Arquivo da categoria: Manifestação

Quem aqui está sendo doutrinado?

escola-sem-partido-600x388

Acho que todos aqui já ouviram várias pessoas se dizerem contra a doutrinação marxistas nas escolas feitas por professores comunistas esquerdopatas. Quem fala isso fala como se estivesse havendo uma lavagem cerebral ideológica em massa nas escolas públicas brasileiras com a “injeção” de crenças marxistas na mente de crianças e adolescentes. E nem vamos falar dos que tentam diminuir Paulo Freire. Mentira. Vamos sim.

O que não me parece que seja levado em consideração é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários.

Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho, por exemplo), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho. Ou seja, dizemos para nossos alunos como já disseram tantas vezes para nós com todas as letras para esquecermos os outros e nos preocuparmos somente com nós mesmo porque a vida é dura, o que há aí fora é competição e se não estivermos preparados para competir sofreremos as consequências disso.

Isso é uma mentia? Claro que não! Mas poderíamos repensar sobre o propósito de tudo isso que está acontecendo no mundo de, por exemplo, ao invés de competição, alimentarmos mais a ideia da empatia. Por que não? Ao invés de ficar repetindo que o mundo é assim e que se não estudar vai ser pedreiro (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar), por que não pensarmos em formas de melhorar o mundo para o pedreiro?

Acho que as pessoas têm todo o direito de não gostar de Marx ou de Paulo Freire, e de fato há um forte vínculo entre os dois. Mas o legado de Paulo Freire vai muito além do marxismo. Reduzí-lo a ideias comunistas ou doutrinantes é um delírio de quem vê inimigos vermelhos por toda parte.

Paulo Freire é uma das grandes referências (se não a maior) da educação brasileira no exterior, não vamos jogá-lo fora junto com a água suja da  banheira.

A história dessas pessoas é muito parecida. Quando crianças eram educadas por uma família conservadora (como eu fui).  “Aprenderam” no ambiente doméstico e religioso valores preconceituosos, discriminatórios e excludentes porque seus responsáveis também foram assim criados e achavam que o mundo dessa forma fosse o natural. Um mundo onde os gays não podem amar livremente, as mulheres serem independente, os negros exercerem cargos de chefia… tudo isso era visto como algo bizarro e anti natural.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vença o mais forte, portanto, estude para ser alguém na vida (sinônimo de ganhar dinheiro) e saiba que o seu coleguinha (estudante secundarista) é seu inimigo porque vai disputar a mesma vaga em uma universidade que você. Eu ouvi isso N vezes e sei que muitos também.

E nem vamos falar da televisão que sempre fortaleceu essas ideias. A mídia tem um papel fundamental na doutrinação de um modelo correto de sociedade passado em novelas, revistas e jornais.

O que temos hoje? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, e esse é um ponto em que tenho estudado, lido e conversado muito porque não entendo, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito foi visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”. Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a  odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!).

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que se prega é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?

 

 

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação, Manifestação, Política

Mãe, tá orgulhosa de mim?

hideo13

Tenho três filhos. Um adulto de 9 anos, Yuki, Nara de 18 e uma criança de 23 que se chama Hideo. Para completar, sou solteira e ontem foi Domingo, dia de Manifestação. Yuki estava com o pai, voltaria meio dia. Nara está possessa com o Temer e estava saindo com mais de vinte cartazes debaixo do braço para protestar. Hideo estava super preocupado com a Nara e resolveu acompanhá-la caso desse algum xabú como tem dado – já que a Polícia Militar serve a um determinado tipo de gente. E eu estava em casa gerenciando tudo isso. Até que Hideo, que não está tão envolvido quanto deveria com o que anda acontecendo, politicamente falando, pediu-me para ir também e lhe fazer companhia. Nara engrossou esse coro dizendo que é nas ruas que vamos resolver isso. Ok ok… liguei para a minha mãe (que mora ao meu lado) e pedi para ela receber o Yuki para mim porque eu ia acompanhar Hideo que ia acompanhar Nara que quer mudar o mundo..

Poderia, nesta crônica, focar na Nara que deu literalmente um show ontem cantando Roda Viva à capela em pleno (antigo) canecão fazendo o presidente do PCdoB chorar vendo algo tão genuíno e depois ir até ela agradecer por aquilo. Ou poderia me estender com Yuki que estudou sobre relevos e chegou em casa querendo montar uma maquete da Chapada Diamantina com argila depois de ter pesquisado no gúgol como ela foi formada e está desde então com essa ideia fixa. Mas não. Quero lhes contar sobre Hideo.

Moramos em Madureira e ir e voltar de Copacabana onde o povo-Fora-Temer estava reunido foi uma viagem em todos os sentidos. Deixamos o carro no Shopping Nova América onde tem metrô e de lá partimos para lutar pela Democracia. Acabado o protesto, Nara decidiu ficar com o pai que mora no Leme e eu e Hideo tivemos que voltar sozinhos. O povo começou a dispersar lá pelas 13h quando nos despedimos da revoltada (não sem razão) da Nara e eu cheguei em casa com Hideo às 19h da noite. Durante este tempo, nós ficamos voltando para a casa. Paramos na casa de um amigo, Hideo capturou um monte de Pokemon, depois almoçamos um peixe em um restaurante que tem um aquário cheio de peixinhos iguais ao Nemo e a Dory, pegamos skate, cipó, metrô e chegamos ao Shopping onde estava estacionado o Takimóvel.

Foi aí que o motivo da crônica começa. Hideo, na ida, foi dirigindo o meu carro e, quando estávamos nos aproximando do caixa para pagar o estacionamento, ele me disse:

– Passa o ticket aê.

– Que ticket mané ticket. Você que veio dirigindo o Pafúncio (Pafúncio é o nome do Takimóvel), você que guardou a budega.

– Eu joguei na sua bolsa.

Aff. Abri a bolsa. Tirei lenço umedecido, cuequinha do Yuki, guarda-chuva, toco de lápis, caneta sem tampa, bolsinha com absorvente, necessé com maquiagem, capa de óculos do Hideo, caneta Pilot de escrever em cartaz, garrafa d´água vazia, a chave de casa, papel de bombom, bombom (que comi), mas…

– Hideo, o ticket não tá aqui!

– Eu coloquei aí caralho!

Hideo é desses que usam palavrão como ponto de exclamação.

