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Vacinando Meus Filhos

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Ontem cheguei no quarto do Yuki e ele estava assistindo um vídeo no YouTube do Felipe Neto.

Respira. Expira. Inspira.

– Garoto, tu sabe que essa cara ridículo já falou mal da fofa da sua mãe no Twitter?

Comigo é assim. No equilíbrio. Imparcialidade é meu sobrenome. Só falo verdades e deixo que a criança conclua o resto.

– Ele? Mas ele é YouTuber, mãe!
– É tuiteiro também. Mas vamos ouvir o que esse imbecil tá falando.

O vídeo mostrava umas respostas mal criadas que ele recebia via rede social e o babaca do Felipe Neto debochava de quem escrevia e ainda ficava respondendo falando um bando de idiotice felipenetonianas. Um nojo.

– Olha aí. Por que você está vendo essa porcaria que só estimula o ódio e a desavença entre os seres humanos?
– Ele te xingou por quê?
– Porque eu falei dos negros e ele me chamou de racista.
– Você? Racista?
– Pois então. Ele não entendeu o texto e começou a falar impropérios ao meu respeito. Daí, que esses seguidores dele que acham bonito ficar xingando os outros e não sabem nem ler direito resolveram se unir e começaram a me xingar de tudo que é nome feio que eu só deixo você falar quando bater o dedinho na quina do sofá.
– Te xingaram?
– E muito! Estimulados por esse imbecil que tu tá dando ibope. Me chamaram de japonesa burra em um texto em que eu falava justamente de racismo e intolerância.
– Poxa vida, mãe. Não sabia. Me desculpa…
– Não tem que pedir desculpas. Você já está bem grandinho para entender os discursos. Se tem alguém estimulando o ódio, a briga, fuja disso. Jamais se revida uma resposta quando alguém nos xinga. Já te expliquei isso. E você aí vendo esse vídeo desse babaca ensinando justamente o oposto.
– Foi mal, mãe.
– Já te disse. Quando alguém nos xinga é porque esse alguém não tem amor no coração. Quem recebeu muito carinho só tem vontade de dar mais carinho. Quem foi muito xingado e humilhado acha que isso é o certo a ser feito. Essas pessoas precisam de abraços, de voz mansa, de uma verdadeira atenção.
– E você falou isso para ele?
– Tentei conversar. Mas ele continuou. Daí, deixei quieto. Não sei rezar, mas desejei paz para esse infeliz. Mas agora tenho que reequilibrar esse seu universo. Quantos minutos você viu desse lixo?
– Dois vídeos.
– Hmmm. Isso equivale a um filme de Chaplin. Bora ver aquele da nossa coleção?
– Formô, mãe.

Assim eu curo as doenças iminentes por aqui. Para sobreviver nesse mundo e não sermos contagiados por tanto vírus ruim, só mesmo vacinando nossos filhos com muita arte e poesia.

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Nikolas

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Yuki me pediu para passar a tarde com um amigo ontem aqui em casa. Liguei para a mãe do Nikolas, o menino mais levado da turma dele. Todo dia Yuki chega da escola contando algo que o Nikolas aprontou. Adoro. A mãe dele topou deboa. Trouxe ele aqui em casa e combinamos que à noite, eu o levaria.
 
Eles brincaram de tudo. Espada. Cabana. Carrinho. Corrida. Mexeram com o gato e com o cachorro. Yuki ensinou Nikolas umas batidas de bateria e os dois ficaram um tempão um tocando e o outro cantando um rock jamais ouvido nesse Universo.
 
Deu setimeia no relógio.
 
– Nikolas, tenho que te levar embora.
– Ah tia não! Deixa eu brincar mais um pouquinho, nem deu tempo de jogar boliche!
– Mãe, deixa ele dormir aqui!
– Tia, nem precisa pegar roupa lá em casa. Nós somos do mesmo tamanho!
 
A despeito da dor, resisti e fiz o combinado. A vontade que tinha era ligar para a mãe do Nikolas e pedir para ela deixar ele morar com a gente. Sublimei o sonho. Peguei os dois, enfiei-os no Takimóvel e lá fomos nós rumo a Piedade guiados pelo waze.
 
