Arquivo da categoria: física

Carta aberta à minha filha Nara (que neste ano é minha aluna)

Nara querida,

Há muito penso sobre a minha prática profissional. Tenho percebido e sentido mudanças internas, mas as externas estavam ainda muito tímidas para se fazerem visíveis. Até que a sua presença fez tudo urgente em minha vida. Quando decidi ser sua professora foi não somente porque eu queria fazer mais ainda parte de sua vida, mas porque eu queria que você tivesse o melhor profissional à seu dispor e eu teria que me fazer muito superior ao que sempre fui. Ninguém, por mais física que saiba, faria para você algo com tanto amor e coragem como eu estou fazendo. Bem sabemos, minha filha, o quanto essas coisas fazem a diferença em nossas vidas. Eu sabia, como mãe, que a melhor forma de você aprender, seja lá o que for, é ensinando e que você sempre vai me ensinar quando estiver aprendendo. Como professora, por que teria que ser diferente? Em nenhum momento de sua vida, vi você aprendendo algo sentada de boca fechada e parando de aprender quando um ser em pé na sua frente decidiu que o que foi falado era o suficiente; nunca te vi assimilando qualquer coisa ouvindo somente as respostas às perguntas dadas por mim mesma. Todo e qualquer conhecimento por você adquirido começou com uma interrogação sua e não com uma afirmação minha, começou com a sua curiosidade e não com a minha autoridade materna. Você, Nara, sempre esteve no comando de seu aprendizado. Por que na escola teríamos que agir de forma diferente?

Ao ver o discurso de profissionais que ajudei a formar, percebi que estava, sem saber, imersa nesse sistema que se auto-reproduz “naturalmente” e ajudando a fortalecê-lo. Perguntei-me: em que medida eu ajudo os meus alunos a formular o conceito de ‘ciência’, ‘cientista’, ‘método científico’, ‘saúde’, ‘vida’, ‘organismo, natureza’, etc. ? Em que medida eu estimulo meus alunos a refletirem sobre esses conceitos?

Há tempos sei que a física que eu ensino é um desserviço para a sociedade. Eu estava somente fortalecendo os vínculos com correntes político-educacionais que apenas alimentam a mera reprodução de um sistema que sempre esteve a serviço da elite e que ajuda a mantê-lo. Veja que não é sem motivo que as cotas são recebidas com asco por muita gente, não é sem propósito que sou rotulada como romântica, intelectual, burra, ingênua e defensora de bandidos quando falo em direitos humanos. Eu já sabia que teria que semear com muito cuidado para fazer brotar um outro tipo de cidadão que tenha uma outra forma de vida material e cultural e seja capaz e enxergar as novas relações sociais. Não era simples, não era fácil. Estava estudando há anos de que forma sair dessa bolha. Até que você apareceu como aluna e toda a minha timidez e covardia sumiram de repente, não mais que de repente.

Sempre quis que a educação formasse um sujeito reflexivo, crítico, que fomentasse a emancipação popular e não mais que ela fosse a responsável pela formação de indivíduos acríticos, obedientes e conformistas, contribuindo para manutenção de um quadro de inércia coletiva diante das questões sociais. Na história da educação brasileira, Nara, até mesmo na época da ditadura, a legislação educacional não deixou de mencionar, como principal finalidade do processo educacional, a formação do cidadão. Há muitos paradigmas de cidadania e tenho pensado muito qual está sendo adotada na educação: para as elites condutoras ou para as massas a serem conduzidas? Analisando os documentos oficiais, a resposta foi clara. Afinal, não podemos e não devemos considerar que a escola pode se aproximar de instituições vinculadas não aos interesses concretos do povo, mas sim aos interesses dos processos produtivos? Se tomarmos em consideração que vivemos em um país que condenou milhares de pessoas a uma vida demarcada por condições de miséria, desemprego, violência, e demais indicativos de condições sociais inaceitáveis e as políticas sociais que o atual governo está implantando, o assunto ‘cidadania’ deverá ser, no mínimo, mais esclarecido. E em verdade, em verdade vos digo, minha filha, que o ensino de física, há muito praticado por mim que seguia O Padrão, contribui como um instrumental de formação política e não-reflexão sobre as mazelas do país e do mundo, além de influenciar a postura do indivíduo diante dos problemas que nos afetam diretamente como a saúde pública, por exemplo. Perdoe, Senhor, eu pequei tanto…