– Mas não tinha nada que ter enfiado na minha bolsa, cacete! Você é o motorista! E se eu não tivesse vindo? Por que quando estou por perto vocês enfiam tudo na minha bolsa? Não tá aqui! E agora? vai ter que pagar uma multa de trezentos reais! Ai jesus, Hideo! Puta merda, meu filho!

Eu estava desesperada.

– Mãe, se acalma. Você é igual a mim. Quando tem um problema entra em desespero.

– Que igual a você mané igual a você onde? O mundo está acabando, vou ficar pobre com o mês mal começando e você está calmíssimo! Cadê a semelhança?

– Estou calmo porque não há problema algum aqui.

– Como não há, Hideo! Cadê a porra do ticket cacete!

– Mãe, entra no carro. Liga o rádio. Ouve o CD que está lá. Relaxa que eu vou resolver isso sem gastar o que já iríamos gastar. Nem um real a mais. Relaxa.

Eu já perdi o ticket de estacionamento uma vez e tive que vender o carro para pagar a multa. Duvido Hideo resolver isso. No mais, o documento do carro estava na minha bolsa também. Como ele ia dar um jeito sem sequer ter levado a comprovação da placa do Pafúncio e bababá bububú? Duvido…

Enquanto pensava, ele sumiu e voltou meia hora (!!!!) depois. Entrou no carro com um sorriso de orelha a orelha e me mandou na lata:

– Não disse que eu ia resolver tudo? Não disse que não tínhamos problema algum? Não disse que era para você ficar calma?

E deu de balançar um ticket novo e pago no meu nariz.

– Pagou quanto por isso jesus?

–  Nada a mais do que pagaríamos. Fui ali, falei com o cara da administração, dei a placa do carro, ele fez um novo ticket e pronto. Mãe, você está falando com Hideo. Parece que não me conhece. Sabe quantas vezes eu já perdi o cartão de estacionamento na vida? Você me subestimou, mãe. Viu só? Mãe, você está orgulhosa de mim agora?

Eu poderia ter feito um escândalo nessa hora. Ter dado uma lição de moral dizendo que estaria mais feliz se ele não tivesse perdido um papel valoroso tantas vezes, poderia ter falado que fiquei quase meia hora no carro (tudo bem que fiquei ouvindo Jimi Hendrix que é o CD que Hideo havia colocado para eu degustar e que desconhecia e fiquei encantada…), mas pensei. Se ele não tivesse perdido o ticket, eu não teria vivido tamanha experiência de encontro com meu filho. Se Hideo não fosse desses indicados a tomar Ritalina desde os oito anos por ser extremamente desligado e se eu permitisse que ele ingerisse essa droga, ele se lembraria de guardar tudo que é dito ser importante, teríamos entrado no carro e voltado sem maiores percalços para a casa, é verdade; mas também, é válido observar, sem que eu tivesse recebido tanto carinho e o sorriso de satisfação dele por ter conseguido dar um jeito na situação sem se estressar um tiquinho de nada e me ensinado a fazer um verão quando nos são oferecidos muita chuva e ventos giga frios.

– Razô, meu filho. Só deu tu hoje.

– Ouviu Jimi Hendrix? Gostou? Conhece a história dele?

E voltamos com Hideo me contando sobre a vida desse ídolo do Rock na paz do senhor. Ele falando e eu ouvindo. Plena de orgulho do meu filho.

 

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação, Filhos, Hideo, Manifestação, maternidade, Opinião

Direita e Esquerda. Ensino Fundamental.

manifestação-das-crianças-Marcello-Casal-Jr-ABr

Yuki, meu caçula de oito anos, perguntou-me o que estava acontecendo no Brasil quando viu pela televisão imagens da manifestação de ontem, 16 de Agosto de 2015. Ao ver crianças dando entrevistas, ele se interessou. Criança pode ir à manifestação, mãe? Pronto, lá estava eu numa saia justa. Sou contra a doutrinação de crianças. Acho que cabe a mim como mãe ensinar meus filhos, sobretudo, a pensar. Todos, porém, que me acompanham sabem que tenho a minha posição política muito bem definida, o que, ao meu ver, não me dá o direito de decidir qual será o lado que meu filho jogará dentro da política: esquerda ou direita. O próprio Yuki percebendo a minha hesitação ajudou-me ao perguntar justamente a diferença entre esquerda e direita, já que os próprios jornalistas toda hora mencionavam essas palavras.

– Por que não positivo ou negativo, mãe? Ou branco e preto, por exemplo?

– Bom, essa é uma boa forma de começarmos. Isso tudo começou lá na França, há pouco mais de duzentos anos. O sistema político dos franceses nessa época era composto por grupos bem definidos, sendo que um deles formado por comerciantes e artesãos, por exemplo, era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo.

– Mas pode isso?

– Pois então. Parece meio injusto, não? Por isso talvez, pelo fato dos privilégios serem dados somente a uma pequena parte da população, que se iniciou a famosa Revolução Francesa. Nessa época, a burguesia procurava, com o apoio da população mais pobre, diminuir os poderes da nobreza e do clero. Daí então, para se criar uma nova Constituição, montaram uma Assembleia Nacional Constituinte. Acho que as camadas mais ricas não gostaram da participação das mais pobres, e preferiram não se misturar, sentando separadas, do lado direito. Não sei ao certo se foi isso, mas sei que a galera que representava o povão menos favorecido ficou posicionada à esquerda. Por isso, até hoje, o lado esquerdo foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores, e o direito ao conservadorismo e à elite.

Dentro dessa visão, ser de esquerda presumiria lutar pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e da participação popular dos movimentos sociais e minorias. Já a direita representaria uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual.

Mas o mundo, meu filho, é muito mais complexo do que isso. Com o tempo, as duas expressões passaram a ser usadas em outros contextos. Hoje, as palavras ‘esquerda’ e ‘direita’ parecem não dar conta da diversidade política do século 21. Os contrastes até hoje como você pode ver existem, porém, não são mais do tempo em que nasceu a distinção. De uma forma geral, uma diferença crucial seria que a esquerda busca promover a justiça social enquanto a direita trabalha pela liberdade individual. Tivemos uma época no Brasil, por exemplo, da Ditadura Militar…

– O que é Ditadura Militar, mãe?

– Bem, podemos dizer que foi um período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar, ou seja, pela falta de democracia.

– O que é democracia?

