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Mãe, estou apavorado. Acho que vou ser gay.

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Hoje, dia 01 de outubro, comemoramos aqui dez anos de Yuki que estreou no dia 27 de setembro. Fiz o que ele me pediu: queria passar o dia com seus melhores amigos. Isso significou que desde às 11h da manhã de hoje até às 20h a minha casa estava com dez meninos. Está tudo de cabeça para baixo aqui. Ou seja, estamos todos mega felizes porque tudo correu na mais perfeita ordem.

Passamos o sábado entre brincadeiras e algumas observações sobre o dia de amanhã. Agora, antes de dormir, Yuki veio me perguntar se Crivella era homofóbico.

– Tudo indica que sim, Yuki. Ele já fez discursos falando que homossexualidade não é coisa de Deus.

– E Pedro Paulo?

– Este bate em mulher. Machista. Se é homofóbico não sei mas, a julgar pela postura, não duvido.

– Por que as pessoas são assim? Por que se irritam com o outro se o outro nem se mete na vida delas?

– Não sei, meu filho.

– Eu não quero ser gay, mãe. Não quero ter que lidar com gente assim.

Oh, Senhor. Era só para dar um boa noite e ele me vem com essa? E lá vamos nós porque mãe não pode perder oportunidade…

– Bom. Duas coisas. A primeira é que isso não é uma opção. No momento certo, você vai saber o que te atrai. Se é mulher ou se é homem. Mas você agora está muito novo para pensar sobre isso. Segundo, ainda que lááááá na frente você queira namorar só mulheres, a homofobia vai continuar sendo um problema seu sim senhor.

– Mas eu não terei medo das pessoas me maltratarem.

– Mas terão outras sendo maltratadas e, enquanto houver gente sofrendo, isso diz a nosso respeito porque o mundo é um só e temos todos a obrigação de fazer dele um lugar bom de se viver para qualquer um. E se você pensa que não é problema seu, saiba que está tudo interligado. Mais cedo ou mais tarde você vai ver como fazer o bem é contagioso e idem com o mal. E mais! Você vai ver como tudo nos atinge…

– Mãe, a verdade é que estou apavorado. Eu não quis chamar meninas para minha festa. Eu acho que vou ser gay.

– Ué. Normal só querer andar com meninos na sua idade. Isso não diz nada a respeito de sua sexualidade no futuro. Há muitos homens héteros que quando criança agiam exatamente assim como você hoje. Mas já disse, Yuki, está cedo para você se preocupar com isso. Daqui a uns dois anos, talvez tenhamos algumas indicações, mas agora não. Você é ainda uma criança.

Agora perceba… vai que você seja gay ou bi. Se eu pensasse, como você pensou agora há pouco, que pelo fato de eu ser hétera não preciso me preocupar com homofóbicos e não tivesse levantando essa bandeira contra a homofobia em cada oportunidade que tive para fazê-lo, a sua vida já ia ser muito mais difícil. Percebe como é importante cuidarmos uns dos outros? Tudo é uma coisa só, meu filho.

– Entendi. Se eu não for, meu filho pode ser…

– Justamente! Ou seu amigo, por exemplo. Já pensou ver o Nikolas apanhar ou morrer porque é gay?

Tive que parar de falar. Yuki começou a chorar. Ele é desses que sofrem quando entendem tudo.

Abracei-o como abraçamos um objetivo.

– Gostou do seu dia?

-Amei, mãe…

– Vamos fazer mais isso independente de seu aniversário?

– Pode, mãe?!

Pronto. O rosto já mudou e consegui reverter aqueles pensamentos… Conversamos sobre a farra que rolou aqui hoje. Ele chegou a gargalhar, até que finalmente dormiu.

