nuvens de pertinho é latido de cachorro nervoso. Isso, todavia, não importa pois, Dulcinha recebeu o anel e algumas informações de seu Inácio no dia em que enterrou seu pai forçando-lhe uma aterrissagem que inconsciente ou talvez até conscientemente evitara.

Ao receber a aliança, a recém formada em licenciatura colocou-a no bolso. Não ousou experimentá-la porque não conseguiu vê-la como um delicado metal que serve para adorno. Afinal, lembremos o que disse seu Inácio no momento em que entregou o ouro: dona Roberta havia engolido o anel antes de morrer. Na verdade, ele não havia dito isso, mas foi o que quis dizer quando mencionou costelas, estômago e olhou bem dentro dos olhos de Dulcinha.

A moça que poderia ter retornado para casa sentindo apesar da saudade uma sensação de estar vivendo corretamente depois de colocar seus pais juntos debaixo da terra (como é dado a maioria das raízes), desorientou-se ao analisar o que carregava no bolso. De fato, era uma aliança de casamento, mas na parte interna lia-se Murillo 30-4-1901, a data do matrimônio de seus bisavós. Bisa Rosalinda havia se casado com Biso Murillo, fizeram bodas de diamante, tiveram uma dúzia de filhos e mais de cinquenta netos. Vovó Acélia era uma das oito filhas desse casal e como a maioria de seus irmãos casou-se e tivera quatro filhos: Rafaela, Rubens, Rita e a falecida Roberta. Por que de oito filhas da Bisa Rosa a vovó Acélia foi escolhida para ficar com uma aliança usada por mais de sessenta anos pela bisa e ainda, por que das três filhas da vovó o anel estava com a mamãe? Perguntou-se Dulcinha sentada no sofá enquanto segurava somente com as pontas do indicador e do polegar o que seu Inácio lhe entregou com a palma da mão aberta como se segurasse uma bandeja.

Puxa vida, o que se passara na cabeça de sua mãe pouco antes de ser vista como um alvo? Foi sua mãe um alvo? Dona Roberta correra para salvar-se ou para salvar o anel? Ao engoli-lo, pensou Dona Roberta em Dulcinha? Pensamos quando engolimos um anel? Que grau de importância pode ter um objeto que diante do risco de se perder a vida lembramos de protegê-lo? Dona Roberta quis protegê-lo ou proteger sua história? Há histórias sem narrativas? Deveria Dulcinha entregá-lo a sua avó Acélia dando-lhe a oportunidade de repassá-lo à outras filhas? Deveria contar-lhe em que circunstâncias o anel foi encontrado? Não judiaria, assim, mais ainda de sua avó que mesmo depois de sete anos após ter enterrado sua filha Roberta sofre como somente sofrem aquelas que veem uma vida que ajudou a construir encerrada antes do tempo? Conversaria com as tias? Estaria violando algum segredo? Ou se silenciaria? Faria sentido guardá-lo? Usá-lo nem pensar. Ou usaria? Haveria sentido aquele anel em seu dedo? Haveria sentido aquele anel em uma gaveta? Faria sentido aquele anel no caixão?

E a moça que não era dada a reflexões, como já dito, desenfreou-se a meditar por horas naquele sofá. O que é fazer as coisas “à minha maneira”? Somos livres para mudar? Somos eternos? O que dá valor à uma vida? Um incêndio pode ser belo? É difícil se comunicar? Para quê revelar a nossa intimidade? O que nos conduz à verdade? Ser livre é fazer o que queremos? A verdade é um ponto de vista? Quando é que a vida tem sentido? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em um Deus? O que é ser responsável? Somos racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que nos preocupamos com o passado? Quem somos agora determina quem vamos ser amanhã? Pode o sentido da vida parecer sem sentido? São os deuses astronautas? Podemos conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa prova a inocência? Onde é que as palavras se encontram com as coisas? Conhecemos melhor através dos sentidos ou através das ideias? Escolhemos o nosso futuro? A morte é o fim? Existimos depois de morrer? A morte é compatível com o sentido da vida?

E as perguntas não paravam, muito pelo contrário, aumentavam exponencialmente e as respostas não chegavam e Dulcinha se desesperava sem chão, sem céu, sem paz. Passou a viver como quem vive no inferno. Estava a filha de Roberta sofrendo de depressão? Não, a neta de Acélia sofria de filosofia. A aliança a fez ver um mundo distinto daquele que é constituído apenas de objetos diferentes, de diversos tamanhos e cores. A bisneta de Rosalinda passou a viver num universo não mais organizado tridimensionalmente onde o tempo segue uma marcha inexorável numa única direção e onde as pessoas sabem o que fazer com um anel. Dulcinha, vejam vocês, às vezes andava com ele dentro de uma caixa. Nunca o colocou no dedo. Pensou em jogá-lo no mar. Recusou-se a guardá-lo em uma gaveta. Temeu devolvê-lo à avó. Repugnou dá-lo a uma tia. Resistiu engoli-lo. Admirou-o por horas. Desejou nunca tê-lo visto. Assistiu televisão com ele ao seu lado. Cantou para ele. Colocou-o debaixo do travesseiro antes de dormir na esperança de quando acordar não vê-lo mais ali. Segurou-o entre as palmas de suas mãos e rezou. Riu para ele. Pobrezinha. Usou-o como marcador de livro. Pendurou-o no chaveiro. Teve medo de perdê-lo.

