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Sobre o tema da redação do Enem 2015

Deixarei aqui registrado minhas postagens nas redes sociais para elas não se perderem. Foi um dia histórico e quero guardar toda essa euforia com muito carinho. Portanto, essa publicação de hoje foge muito do tipo de texto que coloco aqui. Não tem nenhum compromisso com a literatura e sim com a emoção do dia.

‪#‎Enem2015‬

Enem 2015. Pela primeira vez selecionando não somente os melhores alunos, mas também as melhores pessoas para ingressar numa Universidade.

Tema da redação hoje no Enem foi: Violência contra a Mulher. Já estou esperando: Mas nem todo homem…

Tema da redação do Enem hoje: Violência contra a Mulher no país. Gostaria de ver os seguidores preconceituosos de Malafaias, Bolsonaros e Felicianos assim como os machistas em geral tendo que desconstruir seus conceitos em menos de uma hora para passar na prova do Enem. Parabéns a todos os envolvidos. Enem arrebentando.

Tema da redação hoje no Enem: Violência contra a Mulher. É um tema tão tema que até eu estou com vontade de fazer textão aqui com isso. Enem mostrando a que veio.

Tema da redação hoje no Enem: Violência contra Mulher. Reclamou do textão das feministas o ano inteiro e agora vai ter que fazer um em menos de uma hora. Hahahahaaaaaaaa.

Tema da redação de hoje no Enem: Violência contra Mulher. Não há machismo, não há violência, não há racismo, não há homofobia, é tudo mimimi. Fale mais sobre isso agora. Hahahahaaaaaaaa. Enem sambando na cara desses preconceituosos. Amei isso.

Tema da redação do Enem: Violência contra Mulher. Temos exatamente agora mais de sete milhões de jovens pensando e dissertando sobre o tema. Obrigada a todos os envolvidos.

Tema da redação do Enem: Violência contra a Mulher. Péssimo dia para ser homem machista misógino e seguidor de Cunha. Obrigada, Enem.

Tema da redação do Enem: Violência contra Mulher. Escreve agora sobre vitimismo, meu bem, que mulher pede para ser estuprada e que feminismo é falta de rola. Vai. Quero ver você escrever isso agora. Ahhhaaaaahaaaaa. Eterna gratidão, Enem.

Tema da redação do Enem: Violência contra Mulher. Tô aqui fazendo meu textão para mandar para o MEC de alguma forma. Eu que não vou ficar fora dessa. Enem fazendo história.

Tema da redação do Enem: Violência contra Mulher. MEC, deixa eu corrigir as redação nunca te pedi nada.

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‪#‎Enem2015‬ ‪#‎MachistasNãoPassarão‬

MEDICINA
MEDICIN
MEDICI
MEDIC
MEDI
MED
ME
M
MC
MC D
MC DO
MC DONALD’S

ODONTOLOGIA
ODONTOLOGI
ODONTOLO
ODONTOL
ODONTO
ODON
ODO
O
O S
O seu
O seu pe
O seu pedi
O seu pedido, por
O seu pedido, por favor?

VETERINÁRIA
VETERINÁR
VETERINÁ
VETERIN
VETERI
VETE
VE
V
Vo
Vou
Vou fa
Vou fazer
Vou fazer Enem
Vou fazer Enem de
Vou fazer Enem de novo
Vou fazer Enem de novo em 2016

ENGENHARIA
ENGENHAR
ENGENHA
ENGEN
ENGE
ENG
EN
E
Eu
Eu po
Eu pos
Eu posso
Eu posso ano
Eu posso anotar
Eu posso anotar o seu
Eu posso anotar o seu pedido?

ARQUITETURA
ARQUITERUR
ARQUITERU
ARQUITER
ARQUITE
ARQUI
ARQU
ARQ
AR
A
A se
A senho
A senhora
A senhora de
A senhora deseja
A senhora deseja mais
A senhora deseja mais alguma
A senhora deseja mais alguma coisa?

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Começou a choradeira. Eles estão saindo da prova. Vejam: “perdi vaga para cotista e agora para feminista! Era só o que faltava nessa merda de país!”. hahahahaaaaaaaa Obrigada, Enem!

‪#‎Enem2015‬

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Agora tem gente reclamando que o tema da redação é “de esquerda”. Como assim, cara pálida? Então para quem é de direita tudo bem mulher apanhar, ser estuprada, ganhar menos e tudo o mais? Como assim??? Para que tá ridículo, ok? Para. Simplesmente para.

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Não tem como apoiar o MEC que coloca um tema desses na prova de ontem e não deixa a gente ler as redações dos machistas se enrolando. Chateada com o MEC viu.

‪#‎Enem2015‬ ‪#‎xatiada‬

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De ontem para hoje eu já perdi as contas de quantas amizades desfiz nessa rede. Nos tempos idos das eleições, ao contrário de muitos, nem me passou pela cabeça excluir ninguém. Acho interessante ter, digamos, o inimigo por perto para saber o que ele fala, o que ele posta, quais são os argumentos dele, o que ele critica, com o que ele se irrita e por aí vai. Lendo, ouvindo, assimilando muitas das críticas de quem pensa diferente de mim, já me vi refletindo sobre minhas filosofias e repensando minhas escolhas. Nada como ficar desconfortável para que o cérebro seja devidamente estimulado.