Agora estou aqui pensando no que mais posso fazer para que, nos próximos anos, eu continue vendo esse sorriso estampado no rosto de um filho que tanto sonha…

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Separação

Folha-Amassada

Diante do mar, respirou vagarosamente. Assim como devagar vinham os pensamentos que nadavam pelo ar cheio de Sol. Ele se foi. Ele se foi e como o mar é misterioso. Cada ondinha parece refletir uma estrela. Ela compreendeu de repente. Ele se foi como a pretensão de sabermos do que são feitas as estrelas, sentiu. A confusão das frases era a realidade mesma. Se ordenasse as palavras e explicasse de forma clara o que sentira, teria destruído a essência do seu sentimento. Ela estava se entendendo assim. Na confusão, ela percebia a própria verdade, seu próprio inconsciente impalpável. Sentia saudade? Não saberia dizer, pois, não era bem saudade já que o tinha naquele momento muito mais do que enquanto ele se prolongava ao seu lado. Era muito mais do que saudade. O que sentia não tinha nome. O sonho foi muito mais completo do que a realidade que a afogava em seus devaneios sobre ela, a realidade. Não bastava saber que estava vivendo, queria ela viver. Ser amada não pela casa em que morava, pelos filhos que pariu, mas por ser. Ela. No seu interior procurava o silêncio que tantas vezes pedia. Mas nele ficava tão perdida de lembranças de tantas pessoas que acabou transformando toda essa sensação na certeza de uma solidão metafísica. Era preciso que ela não se esquecesse de que foi feliz, mas ela sempre se esquecia. Juntou então todos os seus pedaços e decidiu não procurar mais ninguém. Buscaria a rede onde deitaria, como tantas vezes se deitou, na companhia dela mesma. Se é para ela se perder nesse mundo que seja em águas que fluam para seus interiores.

Tentou de súbito inventar alguma coisa que a distraísse. Inútil. Ela só sabia viver. Mas precisava mais. Era necessário renascer. Desfazer-se de tudo que havia aprendido com ele, do que viu com ele, e inaugurar-se em um terreno plano onde cada semente plantada era um novo futuro pleno de um significado até então inexistente. Precisava respirar como se fosse a primeira vez. Não sabia rezar e se soubesse não era o momento. A oração funciona como analgésico, acalma e adormece o desespero. E agiria, então, como a morfina que, dada para um paciente em estado terminal, precisa sempre aumentar a dose para fazer o efeito. Não. Ela não aceita rezar covardemente. Precisava sofrer e conhecer a dor integralmente para se entender. E se tivesse que orar a ponto de se tranquilizar deveria mudar-se para um igreja porque para sua inquietude o mais forte dos anti ansiolíticos e dos antitérmicos seria insuficiente. Se não o quisesse tanto, seria fácil suportar toda aquela incompreensão da parte dele e o fato de sua mão não mais alcançá-lo. Se ela se alongava naquelas conversas que lhe davam tanto prazer, notava-lhe um rosto heróico quase impaciente mas excessivamente paciente. Inútil seguir por tantos caminhos com ele quando para um só e para longe seus passos a guiavam.

Olhando o mar, ela não tinha medo de não ser amada. Ela tinha pavor de não conseguir  amar mais ninguém. Quando ele lhe abraçava, sentia a vida dentro dela correr subitamente como um rio caudaloso. Se ele a quisesse, ela nada poderia fazer. Agora ela está só diante do mar. Medo de não mais amar. Necessidade de ser amada. Quando pensava nele diante aquele grande volume de água salgada que corria sobretudo em seu rosto, respirava com cuidado como se algo no ar pudesse lhe envenenar. Passou a evitá-lo como sua presença fosse a ela dispensável. Tornou-se nuvem prestes a trovejar. Deveria aprender a ser feliz pelo mesmo motivo que se tornou desesperadamente infeliz. Chorava tanto diante daquele vasto oceano que, de repente, ficou serenamente vazia.

Há harmonia nesse mundo que roda sob seus pés e sob tudo o que lhe foge à compreensão? Não mais sofria, mas tão pouco sabia onde estava. Desabituou-se a dormir. O sono? passou a ser uma aventura assim como atravessar a escuridão mesmo durante o dia. Deveria reinaugurar-se? A justificativa de estar só talvez não tivesse outro valor senão o de lhe dar uma certa liberdade de pensar. Meu deus, como ela errava tanto. Diante dessa liberdade, agia como um animal enjaulado que ajusta seus passos e anda de um lado para outro para percorrer os quilômetros que sua natureza exige. De agora em diante estava somente dentro dela.

