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Mãe, estou apavorado. Acho que vou ser gay.

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Hoje, dia 01 de outubro, comemoramos aqui dez anos de Yuki que estreou no dia 27 de setembro. Fiz o que ele me pediu: queria passar o dia com seus melhores amigos. Isso significou que desde às 11h da manhã de hoje até às 20h a minha casa estava com dez meninos. Está tudo de cabeça para baixo aqui. Ou seja, estamos todos mega felizes porque tudo correu na mais perfeita ordem.

Passamos o sábado entre brincadeiras e algumas observações sobre o dia de amanhã. Agora, antes de dormir, Yuki veio me perguntar se Crivella era homofóbico.

– Tudo indica que sim, Yuki. Ele já fez discursos falando que homossexualidade não é coisa de Deus.

– E Pedro Paulo?

– Este bate em mulher. Machista. Se é homofóbico não sei mas, a julgar pela postura, não duvido.

– Por que as pessoas são assim? Por que se irritam com o outro se o outro nem se mete na vida delas?

– Não sei, meu filho.

– Eu não quero ser gay, mãe. Não quero ter que lidar com gente assim.

Oh, Senhor. Era só para dar um boa noite e ele me vem com essa? E lá vamos nós porque mãe não pode perder oportunidade…

– Bom. Duas coisas. A primeira é que isso não é uma opção. No momento certo, você vai saber o que te atrai. Se é mulher ou se é homem. Mas você agora está muito novo para pensar sobre isso. Segundo, ainda que lááááá na frente você queira namorar só mulheres, a homofobia vai continuar sendo um problema seu sim senhor.

– Mas eu não terei medo das pessoas me maltratarem.

– Mas terão outras sendo maltratadas e, enquanto houver gente sofrendo, isso diz a nosso respeito porque o mundo é um só e temos todos a obrigação de fazer dele um lugar bom de se viver para qualquer um. E se você pensa que não é problema seu, saiba que está tudo interligado. Mais cedo ou mais tarde você vai ver como fazer o bem é contagioso e idem com o mal. E mais! Você vai ver como tudo nos atinge…

– Mãe, a verdade é que estou apavorado. Eu não quis chamar meninas para minha festa. Eu acho que vou ser gay.

– Ué. Normal só querer andar com meninos na sua idade. Isso não diz nada a respeito de sua sexualidade no futuro. Há muitos homens héteros que quando criança agiam exatamente assim como você hoje. Mas já disse, Yuki, está cedo para você se preocupar com isso. Daqui a uns dois anos, talvez tenhamos algumas indicações, mas agora não. Você é ainda uma criança.

Agora perceba… vai que você seja gay ou bi. Se eu pensasse, como você pensou agora há pouco, que pelo fato de eu ser hétera não preciso me preocupar com homofóbicos e não tivesse levantando essa bandeira contra a homofobia em cada oportunidade que tive para fazê-lo, a sua vida já ia ser muito mais difícil. Percebe como é importante cuidarmos uns dos outros? Tudo é uma coisa só, meu filho.

– Entendi. Se eu não for, meu filho pode ser…

– Justamente! Ou seu amigo, por exemplo. Já pensou ver o Nikolas apanhar ou morrer porque é gay?

Tive que parar de falar. Yuki começou a chorar. Ele é desses que sofrem quando entendem tudo.

Abracei-o como abraçamos um objetivo.

– Gostou do seu dia?

-Amei, mãe…

– Vamos fazer mais isso independente de seu aniversário?

– Pode, mãe?!

Pronto. O rosto já mudou e consegui reverter aqueles pensamentos… Conversamos sobre a farra que rolou aqui hoje. Ele chegou a gargalhar, até que finalmente dormiu.

Agora estou aqui pensando no que mais posso fazer para que, nos próximos anos, eu continue vendo esse sorriso estampado no rosto de um filho que tanto sonha…

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Medida Provisória: Cinco pontos a esclarecer sobre a Reforma do Ensino Médio.

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Vivemos um momento em que o país se encontra extremamente dividido e que testemunhamos um diálogo de surdos quase todos os dias. Não importa mais o que aconteça. Sempre haverá, no mínimo, duas versões: a da esquerda e a da direita. Se não há fatos e somente narrativas, como defendem muitos filósofos, temos hoje, ao menos, duas verdades contraditórias coexistindo. Para exemplificar isso, tratarei do assunto tão em voga e urgente que é a reforma do Ensino Médio por meio de uma Medida Provisória instituída pelo Ministério da Educação (MEC). É bom observar, para quem não sabe, que a Medida Provisória é um ato do presidente da República que passa a valer imediatamente como lei. A justificativa da pressa é a relevância do tema, coisa que ninguém pode negar. O que tem dado muita margem para grandes discussões é essa urgência que, para muitos, soa como algo impositivo e pouco democrático. Vamos, então, analisá-la.

É nítida a necessidade de mudança. Os problemas que enfrentamos são gravíssimos. Vão desde um currículo extremamente superficial, em que a maioria das matérias não tem a menor utilidade para a vida prática (com escolas chegando ao número de quinze disciplinas) até a deficiência na infraestrutura, passando pela escassez de recursos, a falta de professores capacitados e as inúmeras propostas pedagógicas inadequadas. As mudanças que se vislumbram, no entanto, dependem dos interesses de quem as formula.

Temos um país com uma história marcada pelas desigualdades sociais. O projeto de escola que temos hoje é excludente em sua base e está na raiz da nossa formação como país. O Ensino Médio é uma etapa de suma importância nesse processo, pois ele é decisivo na trajetória do futuro cidadão e ditará como o jovem vai mudar ou ajudar a reproduzir os valores da sociedade na qual (sobre)vive.

A nossa realidade hoje é que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixam a escola sem concluir os estudos, ou seja, menos de 60% dos jovens brasileiros terminam esta etapa de escolarização. Para piorar, desses que se formam, menos de 10% sabem o fundamental de Língua Portuguesa e Matemática.

Os motivos para a evasão são vários. Estamos falando de Brasil, então, de muitos jovens de baixa renda, em sua maioria negros, que trocam com frequência os estudos por um trabalho precário, ou de meninas que engravidam já na adolescência. Porém, ainda que não sejam essas as razões, grande parte afirma que a escola é desinteressante ou irrelevante para a sua vida. De fato, a baixa qualidade do ensino e um currículo, especialmente no Ensino Médio, enciclopédico e com pouca flexibilidade para escolhas não são atrativos para ninguém.