– A palavra democracia tem sua origem na Grécia Antiga. Demo quer dizer povo, kracia, governo. Dessa forma, a democracia pode ser entendida como um regime de governo onde o povo (cidadão) é quem deve tomar as decisões políticas e de poder.

Então, meu filho, continuando: essa divisão de direita e esquerda se fortaleceu muito no período da Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem defendia o regime socialista, de esquerda.

– O que é socialista?

– Bom, o Socialismo é um sistema político-econômico ou uma linha de pensamento criado no século 19 para confrontar o liberalismo e o capitalismo. A idéia foi desenvolvida a partir da realidade na qual o trabalhador era subordinado naquele momento, como baixos salários, enorme jornada de trabalho entre outras.

Nesse sentido, o socialismo propõe a extinção da propriedade privada dos meios de produção e a tomada do poder por parte do proletariado e controle do Estado e divisão igualitária da renda. Todos ganham o mesmo. Não há como dentro do socialismo um ter carro zero enquanto o outro não tem o que comer. Isso, porém, é um sonho. Diria que é praticamente impossível pensar nesse regime.

Mas hoje, muitas outras divisões apareceram dentro de cada uma dessas ideologias de esquerda e de direita. Atualmente, os partidos de direita abrangem conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas, e ainda o nazismo e fascismo na chamada extrema direita. Na esquerda, temos os social-democratas, progressistas, socialistas democráticos e ambientalistas. Na extrema-esquerda temos movimentos simultaneamente igualitários e autoritários. Cada qual dos lados, em diversos momentos da história (sobretudo no século 20), empenhou-se até a barbárie para fazer valer sua visão ideológica de mundo.

– Não tem meio termo? Eu tenho que escolher em que lado quero ficar?

– Não precisa. Há a posição de “centro”, por exemplo. Esse pensamento consegue defender o capitalismo sem deixar de se preocupar com o lado social. Em teoria, a política de centro prega mais tolerância e equilíbrio na sociedade. No entanto, ela pode estar mais alinhada com a política de esquerda ou de direita dependendo de sua visão sobre a economia. Por exemplo, os de esquerda pregam uma economia mais solidária, com maior distribuição de renda. Os de direita seriam associados ao liberalismo, doutrina que na economia pode indicar os que procuram manter a livre iniciativa de mercado e os direitos à propriedade particular. Algumas interpretações defendem a total não intervenção do governo na economia, a redução de impostos sobre empresas, a extinção da regulamentação governamental, entre outros. Mas veja que confuso e difícil, isso não significa que um governo de direita não possa ter uma influência forte no Estado, como aconteceu na Ditadura.

– Liberalismo me parece um nome bonito…

– E é. Na raiz, o adjetivo liberal é associado à pessoa que tem ideias e uma atitude aberta ou tolerante, que pode incluir a defesa de liberdades civis e direitos humanos. Mas não podemos esquecer que essa “liberdade” pode ter como consequência a privatização de bens comuns e espaços públicos o que poderia gerar mais desigualdades sociais.

A coisa, no entanto, é muito complexa. Por exemplo, o pensamento conservador geralmente é associado à direita. Propostas progressistas, à esquerda. No entanto, ambos, conservadores e progressistas, não raro, associam-se com liberais. É o caso, por exemplo, de quem defende ideias progressistas, como o aborto, políticas de cotas etc., mas defende a liberdade econômica, isto é, livre mercado, livre concorrência etc.; ou, ao contrário, quem defende política antiaborto, política contra as cotas e contra programas sociais fomentados pelo Estado, mas também se ajusta, igualmente, à prática do liberalismo econômico. Do ponto de vista político e ideológico, progressistas e conservadores divergem, mas concordam, por vezes, quanto à economia. Vê-se, então, que o problema é mais complexo do que se imagina.

– Não sei se estou te entendendo…

– Se você está confuso é sinal de que está bem informado e que agi honestamente. Quando, meu filho, neste mundo você vir uma pessoa com ideias muito claras sobre política, saúde, economia, progresso… pode ter certeza de que essa pessoa está mal informada. Fiquemos por aqui e aguardemos as próximas imagens e notícias para voltarmos a discutir.

– Quando você for à manifestação eu posso ir com você como essas crianças estão indo hoje?

– Não, meu filho. Quando participo de uma manifestação pode ter certeza que ninguém vai confundir a minha luta com piquenique.

Perdão, senhor, não sou de ferro. Fiz o melhor que consegui.

manfestaõ

4 Comentários

Arquivado em Manifestação, Opinião, Yuki

Manifestações na Cozinha

Bolo-de-cappuccino-para-o-Natal4

Estávamos vendo notícias na cozinha sobre as manifestações com a Nara, minha filha adolescente, fazendo pela primeira vez cookies com a ajuda da vovó.

– Vai dar merda… – Falei.
– Mas, mãe, eu segui a receita! Só confundi o bicarbonato com fermento, mas vai dar certo! – Nara protestou.
– Estou falando do Brasil.- Justifiquei.
– Está bonito! – Explanou vovó.
– Não falei, mãe!, vai dar certo o cookie! – Exclamou Nara olhando para os biscoitos todos tortos na fôrma antes de entrarem no forno.
– Estou falando das manifestações. – Disse vovó.
– Está tudo colorido! – Falou Nara mega feliz.
– Tudo amarelo. – Corrigiu vovó.
– Estou falando dos cookies! – Nara disse olhando para os biscoitos enfeitados com confetes de chocolate.
– Vai dar merda. – Falei.
– Você está pessimista com o Brasil, Elika! – Atentou minha mãe.
– Estava falando dos cookies… – Expliquei.

E assim ficamos nós nesse papo esquizofrênico divagando e tentando adivinhar o futuro próximo e o distante.

Os cookies da Nara ficaram ótimos, de fato. Quanto ao resto, estamos – a despeito do meu pessimismo – ainda todos na torcida.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, feicebuque, Humor, Manifestação, Nara, Opinião, Política

Sobre os Debates. Papo reto entre nós.

br

Vamos combinar que isso aqui já virou um circo. Para sentirmos o nível de todos os palhaços desse espetáculo, quando o Bonner pediu para a plateia não se manifestar, todo mundo o aplaudiu. No mais, o Brasil é o único país em que o humorista é citado em um debate quando geralmente deve ser ele a fazer referência aos presidenciáveis. Foi tanto tiro, porrada e bomba onde dois papos fizeram história que eu mesma já me peguei dirigindo hoje ao colega que vai votar em Aécio, chamando-o de ‘candidato’. Aliás, candidato e candidata, depois desses debates, viraram sinônimo de, no mínimo, ‘eu não te amo’.