– Tia, meu pai sempre para nessa sorveteira para tomarmos sorvete! Bora parar nós três agora?
– Vocês ainda não jantaram…
– Tia, você sabia que toda terça se comprar uma pizza na dominos vem duas pelo preço de só uma, tia? Podemos comprar pizza quando chegarmos na minha casa?
– Não. A minha janta já está pronta. Outro dia a gente faz isso, ok?
– Tia, depois que você me deixar em casa, depois que você jantar, vocês têm algum compromisso?
– Daí a gente vai dormir.
– Mas não tem nenhum “compromisso de hora”?
– De hora não. Mas temos que dormir cedo. Amanhã o pai do Yuki…
– Ah! Então vocês podem conhecer a minha casa? Eu queria mostrar meu quarto para vocês! Você entra, tia, na minha casa?
– Sua mãe deve estar ocupada, Nikolas.
– Ela mostra a casa para os amigos dela também, tia! Eu passei o dia na de vocês. Vi como é tudo. Vê como é a minha casa, tia? Deixa o Yuki conhecer meu quarto? Deixa, tia?
 
Chegando lá, a mãe veio nos receber. Eles entraram varados com Nikolas puxando Yuki pelo braço e gritando:
 
– Tia, é rapidinho!
 
Voltaram depois que buzinei três vezes. Nikolas de bicicleta e Yuki de patinete com uma capa.
 
Não vejo a hora de ver o Nikolas novamente…

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Só mais 50 minutinhos…

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Ontem fomos todos para um sarau e voltamos tarde. Tipo dez, onze horas da noite. Yuki, meu caçula de 9 anos, sempre junto. Já no carro a caminho de casa, ele mete essa:

– Vou ter que ir à escola amanhã?
– Ué. Claro. Por que não iria? – perguntei conhecendo meu eleitorado.
– Porque estamos chegando em casa muito tarde e eu vou acordar muito cansado.

Abre parêntese.

Yuki acorda cedo desde que nasceu. Não importa a hora que vai dormir e se vai passar o dia inteiro chato ranhetando de sono. O horário dele é sempre entre cinco e seis. Muito raro eu precisar de despertador para tirá-lo da cama. Finais de semana são sempre o ó. Eu quero dormir e ele quer fazer coisinhas tipo andar de skate no parque antes mesmo das sete.

Fecha parêntese.

– Mas se você acorda cedo de qualquer jeito, qual a diferença de ir para a escola ou ficar em casa olhando para o teto? – questionei.

– Pode ser que eu precise descansar muito. Você não está considerando isso, mãe? – rebateu ele com o tom de quem está na iminência de ser torturado.

– Sempre considero, Yuki, só que nunca acontece… Façamos o seguinte: você dorme e acorda a hora que o olho abrir. Sem pressão. Se não der para entrar no primeiro tempo, a gente entra no segundo. – falei com mó carinho e boa vontade.

– Mãe, eu nunca cheguei atrasado em nada em toda a minha vida! Você quer quebrar isso agora??? Foi você que sempre me ensinou isso! – Aff. Yuki jogando pesado. A minha sorte é que eu sou mais inteligente que ele.

– Yuki, sejamos claros, você está me enrolando. Chegar para o segundo tempo não deixa ninguém esperando e não prejudica ninguém. Deixa disso. Para que tá feio. Se você acordar a tempo de irmos para o segundo tempo, a gente vai.- expliquei cheia de paciência.

– Que horas começa o segundo tempo? – voltou ele depois de trinta segundos refletindo.

– Sei lá. Acho que oito. – chutei.

– Qual o limite que você dá para eu acordar e não ir à escola?

– Yuki, você quer saber a partir de qual hora eu não te levo mais porque não dá tempo nem de chegar para o segundo tempo? – eu já não estava acreditando…

– Isso. Justamente. – respondeu ele sério.

– Você sabe que há o terceiro tempo, não? – joguei. Os alunos só podem chegar até o segundo tempo.

– Mas aí não faz sentido a gente se mobilizar todo para eu assistir só metade das aulas. – droga. Ele estava coberto de razão.

– Ok. O limite é 7:45. Em 15 minutos dá tempo da gente tomar café e sair. Você pode descansar bastante e ainda estudar pelo resto da manhã.

– Mas e se eu não acordar? Seria muito pedir para você me deixar descansar?

– Ok. Acho que uma vez na vida não faz mal a ninguém. Mas duvido. Nunca dantes na história da humanidade você acordou depois das sete.