No entanto, o tema sobre a violência contra a mulher é outra coisa. Não é questão de ficar ou não incomodada com os comentários e sim enojada por completo.

Na semana passada, fiz a maior exposição jamais realizada antes por aqui em que narrei os assédios que já sofri. Recebi no mesmo dia mais de vinte mensagens inbox de mulheres que já passaram ou ainda passam por isso. Elas não fizeram a declaração publicamente por medo e vergonha. Quase toda semana, lemos nos jornais inúmeros casos de mulheres que são espancadas, mortas, humilhadas pelo mundo. Além disso, temos a violência dita “silenciosa”: a violência moral. “Piadas” que denigrem a imagem da mulher e fortalecem a associação da mulher com um objeto sexual. Todos os dias vejo algum “amigo” compartilhando algo nessa esteira.

O tema de ontem no ENEM obrigou quase oito milhões de jovens dissertarem sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” e os que ficaram de fora falarem também a respeito. Ninguém se segurou. Houve um clima de festa. Eu mesma fiquei eufórica. Super emocionada. Como assim o Brasil todo está discutindo o assunto com a seriedade que merece? Como assim os machistas vão ter que justificar porquê são tão imbecis? E como assim isso aconteceu depois de eu ter lido tantos relatos de amigas que foram ou são humilhadas por homens?

Vejam vocês: a minha felicidade foi chamada de “palhaçada”. A minha festa foi chamada pejorativamente de “carnaval”.

É claro que machistas passarão. É claro que tem feministas que não escrevem lé com cré e ficarão. Isso é o de menos. O que importa, historicamente falando, é que se percebeu uma maior conscientização sobre o tema, uma necessidade maior de discussão, e que o problema de feminista não é falta de rola e sim o mau uso dela. E, ontem, mais do que tudo, ficou claro o quão sofridas e unidas somos nós. Sabemos como nenhum homem sabe que é preciso muito esforço para melhorarmos a sociedade e vimos na outra e em muitos outros um apoio. A estranha mania de ter esperança em um mundo mais justo, ontem, não pareceu tão estranha assim.

Mas, como dizem, a felicidade dura pouco e não tardou para as ofensas e “piadas” começarem. Piada ou brincadeira é quando os dois lados se divertem. Se um lado sofre com o que você disse, isso tem outro nome. Falar que: “machista mente para comer mulher o ano inteiro e vai mentir mole no ENEM”, “isso tudo não passa de um carnaval”, “ria bastante hoje que amanhã a louça te espera”, “sua alegria não vai mudar o mundo”, “tá desesperada? Qual foi a última vez que fez sexo?” e coisas afins só contribuem para que o machismo continue se perpetuando e que mais mulheres sejam espancadas, humilhadas, assediadas, estupradas e assassinadas.

Daí, meu irmão, pode até amar a Dilma mais do que eu que não vai fazer parte da minha rede de amigos nem que o vento seja estocado. Não é questão de ideologia e sim de caráter.

As suas piadas, a sua religião, os comentários de seus amigos achando graça, seus ídolos bolsonarianos, junte toda essa titica de galinha, triplique seus argumentos e não valerão ainda a linda imagem das mulheres fora do perigo de uma mão pesada e injusta de um macho de sua laia.

A operação lava chato segue freneticamente sem dó nem piedade. Julguem-me como sempre julgaram e cagarei como nunca jamais caguei.

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Sobre uma outra Crucificação.

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O tema é polêmico. Uma transexual  se prendeu à cruz encenando o sofrimento de Jesus, para “representar a agressão e a dor que a comunidade LGBT tem passado”.

A intolerância, o ódio e a facilidade com que toda e qualquer tipo de notícia ou opinião é disseminada nas redes sociais fazem com que os exércitos se municiem para defender seus pontos de vista e pouco dialogam entre si. A guerra está declarada. Será?

De um lado: os evangélicos que se sentiram extremamente ofendidos. Consideraram blasfêmia,deboche e uma provocação aberta aos cristãos. Feliciano não tardou em perguntar: “Falar mal de gay não pode, mas isso pode?!?”. O famoso pastor não perdeu a oportunidade de aproveitar ao máximo o episódio para se autopromover. Quanto mais animosidade entre cristãos e gays, melhor para eles. E dá-lhe, portanto, mais lenha para um fogo que ajuda a cozinhar um alimento pra lá de indigesto.

A liberdade de expressão, de fato, é um bem precioso que temos, mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a “sua” liberdade a sofrê-los. E foi aí que a coisa ficou tensa para os dois lados.

Se uma parte de mim acha que é preciso respeitar a crença, os símbolos sagrados e que devemos exigir respeito respeitando, a outra parte diz que os religiosos passaram dos limites querendo impôr regras de conduta se metendo na vida e na forma de amar das pessoas. Enquanto as normas ficavam entre eles, tudo bem. A partir do momento que temos uma bancada evangélica na câmara que se mostra altamente conservadora, mexe com o Brasil inteiro: Gays, lésbicas, macumbeiros, ateus, trans, simpatizantes e antipáticos de qualquer espécie.