Enfim, a vida de Dulcinha não teve mais um rumo certo. As dúvidas do que fazer com a aliança usada pela bisa Rosa, pela Vó Acélia e pela mãe perseguiram a moça até onde conseguimos acompanhar essa história. A professora de matemática não via mais lógica em nada. Ensinava equações do segundo grau olhando de lado para o próprio quadro em que escrevia, mudava sempre os móveis de lugar, não usou mais relógio de pulso, deixou de ser católica, tinha problemas para atravessar as ruas, virou vegetariana, parou de ajudar os pobres, não teve dificuldades nos relacionamentos e pintou as paredes dos quartos de azul. Nunca mais Dulcinha leu Clarice Lispector.

 

Mas se querem saber a verdade… a verdade é que dona Rosalinda, a oficial proprietária do anel e bisavó da pobre Dulcinha, não deu anel para filha nenhuma. Já não usava aliança há muito tempo antes de falecer porque a incomodava. Também pudera, dona Rosalinda engordou horrores depois da menopausa. Uma das filhas de dona Rosa, a atual avó de Dulcinha, viu o anel um dia em cima da cabeceira jogado e o experimentou. Esqueceu-se de tirar e acabou ficando com ele no dedo. Dona Rosa bateu as botas e nenhum dos filhos fez questão de saber da aliança. Roberta, a que levou um tiro, era chegada a adereços e observou o bonito aro dourado na mão da mãe. Pediu para ver. Me dá? Fica. Disse Acélia para Roberta enquanto fumava um cigarro e lia uma revista. Pelo visto nem se dava mais conta que o elo grafado existia. Roberta, por sua vez, vivia trocando de anéis como quem troca de roupa, mania dessa mulherada de sair toda combinando. E, para finalizar, o maluco do seu Inácio que trabalha no cemitério do Caju até hoje tem essa estranha mania de ficar dizendo pros outros que tudo o que vê no caixão foi o defunto que comeu.

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Gestação

 

Contando os Passos

Eu queria muito conseguir escrever um conto  com personagens inventados e tirar, finalmente, o foco de mim. Mas, sinto-me incapaz de fazê-lo porque sempre que tento inventar uma história ela tem que ter um fundo musical. Na verdade, é como imagino que seja a vida. Que vivemos como nas grandes e memoráveis cenas das que vemos no cinema. Com uma música de fundo. Pode ser um samba, um rap, um rock, uma valsa ou um tango.
O meu conto deveria ter um compasso de dois por quatro e começaria no quarto de um hospital. Carlos Augusto, um senhor de 65 anos sofre de um mal que nenhum médico sabe a causa. Matilde, sua esposa dedicada há 40 anos, acabou de ser avisada por um homem alto de jaleco branco com um estetoscópio pendurado no pescoço que Carlos Augusto, bem, lamento, dona Matilde, mas Carlos Augusto vai morrer.
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Atordoada. Desesperada e sem saber o que fazer, Matilde faz uma promessa. Nunca mais tomaria refrigerantes. Nem aqueles com adoçantes! Mas deixe, meu Deus, por favor, que eu vá primeiro… Enxugou as lágrimas e foi ao encontro do velho companheiro.
Carlos Augusto assim sabendo da notícia, desespera-se ao lembrar-se de Patrícia!
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Matilde sempre atenta ao seu lado, certa de que qualquer coisa faria pelo coitado, percebe Carlos Augusto preocupado. Amor, você vai sair dessa. Disse a esposa fiando-se na promessa. Carlos Augusto descrente e com a morte a se aproximar, sentiu que precisava se confessar.
Matilde, meu amor, preciso te dizer. Eu tenho outra família em Irajá.

Tenho até netos!

Um, dois, três, quatro com o Xiquinho.
E fechou os olhos sem esperanças de mais viver.
O que Matilde sentiu todos sabemos. Com o que ninguém contava foi com Deus que não gosta de refrigerantes, ter achado a troca de Matilde interessante!
Um, dois…três, quatro. Um, dois…três, quatro.
Aconteceu que Carlos Augusto melhorou e em menos de uma semana para casa voltou. Dona Matilde recebeu orientação de controlar bem a alimentação. Os dois retomaram a  rotina, mas vivem num silêncio constrangedor. Carlos Augusto arrependido da confissão, Matilde não querendo se aproveitar da situação. Afinal, o que no leito de morte é falado é bem passível de ser perdoado.
Agora, quando Carlos Augusto vai dar uns passeios em Irajá, dona Matilde delicia-se com litros de Guaraná. Um, dois, três … quatro. Um, dois, três … quatro!