– Candidato, Aécio…
– É mentira! Eu não me chamo Aécio!

Eu, particularmente, senti falta de regras. Andei consultando as usadas nas “Artes marciais mistas”, achei-as bem pertinentes e que poderiam ter sido utilizadas, ainda que em sentido metafórico, nos últimos debates. Observem algumas delas: 1- Não pode morder, 2- Não pode cuspir no colega, 3- Golpear os rins com os calcanhares, 4- Aplicar joelhadas na cabeça de um adversário caído, 5- Pisar em um adversário caído e 6- Usar conduta anti-desportiva que possa causar danos ao adversário; apenas para citar aqui algumas. Tivessem essas poucas normas sido consideradas e já teríamos um mundo mais bonito. E já que é para sonhar, para variar mesmo o espírito da coisa e colocarmos mais amor no Universo, penso que teria sido mega interessante usarmos a dinâmica da terapia de casal. Imagina se as perguntas da platéia fossem, por exemplo: O que você mais admira no projeto do outro candidato?, Se você não for eleito(a), como pretende contribuir para que o Brasil cresça e prospere?, Da vida política do outro candidato, o que mais você admira? Qual a qualidade dele(a) que você gostaria de ter? Seria um belo exercício e exemplo para todos nós, não?

– Candidata, seu governo não investiu nas indústrias e o resultado disso foi a falta da bananada tachão de Ubatuba no mercado alimentício, candidata!
– Candidato, no que se refere, bem, no que se refere às questões… citadas, candidato, o meu governo investiu no povo, e o povo comprou muita bananada tachão acabando, inclusive, candidato!, dado o poder econômico e de consumo que hoje o pobre tem, com todas as bananadas tachão do estoque.

Para que o debate fizesse juz mesmo com entretenimento, poderia ter tido aquela opção do antigo programa de auditório onde quem errasse, mentisse ou desse risinho cínico levava uma torta na cara. E Ratinho poderia intervir a qualquer momento para fazer o teste de DNA que fosse necessário, a começar, pelo Bolsa-Família. Quanto a ela, só faltou alguém do público se levantar e gritar “pai é quem cria e não quem gera!”. E o público, desobedecendo Bonner como mostrou que o faria, aplaudiria o barraco montado. Em tempo, Aécio e Dilma pareciam pais brigando na separação disputando a guarda da criança.

– Candidata, eu criei a Teoria da Relatividade, Einstein só deu continuidade!

Poderíamos também ter a presença dos famosos que fizeram campanha. Gian e Giovani poderiam fazer uma ode no intervalo, Chico Idem, Lobão nem pensar, Ronaldinho poderia fazer umas embaixadinhas, Ziraldo poderia desenhar algumas cenas e Barrichelo poderia aparecer atrasado querendo que Marina ganhasse. Mas o que vimos não foi nada disso. Zero arte. Necas de beleza. Testemunhamos todos, nesses debates, o mesmo de quando também nos unimos há poucos meses atrás e ficamos de frente para a televisão torcendo para ver o Brasil fazendo bonito. E tomamos de 7 a 1. Desânimo total.

– Candidata, deixa de ser leviana, e pare de ficar ofendendo o Estado de Minas toda hora.
– Candidato, eu não ofendo aquela merda!

Quisesse mesmo Dilma ganhar as eleições de forma fácil, não precisava nem de um minuto e meio para falar no final. Bastava ela olhar com aquela cara quando ouve Aécio falar em Mensalão e Petrobrás, bastava ela mirar com aquele mesmo semblante para a câmera e dizer: brasileiro, se você não votar em mim, puxarei seu pé durante quatro anos. Pronto. Batata. Dez segundos e tudo estaria garantido. Por outro lado, se encontro Aécio na rua e ele sorri para mim daquele jeito que o faz para Dilma e se dirigindo para nós, espectadores, eu acho que seria estuprada ou sei lá meu deus, muito estuprada. Meu pesadelo é ao sair do banho, na hora que d´eu pegar a toalha, a casa vazia, silêncio total. Olho no espelho e tcharã! Aécio sorrindo atrás de mim. Morri.

– Candidata, como resolver todos os problemas do Brasil de uma vez só?
– PRONATEC.

Enfim, acho que ninguém aqui é louco de definir voto baseando-se nos debates. Não estamos buscando simpatia e nem é por um erro de português (quem nunca?) que podemos julgar se um candidato serve ou não para nos representar. Quem usa desse argumento deve acreditar que quem fala bem tem mais capacidade intelectual do que quem vacila ao fazer um discurso. Ora, Hittler era mestre em retórica. Charles Chaplin não sorria facilmente, fora de seus filmes era considerado extremamente indigesto.

Mas não quero defender ninguém hoje. O texto é só para mostrar que seja lá quem vencer essas eleições, nós, eleitores, tanto um lado quanto de outro devemos manter o empenho de continuar fiscalizando a vida de quem for eleito e divulgando os números que conseguirmos. Afinal, todos temos em comum o fato de querermos o melhor para nosso país e é bom lembrar que seja Aécio ou seja  Dilma, o nosso papel nessa história não pode acabar no dia 26.

Aproveito para convocar todos para uma manifestação pedindo um churrasco de confraternização a Mark Zuckerberg para que nos abracemos.

Ok, sem churrasco. Mas vai, aperta a mão do amigo porque o barco é um só e estamos todos nele.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Manifestação, Opinião

#ogiganteacordou

Estava na fila da papelaria nos arredores da Praça da Bandeira e uma menina-adolescente de uniforme que estava atrás de mim começou a  falar no celular. Antes que me julguem, já foi provado cientificamente que ao ouvir alguém conversando no celular, involuntariamente, nosso cérebro tenta completar o que o interlocutor telefônico da pessoa ao nosso lado está dizendo. Isso posto e bem entendido, vamos ouvir a menina:

– Mãe, eu vou hoje com a Rê e com o Ju, ta? – avisou a filha mega responsável.

Silêncio. A menina balançava uma perna e mantinha o celular na orelha.

– Mãe! Eu te disse que eu queria ir em uma e a senhora disse que deixaria se não fosse tarde!

Caraca, dona-mãe! A menina já era quase uma mulher e a senhora em pleno século XXI não deixa a pobrezinha ir em uma festa? Mas que festa acontece em plena Quarta-feira? Peraí, garota! Onde a mocinha pensa que vai com a Rê e com o Ju? E vai de uniforme???