Compreendo perfeitamente o choque dos cristãos tradicionais com a foto, assim como entendo o objetivo de quem se propôs a fazer tal chamado. Este último, concordo, mais sutil de entender ainda que completamente justificável e plausível. O ponto é que tem mais gente interessada em colocar lenha nessa fogueira do que ouvir o que outro tem a dizer. Dizer que é ofensa e ponto final é querer simplificar uma luta literalmente sangrenta para o outro lado que pede para ser ouvido e compreendido. Amado também por você, diria.

Vamos raciocinar: houve mesmo desrespeito? Ou seria um pedido de socorro? A metáfora não pode ter sido mal compreendida? Analisemos: sobre a cabeça do transexual crucificado havia uma placa que dizia “Basta de homofobia”. Todos os dias lemos notícias de gays, trans e lésbicas sendo senão mortos agredidos ao extremo. Os casos aumentaram com o aumento da bancada evangélica e isso não pode ser coincidência. No mais, serão todos os gays anti-Cristo ou ateus? A própria transexual já deixou claro que é cristã, que a parada gay para ela é um protesto e não uma festa e que usou as marcas de Jesus, que foi humilhado, agredido e morto com uma nobre intenção. Justamente para mostrar o que tem acontecido com muita gente no meio GLS. De uma certa maneira, não podemos dizer que essa parte da sociedade não está sendo crucificada todos os dias? Jesus não foi morto também por intolerância?

A imagem é forte. E choca. Mas foi para chocar mesmo. Se ela não tivesse desfilado na parada gay, estaríamos vendo fotos de uma multidão segurando bandeiras coloridas e não discutindo o assunto. Choca a imagem assim como deveria chocar qualquer ser humano a imagem de um gay sendo espancado, morto, desfigurado por um homem que se diz cristão. Mas não paramos para falar sobre eles.

E a pergunta que não quer calar. Se Jesus estiver vendo tudo isso, Ele se ofenderia? Não parece que Ele, por tudo que está escrito no Novo Evangelho, se sentiria muito mais ofendido vendo pessoas usarem o nome Dele para pregar a intolerância e o ódio do que pelo fato de alguém estar usando a imagem de Sua crucificação que, vale frisar, foi causada também pela  intolerância de ideias?  Quem foi Jesus afinal senão um homem que pregava o amor e que foi torturado e morto por suas opiniões consideradas subversivas? Parece ainda, olhando sob este viés, que o intuito da imagem de uma transexual crucificada foi ofender? Ou, se deixarmos o orgulho hétero de lado, não acha que podemos considerar a imagem de uma trans sangrando na cruz  como um aviso de que estamos chegando a níveis perigosos de falta de amor? Faz sentido falar em cristofobia incentivada pela imagem? Não foi isso os que a idealizaram quiseram sugerir. Pelo contrário.

Por fim, se os Malafaias e Felicianos da vida cuidassem  somente dos seus rebanhos e deixassem livre o resto da sociedade de seus discursos de ódio contra os homossexuais, enfim, se esses líderes ditos religiosos pregassem o amor e o respeito ao próximo e parassem de usar Jesus de forma criminosa como estão fazendo escancaradamente, toda essa confusão não teria sido evitada?

A guerra ou a paz está sendo clamada na imagem? Para mim, ficou claro, a segunda opção.

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O Amor da Nossa Vida

casa

Estava aqui lendo Proust (fala sério, gente, eu sou mega burguesia cultural insuportável), quando recebo o telefonema da Nara, minha filha adolescente, que acabava de sair de um ensaio.

– Mãe! Encontrei o homem da minha vida!

Nara faz cursos de teatro, dança, canto e bababá bububú lá em Copacabana. Num desses ambientes, apareceu um rapaz bonito, mais experiente que ela na carreira artística e que lhe ajudou em um ensaio lá pelas tantas. Ele explicava, ela ficava olhando com aquela cara de quem olha para um pote de nutella munido com uma colher. Entendeu, Nara?

– Ai, mãe!, eu nem havia prestado atenção!, acredita? Ele me perguntou quanto tempo eu estava estudando canto e o que mais eu fazia! Disse que sou afinada! Mãe! É o homem da minha vida! Tem que ver que fofo ele me ensinando as coisas! Quero me casar com ele, mãe! – Falava ela como se houvesse encontrado um vestido que lhe vestisse muito bem.

Nessas horas, eu tenho que fazer o meu papel de mãe e ponderar algumas coisas mega válidas.

– Ele é neoliberal? – Perguntei.

– Ai, mãe, mora na zona sul, já trabalhou para a um empresa americana… será?

– Ele é vegetariano?

– Não sei, mãe…, pode ser que sim.

– Ele tem cara de quem adotaria uma vira-lata?

– Tem super cara disso, mãe.

– Tem nada! Você não o conhece, minha filha!

Resolvi dar meu cheque-mate na conversa:

-Qual o signo dele?

(Não que isso importa para mim, mas sei que Nara é desse tipo que sabe se um relacionamento vai dar certo ou não olhando a data de nascimento dos namorados.)