Luciene

Esse texto funcionou como uma terapia para mim. Semana passada fiz exame de vista e constatei que minha miopia havia aumentado. Cheguei a 6,5 graus! O médico falou que ela ainda deve aumentar. Na mesma semana marquei uma audiometria e o resultado também foi assustador.

Luciene me mostrou que mesmo que eu fique cega e surda, a vida ainda pode ser divertidíssima.

Luciene nasceu assim, perfeitinha. Era a segunda filha de um casal que teve quatro filhos. Teve uma infância feliz. Foi criada numa casa no subúrbio carioca que possuía um quintal bem grande refrescado pela sombra de uma belíssima mangueira. Teve cachorro, coelho, hamster, porquinhos da índia, mas nunca passarinho. Luciene achava que passarinho na gaiola era triste, mas morria de rir ao ver o seu hamster correndo sem sair do lugar na roda girante. Colecionava selos, papel de carta e brincava com bonecas de papel.

Luciene era super saudável quase nunca ficava doente, mas ao nadar na praia do Leblon com seus nove anos contraiu hepatite. Ficou amarela, vomitou muito e teve que ficar deitada durante um mês. Quando ouviu do médico que não poderia comer batata frita Luciene preferiu a morte. Deixou o altruísmo de lado que tanto pregava e fez a mãe prometer que enquanto ela estivesse doente nenhum irmão comeria batata frita também. Luciene se sentiu melhor quando a mãe disse que sim com a cabeça.

Quando começou a estudar tinha dois graus de miopia e vergonha de usar óculos, era uma das melhores alunas, freqüentava a Igreja todos os Domingos, estudava piano, mas para desespero de seus pais os hormônios da adolescência mudaram drasticamente esse quadro. Luciene tornou-se, assim, digamos, da pá virada. Sua mãe enlouquecia diariamente com as besteiras que Luciene falava que ia fazer. Luciene dizia que não queria mais estudar, que queria trabalhar e ser independente aos 14 anos de idade. Queria ser dona do próprio nariz. Lia Roberto Freire, Paulo Coelho e nem piscava com as histórias da Agatha Christie. Achava Renato Russo o máximo e Fábio Júnior um pão. Ficou assustada com a morte de Cazuza e começou a usar lentes de contato. Luciene riu quando viu uma mulher comendo maçã na janela do quinto andar na Ernani Cardoso. Luciene começava a perceber como o mundo é cheio de detalhes.

Ficou em recuperação na sétima série, repetiu a oitava, mas mesmo assim ganhou um violão dos pais de Natal. Disse que ele era tudo o que queria na vida. Desistiu de estudar piano e nunca estudou violão. Luciene conheceu Nilton (aquele que seria seu marido dez anos depois) quando cursou pela primeira vez a oitava série. Como tinha certeza que havia achado o seu príncipe aos quinze anos de idade, Luciene relaxou e gozou. Quando estavam juntos Luciene dizia para todos que iam assim ficar para sempre. Todas as vezes que brigavam Luciene dizia que nunca mais o veria. Quantas vezes eles se separaram Luciene perdeu a conta.

Aos dezesseis anos voltou a ser uma das melhores alunas. Estudava francês às terças e quintas na Abolição na casa de um professor que também sabia latim, italiano e inglês. Luciene gostava de estudar francês e da casa do professor cuja cor das paredes nunca soube qual era, pois, eram todas revestidas de livros. Luciene roubou três livros do professor. Um do Carlos Drummond, outro do Ziraldo e um chamado Brasil Nunca Mais. Luciene ficou assustada com tudo o que leu.

O ponto de ônibus onde pegava condução para voltar para casa do curso de francês ficava em frente a uma Igreja evangélica. Luciene entrou e participou do culto. Na quinta-feira disse para a mãe que chegaria mais tarde, pois, queria conversar com o pastor. Luciene se revoltou com o que viu.

Luciene cursou física e na faculdade conheceu Gustavo. Achou Gustavo bonito e inteligente e tentou esquecer Nilton. Luciene engravidou de Gustavo e não esqueceu Nilton. Luciene teve dificuldades para contar para os seus pais que estava esperando neném com dezenove anos de idade, mas achou que não fosse ter forças para contar ao Nilton que estava noiva de Gustavo. Luciene chorou por não saber o que fazer.