Isto posto, está claro que precisamos de mudanças e temos que concordar que é complicado mexer no ensino sem dor e  polêmica. O ponto é se as que estão indicadas na Medida Provisória vão transmutar para melhor ou para pior a escola pública, já que as particulares tendem a sobreviver e a salvar seus alunos pagantes sob condições adversas. No mais, o fato de essa medida provisória vir de um governo cuja legitimidade é colocada em xeque todos os dias nas ruas e nas redes sociais e cujas outras medidas tomadas nesses poucos meses virem de encontro à diminuição da desigualdade social não facilita a discussão, já que qualquer ideologia, por mais linda que ela seja, cega quem dela se nutre.

Vou me concentrar nos pontos mais polêmicos.

1º –  Ouvimos que matérias seriam retiradas e só seriam obrigatórios Português e Matemática. Verdade ou mentira?

Depende. O que acontece é que o currículo foi flexibilizado, como ocorre, vale observar, com os países mais avançados no campo da Educação, onde podemos escolher o que queremos estudar. Ou seja, “flexibilização” é uma palavra, diria, do bem, pois permite a personalização desta etapa para o projeto de vida de cada indivíduo. No entanto, ao contrário dos países que estamos seguindo como exemplo, as escolas não terão obrigatoriedade de oferecer todas as disciplinas. Se uma escola em determinado bairro, por exemplo, achar que não deve oferecer Filosofia ou Física pela falta de procura, assim poderá fazer. E se o aluno quiser? Poderá procurar outra escola. Sabemos, no entanto, que isso não é tão simples para muitas pessoas.

É ponto pacífico entre muitos educadores o quanto o esporte traz de valores para quem o pratica e que influencia diretamente no nosso emocional nos ensinando a perder, a sermos mais empáticos, a lidar com a nossa autoestima… e que a arte aprofunda a nossa sensibilidade e nos ajuda a fazer outras leituras do mundo. Artes e Educação Física estão claramente delegadas a um segundo plano na MP. Oficialmente, não foi decretado o fim de nenhum conteúdo, ou melhor, de nenhuma disciplina. Porém, o que foi publicado destaca que Artes e Educação Física serão indispensáveis aos ensinos infantil e fundamental, sem mencionar a obrigatoriedade ao ensino médio (assim como várias outras matérias). Isso modifica a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação, em que ambas são obrigatórias durante todas as etapas da educação.

A flexibilização do currículo pode significar, dado o texto da MP, que os sistemas de ensino se ajustem às demandas de técnicos feitas pelas corporações e empreendimentos locais, abastecendo as empresas. As desigualdades de formação poderão se intensificar, já que é possível que tenhamos uma elite continuando seu processo de formação rumo à universidade e, consequentemente, atuando no futuro em profissões que pagam melhores salários.

2º – A Medida não foi debatida e sim imposta. Verdade ou mentira?

Depende. A reforma do Ensino Médio vem sendo debatida há anos por especialistas e técnicos do Ministério da Educação – MEC na Comissão Especial de Educação do Congresso desde o Governo Dilma.  O que muitos não esperavam é que a mudança viesse a galope em forma de uma Medida Provisória em um momento que temos como protagonistas nomes como Mendonça Filho, Maria Helena Guimarães de Castro ou Rossieli Soares da Silva, considerados por muitos como administradores e não educadores em sua essência.

Esta é uma reforma muito complexa, que exigirá várias etapas extremamente cuidadosas para dar certo. Fica mesmo complicado entender como se pode melhorar a qualidade da educação por meio de uma Medida Provisória que, para muitos, revela o caráter profundamente autoritário dessa reforma, já que a formulação de políticas educacionais avança mediante aprofundamento do tema com a participação dos diversos segmentos sociais, de forma a contemplar a diversidade de ideias. As pessoas que estão liderando essa MP claramente dialogam com mais simpatia com determinados grupos que não representam um plural majoritário. A discussão poderia continuar no Congresso, já que se trata de uma proposta de alterar muitos componentes da modalidade de ensino médio e do quão complexa será essa mudança.

Então, estava acontecendo um debate. Mas este não estava ocorrendo em toda a sociedade com os representantes de várias entidades, da comunidade escolar e das universidades de todo o país. Se isso é possível, também é difícil responder. Quanto ao fato de as medidas estarem sendo impostas, temos motivos para acreditar nisso, já que houve uma espécie de atropelamento de um processo que estava acontecendo. Vários pontos já haviam sido debatidos, outros não, a prova disso é que há várias mudanças na MP que não sabemos como poderão sem (ser) implementadas pelo fato de não terem sido discutidas a ponto de se chegar a um consenso.

3º – O que se vê é mais um retrocesso em relação às conquistas democráticas. Verdade ou mentira?

Temos muitas razões para crer que seja verdade. A MP coloca vários pontos que dão margem para que entendamos que há um interesse em aumentar a desigualdade social no país. No mais, o fato de vivermos em uma democracia institucionalizada e de as mudanças virem através de uma MP e com essa urgência parece-nos um tanto suspeito. Ainda que na MP a flexibilidade seja contemplada e que, de fato, seja um caminho a ser seguido – já que existe na Finlândia e na Coreia e que demonstra uma intenção de melhoria no EM -, é necessário levar em consideração a nossa realidade. Por exemplo, há um contingente bem considerável de alunos  do EM no curso noturno, mais precisamente 30% do total de matriculados. Como atendê-los de forma satisfatória? Não estaríamos criando um abismo maior entre os alunos e as escolas, já que umas vão mudar o método e outras não? Como essa reforma será financiada? Os Estados falidos vão fazer essa reforma de que jeito? Somente alguns serão contemplados? E sobre o preparo do professor? Como vamos capacitá-los? Se é para seguir o exemplo da Finlândia, não deveriam levar em consideração que lá os professores são supervalorizados, bem remunerados e têm uma formação continuada?