– Não sei, mãe! Mãe! Ele NÃO pode ser de libra! Mãe! Se for de libra… eu teria que ver o ascendente… Eu super dou errado com librianos…

– Você não sabe nada desse rapaz e diz que ele é o homem da sua vida? E se for gay?

– Mãe! Não importa! Isso tudo que você falou são detalhes! Não dá pra ficar se pegando nessas pequenas coisas e, depois, agora ele me conheceu, né? Eu estou aqui para mudá-lo! Ele vai super ser desses que adotam vira-lata e se orgulham disso, vamos conhecer Cuba, comer só coisas que não têm cabeça, vamos andar de mãos dadas pelas ruas do Rio, ver filmes com o Johnny Depp e Helena Bonham Carter, ele vai aprender a cozinhar e vamos ser ricos cantando juntos! Não é lindo, mãe?

Nara estava com a Primavera no estômago. Que máximo…

O rapaz apareceu na aula como assistente do professor, resolveu ajudar a Nara e ela assimilou isso tal como aquelas cenas de filme onde o cara aparece no aeroporto no último segundo só pra pedir pra mocinha ficar. Nem acreditei… Incrível como Nara cresceu e está pronta para viver em sociedade. Viver a vida intensamente. Ter um relacionamento sério. Orgulho de ver minha filha iniciando o ciclo: apaixonar-se loucamente, viver o amor, desiludir-se, tomar rivotril fazer terapia engordar emagrecer e querer virar um monge budista desapegado. Se ela der sorte, o ciclo se passará ou muito lentamente, a ponto de não dar tempo de passar para a fase 3, ou terminar rápido demais e deixá-la pronta para iniciá-lo novamente.

Nara me disse que iria desligar e fazer algumas coisas importantes antes de pegar o metrô e depois o trem para Madureira. Mais tarde, a gente veria juntas o que era preciso para a cerimônia. Ok. Beijo, filha. Beijo, mãe!

– Mãe! – Ela, em menos de um minuto – Descobri! Ele pode ser de esquerda! Ele estuda na UFRJ. É de gêmeos! Hétero e compartilhou vídeos de animais! Agora estou indo para casa! Beijo de novo, mãe!

Nara stalkeou o príncipe todinho, gente.

Cá para nós… Ainda que ele tenha votado em Aécio, goste de bife mal passado e tenha um gato persa, eu sei, Nara sabe e todo mundo sabe que o amor entre o futuro-marido-da-Nara-do-momento e ela pode acontecer de verdade, pois, o amor debocha da nossa razão. Referenciais não nos enchem de desejo. Buscamos um parceiro tal como os animais: pelo cheiro. Talvez um pouco mais do que isso: pelo mistério, pela paz que a pessoa nos traz ou pelo tormento que ela nos provoca. Ama-se por aquilo que o beijo nos oferece. Pelo o que sentimos quando tocam a nossa nuca ou quando nos explicam o que não entendemos com um jeito suave, ainda que não prestemos atenção em nenhuma palavra dita.

O amor, cuja fórmula matemática é: eu fofa + você fofo = casamento eterno, não requer consulta prévia, não se dá a stalkeamentos.

O amor da nossa vida gosta de clichês, portanto, o amor da nossa vida não é aquele que nos leva a Paris e sim traz Paris para dentro da gente. Não nos faz querer a chegada da Primavera; o amor da nossa vida é a nossa Primavera.

É isso. Cá estou pesquisando na internet umas casas de campo bem bonitinhas para sugerir a eles como moradia.

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Manifestações na Cozinha

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Estávamos vendo notícias na cozinha sobre as manifestações com a Nara, minha filha adolescente, fazendo pela primeira vez cookies com a ajuda da vovó.

– Vai dar merda… – Falei.
– Mas, mãe, eu segui a receita! Só confundi o bicarbonato com fermento, mas vai dar certo! – Nara protestou.
– Estou falando do Brasil.- Justifiquei.
– Está bonito! – Explanou vovó.
– Não falei, mãe!, vai dar certo o cookie! – Exclamou Nara olhando para os biscoitos todos tortos na fôrma antes de entrarem no forno.
– Estou falando das manifestações. – Disse vovó.
– Está tudo colorido! – Falou Nara mega feliz.
– Tudo amarelo. – Corrigiu vovó.
– Estou falando dos cookies! – Nara disse olhando para os biscoitos enfeitados com confetes de chocolate.
– Vai dar merda. – Falei.
– Você está pessimista com o Brasil, Elika! – Atentou minha mãe.
– Estava falando dos cookies… – Expliquei.

E assim ficamos nós nesse papo esquizofrênico divagando e tentando adivinhar o futuro próximo e o distante.

Os cookies da Nara ficaram ótimos, de fato. Quanto ao resto, estamos – a despeito do meu pessimismo – ainda todos na torcida.

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Carta aberta a Gregorio Duvivier. Resposta ao “Perdemos”.

Gregorio, sua “previsão do passado” de que todos perdemos nessas eleições está, a meu ver, equivocada. Ao contrário do que você pensa, a dizer, de sua visão negativa do que nos ocorreu nessa disputa eleitoral e de seu pessimismo em relação ao que vem pela frente, ganhamos todos.