– Mas, mãe! A manifestação hoje vai bombar!

Manifestação? Hoje??

– E depois, mãe, mãe!, me escuta! quanto mais gente, melhor para o país, o professor de sociologia disse. Vai geral da minha turma, mãeeeeeeee.

E desde quando dois é geral? Que diabo de professor é esse? De que escola será esse emblema?

– Ai, mãe, eu te amo! Tá bom! Eu te ligo de lá! Eu te amo, mãe!

A papelarista me atendeu, me deu o grafite Nextel 0.9 2B e um bloco de papel milimetrado. Era para eu sair, mas fiquei de uma forma giga disfarçada com a fuça virada para a vitrine cheio de borrachas de todas as cores e de todos os tamanhos e os olhos viradaços de lado observando a atitude da manifestante-debutante.

– Eu quero 3 cartolinas e uma caneta pilot!
– Só tem lá no estoque. Você aguarda enquanto vou lá buscar, por favor?
– Claro! – Disse a cidadã cheio de atitude.

Era a minha deixa.

– Eu estava pensando em fazer uns cartazes também para manifestação de hoje… – menti.
– A senhora vai também na da Rede Globo?

(Senhora????) Manifestação da Rede Globo??? Bem que gostaria de ir lá para pedir roteiros decentes para o Adnet.

– Não. Vou na dos médicos. – Menti pela segunda vez.
– A senhora é médica?
– Cardiologista. – (Terceira vez) – O que você vai escrever nos cartazes? Estou querendo fazer uns também… – Falei cheia de animação. (Quarta, quinta…)
– Sei lá … algo tipo queremos saúde, educação, transporte,… xô,corrupção! Fora, PT!… essas coisas…
– Mas não é na da Globo que você vai?
– Ah é. Tipo Fora, Globo! então. Sei lá. Vou pensar.
– Sei… Legal… O povo tá indignado com um monte de coisas que estão erradas mesmo. Nessa da Globo o povo vai pintar o rosto também? Na de médicos geral vai pintar de preto. – Mudei de assunto mantendo o tema.
– É. Mas vocês são da geração do impitimã do Collor. A gente não tá muito ligado em pintar cara não.

Ok. Mereci. Pelo menos ela não falou em Passeata dos 100 mil de 1968…

– Como é que vocês se organizavam na época do Collor? Não tinha tuíter, não tinha feice! Meu Deus! Não tinha nem celular!!!
– As diligências eram rápidas.

Rimos juntas. Ela com o corpo todo e eu só com a boca.

– Falando sério: no meu tempo, que foi um pouco depois da Idade Média, já existia um negócio chamado telefone. Ah! Também tinha outra coisa muito esquisita: a gente conversava olhando no olho.
– E como é que geral ficava sabendo das manifestações?
– O tal do boca a boca existe desde que o mundo é mundo. Interessante, não?
– Que estranho… Não consigo imaginar … – disse, sincera, a garota.

A papelarista chegou e entregou o pedido da jovem brasileira. Ela pagou, me deu tchau e se foi. Eu dei uma disfarçada básica e saí de fininho e devagar pensando sobre… Nem deu tempo de pensar em nada! Ao colocar os pés na calçada, a menina me aparece correndo com o celular no ouvido.

– Tia! A manifestação da senhora é onde?
– No Aterro.
– Rê, no Aterro! É mais perto pra gente! Bóra nessa?

Fiquei sabendo agora consultando o gúgol que haverá de fato uma manifestação dos médicos hoje! Puxa… Infelizmente errei o endereço, mas não foi por mal… Como eu ia adivinhar que parte dessa juventude revoltada está mesmo encorajada para lutar contra qualquer coisa a ponto de mudar de manifestação e não perder a animação!?! Quanta disposição desses jovens, não?

#ogiganteacordou

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Manifestação

Manifestações Feicebuquianas sobre as Manifestações

Em  31   de  Maio:

Sabe o que seria legal? Qdo a copa tivesse rolando e o mundo inteiro tivesse de olho no Brasil, o povo resolvesse aproveitar o furor nacional e ir para as ruas protestar contra a corrupção, contra o descaso com a educação e a saúde, contra a falta de segurança… Com o holofote nas nossas cabeças, chutaríamos não a bola como os jogadores, mas o balde. Imagina na copa!

Em 14  de  Junho:

Protestos-por-Lute

Houve depredação de equipamentos públicos? Sim, você encontra minorias de idiotas em todos os lugares. Mas isso não invalida nem diminui a importância do ato. A destruição de equipamentos públicos é contraditória ao próprio movimento, portanto, uma atitude imbecil, mas tenho que confessar que recuperei a fé na humanidade vendo os manifestantes nas grandes capitais do país exigindo o direito de ir e vir, limitados pelo preço alto do transporte coletivo, e que resolveram ir às ruas para mostrar sua indignação e pressionar o poder público para que recue nas decisões que desconsideram a dignidade da população. Não compactuo com uma vida bovina, de ter o traseiro chutado por anos pelo Governo e ainda por cima oferecer a outra nádega. Protesto tem que mexer mesmo com a sociedade, senão não é protesto e “protestar de forma correta”… meio sem sentido isso, não?

Izânio

A propósito:
“Condenam-se as águas violentas de um rio, mas não as margens estreitas que o oprimem e causam sua turbulência.”
Bertold Brecht

Em 15  de Junho:

Mas esses jornalistas estão parecendo Glória Kalil, viu. Camisa de partido, gritam olha lá! Não pode!É feio! Camisa do Che gritam olha lá! Não pode! Camisa vermelha gritam olha lá! PT! Não pode! Moleton da GAP gritam Olha lá! Não pode! Não pode! Caraca… assim vai fica difícil, né? Fala sério…

Em 16 de Junho:

Não vamos misturar um pouquinho de macarrão com um porrão de macaquinhos! A vaia para a presidente Dilma foi dada pela elite de Brasília! Com ingressos custando quase 300 reais em média! Sou a favor das manifestações, mas essas vaias, no entanto, eu achei extremamente questionáveis vindas de onde vieram! Só eu aqui que achei incoerente vaiar a Dilma e pagar caro (pelo menos pra mim é) para assistir o jogo feliz da vida???