Para que a MP fosse algo seguro em termos de oferecer as mesmas oportunidades para o pobre e para o rico, a escola pública deveria sofrer uma série de adaptações e isso implica investimentos. A parte do financiamento ficou um tanto obscura nessa MP. Mas, ainda que essa seja uma questão resolvida, precisaríamos de uma melhoria da infraestrutura não somente no sentido de instalações, mas também de  profissionais. Quem vem de família muito precária social e culturalmente não vai saber qual matéria escolher. Como a escola vai implementar esse apoio? Os educadores precisarão acompanhar e para isso tem de ter toda uma estrutura e apoio do governo. Em nenhum momento, como se dará isso (se é que se dará) foi esclarecido na MP. Se não houver uma orientação séria, como serão feitas as escolhas desses alunos?

Um dos pontos mais controversos dessa reforma diz respeito à organização curricular em áreas de conhecimento, com a primeira parte comum a todos os estudantes e a segunda específica consoante a escolha do/a estudante por uma das áreas de aprofundamento – linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica profissional. A justificativa para essa mudança procede. Precisamos enxugar os conteúdos de acordo com os interesses de formação de cada um. Porém, ao ler a MP, podemos entender que há margem apenas para reduzir o que será ensinado em quantidade e qualidade, já que em várias partes vemos claramente o interesse de atender ao mercado e não ao crescimento intelectual do futuro cidadão. Há uma notória preocupação – que podemos considerar como até a mais relevante na MP, dado seu destaque – com uma condução para a formação técnica. Podemos esperar que haja um ensino puramente instrumental nas escolas públicas que irá de encontro ao princípio constitucional da igualdade de condições de acesso e permanência e de alcance dos níveis mais elevados de ensino.

Quando se fala em um retorno à época da Ditadura, a despeito do exagero de qualquer discurso extremista, há motivos para tal comparação, pois, na Ditadura Militar, havia uma separação entre aqueles que seriam formados para o trabalho e outros que seguiriam uma formação mais clássica, terminando-a somente na Universidade. Na MP está explicitado que, para sabermos se estão sendo cumpridas as novas exigências do EM, devemos analisar, dentre outras coisas, a demonstração prática, a experiência de trabalho supervisionado e as atividades de educação técnica. Isso nos faz crer que o que menos está importando nessa MP é uma formação para a compreensão crítica da realidade social e para o exercício da cidadania.

Para finalizar, o fato de os protagonistas dessa mudança terem recebido e dialogado com representantes do Escola sem Partido não ajudou a recebermos essa MP sem desconfiança, já que esse projeto não deveria sequer ter espaço em uma sociedade que zela pela democracia.

4º – Essa reforma vai aumentar a desigualdade social. Verdade ou mentira?

Depende. Se o Estado conseguir melhorar a infraestrutura que essa reforma exige, o país tende a melhorar em algum aspecto. Teremos trabalhadores mais capacitados, por exemplo (se serão reflexivos, já é outra questão). Mas serão consumidores, portanto, entrarão na estatística daqueles que subiram de classe. Se todas as escolas oferecerem todas as disciplinas, os professores forem mais valorizados, houver profissionais para atender toda a demanda que o novo sistema exigirá e Artes e Educação Física, a despeito de aparecerem como optativas, delegadas a um terceiro plano, continuarem sendo cadeiras oferecidas pelas escolas, podemos sim ter um Ensino Médio do nível de países com grande sucesso na Educação.

A MP aumenta a carga horária de 800 para 1400 horas e promete escola de tempo integral. A Escola Integral é excelente para outras realidades em que os jovens não tenham que ajudar no sustento da família. Mantê-los na escola integral será um grande desafio para o qual nem de longe temos a solução. A proposta de oferta do Ensino Médio diurno em tempo integral pode promover, portanto, a exclusão de um amplo contingente de jovens que estudam e trabalham.

As escolas integrais exigem muito mais recursos e apoio pedagógico. Precisaremos de professores com jornada completa, com salários e carreira compatíveis, novas metodologias e um novo currículo que integre ciência, tecnologia, cultura e trabalho. Sem que isso seja feito, nossos alunos serão submetidos a uma série de conteúdos dispersos.  Implantar, então, uma escola integral sem um subsídio pode criar mais distanciamentos entre as classes da sociedade. Não há dúvidas, porém, de que, se conseguirmos que as escolas funcionem em período integral, teremos um ganho, dependendo de como esse aluno será estimulado a pensar e a criar.

Vale lembrar que o presidente em exercício, disse que a introdução desse regime integral será progressiva e que o governo federal vai dar um suporte financeiro para que a implementação seja possível nos primeiros anos. Isso faz com que nos perguntemos sobre os anos que se seguirão após os primeiros. Dado tudo escrito na MP, ficamos sem respostas.

5º – Qualquer um poderá dar aula. Verdade ou mentira?

Depende. O que está sendo colocado é uma flexibilização de certificados, já que temos uma carência notória de profissionais de várias áreas do conhecimento. Então, se bem administrado, não será “qualquer um” e sim uma pessoa qualificada para o cargo. No entanto, o “notório saber” é amplo demais e facilita o ingresso de pessoas não somente sem licenciatura, mas também com apenas um “aparente saber” – que não deixa de ser notório em certa medida.

Enfim, sabendo que há uma subserviência de várias camadas produtivas do nosso país ao capital internacional e uma tendência clara às privatizações nesse governo atual, é natural que discutamos se a educação não está incluída nesse grande projeto como sempre esteve em toda a história da humanidade. Temos motivos para encará-la como uma proposta que assegura parcerias entre o setor público e privado de uma forma que não seja inclusiva.

O fato de a MP assumir que a escolha pela especialidade que o aluno fará depende de seu interesse, por exemplo, nos leva a questionar como se dará isso se os pobres nunca tiveram a mesma liberdade de escolha dos ricos e se aos primeiros serão oferecidas apenas opções como técnicos. Do ponto de vista prático, a escolha será para quem ele vai servir e não em que ele quer trabalhar.

No mais, uma mudança sempre causa desconforto. Ainda que tenhamos a certeza de que seja para melhor (o que não é o caso), o medo nos ronda em todo o processo. Diante o do cenário em que nos encontramos, pleno de notícias que nos mostram que está cada vez mais restrito o número de pessoas nas quais podemos confiar, é normal que uma MP como essa venha acompanhada não somente de resistência, mas de críticas de todas as espécies, inclusive as que procedem e as que alertam.