E mais ou menos assim foi a nossa conversa ontem antes de dormirmos.

São mais de oito horas. Acabei de ir até o quarto dele e ele está dormindo profundamente. Mas gente… Isso nunca aconteceu! Que poder tem o consciente sobre o inconsciente, não?

No próximo fim de semana, vou mentir dizendo que a escola colocou aula extra sábado e domingo. De matemática ainda por cima! E que começa às nove!!!

Mas se estiver cansado, pode ficar em casa dormindo…

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Mãe, tá orgulhosa de mim?

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Tenho três filhos. Um adulto de 9 anos, Yuki, Nara de 18 e uma criança de 23 que se chama Hideo. Para completar, sou solteira e ontem foi Domingo, dia de Manifestação. Yuki estava com o pai, voltaria meio dia. Nara está possessa com o Temer e estava saindo com mais de vinte cartazes debaixo do braço para protestar. Hideo estava super preocupado com a Nara e resolveu acompanhá-la caso desse algum xabú como tem dado – já que a Polícia Militar serve a um determinado tipo de gente. E eu estava em casa gerenciando tudo isso. Até que Hideo, que não está tão envolvido quanto deveria com o que anda acontecendo, politicamente falando, pediu-me para ir também e lhe fazer companhia. Nara engrossou esse coro dizendo que é nas ruas que vamos resolver isso. Ok ok… liguei para a minha mãe (que mora ao meu lado) e pedi para ela receber o Yuki para mim porque eu ia acompanhar Hideo que ia acompanhar Nara que quer mudar o mundo..

Poderia, nesta crônica, focar na Nara que deu literalmente um show ontem cantando Roda Viva à capela em pleno (antigo) canecão fazendo o presidente do PCdoB chorar vendo algo tão genuíno e depois ir até ela agradecer por aquilo. Ou poderia me estender com Yuki que estudou sobre relevos e chegou em casa querendo montar uma maquete da Chapada Diamantina com argila depois de ter pesquisado no gúgol como ela foi formada e está desde então com essa ideia fixa. Mas não. Quero lhes contar sobre Hideo.

Moramos em Madureira e ir e voltar de Copacabana onde o povo-Fora-Temer estava reunido foi uma viagem em todos os sentidos. Deixamos o carro no Shopping Nova América onde tem metrô e de lá partimos para lutar pela Democracia. Acabado o protesto, Nara decidiu ficar com o pai que mora no Leme e eu e Hideo tivemos que voltar sozinhos. O povo começou a dispersar lá pelas 13h quando nos despedimos da revoltada (não sem razão) da Nara e eu cheguei em casa com Hideo às 19h da noite. Durante este tempo, nós ficamos voltando para a casa. Paramos na casa de um amigo, Hideo capturou um monte de Pokemon, depois almoçamos um peixe em um restaurante que tem um aquário cheio de peixinhos iguais ao Nemo e a Dory, pegamos skate, cipó, metrô e chegamos ao Shopping onde estava estacionado o Takimóvel.

Foi aí que o motivo da crônica começa. Hideo, na ida, foi dirigindo o meu carro e, quando estávamos nos aproximando do caixa para pagar o estacionamento, ele me disse:

– Passa o ticket aê.

– Que ticket mané ticket. Você que veio dirigindo o Pafúncio (Pafúncio é o nome do Takimóvel), você que guardou a budega.

– Eu joguei na sua bolsa.

Aff. Abri a bolsa. Tirei lenço umedecido, cuequinha do Yuki, guarda-chuva, toco de lápis, caneta sem tampa, bolsinha com absorvente, necessé com maquiagem, capa de óculos do Hideo, caneta Pilot de escrever em cartaz, garrafa d´água vazia, a chave de casa, papel de bombom, bombom (que comi), mas…

– Hideo, o ticket não tá aqui!

– Eu coloquei aí caralho!

Hideo é desses que usam palavrão como ponto de exclamação.

– Mas não tinha nada que ter enfiado na minha bolsa, cacete! Você é o motorista! E se eu não tivesse vindo? Por que quando estou por perto vocês enfiam tudo na minha bolsa? Não tá aqui! E agora? vai ter que pagar uma multa de trezentos reais! Ai jesus, Hideo! Puta merda, meu filho!

Eu estava desesperada.

– Mãe, se acalma. Você é igual a mim. Quando tem um problema entra em desespero.