Eu via a necessidade de mudar, Nara, mas não sabia como. Até que você apareceu sentada à minha frente e  virar a mesa ficou fácil. O tempo urgia com seu olhar de aprendiz e eu não podia te passar de forma alguma que a física é um conhecimento compartimentado, isolado de outros. Não podia deixar você pensar que a minha aula terminava quando a de história começava e muito menos que a matemática é a única forma em que a natureza se manifesta para os cientistas. Não queria que você estudasse em uma escola em que os professores competem entre si em grau de importância da disciplina que leciona. Não me permiti estimular a ideia de que há uma diferença entre ciências exatas e todas as demais. Não posso aceitar você pensar que não pode ser engenheira porque gosta de literatura, pois nós, Nara, não somos tal qual o monstro criado pelo Dr. Frankstein. Um ser feito de pedaços. Nós fomos criados inteiros e tudo de uma só vez. A visão de você decorando fórmulas para uma avaliação me dava náusea. Não quero que você use o mínimo de seu cérebro como depósito de algum tipo de informação. Quero você usando-o para conectar os dados que lhe são apresentados. Que você analise-os, critique-os e reflita sobre eles.

Repudiei a imagem d´eu dando uma nota ruim para você e isso ter algum significado sobre a sua inteligência. As provas, definitivamente, não são capazes de medir a tua capacidade e nem a de ninguém. E as que eu fazia, antes de te ter como aluna, serviam apenas para provar quem estava mais adequado a viver no mundo do passado ou pronto para repeti-lo. Se você não estiver no seu tempo de assimilar o que tenho para te dizer, esperarei o momento certo sabendo que estou lidando com um ser altamente capaz de entender absolutamente tudo o que quiser. Não posso forçar nada porque isso seria um crime. Não posso fazer com que você acredite que errar seja uma coisa ruim e aprenda a evitar o erro. Quero ver você errando, minha filha,  e feliz com isso. Quero que você se orgulhe de seus erros e não os compare com os de ninguém. Quero você e todos os seus amigos errando quantas vezes forem necessárias até aprender e acertar. E não terei pressa para isso.

Não podia imaginar você se esforçando para alcançar a média imposta e, pela necessidade de se viver e aprender coisas mais úteis e mais belas, não se esforçar para passar com nota máxima na minha matéria. Não quero que você se contente por passar de ano se você não deu o que há de melhor em cada etapa do seu aprendizado e quero mais!, quero que isso seja o natural nesse processo.

Portanto, querida, se hoje você e seus amigos têm uma professora completamente fora do padrão, saiba que é porque estou envolvida até o último fio de cabelo para fazer que a escola em que vocês estudam, ao contrário de tantas outras, não veja o ENEM como o futuro e sim vocês como cidadãos. Luto por um CEFET em que os melhores alunos não sejam aqueles que acumulam mais informações e sim os que aprendem a gerá-las; luto por um CEFET em que os melhores alunos não sejam aqueles que se adaptam à escola e sim aqueles que fazem a escola se reinventar para melhor servi-los.

Sonho por uma escola em que os alunos não são ensinados e sim aprendam. E que todos percebam essa enorme diferença.

Com amor e esperança

Mamãe.

2 Comentários

Arquivado em Educação, física, Opinião

Diálogos

fisicosb

Em uma rua perpendicular ao tempo que fica em Universo paralelo, Einstein, Newton e Galileu se encontraram no botequim da esquina que fica no alto de um morro.

– Se a gente combinasse não daria certo! Cara, que coincidência! Bom ver vocês! – Só faltou o Maxwell! Mas aí era pedir demais, né? – Disse o de peruca. – Ei, Alberto! Desde quando você não se penteia?

O de barba caiu na gargalhada.