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Mãe, tá orgulhosa de mim?

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Tenho três filhos. Um adulto de 9 anos, Yuki, Nara de 18 e uma criança de 23 que se chama Hideo. Para completar, sou solteira e ontem foi Domingo, dia de Manifestação. Yuki estava com o pai, voltaria meio dia. Nara está possessa com o Temer e estava saindo com mais de vinte cartazes debaixo do braço para protestar. Hideo estava super preocupado com a Nara e resolveu acompanhá-la caso desse algum xabú como tem dado – já que a Polícia Militar serve a um determinado tipo de gente. E eu estava em casa gerenciando tudo isso. Até que Hideo, que não está tão envolvido quanto deveria com o que anda acontecendo, politicamente falando, pediu-me para ir também e lhe fazer companhia. Nara engrossou esse coro dizendo que é nas ruas que vamos resolver isso. Ok ok… liguei para a minha mãe (que mora ao meu lado) e pedi para ela receber o Yuki para mim porque eu ia acompanhar Hideo que ia acompanhar Nara que quer mudar o mundo..

Poderia, nesta crônica, focar na Nara que deu literalmente um show ontem cantando Roda Viva à capela em pleno (antigo) canecão fazendo o presidente do PCdoB chorar vendo algo tão genuíno e depois ir até ela agradecer por aquilo. Ou poderia me estender com Yuki que estudou sobre relevos e chegou em casa querendo montar uma maquete da Chapada Diamantina com argila depois de ter pesquisado no gúgol como ela foi formada e está desde então com essa ideia fixa. Mas não. Quero lhes contar sobre Hideo.

Moramos em Madureira e ir e voltar de Copacabana onde o povo-Fora-Temer estava reunido foi uma viagem em todos os sentidos. Deixamos o carro no Shopping Nova América onde tem metrô e de lá partimos para lutar pela Democracia. Acabado o protesto, Nara decidiu ficar com o pai que mora no Leme e eu e Hideo tivemos que voltar sozinhos. O povo começou a dispersar lá pelas 13h quando nos despedimos da revoltada (não sem razão) da Nara e eu cheguei em casa com Hideo às 19h da noite. Durante este tempo, nós ficamos voltando para a casa. Paramos na casa de um amigo, Hideo capturou um monte de Pokemon, depois almoçamos um peixe em um restaurante que tem um aquário cheio de peixinhos iguais ao Nemo e a Dory, pegamos skate, cipó, metrô e chegamos ao Shopping onde estava estacionado o Takimóvel.

Foi aí que o motivo da crônica começa. Hideo, na ida, foi dirigindo o meu carro e, quando estávamos nos aproximando do caixa para pagar o estacionamento, ele me disse:

– Passa o ticket aê.

– Que ticket mané ticket. Você que veio dirigindo o Pafúncio (Pafúncio é o nome do Takimóvel), você que guardou a budega.

– Eu joguei na sua bolsa.

Aff. Abri a bolsa. Tirei lenço umedecido, cuequinha do Yuki, guarda-chuva, toco de lápis, caneta sem tampa, bolsinha com absorvente, necessé com maquiagem, capa de óculos do Hideo, caneta Pilot de escrever em cartaz, garrafa d´água vazia, a chave de casa, papel de bombom, bombom (que comi), mas…

– Hideo, o ticket não tá aqui!

– Eu coloquei aí caralho!

Hideo é desses que usam palavrão como ponto de exclamação.

– Mas não tinha nada que ter enfiado na minha bolsa, cacete! Você é o motorista! E se eu não tivesse vindo? Por que quando estou por perto vocês enfiam tudo na minha bolsa? Não tá aqui! E agora? vai ter que pagar uma multa de trezentos reais! Ai jesus, Hideo! Puta merda, meu filho!

Eu estava desesperada.

– Mãe, se acalma. Você é igual a mim. Quando tem um problema entra em desespero.

– Que igual a você mané igual a você onde? O mundo está acabando, vou ficar pobre com o mês mal começando e você está calmíssimo! Cadê a semelhança?

– Estou calmo porque não há problema algum aqui.

– Como não há, Hideo! Cadê a porra do ticket cacete!

– Mãe, entra no carro. Liga o rádio. Ouve o CD que está lá. Relaxa que eu vou resolver isso sem gastar o que já iríamos gastar. Nem um real a mais. Relaxa.

Eu já perdi o ticket de estacionamento uma vez e tive que vender o carro para pagar a multa. Duvido Hideo resolver isso. No mais, o documento do carro estava na minha bolsa também. Como ele ia dar um jeito sem sequer ter levado a comprovação da placa do Pafúncio e bababá bububú? Duvido…

Enquanto pensava, ele sumiu e voltou meia hora (!!!!) depois. Entrou no carro com um sorriso de orelha a orelha e me mandou na lata:

– Não disse que eu ia resolver tudo? Não disse que não tínhamos problema algum? Não disse que era para você ficar calma?

E deu de balançar um ticket novo e pago no meu nariz.

– Pagou quanto por isso jesus?

–  Nada a mais do que pagaríamos. Fui ali, falei com o cara da administração, dei a placa do carro, ele fez um novo ticket e pronto. Mãe, você está falando com Hideo. Parece que não me conhece. Sabe quantas vezes eu já perdi o cartão de estacionamento na vida? Você me subestimou, mãe. Viu só? Mãe, você está orgulhosa de mim agora?

Eu poderia ter feito um escândalo nessa hora. Ter dado uma lição de moral dizendo que estaria mais feliz se ele não tivesse perdido um papel valoroso tantas vezes, poderia ter falado que fiquei quase meia hora no carro (tudo bem que fiquei ouvindo Jimi Hendrix que é o CD que Hideo havia colocado para eu degustar e que desconhecia e fiquei encantada…), mas pensei. Se ele não tivesse perdido o ticket, eu não teria vivido tamanha experiência de encontro com meu filho. Se Hideo não fosse desses indicados a tomar Ritalina desde os oito anos por ser extremamente desligado e se eu permitisse que ele ingerisse essa droga, ele se lembraria de guardar tudo que é dito ser importante, teríamos entrado no carro e voltado sem maiores percalços para a casa, é verdade; mas também, é válido observar, sem que eu tivesse recebido tanto carinho e o sorriso de satisfação dele por ter conseguido dar um jeito na situação sem se estressar um tiquinho de nada e me ensinado a fazer um verão quando nos são oferecidos muita chuva e ventos giga frios.