Então, naquela manhã cheia de sol, ela olhou para as gaivotas como se elas estivessem loucas. Tornou-se uma gata castrada repousando em um porão. Dentro de cada um daqueles dois, houve momentos que não poderiam ser rememorados falando ou escrevendo. Nem mesmo pensando. Para se lembrarem um do outro, deveriam parar um instante e sentir. E neste instante, ela riu um mau sorriso. Há coisas indestrutíveis que ela havia criado que o acompanhariam até a morte como se tivessem com ele nascido. Os momentos em que viveram quando, de fato, casados. Com poucas sementes, ela plantara uma floresta em sua pele. Ela era, portanto, dele sim, como uma poesia por ele escrita – em um papel amassado que repousa no fundo da lata de lixo.

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Sobre a Educação e a Pobreza no Mundo

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Há tempos ando percebendo que estou sendo uma marionete de um sistema. Tudo começou quando fiz meu mestrado em História das Ciências e logo depois o doutorado em Filosofia. Sou formada em física e leciono no ensino médio há quase vinte anos. Somente há cinco ficou claro que o conceito de ciência que eu formava em meus alunos em minhas aulas de física – e que eu havia recebido tanto na Escola quanto na Universidade – estava tremendamente equivocado. Por que fizeram isso comigo? Mais ainda: por que me forçaram a fazer o mesmo com outras pessoas?

Estudando os documentos oficiais tanto brasileiros quanto de outros países no que diz respeito ao que deve ser ensinado nas escolas, ficou claro que há conceitos que devemos discutir e “ciência” é apenas um deles que, hoje, vou deixar de lado. Gostaria de propor com esse texto uma reflexão sobre algo maior:  a “Educação”. O que vocês lerão aqui é um breve ensaio de um estudo aprofundado sobre o tema. Não estou inventando a roda ou, melhor, desinventando. Apenas coloquei aqui o resultado dessa minha recente pesquisa com as minhas próprias palavras. Há tanto o que dizer e revelar que pretendo escrever um livro, mas a vontade e a necessidade de compartilhar é tamanha que me arrisquei a fazer esse breve texto economizando maiores detalhes. E afirmo, qualquer um que esteja preocupado com justiça social deve primeiramente refletir sobre a “Educação”.

É comum não pensarmos a respeito de conceitos que usamos no nosso dia a dia. “Sabemos” do que tratam certos vocábulos até o momento em que passamos a refletir sobre eles. Educação. Quase não se fala sobre isso, mas a Educação Pública e Obrigatória foi inventada em um determinado momento da nossa história. Na Antiguidade, havia espaços para a conversação e a reflexão. A instrução obrigatória por muito tempo era coisa somente para escravos. No mundo ocidental, a “Educação” esteve nas mãos, por um bom período, da Igreja católica e não possuía ainda as características que a definem atualmente. Somente no final do século 18 que se criou o conceito de Educação pública, gratuita e obrigatória. A Escola, tal como a conhecemos hoje, começou na Prússia com o objetivo de evitar as revoluções que se sucediam na França. As escolas prussianas se baseavam na forte divisão de classes e, tal como o regime espartano, pregava a obediência e o autoritarismo. Os monarcas até incluíram alguns princípios do Iluminismo certamente para satisfazer o povo, mas mantinham o regime absolutista. E o que buscavam os déspotas esclarecidos? Um povo dócil, disciplinado e que se pudesse preparar para as guerras que aconteciam na época entre várias nações que estavam nascendo. Diderot, uma figura famosa dentre os iluministas, ajudou a elaborar como seria a formação desses cidadãos obedientes e súditos do Estado.

O mundo gira, a Lusitana roda e, em poucos anos, a América e outras nações da Europa visitaram a Prússia para se capacitarem. “Educação para Todos” já era uma frase que se usava assim como a bandeira da igualdade quando justamente a essência do sistema educacional provinha do despotismo buscando perpetuar os modelos elitistas e a divisão de classes. Napoleão importou essa “educação” para também formar seu corpo docente e poder dirigir a opinião dos franceses.

A escola nasce em um mundo que começa a ser regido por uma economia industrial, portanto, busca obter os maiores resultados observáveis com o menor esforço e investimento possível aplicando, em muitos casos, fórmulas científicas e leis gerais. Nessa esteira, a escola era a solução e a resposta ideal à necessidade para se preparar  trabalhadores. Não foi sem motivo que foram os grandes empresários do século 19 que financiaram a escola obrigatória e não é difícil perceber que o modelo de formação industrial como uma linha de montagem era perfeito para ser usado nas escolas. A educação foi comparada à manufatura de produtos e por isso a importância e necessidade de uma série de passos determinados.