– Que igual a você mané igual a você onde? O mundo está acabando, vou ficar pobre com o mês mal começando e você está calmíssimo! Cadê a semelhança?

– Estou calmo porque não há problema algum aqui.

– Como não há, Hideo! Cadê a porra do ticket cacete!

– Mãe, entra no carro. Liga o rádio. Ouve o CD que está lá. Relaxa que eu vou resolver isso sem gastar o que já iríamos gastar. Nem um real a mais. Relaxa.

Eu já perdi o ticket de estacionamento uma vez e tive que vender o carro para pagar a multa. Duvido Hideo resolver isso. No mais, o documento do carro estava na minha bolsa também. Como ele ia dar um jeito sem sequer ter levado a comprovação da placa do Pafúncio e bababá bububú? Duvido…

Enquanto pensava, ele sumiu e voltou meia hora (!!!!) depois. Entrou no carro com um sorriso de orelha a orelha e me mandou na lata:

– Não disse que eu ia resolver tudo? Não disse que não tínhamos problema algum? Não disse que era para você ficar calma?

E deu de balançar um ticket novo e pago no meu nariz.

– Pagou quanto por isso jesus?

–  Nada a mais do que pagaríamos. Fui ali, falei com o cara da administração, dei a placa do carro, ele fez um novo ticket e pronto. Mãe, você está falando com Hideo. Parece que não me conhece. Sabe quantas vezes eu já perdi o cartão de estacionamento na vida? Você me subestimou, mãe. Viu só? Mãe, você está orgulhosa de mim agora?

Eu poderia ter feito um escândalo nessa hora. Ter dado uma lição de moral dizendo que estaria mais feliz se ele não tivesse perdido um papel valoroso tantas vezes, poderia ter falado que fiquei quase meia hora no carro (tudo bem que fiquei ouvindo Jimi Hendrix que é o CD que Hideo havia colocado para eu degustar e que desconhecia e fiquei encantada…), mas pensei. Se ele não tivesse perdido o ticket, eu não teria vivido tamanha experiência de encontro com meu filho. Se Hideo não fosse desses indicados a tomar Ritalina desde os oito anos por ser extremamente desligado e se eu permitisse que ele ingerisse essa droga, ele se lembraria de guardar tudo que é dito ser importante, teríamos entrado no carro e voltado sem maiores percalços para a casa, é verdade; mas também, é válido observar, sem que eu tivesse recebido tanto carinho e o sorriso de satisfação dele por ter conseguido dar um jeito na situação sem se estressar um tiquinho de nada e me ensinado a fazer um verão quando nos são oferecidos muita chuva e ventos giga frios.

– Razô, meu filho. Só deu tu hoje.

– Ouviu Jimi Hendrix? Gostou? Conhece a história dele?

E voltamos com Hideo me contando sobre a vida desse ídolo do Rock na paz do senhor. Ele falando e eu ouvindo. Plena de orgulho do meu filho.

 

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A Queda dos Corpos e o Peso das Reflexões.

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Hoje, eu levando Yuki para a escola, rolou um diálogo entre nós:

– Mãe, qual o nome daquele negócio que tem em volta dos planetas no Angry Birds Stars Wars?
– Sei lá, Yuki. Atmosfera?
– É a atmosfera que atrai os projéteis quando passam perto dos planetas?
– Ah não, é o campo gravitacional.
– Isso! Era esse o nome que tinha me esquecido.
– Mas ó, filho, o campo gravitacional existe mesmo nos planetas que não estão no jogo do AngryBirds, tá?
– Então quer dizer que se tacarem algo no planeta Terra, isso pode ficar rodando até cair de vez?
– É.
– E se jogar muito rápido? Pode ficar girando sem cair como no AngryBirds StarWars?
– Sim. Esse é o princípio que se usa para colocar satélite em órbita.
– Que maneiro! Quem descobriu isso?
– Isaac Newton. E ó, atmosfera não tem nada a ver com campo gravitacional. Na Lua, não tem
atmosfera e ela também atrai os corpos.
– Da mesma forma que a Terra?
– Não. Como ela tem a massa muito menor, a força da gravidade que é gerada é bem menor.
– A gravidade depende da massa do planeta?
– Justamente. É o que falam. E a até agora não teve nada, até onde eu saiba, que contradissesse isso, ou melhor, um planeta com pouca massa e com um campo gravitacional muito potente.
– Mas pode acontecer?
– Nada impede. O universo sempre é capaz de nos surpreender e teoria científica, ao fim e ao cabo, não deixa de ser um ato de crença.
– Como assim?
– “Acreditou-se” um dia que um corpo só se movia se houvesse uma força atuando sobre ele, ou seja, só tem velocidade se tiver força.
– E não é mais assim?
– Não. Newton mostrou que força não tem nada a ver com velocidade e sim com variação de velocidade. Um corpo pode se mover sem que nenhuma força atue sobre ele.
– Como ele explicou isso?
– Usando a palavra inércia…