– Razô, meu filho. Só deu tu hoje.

– Ouviu Jimi Hendrix? Gostou? Conhece a história dele?

E voltamos com Hideo me contando sobre a vida desse ídolo do Rock na paz do senhor. Ele falando e eu ouvindo. Plena de orgulho do meu filho.

 

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O Rosto do Flávio

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Recebi uma intimação oficial para comparecer em uma audiência sobre o menino menor de idade que roubou meu celular há um mês munido de um facão afiado. Fui. Lá chegando, tive que relatar, mais uma vez, com detalhes tudo o que havia acontecido, a forma da abordagem e como ele foi pego pelo guarda municipal que prontamente disparou atrás dele. O rapaz não estava presente nesse momento na sala da audiência porque isso me exporia demais. Achei justo. Amém.

Eu já sabia (porque tive que ir no mesmo dia que fui assaltada prestar depoimento) que o menino ficaria não preso (pois é menor) mas “recluso”. Era a terceira vez que ele passava pela polícia e, portanto, ficaria durante um ano sob os cuidados de um grupo especializado em menores. A famosa galera dos “Direitos Humanos” que tanto falam.

Em um determinado momento da audiência, a juíza me perguntou:

– Você seria capaz de reconhecer o garoto que te roubou?
– Sim. Claro. – respondi prontamente.

Daí, ela me levou para um local que parecia coisa de filme. A juíza me assegurou que ele não conseguia me ver, mas eu, de onde estava, vi cinco meninos e cada um segurando uma placa com um número. Ela então falou:

– Quem foi que te apontou a faca?

Fiquei olhando. Não vi. Depois pensei: vou sair eliminando quem eu tenho certeza que não é. Não é o 2. Não é o 5. Não é o 1. Nem o 4.

Seria o três? Olhei bem… era ele mesmo!

– O número 3.
– Ok. Voltemos para a sala, então.

Lá chegando, assinei vários papéis e fui dispensada. Mas antes de sair, senti um bolo na garganta e pedi a palavra:

– Eu queria dizer algo…

– Pois não, senhora.- permitiu-me a juíza.

– Eu queria confessar que tive dificuldade em reconhecer o Flávio, ainda que eu tenha certeza de que foi ele que tenha me roubado. Mas tive meus motivos… e queria fazer uma pergunta para vocês. O que esse menino fez aqui durante esse mês que ele ficou recluso?

– Ele fez cursos, está matriculado em um curso de marcenaria. Está tendo acompanhamento psicológico e conversando com assistentes sociais. Ele tem praticado esporte todos os dias e ouvido música… e assim vai ficar durante mais quase um ano já que é a terceira vez que ele passa pela polícia.

– Ele está com outro rosto. – falei emocionada. – O Flávio que me roubou parecia um rato, não tinha foco no olhar, estava imundo, descalço, com cara de bicho mesmo. Abandonado. Agora não. Ele está limpo. Com um olhar sereno. Parecia um aluno meu… Eu queria dar um abraço nele, sei que não posso, mas gostaria que vocês mandassem esse abraço para ele e dissesse a esse menino bonito que eu acredito que ele pode ser muito melhor do que se mostrou para mim há um mês atrás e que eu já vejo que ele está melhor! Quero dizer a ele que o perdôo e que vou continuar lutando para que a sociedade não o exclua tanto e que ele não sinta mais necessidade de roubar.

Eu sempre acreditei que os seres humanos se constroem com as experiências e aprendizados, portanto, o meio em que se vive tem grande influência sobre ele. E o rosto do Flávio me provou que estou certa. Tenho agora a visão ainda mais clara de que algo acontece na sociedade que transforma as pessoas em marginais…

Eu queria dar os parabéns para vocês que trabalham lutando pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e compartilhar algumas perguntas que me ocorrem:

O que há na sociedade que leva essas crianças e esse meninos a cometerem crimes? O que podemos fazer para diminuir? Mais presídios? Diminuição da maioridade? Suponhamos que a maioridade no Brasil fosse de 16 anos e ele fosse preso junto com adultos e recebendo o mesmo tratamento que nossos presidiários recebem. Flávio estaria com esse rosto que eu vi hoje??? Ou estaria com uma aparência ainda mais assustadora???

Definitivamente, o rosto do Flávio só me deu a certeza de que ao reduzir a maioridade penal não estamos focando na raíz do problema, estamos apenas sugerindo uma maneira de remediar. Pouco importa se a maioridade penal é de 16, 18 ou 21 anos se o país continuar a formar criminosos! Devemos pensar em maneiras de diminuir a criminalidade, no processo que transforma as pessoas em transgressoras da lei, ou logo teremos mais presídios do que universidades e mais marginais do que cidadãos comuns! Devemos também mostrar que essa transformação no rosto e na postura do Flávio não é à toa. Tudo bem, ele pode retornar à sociedade e voltar a cometer crimes, mas pode ser que não dessa forma que vocês estão fazendo. Da outra, com certeza, ele será de novo reincidente!

Punindo apenas, aplicando mais violência ainda e enclausurando esses infratores não os transformamos em seres melhores e estamos gastando nosso dinheiro público à toa! Pior, todos esses que estão presos sob esse regime estão sendo soltos todos os dias! Melhores? Como eu vi o Flávio??? Claro que não!

Então, gostaria de dizer a todos os presentes nessa sala, antes de eu ir, que eu acredito no trabalho de vocês, embora tenha plena consciência de que ainda há muito a se fazer e a melhorar. Vocês concordam com isso, não? – todos responderam positivamente com a cabeça.

Continuei:

– E que fique claro: eu não quero que criminosos não sejam punidos. Todos devem pagar penas! Mas sei que a pessoa só vai presa depois de cometer o crime, isto é, depois que alguém já foi lesado como eu fui e por isso aqui estou hoje. Portanto, a minha luta será para que a sociedade não estrague mais tantas crianças. Acredito, depois de ter visto o Flávio, no resultado dos esforços em reabilitar e prevenir a reincidência. Gostaria de parabenizar todos vocês por isso.