E hoje? Se olharmos de cima, bem do alto, percebemos que atualmente a educação também funciona como a melhor ferramenta para formar trabalhadores úteis a um determinado tipo de sistema e também para fazer a cultura permanecer a mesma – o que significa conservar a estrutura da sociedade.

Qual o papel do professor? Ele era (como hoje continua sendo) o encarregado de ensinar uma série de conteúdos determinada por alguns administradores. Percebam o que eu acabei de dizer: a Educação não foi preparada por educadores e sim por administradores. Na “linha de produção” uma pessoa estaria a cargo de uma pequena parte do processo que é propositadamente insuficiente tanto para conhecer o mecanismo em sua totalidade e as pessoas em profundidade. Nós, como professores, temos várias turmas com uma média de 40 alunos por ano o que torna o nosso trabalho, de fato, puramente mecânico de uma forma geral. As exigências e as pressões terminam por desumanizar a todos seja professor, seja aluno, seja diretor, seja inspetor.  Somos um mero funcionário que obedece a uma autoridade que dita o que temos que ensinar e de que forma devemos fazer isso.

Esse esquema de “linha de montagem” foi aplicado na indústria, no exército e em grande parte das escolas no mundo, principalmente, as do ocidente. Será que é uma coincidência o fato de as escolas serem imagem e semelhança das prisões e das fábricas priorizando o cumprimento de regras e tendo um total controle comportamental e social? Pelo muito que li e estudei posso garantir: não. A escola, no formato que a conhecemos, foi feita para ser uma fábrica de cidadãos, como já dito acima, obedientes, mas mais do que isso: consumistas e eficazes para o sistema.

Outra pergunta interessante a se fazer é: por que todos têm que saber o mesmo? Quem disse e escreveu isso? Se somos tão diferentes, se cada um de nós constitui senão um universo uma galáxia talvez, por que todos temos que aprender do mesmo jeito e ao mesmo tempo? As nossas escolas não têm capacidade e muito menos se propõem a responder às necessidades de cada um. Por quê? Porque ela não foi feita para educar  e sim para instruir.

Nosso sistema “educativo” é um sistema de exclusão social que seleciona o tipo de pessoa que vai para a faculdade para fazer parte de uma elite. A nossa “Educação” nas escolas não tem como função olhar e trabalhar cada um, ou seja, até hoje seguimos o mesmo modelo das escolas prussianas dos idos dos novecentos: ensino padronizado, aulas obrigatórias, divisão de séries por idade, currículos desvinculados da realidade, pressões por parte dos professores que por sua vez são pressionados por coordenadores e diretores, prêmios e castigos, horários rígidos e uma estrutura vertical.

O que a escola tem a ver com “Educação”? Nada. Absolutamente nada dependendo de como você compreenda o que seja educar e, por tabela, o que é considerado como uma boa educação. Somos, por um acaso, bem educados para você se conseguirmos adquirir conhecimentos que naturalmente não nos interessariam e superarmos barreiras que outros nos impõem? Ou seríamos bem educados quando somos encorajados e estimulados a alcançar uma boa qualidade de vida que não tem absolutamente nada a ver com nosso conforto material?

Vou propor a você um experimento de pensamento. Esqueça, por um momento, tudo o que disseram que deveríamos aprender na vida. Feche os olhos por alguns minutos e tente ver cada coisa como se nunca tivéssemos visto. Avalie, ao seu modo, cada ação, cada costume. Saia da caixa e veja de fora dela. Se pudéssemos escolher como deveríamos ser educados, a forma que temos hoje está lhe parecendo uma boa maneira de fazê-lo? Quem formamos nesse sistema de ensino? Respondo me colocando como fruto desse sistema tanto como aluna que já fui como professora que sou há duas décadas: formamos pessoas que sabem logarítmos e diferenciar briófitas de pteridófitas, mas não sabem como se relacionar com outras pessoas e com o meio ambiente.

O sistema sempre exige muito mais do que o ser humano – seja ele criança, seja ele adolescente – pode dar. Veja que as médias das turmas jamais são “dez”. Isso gera uma criança estressada, um adolescente com a auto-estima baixa e sem vontade de aprender, pois “aprender” se tornou um processo tedioso e difícil. São raras as crianças que aos doze anos, por exemplo, peguem um livro para ler por livre e espontânea vontade e curiosidade. Quem fez isso com ela?