Nunca houve no meu feed de páginas tantas postagens com documentos anexados com links e fontes reveladas como nessas eleições. E não vejo isso como algo ruim. Informação trocada pelos dois lados não pode ser (agora veja que ironia) censurada e deve ser, por todos, aplaudida.

É claro que ninguém convenceu ninguém, mas isso não é algo a se lamentar, Gregório, pois tivemos, ambos os lados, que ir para as urnas no dia 26 com as verdades que nos foram esfregadas na cara, ou seja, com muito menos ingenuidade e com muito mais consciência. Todos sentiam necessidade de ‘justificar o voto’ a cada fato novo que aparecia do candidato rival.

Quem não quis se inteirar do assunto reclamava e dizia em caixa alta que nada lia. Mas esses não são os que mudam o mundo e, apesar de gritarem nos pedindo silêncio, foi um brado mudo pela falta de moral dado o apoio à inércia e à ignorância (no sentido literal da palavra, já que ignoravam o que lhe era oferecido como material de reflexão). Ganharam nosso desprezo.

Perdemos a linha? A compostura? A paciência? A razão? Não vejo assim, Gregório. Se alguns se descompensaram (e concordo contigo que não foram poucos) foi sinal que foram provocados, que foram tocados, ou seja, que leram e ouviram. Portanto, ganharam esses também muito mais do que perderam.

E quem mora no Rio, Gregório, não perdeu e ponto. Ganhamos e ponto, isso sim! Mostramos para o Brasil inteiro o quanto não queríamos seja lá quem fosse eleito. Entre a milícia e a igreja, ficamos com a nossa indignação. Ganhamos todos os cariocas mais ainda auto-estima e dignidade, sendo que a primeira segue agora muito mais firme no nosso chiado.

Quanto aos paulistas, eles ganharam muito também. Ganharam mais azedamento, mais irritação, mais cólera. Mas, principalmente, eles também ganharam a reprovação de todo o Brasil pelo discurso preconceituoso quanto aos nordestinos.

Ao final, você disse que” a única maneira de não perdermos tempo brigando por política é passar os próximos quatro anos perdendo tempo com política”. Tirando o tom pesado da palavra “perda”, Gregório, você há então de concordar comigo que ganhamos todos porque, pelo que entendi nas continuidades das postagens de muitos dos meus amigos, mais do que nunca, tanto uma metade quanto o todo quase inteiro estão de olho fiscalizando mais do que nunca os seus e os deles. Como já disse, não importa em quem votamos, todos defendemos – e entendemos que precisamos continuar a defender – o melhor.

Abraços de uma fã que sempre diverge.

Elika Takimoto

PS. Ah sim, a Veja, não deu para discordar de você nessa, ela sim se perdeu por completo.

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http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2014/10/1538830-perdemos.shtml

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Enfim, tiro o meu time de campo

Soccer - 2006 FIFA World Cup Germany - Quarter Final - Brazil v France - Commerzbank Arena

Eu, como qualquer brasileiro, quis participar da festa que foi a Copa do Mundo. Senti imensa vontade de comentar com todos os amigos sobre os jogos, os lances, as jogadas… mas de futebol o que entendia? Nada. O ponto é que isso para mim nunca foi problema, bastaria um pouco de pesquisa e leitura e já estaria apta a dar o meu palpite em tudo como sempre faço. O que não podia era ficar de fora da brincadeira de jeito maneira.

A primeira grande surpresa foi ver que Casagrande estava vivo. Eu jurava que ele já havia passado para o meta Universo. Depois, a dificuldade foi decorar os nomes dos jogadores. Dependendo da seleção dava para me referir aos meninos de alguma forma. A da Inglaterra por exemplo, era composta por Gato, Cheiroso, Príncipe, Passo, Lindo, Nada Demais, Modelo, Vem pra Madureira, CasaComidaeRoupaLavada. Outra coisa que me assustou, a despeito de tanto ter estudado sobre o assunto, foi com a cara do David Luiz ao comemorar um Gol.

(Em tempo: David Luiz Elika Elika David Luiz muito prazer o prazer é meu.)

david luiz-horz

O que era aquilo? Eu só fico assim quando tomo dez litros de café e vinte de guaraná em pó, acabo de corrigir todas as provas, digito a senha do cartão e depois de segundos leio transação aprovada, quando quero e consigo matar um de susto, acerto uma bolinha de papel no cesto de lixo e  quando vai ter pudim de sobremesa. Por um gol? Não sabia que era a mesma emoção.