Eu quero que ele continue recluso, porque não quero que ele faça mais nenhuma vítima quando voltar à sociedade. Continuem dando atenção a ele, por favor. Sempre desconfiei que aplicando mais violência em quem comete um crime é ir na contra-mão da reabilitação. O rosto do Flávio me provou que há grandes chances de todos aqui nesta sala estarmos certos.

Obrigada a todos. Por tudo. E não esqueçam de mandar meu abraço a ele.

Saí de lá só depois de receber alguns abraços. Acho que quebrei algum protocolo, sei lá. Falei demais mas agradei aos que lá estavam. Coisa rara por onde passo…

Voltei para casa usando o GPS mas, mesmo sem ele, sinto que estou no caminho certo.

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Durma bem, meu menininho.

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A cena de um menino de três aninhos morto por afogamento na costa turca tirou-me do equilíbrio. Assim que vi a foto da criança, sozinha, gelada, me deu vontade de cobri-la, niná-la, pedir perdão por tudo e colocá-la na caminha como qualquer criança merece para ela continuar seu sonho.

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Sei que há crianças morrendo no mundo inteiro e muitas até bem perto de nós. Mas há um elemento que fez toda a diferença nessa tragédia dos refugiados. Um elemento que se talvez não existisse não iríamos ficar tão tocados: a fotografia. Mais uma vez, a arte fez o seu papel na história. Sensibilizou. E muito. De uma forma ímpar.

A posição dessa criança ainda com tênis como se estivesse dormindo, com o mar e a areia como colchão tem, diria, algo da quarta dimensão. Coisa digna de Sebastião Salgado que dá o recado que mil discursos lindíssimos não conseguem nem chegar perto.

Se fosse uma fotografia de vários mortos não chocaria tanto. Por que? Não sei. Mas sei que chargistas do mundo inteiro ilustraram o fato e, também, mais uma vez, fizeram o seu papel. Ajudaram a comover mais ainda e melhorar o que já estava bom, ou melhor, piorar o que já estava pra lá de indigesto. Coloquei aqui nessa postagem, as charges que mais me emocionaram.

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Essa comoção toda talvez tenha acontecido pela posição em que a criança está. Parece que está dormindo e imediatamente temos vontade de tirar o tênis da criança, cobri-la e colocá-la em um lugar melhor, para ser mais exata, em um mundo melhor para ela ressonar.

Eu não entendo bulhufas de história. Leio leio sobre o Oriente Médio e o resto do mundo com aquela região e fico igual ao Yuki, meu caçula de oito anos, querendo entender o racismo. Não adianta. Não entra na minha cabeça como um ser humano faz tanta coisa ruim com outro.

Desgraçadamente o menininho que jaz na foto e nas charges é “apenas” um dos milhares de mortos que perdem a vida nas viagens de imigrantes desesperados para a Europa.

Não foi acidente, minha gente. Tudo isso e muito mais poderia ter sido evitado. Eu não sei exatamente a causa de tamanha desgraça, mas está claro que há falta de amor. No mundo está faltando muito amor. E sobrando ganância.

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A questão central colocada frente ao avanço da barbárie capitalista que vem deixando um rastro de morte na Europa é a necessidade de superar a agonia do capital. Qual o caminho? Penso eu que não há outra vereda a não ser o da violenta demolição da sociedade de classes e o da construção revolucionária de um novo modo de produção baseado na solidariedade e no internacionalismo.

Enquanto isso não acontece, colocamo-nos ao lado do menininho e sonhamos sim que ele está dormindo e acordará para brincar nessa praia e nadar nesse mar que o trouxe para todos nós.

Durma bem, meu menininho.

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A Mãe Desnecessária: A melhor mãe. Não. Péra…

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Há um texto que vira e mexe vejo alguém compartilhando nas redes sociais: “A Mãe Desnecessária” cuja autoria varia de Dalai Lama passando por Clarice Lispector e chegando a jornalista Márcia Neder. Para mim, pouco importa quem escreveu. Eu discordo de tudo.

O texto afirma que a boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo e toma como medida se fomos uma mãe certinha o fato de quando adultos nossos filhos não mais nos procurarem para algum conselho, pois, se tornaram seres autônomos, independentes e confiantes.

Isso para mim soa não somente falso como beira o absurdo. A minha força, definitivamente, não está na solidão. Preciso sempre ser orientada e jamais busquei a independência. E, sinceramente, não conheço ninguém completamente seguro de seus passos nesse planeta. A pergunta que nos acompanha e nos atormenta “E se…?” faz parte, acho eu, da essência e da vida do ser humano.

No mais, esse texto me incomoda porque cria a ilusão que os adultos são maduros ou, pelo menos, devem ser. Daí, pergunto-me: o que esse autor, seja lá quem for, pensa sobre maturidade? Somado ao fato de que insistem em nos dizer que somos o resultado de nossas decisões, o texto corrobora a ideia de que é possível ter certeza, um dia, de que acertamos em nossas escolhas. Já escrevi aqui no texto “Somos Mesmo Resultado de Nossas Escolhas?” sobre o quanto abomino essa ideia, mas ainda que você aceite isso, questiono se é possível ter segurança sobre uma decisão ainda mais nos dias de hoje.

Antigamente, não tínhamos lá tantas opções. Às mulheres eram dados como caminhos, digamos assim embora discorde dessa metáfora radicalmente, estudar no magistério ou casar – e uma vez casada sempre casada não importava o traste que fosse o marido. Hoje, até para comprar absorventes ficamos perdidas. Com aba ou sem aba?, com perfume ou sem perfume?, cobertura seca ou suave?, fluxo pequeno, moderado ou intenso?, e uma vez decididas todas essas opções, qual a melhor marca? Esse foi um exemplo, mas temos vários outros. Até comprar um pão requer expertise: tradicional, light ou premium?, com leite de vaca ou de cabra?, com ômega 3?, com glúten, com ovos orgânicos ou com ovos de galinhas estressadas e turbinadas de hormônios? Aff. Se no supermercado estamos assim, quando saímos dele a coisa piora. E muito. Como escolher uma profissão se nem sabemos todas que existem? Antes havia três: medicina, direito ou engenharia. Hoje podemos ser dentre muitas outras coisas trendspotter, gestor de responsabilidade socioambiental, gerente de trade marketing e merchandising, silvicultor e pesquisador de fezes de baleia. Fala sério. E ainda querem que eu não consulte a minha mãe e que faça com que os meus filhos achem certo não terem dúvidas e decidirem tudo sozinhos. Como fazer isso se eu mesma estou hiper confusa nessa budega?