A conversa se estendeu a ponto de eu ter a ideia de escrever mais um livro infantil e Yuki chegar atrasado.

Deixei meu menino na escola, ele está no quarto ano. Mas tive a impressão de que se ele fizer a prova do Enem, pelo menos em física, ele se sairia muito bem. Está sabendo as três leis de Newton e a essência da lei da gravitação universal. E creio eu que não vai se esquecer já que aprendeu com o coração.

Assim deveria ser qualquer aprendizado. No tempo em que as perguntas aparecem, com alegria e trabalhando a curiosidade e o prazer da descoberta e não isso que temos… com crianças e jovens aprendendo o que não tem a menor vontade de saber no tempo em que queremos que ela aprenda e não quando ela está preparada. Se o estômago não tiver preparado, não adianta, ele não vai digerir o alimento que sairá do jeito que der e assim que puder do nosso corpo. Por que insistem nesse modelo?

Enfim, acho que essa foi a melhor manhã de terça que tive na minha vida… Yuki se despediu de mim pensando e eu muito mais.

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Os Reflexos do Amor

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Neste fim de semana, Nara, minha filha adolescente, ia sair com o namorado. O relacionamento deles está começando, eles estão se conhecendo e coisa e tal e sei que Nara sempre foi meio devagar para esse tipo de coisa. Pedi para que Hideo os levassem de carro para o local onde eles estavam querendo ir. Mas pedi mais:

– Hideo, acho que você deve se posicionar como irmão mais velho. Eu conheço o menino, ele foi meu aluno, é um garoto diferenciado, mas vale a pena ele saber que tem gente cuidando da Nara, inclusive você. Claro que não é nada dessa bobeira de dar uma de dono de ninguém porque isso não existe, mas para mostrar que Nara é lerda mas nós somos espertos.

– Deixa comigo, mãe.

Hideo foi e voltou.

– E aí, meu filho? Falou com o Daniel?
– Mãe, falei. – E dito isso, Hideo ficou calado coçando a cabeça.
– Desembucha, garoto! O que você falou?
– Mãe, foi o seguinte. Eu não sou homem de ficar dando volta. Esperei o moleque entrar no carro e mandei na lata: quais são suas intenções com a minha irmã, cara?

Silêncio.

Mais silêncio.

– E aí, caceta! O que Daniel falou?
– Mãe, ele ficou mudo por alguns segundos e depois respondeu: sexo selvagem.
– Uau! Sério? E o que você falou? – Perguntei imaginando o rosto doce e calmo de Daniel falando algo tão forte.
– Pois é, mãe, gostei da postura do garoto. Me surpreendeu. Mas eu tive que manter a pose.
– Hmmm. E aí?
– E aí mandei na lata de novo porque comigo é assim: que tipo de sexo selvagem? Me fale mais sobre isso.
– Boa, meu filho. E ele?
– E ele dessa vez não pensou nem um segundo! E respondeu: na rede.
– Caraca!
– Pois é… Mãe, o moleque é bom. Na rede me surpreendeu demais também. Gostei do cara. E ele ainda emendou: E se ficar muito bom faremos em duas redes! Quero escrever um livro de Kama Sutra na rede.
– Que maneiro!
– Pois é, mãe. Foi o que pensei. Enfim. Acho que Nara está com uma pessoa bacana, inteligente, de humor refinado… Relaxa que eu tô deboa.
– Nara ouviu tudo?
– Tudo.
– Ficou bem?
– Ótima. Tagarelando e rindo alto como nunca.

Enfim. Tudo fora de controle, como em todas as vidas do Universo, mas lidando com gente giga espirituosa e, na pior das hipóteses, mega sincera.

Fui dormir super tranquila e feliz.