Informação é definitivamente diferente de compreensão. A última é uma ferramenta em constante crescimento com características únicas que variam para cada indivíduo. Compreensão implica estabelecer relações entre conceitos e critérios e resolver problemas e construir novos conhecimentos. A primeira é o que é passado na maioria das escolas. Nossos alunos viram depósitos de informações e são bem recompensados por isso quando têm sucesso nessa empreitada. A informação que a escola deve passar para seus alunos é o que constitui o currículo. Mais uma vez cabe a pergunta: Quem fez o currículo aplicado nas escolas e com qual objetivo?

A aprendizagem profunda é aquela que se dá baseada no interesse, na vontade e na curiosidade. É muito mais do que estar bem informado. Porém, tanto a escola como a sociedade em que vivemos levam a assumir motivadores externos para alcançarmos nosso objetivo; dito de outra forma, a meta que nos forçaram a ter se resume a “ser alguém na vida” que por sua vez se traduz como “ser alguém bem sucedido” que todos aprendemos como sinônimo de poder ter riquezas materiais. Se buscarmos a origem da palavra “educação” veremos que ela vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente ‘conduzir para fora’. Não para dentro. Significa, por essa esteira, motivar. E percebam com clareza uma coisa: uma pessoa pobre, sem dinheiro, não é, na sociedade, vista como uma pessoa bem sucedida. Aquele que estuda por prazer e não gera dinheiro com seu conhecimento é visto como louco ou burro por grande parte das pessoas que o rodeiam. Temos de uma forma geral, a ideia de “educação” como uma única via de ascensão sócio-econômica.

A tarefa do professor deveria ser mostrar mistérios, mostrar situações na natureza mesmo que já estejam descritas pela ciência de modo que o educando se surpreenda. E já que falamos sobre ciência, vale lembrar que ela se apresenta na sua história como composta de muitos mais erros do que acertos. Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, fez mais de mil tentativas antes de conseguir o modelo final. Quando um jornalista perguntou como ele se sentia depois de ter fracassado mil vezes, ele respondeu: “Não fracassei mil vezes, a lâmpada é uma invenção que requer mil passos”. E são raríssimos (nem sei se existem) os livros de ciência do Ensino Fundamental e Médio que apontam os erros dos cientistas.

Voltemos à nossa reflexão maior sobre “educação”. Outro ponto a entender: por que os alunos são agrupados por idades? Para que haja uma maior homogeinização: se uma criança fala pouco, ela tem que falar mais. Se uma criança fala muito, ela tem que falar menos. Há um protótipo que deve ser buscado. Porém, para quem tem mais de um filho como eu ou tem irmãos ou primos, fica muito claro que cada um tem um ritmo e uma maneira de aprender diferentes, motivações distintas assim como são também as formas de se relacionar. Mas as nossas escolas desprezam isso e a educação sem liberdade e sem esse respeito ao tempo de cada um gera uma vida que não pode ser vivida em sua plenitude.

Já imagino você me perguntando, como pai ou professor, se a falta de um discurso autoritário e de uma ordem não geraria uma indisciplina geral e um caos. Em outras palavras: há outra forma de se educar? Primeiramente temos que definir bem o que você está chamando de “disciplina”. Seria ela, por um acaso, uma forma de impôr um determinado tipo de comportamento? De onde surgiu essa ideia que educação deve ser repressiva? E você como pai, mãe ou professor, ou seja, como “educador”… como as suas emoções são controladas? O que sentem quando estão educando? Sentem-se em paz ou em conflito? Se não somos felizes educando, estamos de fato educando?

O discurso na maioria das casas é algo parecido com isso: educamos para que nossos filhos saibam se adaptar à sociedade que eles vão viver e que sabemos que vai ser dura. Proponho pensar em encarar a educação, tanto em casa como na escola, como algo que sirva para o educando como um meio de ele perceber criticamente o que gosta ou não, como uma ferramenta para ele pensar como pode melhorar a sociedade e viver em paz consigo, com o seu entorno e o meio ambiente.