Em 17 de Junho:

O-Brasil-Acordou-por-Jarbas

O povo está indo para as ruas. Há partidos de esquerda, de direita, há quem acredite que a depredação é justificável, há jovens movidos por outras aspirações…são tantos rostos e motivos diferentes! Mas há algo em comum que é possível reconhecer. Esses grupos heterogêneos, de uma forma ou de outra, foram unidos e chamados pelos 20 centavos que talvez sejam o tanto de desrespeito que uma vida humana já não pode mais suportar. Vinte centavos é o valor simbólico de um descontentamento difuso. Talvez seja esta a única coesão entre tantos anseios diferentes. O sentimento de que essa vida é curta, de que essa política pautada mais pela reprodução das relações de poder do que por ideias de um Brasil melhor já não motiva ninguém. No Rio e nas outras grandes capitais a questão do transporte só explicitou todo esse desencanto. E o que estamos vendo nas ruas são movimentos voluntários e desejantes de uma vida que faça mais sentido. É possível que o que esteja unindo os manifestantes tão diferentes das grandes capitais seja o ato mesmo de literalmente romper o imobilismo de se viver com dignidade. É assim que se faz um país, levando as nossas crenças para passear e dialogar com outras crenças. Sinto que estamos saindo para mostrar que não temos gostado nem um pouco das negociatas, das simulações e das dissimulações que têm acontecido tão intensamente nas cidades, nas florestas, no sertão, independentemente dos partidos responsáveis por elas… A tarifa, todos sabem (mas vale sempre lembrar), virou a menor das questões agora. Os protestos estão sendo, antes de tudo, pela liberdade de protestar. Os 20 centavos alargam sua teia de significados superando a fronteira virtual. Quem tenta conter a população falando que o aumento foi inferior à inflação não está entendendo nada do discurso novo das ruas que se torna explícito. As manifestações são talvez a melhor e maior prova da vitalidade da democracia! Elas expressam o sentimento de que os políticos que aí estão, os partidos que aí estão, a concepção de mundo, de país e de política que eles representam, já não mais nos representam. Especialmente os jovens-nascidos-com-internet taxados de serem inertes. A postura da polícia tem nos lembrado de fotos em preto e branco da ditadura. As semelhanças, porém, acabam por aí. A demonstração de força é a expressão agora de uma fragilidade com a marca deste tempo histórico. Do hoje: dia 17 de junho de 2013.

Em 17 de Junho  a  noite com o centro da cidade fervendo:

Senhor, esqueça que sou atéia e faça com que esses jovens voltem inteiros para casa.

Em 18 de Junho  pela manhã:

quinho

Eu não falei que seria legal? Eu disse não te disse? Não está sendo o máximo? \o/Como eu disse tb nos comentários “Um povo que nega a caxirola pode reservar muitas surpresas.”
“Sabe o que seria legal? Qdo a copa tivesse rolando e o mundo inteiro tivesse de olho no Brasil, o povo resolvesse aproveitar o furor nacional e ir para as ruas protestar contra a corrupção, contra o descaso com a educação e a saúde, contra a falta de segurança… Com o holofote nas nossas cabeças, chutaríamos não a bola como os jogadores, mas o balde. Imagina na copa!”
Em 18 de Junho a  tarde:
Eu gostaria de deixar claro que embora esteja vibrando com as manifestações jamais cantaria o hino ao lado daquele que diz estar lutando contra “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil” (referindo-se ao mensalão) e gritando “fora, Dilma!”. O mensalão ainda que seja digno de atenção e julgamento está muito longe de ser o “maior escândalo de corrupção da história”, pois as privatizações do governo FHC, sim, é que constituem não só o maior escândalo político do Brasil, mas, muito provavelmente, um dos maiores do mundo. A imprensa já tomou partido nessa disputa patética e há anos vem tentando manipular a opinião dos brasileiros. Muitos daqui estão sendo sim senhor manipulados pelo calor das manifestações por essa corja midiático-oposicionista que aproveita o grito-clichê que “o gigante acordou” para dizer que queremos por fim nos problemas brasileiros expulsando Dilma do poder. Minha alegria começa a se misturar com um certo temor. Mais uma vez peço aos jovens que estão fazendo história nas ruas e nas redes: Antes de compartilhar algo e/ou de escrever nos cartazes, verifique a veracidade das informações e se não estão te usando. Considerem a possibilidade da beleza do despertar não estar associada, ao menos proporcionalmente, em ver as coisas claramente, ok?
Em 19 de Junho pela manhã:
Vem-pra-rua-por-Izânio
Vamos ser sinceros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos eu aqui já ignorante em tantos outros assuntos. Se vc está informado, vc está perdido. Eu, por exemplo, estou mais confusa que o Datena diante da enquete! Impunidade, corrupção, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, a copa, a cozinha escassa, a qualidade das escolas e hospitais públicos, funk no ônibus, Feliciano, Faustão, quadradinho do oito,… são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país. Mas as imagens estão me emburrecendo. Acho que estou raciocinando tão pouco quanto o Ronaldo. A gente está vendo de tudo nessas manifestações: movimento das mochilas pensantes, pessoas de esquerda, de direita, de moleton Gap, punk de dreadrok , playboy de mocassim, evangélico que não paga dízimo, comunista de Nike,… inclusive vemos também pessoas que realmente se lascaram com esses 20 centavos, na verdade, 40 porque é ida e volta como bem lembraram…

Os integrantes-cabeça do Movimento Passe Livre: dona Nina Capello e seu Lucas Monteiro se eximiram da responsabilidade de terem catalisado todo uma insatisfação nacional e seguem falando sobre os vinte centavos. Estarão eles certos?

Se as dúvidas sobre as motivações que levam as pessoas as ruas são diversas, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marcharemos mais? Murcharemos de novo? Como negociar o fim das passeatas se não temos um motivo único para aderir a elas? É possível que a própria diversidade de motivações enfraqueça a principal? A sensação apaziguadora de que “fiz a minha parte” sendo fotografado numa passeata ajuda ou atrapalha? Ilude ou desperta? A longo prazo, o baixar da tarifa terá alguma relevância? E a curto prazo? Nos calará? Se baixarem a tarifa voltaremos as postagens de auto-ajuda e as citações filosóficas aqui no feicebuque?

Mas ok. Vá lá. Num país tão injusto como o nosso as dúvidas dos últimos dias são muito melhores do que a única certeza de que, aconteça o que acontecer, o Sarney estará sempre no poder. Tenho sinceramente a esperança de que este seja um momento importante na história do país. Mas confesso, hoje estou com a suspeita e o temor de que talvez o gás da indignação vá para o vinagre.