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Arrumando a casa

Tudo em seu Devido Lugar

Hoje resolvi arrumar a casa. Coisa que nunca faço porque sempre tem algo melhor a se fazer, tipo dessarrumá-la mais ainda. Comecei pelo quarto dos meninos.  Aqui em casa, Yuki de 9 anos divide o quarto com Hideo de 22.  As baquetas de bateria do Yuki estavam em cima da guitarra do Hideo que estava na cama do Yuki repletas também de gibi da Mônica, livros do Ziraldo e CDs de bandas de rock que não consigo guardar o nome. Não sei de quem é o quê. Como dormiram hoje com tanta coisa em cima da cama? Ou depois que acordaram jogaram tudo em cima dela? Não entendo. Pela mesa, a dúvida persiste. Encontro partituras e desenhos feitos à mão do Angry Birds que não consigo identificar qual dos dois os fez. Os chinelos tanto do Super Homem quanto do Incrível Hulk virados de cabeça para baixo. Esses garotos querem me matar, pensei.

Desisto.

Vou para o quarto da Nara, minha filha linda que adolesce. Flores murchas em garrafinhas de água vazias nas janelas. Sei que não posso mexer. Ela gosta dessas coisas que mesmo depois de mortas têm uma forma própria e carregam história. Esmaltes em cima das letras de música do CD de Elis. Não entendo como ela lia enquanto mudava a cor de suas unhas. Rabiscos de química misturados com croqui de alguma coisa podendo ser qualquer coisa. Há vários gibis da Turma da Mônica Jovem na estante do quarto dela misturados aos livros lidos como os de Mishima e Rubem Fonseca. Não sei se estão em ordem cronológica de leitura. Maquiagem no meio das teclas do piano. Estaria ela solfejando um batom? Ou queria ela achar o tom das sombras?

Desisto.

Vou para meu escritório. É tempo de colocar ordem nessa budega. O livro de física segue mantido aberto por um menorzinho há meses: o Livro das Perguntas de Pablo Neruda. Poética a imagem. Ao invés de separá-los, peguei a máquina (Cadê ela? Ah ali!  Ao lado das folhas de papel ofício) e fotografei. Onde estava com a cabeça em deixar na mesma mesa Em busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, 1984 de George Orwell e Vozes Anoitecidas de Mia Couto? O que Ítalo Calvino faz embaixo dos rascunhos? Caramba… que livro lindo esse do Calvino. Dei uma folheada e li quase metade dele. Fechei, levantei as folhas de rascunho (onde tenho algumas ideias anotadas de futuras crônicas) e coloquei Calvino na mesa. Cobri-o com meus repentes de novo. O bom de se esquecer das coisas é que posso fazer surpresas para mim no futuro. Não vejo a hora de encontrar Calvino de novo no susto. Por que Esconderijos do Tempo de Mário Quintana está junto de meus diários de classe? Que livro é esse dele que não me lembro? Nossa. Que lindo… li todo de novo. Levantei Felicidade Clandestina de Clarice Lispector na quina da mesa e vi três multas. Coloquei Lispector rápido de novo onde estava para acabar com aquela visão do inferno que me deu até taquicardia. Cartão de crédito bloqueado para desbloquear, caixa de chocolate em forma de livro que ganhei da Alice e dentro dela… nada. Comi tudo. Coloquei o cartão bloqueado dentro de onde estavam deliciosos bombons e deixei tudo como estava. Gosto de lembrar da Alice.

Desisto.

Fui para meu quarto. Lá, na minha cama, nos reunimos todos para conversar. Livro de fábulas, blusa usada com cecê  da Nara que chega se despindo e deitando ao meu lado, meia chulezenta do Hideo embaixo do meu lençol, pijaminha de hot whels do Yuki e minha camisolinha da Pepa foram todos para seu destino certo: espremidos ali no canto pórque daqui a pouco vamos usar de novo. As roupas sujas foram para o cesto onde encontrei um cinto que Hideo há tempos procurava. No banheiro, na pia, vejo meu caderno de anotações. Não entendo como foi parar ali, mas abro para conferir. Notas de reuniões do grupo de pesquisa em Filosofia com aulas de Física Quântica. No cantinho está escrito: paixão melhor nutella, se não nutella como sabella?

Desisto.

Parei de arrumar a casa e vim aqui escrever essa crônica.

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