Mas aí depois veio o inacredítável 7×1. Nesse momento, eu me senti à vontade para comentar. Ninguém nunca tinha visto nada daquilo, havia gente culpando o PT, … enfim, o que eu falasse entraria bem na conversa. Mas para não fazer feio, apelei para a física e falei algo sobre falta de entrelaçamento quântico entre os jogadores que foi tão bem aceita quanto as teorias da conspiração que já estavam circulando. Questionei o spin da bola e a indutância da taça. Agi naturalmente e consegui interagir bem. Mas o meu lado mãe foi mais forte e os meus comentários foram no sentido de demonstrar preocupação com os meninos. Primeiramente, com a coluna do Neymar. Segundamente, eu fiquei me lembrando recorrentemente da entrevista que Júlio Cesar deu depois do jogo com o Chile no qual ele defendeu uns pênaltis dizendo que ficou 4 anos traumatizado e que iria lavar a honra dele nessa Copa e bababa bububu. Tive vontade de indicar alguns bons terapeutas e sugerir uma lobotomia para que o coitadinho ficasse bem. Por fim, sofri mesmo ao ver o David Luiz (que até então não sabia se ele jogava no Rio ou em São Paulo) dizer que queria nos trazer alegria.

DL

Na disputa do terceiro lugar, estava segura. Sabia o nome de quase todos os jogadores. Mas quando a câmera passou pelos rostos dos nossos guerreiros, enquanto o hino era cantado, desesperei-me. Crente que ia abafar e Felipão havia trocado o time inteiro! Fala sério. E nem vamos falar que eu jurava que aquele tal de Robben era o Zidane. Estava com o mó medo dele dar cabeçada nos nossos meninos. Foi brabo viu. Mó vexame. Daí, veio Alemanha e Argentina e, como diria Drummond, foi-se a copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas.

Mas  antes de voltar às coisas mundanas, eu gostaria de agradecer aos amigos pela paciência e pelo carinho que tiveram comigo, principalmente ao meu marido que ao me ver na área urrava em um misto de alegria e desespero sem saber se eu daria um drible da vaca ou da jumenta. Para alívio de todos, minha breve carreira de comentarista esportiva se encerrava com o final da Copa. Fiquei mega feliz, pois, não sabia nada de futebol e aprendi um bocado vendo todos esses jogos e pesquisando muito na tentativa de não falar muita besteira.

Agora, por exemplo, eu sei que não podemos morder o amigo de jeito maneira porque a punição é braba, que uma lesão na L3 te permite andar dois dias depois com mochila nas costas, que os portugueses, como Cristiano Ronaldo, deram espelhos para os índios e os alemães um cheque de 30 mil reais, que o capitão de um time pode chorar como um bezerro desmamado antes da cobrança dos pênaltis, que temos que conquistar toda a antipatia de Mick Jagger, que é possível mudar de nacionalidade a cada jogo da Argentina, que pela integridade moral de uma nação passou do marco de 5 gols o jogo tem que acabar, que cantamos o Hino a Capela e não à Capela, que entre o hino e o voltano pode ter prorrogação, que o Fred não teve culpa do resultado porque ele não fez nada, que existe vice que não é o Vasco, que se soubéssemos o que aconteceu nas Copas de 1998 para cá ficaríamos enojados, que japonês é limpinho, que o coração de torcedor brasileiro não bate, só apanha, que não sou só eu-professor e sim que todo mundo aqui ganha menos que jogador de futebol, que qualquer um podia ganhar o que o Fred ganha, que o Casagrande não morreu quem morreu foi o Sócrates, que não é padrão FIFA e sim ladrão FIFA, que quando um craque se machuca ninguém mais joga, que existe vários níveis de autismo e o que Messi tem é mimimi, que síndrome de Asperger passa na hora do gol mas ataca forte quando perde a Copa, que se o Messi foi o melhor jogador dessa Copa não fizeram justiça com o Fred, que a cobertura da Globo foi tão boa que eu nunca mais quero ouvir falar no assunto, …

Enfim, acabou. Foi tudo hiper divertido tirando o episódio da ameaça a nossa democracia que seguirei acompanhando giga atenta. De novo, como diria Drummond, o povo, noutro torneio, havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio, a Copa da Liberdade.

Beijo proceis

 

 

 

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Por que o Mundo Existe?

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Há dois anos resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava simplesmente cansada de viver com dor e quando sem ela, com medo de senti-la. Pedi ajuda de uma forma moderna: postei no feicebuque a minha decisão e pedi aos amigos conectados a indicação de algum médico bom que tratasse do assunto. Por um desses motivos que teimo em interpretar como o acaso, um amigo de escola que havia virado doutor, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo (que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração), estava onláine e disse: acho que posso te ajudar. Passou-me seu telefone e colocou, em cima da minha mesa onde fica o meu computador, a dúvida sobre o que eu deveria fazer com toda aquela impactante informação. É claro que estava esperando um telefone de um médico, mas não de um conhecido! E não era um conhecido qualquer. Era o Leonam!

Diante da possibilidade de reencontrar o colega, estremeci.

No tempo de escola, eu, apesar de sempre ler sobre algumas coisas, jamais gostava de estudar o que era falado em sala de aula e muito menos tinha capacidade de prestar atenção no que era dito por um professor que não fosse de matemática. Sentava-me estrategicamente em um lugar em que pudesse aguentar sem surtar o tempo em que não podia  falar e sim só ouvir sentada o que um adulto estivesse discorrendo. Colocava sempre outros livros na frente dos que deveriam estar abertos. Fingia que copiava as coisas do quadro quando, na verdade, escrevia as minhas elucubrações no caderno e, vez ou outra, pegava-me olhando, sem entender e plena de inveja, os colegas cê-dê-efes que sentavam lá na frente, balançavam a cabeça positivamente para o professor e anotavam o que estava sendo dito sobre as briófitas e pteridófitas, sobre os rios Japurá, Solimões e Xingu, sobre as Guerras de Independência da América Espanhola…Leonam fazia parte desse universo organizado e eu, de um mundo completamente caótico e imprevisível.