Casou-se com Nilton três anos depois do neném de Luciene ter nascido, mas com sete meses de gravidez já haviam voltado o namoro. Tinha quatro graus de miopia. Luciene dizia que ficariam juntos para sempre. Luciene fez Gustavo sofrer.

Luciene recebeu uma proposta para fazer mestrado, mas teve que recusar, pois, estava grávida do segundo filho. Luciene trabalhava muito e cuidava de sua família. Teve uma inflamação séria na córnea que quase a cegou do olho esquerdo. Luciene passou a usar óculos com medo de se machucar de novo com lentes de contato. Separou-se de Nilton quando seu segundo filho estava com um ano. Achou que nunca mais veria Nilton. Luciene foi para Fortaleza com seu filho mais novo e sua irmã caçula. Luciene mandou um email para Nilton de Fortaleza.

Compraram uma casa de quatro quartos e um cachorro. Luciene resolveu fazer mestrado e ainda gostava de Fábio Júnior. No meio do mestrado engravidou do terceiro filho, passou num concurso público e estava com cinco graus de miopia. Luciene não ouvia seu terceiro filho chorar e nem o telefone tocar. Nilton pensou que Luciene estava muito concentrada nos estudos. Luciene foi ao médico. O resultado da audiometria de Luciene não foi bom.

Com menos de trinta e cinco anos de idade Luciene descobriu que havia perdido grande parte da audição e que nada poderia fazer para recuperar. O problema de Luciene era genético. A avó de Luciene era surda. A perda aumentaria exponencialmente com o passar dos anos. Luciene não deu ouvidos para o que o médico falou. Resolveu fazer doutorado e escreveu um livro. Luciene lia cada vez mais. Entrou para aula de italiano e descobriu que estava com sete graus de miopia. Começou a escrever crônicas e aprendeu a desenhar com lápis de cor. Ouvia Chico Buarque em italiano no volume máximo. Luciene passou a tomar decisões sozinha e sofria sempre com as conseqüências. Os amigos se perguntavam porque Luciene não mais os ouvia. Luciene vendeu o carro para comprar os aparelhos auditivos.

Luciene sentiu algo estranho quando colocou os aparelhos nos ouvidos pela primeira vez. Eles eram imperceptíveis, mas Luciene não prendeu mais os cabelos. Quando tomava banho Luciene tinha que tirá-los, mas também ficava sem eles quando lia. Luciene não queria ir à Itália de óculos e aparelhos nos ouvidos. Luciene resolveu operar a vista.

Luciene ficou indiferente à luz que recebia.

Seus olhos infeccionaram no pós-operatório e Luciene ficou cega.

Desistiu do seu curso de doutorado.

Luciene agora só queria ouvir os seus filhos. Passou a compreendê-los bem mais e participar muito mais de suas vidas. Seu segundo filho sempre teve dificuldades em história na escola e, depois que Luciene ficou cega, ele passou a ler o livro para Luciene que o interrompia sempre pedindo explicações. Agora ele diz que quer ser professor de história e só tira dez nessa matéria. Luciene cantava também com o filho mais velho que tocava violão. Passou a perceber quando ele errava uma nota e a ajudá-lo nas aulas de canto. Contava muitas histórias para o filho mais novo que adorava ouvi-las. Luciene amava conversar com Nilton que dizia que ela ficava muito bonita com óculos escuros. Luciene ouvia cada vez menos Fábio Júnior.

Luciene estava com quarenta anos quando os aparelhos auditivos foram ajustados ao grau máximo que se destinava. Luciene aprendeu cozinhar, a fazer esculturas, tricô, massagens, origami e ler Braille. O limite de freqüências audíveis estava cada vez menor para Luciene.

Luciene ficou completamente surda aos quarenta e cinco anos.

Luciene se lembrou quando não pôde comer batata-frita e lamentou o fato de não saber mais rezar.

Mas foi só com cinqüenta anos que Luciene chorou. De alegria.

Foi colocado pela primeira vez em seu colo o seu primeiro neto.

Luciene percebeu na primeira troca de fraldas que na verdade era avó de uma netinha. Luciene foi a avó mais carinhosa que uma criança pode ter. Não desgrudou dela um só minuto. Luciene teve quatro netos e todas as noras a queriam como babá. As festas de seus netos eram sempre decoradas com os origamis de Luciene. Nilton ficava muito orgulhoso e a abraçava com muito mais freqüência.

Luciene inventou um jeito especial de se comunicar com a gente. Cada parte do corpo que é tocado tem um significado. Podemos ficar horas conversando com Luciene. Exatamente agora a vovó está fazendo brigadeiro para o seu neto mais novo que tem quatro anos. O seu segundo neto quer ser escultor. Cláudio só quer saber de jogar bola por enquanto e eu, a primeira neta, quero ser escritora como minha avó já foi um dia.

13 de Setembro de 2040