O que podemos fazer, penso eu, é deixar de perguntar para nossos pais o que eles acham melhor para nós, mas impossível não perguntarmos para outras pessoas ou infinitamente para nós mesmos. E para que trocarei meus pais por outras pessoas? Nessa esteira de devaneios, na minha educação com meus filhos, eu procuro fazer com eles sempre me procurem e tenham confiança de que os ajudarei a pensar. E, para deixar claro, não porque eu sei mais do que eles. Por mais que leiamos e experimentemos, as escolhas são infinitas e o ser humano é ímpar e dinâmico se vivo estiver. Eu só sei que nada sei e a única coisa que posso fazer como mãe é conversar com meus filhos menos para lhes explicar algo e muito mais para trocarmos angústias, dúvidas e curiosidades sobre seja lá o que for.

Meus filhos não precisarão mais de mim (assim como não precisarei mais dos meus pais) quando estiverem mortos em vida. Quando, enfim, satisfeitos. Deus me livre desse conforto… Eu quero ter sempre o direito ao desatino e desejo isso também para eles. Se maturidade tem a ver com paz e descanso, quero ser uma eterna criança cansada e desesperada buscando o colo da mãe. Que eu não tenha vergonha nem medo de ainda desejá-la.

Perguntam-me: O que mais você quer da vida depois que casou, fez doutorado e teve três filhos lindos? Oras. Quero uma primeira vez outra vez. Um beijo que me traga uma sensação que nunca tive, caminhar em ruas floridas jamais vistas, estrear sentimentos, perder as virgindades que ainda trago recatadamente comigo. Quero perder o recato, quero a dúvida até o fim dos meus dias pois a certeza de seja lá o que for é o que nos mata. Zona de conforto é óbito respirando dendagente.

E, se tenho como certo que viver no plural é muito mais interessante do que no singular, faço com que a minha companhia para meus filhos seja não somente necessária como extremamente desejada. Eu não quero ser o porto seguro deles como termina esse texto “A Mãe Desnecessária”. Eu quero estar navegando pelo mar revolto ao lado deles, assim como meus pais estão em uma canoinha sempre ao lado – se não à frente – de meu transatlântico. E que fique claro, não para me dizerem: isso, minha filha, é melhor ir por esse caminho!. Mesmo porque, por melhor que sejam os pais, eles não têm bola de cristal. Eles permanecem ao meu lado para me lembrar de que as minhas ideias pouco abençoáveis formam a minha essência. Tangenciando-me sempre, eles são as melhores pessoas para não me deixar esquecer de que eu devo arejar sempre a minha biografia.

E podem ter certeza, se aumento a minha velocidade nessa viagem dependo e muito das ondas emitidas por essa canoa. Quando um dia, não tiver mais ninguém remando dentro dela, amarrarei uma cordinha e farei com que ela continue me acompanhando porque a presença deles será para sempre necessária nem que seja em forma de ilusão ou saudade que é quando sentimos a presença de alguém distante dentro de nós.

Se não sou uma boa mãe desejando com que meu transatlântico navegue, agora, ao lado de navios do porte de petroleiros que são, como vejo daqui, os guiados pelos meus filhos, paciência. Se incentivo os meus filhos a conviver com a dúvida e fugir das certezas, mais paciência ainda. Se sou anormal e quero ser uma mãe necessária que fortalece a estrutura do cordão umbilical a cada dia em que convivemos, Je m’en fous du passéI! É normal termos o colesterol, triglicerídeos, pressão, sono e ansiedade controlados por remédios e acharmos que vivemos com saúde. É normal gastarmos rios de dinheiro para viajar e chegando ao lugar do destino perdermos tempo tirando e postando fotos e mal percebendo o que está a nossa volta. É normal chegarmos em casa reclamando para mostrarmos, a nós mesmos e aos outros, que trabalhamos muito e tivemos um dia duro, como se isso fosse algum tipo de mérito… Quero distância da normalidade.

‘Normal’ nada mais é um conjunto de hábitos admitidos pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos em graus distintos se observarmos bem. Ser uma mãe desnecessária é considerado necessário, bacana, o normal a ser feito. Está nos manuais de auto-ajuda, dos psicólogos, nos compartilhamentos nas redes sociais e, como diz Chico, consta nos astros, nos signos, nos búzios, tá lá no evangelho, garantem os orixás! E ainda consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela, está no seguro e pixaram no muro essa cascata! Dane-se Dalai Lama, Clarice Lispector, Márcia Neder. Seja quem for que escreveu que tenho que ser desnecessária para quem eduquei, dane-se. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Que se dane o evangelho e todos os orixás.

Serei necessária.

Serei para sempre mamãe precisando de mamãe.

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Direita e Esquerda. Ensino Fundamental.

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Yuki, meu caçula de oito anos, perguntou-me o que estava acontecendo no Brasil quando viu pela televisão imagens da manifestação de ontem, 16 de Agosto de 2015. Ao ver crianças dando entrevistas, ele se interessou. Criança pode ir à manifestação, mãe? Pronto, lá estava eu numa saia justa. Sou contra a doutrinação de crianças. Acho que cabe a mim como mãe ensinar meus filhos, sobretudo, a pensar. Todos, porém, que me acompanham sabem que tenho a minha posição política muito bem definida, o que, ao meu ver, não me dá o direito de decidir qual será o lado que meu filho jogará dentro da política: esquerda ou direita. O próprio Yuki percebendo a minha hesitação ajudou-me ao perguntar justamente a diferença entre esquerda e direita, já que os próprios jornalistas toda hora mencionavam essas palavras.

– Por que não positivo ou negativo, mãe? Ou branco e preto, por exemplo?

– Bom, essa é uma boa forma de começarmos. Isso tudo começou lá na França, há pouco mais de duzentos anos. O sistema político dos franceses nessa época era composto por grupos bem definidos, sendo que um deles formado por comerciantes e artesãos, por exemplo, era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo.