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Naquela época, eu jamais teria coragem de tentar dialogar com um colega-nerd com medo de que ele saísse gargalhando alto de minha falta de conhecimento ou simplesmente ficasse assustado por estar diante de alguém de tão parca inteligência. Esperta que sou e sempre fui, nunca alimentei o sonho de um dia ficar uma hora, dez minutinhos sequer!, conversando com um Leonam da vida, falando de coisas que poderiam ser interessantes para ele. O tempo passou, tive filhos, casei-me, arrumei emprego, enfim, virei uma adulta e, com certeza, a possibilidade de ligar para o amigo médico estava completamente descartada. Ao mesmo tempo, pensava que se eu não ligasse poderia estar perdendo a oportunidade de ser tratada por um dos melhores médicos do mundo. E eu já havia tentado de tudo para ficar livre de minha dor: homeopatia, terapia, pilates, reza forte, chá de erva amarga, banho de pipoca… Se Leonam não rodou a baiana na faculdade, soltou a franga e se rebelou contra o sistema, ele era O Médico de Confiança que, de fato, resolveria o meu problema.

No tempo em que éramos adolescentes, eu, imatura que era, resolveria esse impasse arrancando pétalas de uma flor: ligo, não ligo, ligo, não ligo, ligo, não ligo… Como já tinha três filhos, isso não fazia mais sentido. Chamei meu caçula e pedi para ele bater em uma das minhas mãos fechadas depois de ter misturado as duas no ar e colocado um pulso em cima do outro formando um xis. Bate em uma, Yuki. Numa mão estava um papel escrito liga, e na outra (já me conhecendo direitinho), pense bem. Abri bem devagarinho o papel…

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O mundo gira, a Lusitana roda e, quem diria, na semana seguinte estava com o doutor Leonam na minha frente, ouvindo-me atentamente.Falei sobre meus problemas, minhas inquietações, meu jeito de viver, minhas noites maldormidas, meus sonhos não realizados, meu doutorado sofrido. Falei que fazia tudo mal feito, que meus filhos reclamavam que eu lhes dava pouca atenção, que meu marido reclamava que eu lhe dava pouca atenção, que meu orientador pedia que eu me dedicasse mais, que meus alunos pediam mais explicações e que parei com a terapia porque a analista falou que eu não melhoraria se não me entregasse mais ao tratamento.

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Ok. Entendi, Elika. Ok, entendi… Entendi. Ok. Ok. Preciso checar mais umas coisas, disse Leonam sério. Daí ele pegou o estetoscópio e auscultou o ritmo frenético de minhas sístoles e diástoles. Pediu para eu respirar fundo. Por muito pouco eu gritei: eu já tentei! Eu já tentei!!! Percebi a tempo que ele não estava falando metaforicamente e sim querendo ver se eu estava suspirando como os que tem saúde e não como os poetas. Depois, ele pediu para ver os meus olhos ao mesmo tempo em que acendia uma lanterninha supimpa e mirava para a minha íris. Logo a seguir, me fez muitas perguntas que eu, confesso, tive dificuldades em responder, menos por não saber do que por vergonha, pois tratavam de coisas que diziam muito a respeito do funcionamento do meu organismo tipo o que entra, o que sai e como sai.

Foi uma experiência sem precedentes em minha vida que exigiu manobras psicológicas que ninguém jamais havia me ensinado… Ao final, uma possível solução que meu corpo mostrou ser a certa. Leonam percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. As dores passaram, a vida continuou seguindo de forma alucinada, mas aparentemente muito melhor. Sem dor. Um efeito colateral, portanto, não estava previsto: o aumento da minha taxa de questionamentos.

Até que ponto não sentir dor é bom para mim? De que maneira a leitura que eu faço do mundo, as (des)crenças que constituí sobre ele, direcionaram a minha (falta de) dor? Tomar um remédio diário é sinônimo de qualidade de vida melhor? Falei o suficiente para que Leonam entendesse o meu real problema? E sobre os sentimentos que não consigo expressar por palavras por mais articulada que eu seja? O que Leonam entende por ‘solução’, resolve o ‘meu’ problema? Leonam toma remédio para dormir?