– O tempo é relativo. Mas desde o meu primeiro casamento. Minha primeira mulher quase me enlouqueceu… me fez assinar aquelas teses que revolucionaram a física e tiraram o meu sossego. Lembram-se? Em 1905…
– Também… Quis se casar logo com a melhor aluna da Polytechnische de Zurique…
– Eu acompanhei tudo do alto da torre com a pouca vista que me restou. Achei que você estava ficando louco com aquele papo, mas logo vi que era coisa de mulher…querer dilatar o tempo para frear as rugas e diminuir o espaço por preguiça de varrer… não podemos negar, a ideia é criativa, mas muito me admirou você aceitar assinar aquilo.
– Pois é, não sabia que as evidências da teoria da louca da Mileva chegariam tão depressa e que veria as consequências daquela ideia insana ainda em vida. Assinei porque você sabe, se eu não assinasse… a única coisa que me restou foi colocar o meu nome naquela coisa… lembro de ter balançado a cabeça negativamente e ter me lamentado profundamente em pensamento… triste mundo em que a imaginação é mais importante que o conhecimento…
– A minha teoria fazia tanto mais sentido…
– Ah, fala sério, Isaque! – Disse Galileu – Não foi à toa que não durou quase nada aquela ideia débil de inércia, espaço e tempo absolutos! Até uma mulher conseguiu ver o quanto aquilo era inconsistente…
– Mas Mileva não conta, era inteligente pacas! – Lembrou Einstein. – E braba que só, tá ?
– Por isso eu não casei. Tive lá meu namorico com o Halley. Que ombros… pareciam ombros de gigantes… – Falou olhando o horizonte no mar.

O barbudo e o descabelado se olharam meio sem-graça com aquela revelação. O de peruca percebeu.

– O que vocês sabem é uma gota e o que todos ignoram é um oceano, valeu? Hooke quando soube ficou fulo da vida e quase queimou meu nome na Academia… Daí que fui ver que julguei errado… só assim entendi que é melhor construir muros do que pontes.
– Também, ninguém manda ser marica!
– Caramba… é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito! Fala sério, Galileu! Onde já se viu falar assim do amigo?
– Ok. Mas que ele é marica ah isso é.
– É… aquele papo só durou uns duzentos anos… – Newton retomou o assunto anterior – nada comparado a ideia de Aristóteles que durou uns milequinhentos… – Disse cabisbaixo. – Mas, cara, falar que “tudo que move é movido por alguma coisa” todos sabem! Nem coisa de filósofo isso é! Eu pelo menos tentei inovar com a inércia…
– Mas que a sua inércia não faz sentido, ah isso não faz… – Disse Galileu de implicância. – Não foi à toa que não durou quase nada… por isso eu desisti logo de cara em tentar descobrir as causas das coisas. Entender como elas acontecem já é um cazzo!
– Que horas são? Perguntou Einstein. – Elsa falou para eu não me demorar…
– Já se passaram 587 batidas no meu coração. – Disse o barbudo. Após ver a cara assustada do amigo, explicou. – Não sei ver horas. Na minha época só tinha ampulheta. No mais, fiquei cego.
– Valeu, rapeize. Vou nessa. Nos vemos em outra história!

Assim que desapareceu, Newton falou:

– Eu posso ser o que você falou que eu sou, mas ele largou Mileva para casar com a prima… Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas…
– Elsa é boa de cama, Isaque. Mas também não vai durar nada esse casamento. Ela é burra e quando menos a pessoa entende, mais discorda. Eles andam brigando a beça.
– Ih! Leibniz vem lá! Cara, fui. Esse cara é chato pra cacete. Até a próxima!

Galileu que também não era bobo nem nada, disfarçou, se levantou e desceu sentado num papelão com uma aceleração constante o morro com sua encosta bem inclinada.

———————————————

Frases dos grandes físicos que ilustram o texto:

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.” (Newton)

“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.” (Newton)

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” (Newton)

“Construímos muros demais e pontes de menos” (Newton)

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.” (Galileu)

“Eppur si muove ou E pur si muove” (Galileu) Tradução: Mas que ela se move, ela se move!

“A imaginação é mais importante que o conhecimento.” (Einstein)

“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein)

6 Comentários

Arquivado em Ciência, Conto, física, Humor