– Mas pode isso?

– Pois então. Parece meio injusto, não? Por isso talvez, pelo fato dos privilégios serem dados somente a uma pequena parte da população, que se iniciou a famosa Revolução Francesa. Nessa época, a burguesia procurava, com o apoio da população mais pobre, diminuir os poderes da nobreza e do clero. Daí então, para se criar uma nova Constituição, montaram uma Assembleia Nacional Constituinte. Acho que as camadas mais ricas não gostaram da participação das mais pobres, e preferiram não se misturar, sentando separadas, do lado direito. Não sei ao certo se foi isso, mas sei que a galera que representava o povão menos favorecido ficou posicionada à esquerda. Por isso, até hoje, o lado esquerdo foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores, e o direito ao conservadorismo e à elite.

Dentro dessa visão, ser de esquerda presumiria lutar pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e da participação popular dos movimentos sociais e minorias. Já a direita representaria uma visão mais conservadora, ligada a um comportamento tradicional, que busca manter o poder da elite e promover o bem estar individual.

Mas o mundo, meu filho, é muito mais complexo do que isso. Com o tempo, as duas expressões passaram a ser usadas em outros contextos. Hoje, as palavras ‘esquerda’ e ‘direita’ parecem não dar conta da diversidade política do século 21. Os contrastes até hoje como você pode ver existem, porém, não são mais do tempo em que nasceu a distinção. De uma forma geral, uma diferença crucial seria que a esquerda busca promover a justiça social enquanto a direita trabalha pela liberdade individual. Tivemos uma época no Brasil, por exemplo, da Ditadura Militar…

– O que é Ditadura Militar, mãe?

– Bem, podemos dizer que foi um período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar, ou seja, pela falta de democracia.

– O que é democracia?

– A palavra democracia tem sua origem na Grécia Antiga. Demo quer dizer povo, kracia, governo. Dessa forma, a democracia pode ser entendida como um regime de governo onde o povo (cidadão) é quem deve tomar as decisões políticas e de poder.

Então, meu filho, continuando: essa divisão de direita e esquerda se fortaleceu muito no período da Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem defendia o regime socialista, de esquerda.

– O que é socialista?

– Bom, o Socialismo é um sistema político-econômico ou uma linha de pensamento criado no século 19 para confrontar o liberalismo e o capitalismo. A idéia foi desenvolvida a partir da realidade na qual o trabalhador era subordinado naquele momento, como baixos salários, enorme jornada de trabalho entre outras.

Nesse sentido, o socialismo propõe a extinção da propriedade privada dos meios de produção e a tomada do poder por parte do proletariado e controle do Estado e divisão igualitária da renda. Todos ganham o mesmo. Não há como dentro do socialismo um ter carro zero enquanto o outro não tem o que comer. Isso, porém, é um sonho. Diria que é praticamente impossível pensar nesse regime.

Mas hoje, muitas outras divisões apareceram dentro de cada uma dessas ideologias de esquerda e de direita. Atualmente, os partidos de direita abrangem conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas, e ainda o nazismo e fascismo na chamada extrema direita. Na esquerda, temos os social-democratas, progressistas, socialistas democráticos e ambientalistas. Na extrema-esquerda temos movimentos simultaneamente igualitários e autoritários. Cada qual dos lados, em diversos momentos da história (sobretudo no século 20), empenhou-se até a barbárie para fazer valer sua visão ideológica de mundo.

– Não tem meio termo? Eu tenho que escolher em que lado quero ficar?

– Não precisa. Há a posição de “centro”, por exemplo. Esse pensamento consegue defender o capitalismo sem deixar de se preocupar com o lado social. Em teoria, a política de centro prega mais tolerância e equilíbrio na sociedade. No entanto, ela pode estar mais alinhada com a política de esquerda ou de direita dependendo de sua visão sobre a economia. Por exemplo, os de esquerda pregam uma economia mais solidária, com maior distribuição de renda. Os de direita seriam associados ao liberalismo, doutrina que na economia pode indicar os que procuram manter a livre iniciativa de mercado e os direitos à propriedade particular. Algumas interpretações defendem a total não intervenção do governo na economia, a redução de impostos sobre empresas, a extinção da regulamentação governamental, entre outros. Mas veja que confuso e difícil, isso não significa que um governo de direita não possa ter uma influência forte no Estado, como aconteceu na Ditadura.

– Liberalismo me parece um nome bonito…

– E é. Na raiz, o adjetivo liberal é associado à pessoa que tem ideias e uma atitude aberta ou tolerante, que pode incluir a defesa de liberdades civis e direitos humanos. Mas não podemos esquecer que essa “liberdade” pode ter como consequência a privatização de bens comuns e espaços públicos o que poderia gerar mais desigualdades sociais.

A coisa, no entanto, é muito complexa. Por exemplo, o pensamento conservador geralmente é associado à direita. Propostas progressistas, à esquerda. No entanto, ambos, conservadores e progressistas, não raro, associam-se com liberais. É o caso, por exemplo, de quem defende ideias progressistas, como o aborto, políticas de cotas etc., mas defende a liberdade econômica, isto é, livre mercado, livre concorrência etc.; ou, ao contrário, quem defende política antiaborto, política contra as cotas e contra programas sociais fomentados pelo Estado, mas também se ajusta, igualmente, à prática do liberalismo econômico. Do ponto de vista político e ideológico, progressistas e conservadores divergem, mas concordam, por vezes, quanto à economia. Vê-se, então, que o problema é mais complexo do que se imagina.

– Não sei se estou te entendendo…

– Se você está confuso é sinal de que está bem informado e que agi honestamente. Quando, meu filho, neste mundo você vir uma pessoa com ideias muito claras sobre política, saúde, economia, progresso… pode ter certeza de que essa pessoa está mal informada. Fiquemos por aqui e aguardemos as próximas imagens e notícias para voltarmos a discutir.

– Quando você for à manifestação eu posso ir com você como essas crianças estão indo hoje?

– Não, meu filho. Quando participo de uma manifestação pode ter certeza que ninguém vai confundir a minha luta com piquenique.

Perdão, senhor, não sou de ferro. Fiz o melhor que consegui.

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