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Há um mês atrás, resolvi seguir o ensinamento grego “conheça-te a si mesmo” e decidi associá-lo com um outro oriental “mente sã em corpo são”. Fui, então, tentar, sem a droga, conhecer-me. As minhas enxaquecas deveriam estar associadas a um desequilíbrio psico-neuro-imuno-endócrino-metabólico que eu trataria de resolver sozinha. Ficaria atenta principalmente as minhas limitações e fraquezas que sempre busquei vencer a todo custo. Desprezaria-as. Dispus-me a redimensionar minhas questões e focar em atitudes que promovessem a minha saúde. Dormi cedo, alimentei-me bem, exercitei-me, enfim, fiz tudo certim e, ao final de alguns dias, pisando em ovos para lidar comigo mesma, tive a pior crise de enxaqueca da minha vida. Surtei. Agi como uma louca dentro de casa. Gritei com o aspirador de pó e com a Nara que é o que eu tenho de mais certo e perfeito na minha vida. Disse que tacaria a cabeça dela na parede se ela não me obedecesse.

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O leme que pensei que assumiria sequer existe.

Quem está no controle, afinal?

De novo, pensei muito se deveria ligar para o Leonam. E já era hora de resolver isso sem mais rodeios e criancices. Fui rápida dessa vez . Cara liga coroa esquece. Joguei a moeda pro alto. Deu cara. Entrei em contato, marquei uma consulta e terça passada lá estava eu, pela segunda vez como paciente, diante dele.

Contei tudo para o meu amigo sobre a pior dor da minha vida, mas limitada pelas palavras e pelo meu parco vocabulário. Por mais que falava, sentia que não era o suficiente. Pensei em dançar, fazer um quadro (as cores seriam suficientes?) ou uma escultura de, vá lá, massinha de modelar. O efeito poderia ser mais desastroso, pois danço como boneco de posto e desenho e faço esculturas com a mesma habilidade que um lutador de luta livre faz tricô. Pensei em pedir para ele ouvir My Way enquanto eu fazia mímica, ♪My friend, I’ll say it clear I’ll state my case of which I’m certain ♫, e talvez nem se eu soubesse e executasse tudo isso junto conseguiria fazer com que ele entendesse o que estava sentindo.

I’ve planned each charted course
Each careful step along the by way
And more, much more than this
I did it my way

Certamente, Leonam não captou tudo. Ninguém nos aproveita tanto quanto gostaríamos e uma parte disso é porque nos expressamos muito mal. Por que não me ligou, Elika? Se pessoalmente está difícil, pense a desgraça que seria por telefone, meu amigo…

Yes there were times, I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out

Imagina: no Sábado de Sol toca o telefone: Alô, Leonam! Se houver evolução espiritual, Deus e o Diabo a quatro… por que me fizeram assim? Preciso passar por isso? Tomar um remédio todo dia é curar-me? O que é saúde? É ausência de enfermidade? O que movimenta o mundo? Qual a força por detrás de minhas resistências? Quem é o autor da minha vida?

I faced it all and I stood tall
And did it my way!

Leonam escolheu uma forma de vida como sendo a mais adequada com a sua prática médica. (Essa frase, de qualquer forma que seja dita, faz sentido: Leonam escolheu sua prática médica como adequada a sua forma de vida. A prática médica escolheu Leonam, adequadaço, como uma forma de vida…). A eleição dele foi feita a partir de um padrão dominante do qual tendo a discordar por saber vagamente como isso tudo se estruturou e por nunca, nem quando não sabia, conseguir me adequar a ele. Máquinas a vapor, Idade Moderna, Revolução Industrial, saúde, valor e comércio são algumas palavras que usaria para dissertar sobre o tema. Porém, do que me serve esse conhecimento se não consigo agir sem fazer parte dessa dinâmica que insiste em olhar somente para a doença e não mais para o ser humano? O ponto é que eu não consigo colocar nada imaterial no lugar de um remédio!

I’ve loved, I’ve laughed and cried
I’ve had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing

Geralmente, quando nos deparamos com alguém que pensa diferente, que possui uma estrutura lógico-formal distinta daquela à qual estamos habituados, não compreendemos e não aceitamos ouvi-lo. Esse era o meu grande medo. Do meu mundo completamente caótico, imprevisível e inútil, de novo, não conseguir interação com o universo organizado de Leonam.

E eis que ele me mostra que a despeito de todos os meus questionamentos fazerem sentido e de entender que o Universo com grau de entropia zero no qual ele sempre viveu poder ser uma ilusão, podemos fazer um escambo entre nós com as nossas visões de mundo. Afinal, ainda que haja um critério para considerarmos uma forma de raciocínio mais adequada que outra, há uma forma completamente segura de averiguarmos uma inadequação?

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Não. Não há.

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Além desse grande presente de troca de ideias, ao final da consulta, ganhei do meu médico um outro: um livro.  Ao passar na livraria na semana anterior ao nosso encontro, Leonam viu um livro que, agora veja, fez com que ele se lembrasse de mim. “Um mistério existencial. Por que o Mundo Existe?” de Jim Holt.

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Ao contrário do que supus, o ser humano, além da doença, é pensável.

E a doença quiçá estimulada…

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Em tempo, todos os desenhos que me ajudaram nesse texto foram feitos pelo artista Sergio Ricciuto Conte. Somente o primeiro foi feito para mim quando, em uma palestra para um grupo de seminaristas, explanei sobre o que creem os que não creem. Ao ouvir meus devaneios, ele disse exatamente isso.

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Ah sim, o Frank Sinatra deu uma forcinha, fazendo o fundo musical desse texto.

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