Eu tenho medo, tal como a Regina Duarte. Mas amanhã de repente eu mude de opinião*, tal como o Jabor.

* a minha opinião é que não dá para ter opinião.

Em 19 de Junho a tarde:
Acabo de receber um convite para o “manifest fest”. Diante de tal evento, resolvi fazer uma rápida pesquisa:
1 – O que é PEC 37?

( ) Lei que obriga as empregadas domésticas a trabalharem aos sábados.
( ) Pacote de atualização.
( ) Senha do wi-fi na Alerj.
( ) Dilma no poder.
( ) Não preciso saber. Rua já!

2 – Qual a música que devemos cantar no manifesto?

( ) Que país é esse?
( ) Show das poderosas
( ) Qualquer uma do Lobão.
( ) O hino nacional de costas.
( ) Tico Santa Cruz

3- Depois que tirarmos a Dilma do poder, quem deve assumir a presidença?

( ) Tico Santa Cruz.
( ) Joaquim Barbosa.
( ) Qualquer um sem partido
( ) Goku
( ) Romário.

4- O movimento é

( ) uniforme.
( ) acelerado.
( ) retardado.
( ) sexy.
( ) lindo.

5- Quem é nosso maior inimigo?

( ) o partido.
( ) o Capiroto.
( ) Feliciano.
( ) O menor infrator.
( ) Somos todos amigos. Não a violência!

6- Em caso de choque com a polícia, o que devo fazer?

( ) mostrar uma flor e torcer para alguém fotografar e botar no feice.
( ) me enrolar na bandeira do Brasil.
( ) tomar banho de vinagre.
( ) cantar o hino de costas.
( ) chamar o Tico Santa Cruz.

7 – O que gritar para as pessoas politizadas que aparecerem na manifestação?

( ) Joaquim Barbosa para presidente!
( ) O gigante acordou!
( ) “Verás que um filho teu não foge á luta!” de costas.
( ) Não são pelos 20 centavos!
( ) Odeio políticos!

8- Para o protesto de amanhã ser um sucesso precisamos de

( ) estacionamento com manobrista.
( ) postagens maneras com fotos no feicebuque para todos verem que somos revolucionários.
( ) mais vinagre.
( ) mais mochilas politizadas.
( ) Tico Santa Cruz.

9 – A gente vai protestar a favor de:

( ) mudanças no Brasil inteiro.
( ) Romário.
( ) mais manifestantes.
( ) Tico Santa Cruz.
( ) PS4 e PEC 37.

10- Se chover?

( ) Não vou.
( ) Tenho fé em Deus que não vai chover.
( ) Chuva é vandalismo!
( ) Todos de guarda-chuvas branco!
( ) Cantaremos o hino nacional de costas.

Em 20 de Junho pela manhã:

Vem-pra-rua-por-Cazo

Sim. Sinto muito aos que não acreditam, mas é possível extrair do atual momento elementos para a renovação e reflexão. Aos céticos de plantão: considere que o peso do som vindo das gargantas desses jovens na rua – aquele mesmo que nossos governantes sempre buscaram silenciar- é originado por uma força que gravita em suas mentes outrora chamada de inertes. Estamos diante de uma oportunidade singular e um clima propício para revermos nossos discursos e repensarmos as nossas práticas, projetando o próximo passo depois de todo esse movimento. O orgulho de ser brasileiro agora veio de uma outra fonte que não é o futebol e muito menos carnaval. Esses meninos estão movidos pelo furor nacional (que bom, não?), inicialmente perdidos (quem não está?) mas reconhecem que é chegada a hora de reforçarmos nossa capacidade de ‘diálogo’, de ‘escuta’. Quem está indo às ruas (em sua grande maioria) está completamente disposto a ouvir, aprender, transformar-se para transformar. Ao ver inúmeras postagens, ficou claro para mim que esses jovens também reconheceram que para reclamar temos que ter moral e, portanto, dar o exemplo. Parafraseando Henfil, ainda que não haja tantos frutos quanto gostaríamos porque a intenção da semente está meio confusa, há frutos! E mais ainda: a beleza das flores. Não duvide de que serão eles a mudar o significado para a expressão “jeitinho brasileiro”.

Em 20 de Junho a tarde:

Pro pessoal paz e amor: Ontem vimos pela televisão vários bandidos se infiltrando no meio da multidão. Hoje, há gdes possibilidades de termos mais ainda bandidos se aproveitando da situação. Há um reforço do exército e da guarda civil e militar. Portanto, olhem bem para quem está ao seu lado. Protejam-se. Desconfiem. Jamais andem sozinhos, principalmente as meninas. Paz e amor com um pé atrás e atento a tudo, ok?

Em 20 de Junho a noite (percebendo algo muito estranho no ar):

Um exemplo de como temos que pensar antes de falar e averiguar antes de compartilhar e refletir sobre o que vemos por aqui é o caso do Ronaldo, o ex-jogador que viu ressurgir ontem seu apelido conquistado dentro de campo: o Fenômeno. O vídeo que foi compartilhado loucamente foi feito há dois anos atrás, tirado de contexto e editado! Caraca… o povo não está de brincadeira…tô dizendo… Uma coisa é ser burro, outra é ser um completo boçal. Será que ninguém desconfiou que Ronaldo que sempre foi tão bem assessorado não se enquadraria mesmo se quisesse na segunda opção? Em tempo, ele disse ontem:

“A Copa é uma incrível oportunidade para o Brasil. Chance de atrair atenção, investimento, turismo e mais mil coisas. Mas isso não obriga a deixar de investir em questões sociais prioritárias como saúde, educação, transporte, segurança. Afinal, não temos Copa do Mundo desde 1950 e não foi por isso que atingimos excelência em nenhuma dessas causas”.

Mais uma vez peço aos jovens que estão fazendo história nas ruas e nas redes: Antes de compartilhar algo e/ou de escrever nos cartazes, verifique a ‘veracidade’ das informações e se ‘não’ estão te ‘usando’. Considerem a possibilidade da beleza do despertar não estar associada, ao menos proporcionalmente, em ver as coisas claramente, ok?

Em 21 de Junho pela manhã:

Hj vai ter manifestação na Barra partindo do Alvorada. Só espero que não seja para baixar o preço do Iphone…

Em 21 de Junho pela manhã:

Partidos-políticos-acuados-por-Aroeira

Raciocinemos: A Rede Globo e a Record em tevê aberta, nesta quinta-feira, um dia depois de os prefeitos reduzirem as tarifas, derrubaram a grade de programação e se dedicaram, sem comerciais !, a “cobrir” as manifestações. Os âncoras hoje pela manhã ainda continuam falando em democracia, não à violência, paz, luta contra a corrupção e entra no Brasil inteiro com imagens ao vivo do quebra-quebra, do desmando, da falta de Governo. No jornal da manhã todas as vezes que falaram em vandalismo, bandidagem mostravam atrás imagens de bandeiras do PT, do pessoal da onda vermelha tentando participar das manifestações. O repórter gritava: absurdo! Vândalos! E intercalava com imagens de depredações e cartazes fora, Dilma! Queremos Joaquim Barbosa!. Ontem o que vimos “ao vivo”? Em pleno horário nobre (coincidência o vandalismo começar no horário nobre, não?)??? Somente o quebra-pau, a saturação do caos, e os repórteres sendo vítimas de gás lacrimogêneo! Pensemos: Existe passeata de 50 mil, 100 mil, 300 mil, pessoas apartidária? Dá para continuar acreditando nisso??? Com as imagens que estamos vendo??? Chego a pensar que esse movimento está vindo dos militares…tenho motivos de sobra, não? E ainda tenho motivos de sobra para conjecturar mais!: Militares esses que estão sendo apoiados pela direita que está desesperada com o projeto de esquerda que vem avançando e mudando a vida do país. A direita está “se lixando” para os problemas sociais, desigualdade, fome, desemprego…a direita detesta a ideia da reeleição da Presidente Dilma e que esse projeto socialista perdure por mais 10, 20 , 30 anos…com certeza não irá medir esforços para tentar um golpe e derrubar o nosso modelo de gestão…

A Globo vai derrubar o Governo, com a ajuda desse líderes “anônimos” e com esses compartilhamentos sem reflexão que gritam fora, Dilma!, com essa proibição de bandeiras nas manifestações! Estão incentivando os jovens, que estão na esperança do Brasil ficar melhor da noite pro dia, a acreditar que não há líderes! Que se dane, vou falar: O Lula precisa abrir uma escola, para ensinar a esse povo o que é fazer política! Já estamos no meio sim senhor de uma guerra civil! Mesmo se acovardando em cima de prédios e helicópteros a rede Globo manda o seu recado e só um cego não vê! A ditadura mascarada está chegando com tudo. Queridos jovens, vcs podem sim estar apoiando um novo golpe! A esquerda se uniu (PSTU, PCdoB, PT) e levou muita porrada na manifestação no Rio. Porrada de quem? Dos jovens paz e amor apartidários???? Fala sério!!!!

Enfim , hoje acordei, vi jornais, li revistas, postagens dos amigos e estou quase certa de que os protestos tem uma intenção “oculta”: derrubar a Dilma e eleger um representante da Direita, este e o velho Brasil de massa de manobra! Alguém duvida depois que a Dilma cair a mídia partidária, irá mostrar um Brasil perfeito e tudo volta ao normal, será mostrado que tudo foi resolvido, assim como antes de 2003, quando a direita governava o Brasil, tudo era desenvolvido e sem corrupção? Acorda, gigante!!!!!

Para a mídia e esses que são manipulados e manipuladores de jovens aqui na rede todos os problemas e mazelas começaram após 2003! Antes tudo era perfeito! Fala sério! Doce ilusão daqueles que dizem que com a internet o povo deixou de ser manipulado! Vejam os compartilhamentos! Em sua maioria são contra o governo atual, se não conseguirmos identificar coisa grande por trás disso é a prova que o povo realmente “não tem educação”, “não pensa”, “não tem passado”! Fala sério! O gigante não acordou porcaria nenhuma. O gigante está sonâmbulo isso sim!

Em 21 de Junho:

De uma forma mais comedida: É de se comemorar que as ruas sejam invadidas por jovens de uma geração que sempre foi taxada como irresponsável, alienada, burra, iletrada, individualista e pouco afeita a reivindicações de cunho social. As manifestações têm mostrado sim que há, latente nessa juventude, algum desejo de transformação e uma sensibilidade aguda para a história. Por outro lado, é preciso que todos aproveitemos o momento para ‘aprender ‘com a dinâmica da história que está fluindo sob os fatos mais evidentes que a grande mídia tem transformado em ‘oportunidade’, sempre adequando o movimento aos seus próprios interesses. Estamos de olho!

Em 21 de Junho após perceber o quanto os meus alunos ficaram assustados com o que viram nas ruas:

Ok. Vcs fizeram uma parte. Fizeram cartazes, pintaram os rostos e foram para as ruas. Foi legal? Foi. Foi lindo? Foi. O gigante acordou? Acordou, afinal, como justificar a presença nas manifestações de pessoas que nunca antes se sensibilizaram com passeatas, política e mobilizações? Mas o gigante tem que acordar agora todos os dias para terminar a sua grande tarefa de buscar um caminho para nosso país. Vc entrou pra história? Entrou, mas como vc vai ficar vai depender do que vem agora.

Luta política exige muito mais do que isso que vcs fizeram e não se dá pela quantidade de pessoas nas ruas, ainda que isso tb seja muito importante. Luta política exige estudo, dedicação, seriedade, compromisso. E o compromisso não pode ser efêmero como tudo que vemos hoje por aqui. Não pode ser superficial como são os compartilhamentos com fotos e os simples dizeres dos cartazes! Para quem quiser entrar pra história de uma maneira mais consciente é necessário ter uma meta e aprofundá-la, discuti-la. Dá trabalho… muitos estão assustados porque não tinham ideia da quantidade de energia necessária para manter o gigante acordado….

Ou então, esqueça tudo isso, foi uma experiência legal na sua adolescência. Vc tb vai entrar pra história, carregando no seu álbum a prova de que foi às ruas cheio de amor ao próximo! Mas linchando, debochando e avacalhando com os representantes eleitos pelo povo. Vai ter que saber lidar com isso.

Em 21 de Junho após ver as manifestações na Barra:

Sabe o que cairia bem agora? A Vanusa cantando o hino.

Em 21 de Junho após muito pensar sobre tudo isso:

Andei pensando… Sabe quem deve estar por detrás de tudo isso? Os fabricantes de cartolina. Né?

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em feicebuque, Manifestação, Opinião, reflexões