É muito difícil, concordo, pensar em tudo isso porque implica mudança. E toda mudança gera um medo danado na gente porque significa questionar o que acreditamos. Não podemos mudar mantendo as crenças e devemos abandoná-las. Por isso, em certa medida, mudar é morrer. Entretanto, “morrer em vida” pode ser sinônimo também de renascer. Por outro lado, a “morte em vida” pode ser sinônimo de se manter sempre na zona de conforto. Tudo é uma questão de coragem e precisamos tê-la se queremos ser educadores, pois, a aprendizagem não deixa de ser uma transformação. Se não aprendemos e se não enfrentamos a nossa própria mudança, como pretendemos mudar alguém?

É muito comum os pais perguntarem para os filhos: “como foi a escola hoje?”. A resposta é sempre muito superficial e geralmente assim: “boa”, “foi bom”, “normal”… o que não quer dizer rigorosamente nada. Experimente perguntar (ou imagine que perguntassem para você nos tempos de escola): “como você se sentiu na escola hoje?”.

Olhemos para trás e nos encontremos como quem fomos na infância e na adolescência. Muito pouco do que aprendemos na escola nos foi verdadeiramente importante a nível de currículo que, vale observar, é quase o mesmo no mundo inteiro e serve para treinar pessoas para o emprego e uma cultura acrítica de consumo. O que carregamos até hoje não foi escrito nos cadernos. Pode ter sido um exemplo de um professor, uma briga com um amigo, uma aula que tenha nos tenha deixado perplexos (uma dentre tantas)…. A escola não nos ensina a ser livres, muito pelo contrário. A escola não nos ensina a nos encontrarmos com nós mesmos, ao invés disso, dificulta esse encontro. Falamos muito de um mundo melhor e esse mundo não é ensinado e discutido nas salas de aula.

O que nos ensinam para vivermos “bem” quando adultos é estar longe um dos outros e a competir por coisas que não tem valor (moral) sem que esse possa ser descrito por algo diferente de um número. Pais e professores não prestaram atenção às nossas demandas assim como não temos escutado hoje nossos filhos e alunos. Pais e professores não nos perguntaram sobre nossa opinião, assim como não perguntamos a opinião de nossos filhos e alunos. Pais e professores não tinham ideia de como nos sentíamos assim como não temos ideia de como se sentem nossos filhos e alunos. Se tivéssemos a opção ontem e se dermos como opção para nossas crianças escolher entre ir ou não à escola diariamente, quantos de nós iríamos? Por que não nos deram e não damos a liberdade de podermos ser livres para escolher o que aprender e como aprender?

Estamos todos como mortos porque não mudamos. Cada vez que negamos escutar nossos jovens é como uma pá de cal sendo colocada a mais na nossa sepultura. Cada vez que escolhemos a meta no lugar do trajeto nos mumificamos. Cada vez que deixamos de criar algo novo, uma parte de nosso corpo apodrece.

Vamos olhar para outras formas de educação no mundo diferente da nossa tradicional. Se fizermos um breve estudo, veremos que as primeiras sempre promoveram sustentabilidade. Não quero dizer que sejam formas perfeitas de educar, mas sim ressalvar que outros tipos de educação promovem um conhecimento maior do solo, do clima, da água… e fazem os educandos seres responsáveis pela própria vida e pelo outro geração pós geração. Voltemos ao nosso sistema educacional. Não aprendemos nada sobre sustentabilidade, não aprendemos sequer primeiros-socorros, não sabemos nos comunicar com pessoas com deficiência auditiva, praticamos bullying com o diferente, não temos ideia de como é produzido o nosso alimento, nos livros de ciências das escolas fundamentais os animais são apresentados pelas suas utilidades para nós, aprendemos a confiar cegamente nos médicos e nada sabemos sobre a história da indústria de fármacos e como a ciência hoje é financiada e desenvolvida. Não temos ideia de como lidar com problemas ambientais e qual é a nossa parcela de responsabilidade na degradação do meio ambiente, mas sabemos logarítmos e utilizar a equação de Torricelli em problemas que jamais serão nossos na realidade.

A Educação que temos não passa de uma doutrinação para uma forma de saber, de aprender e, pior, de ser. E temos consciência de que diferentes formas de saber, de aprender e de ser criam diferentes culturas e indivíduos. A nossa Educação como temos hoje – que, vale sempre lembrar, segue o mesmo modelo de quando foi criada na Prússia – serve para alimentar um sistema de produção industrial. Migramos da sabedoria para o conhecimento, do conhecimento para a informação e da informação para informação incompleta e desintegrada. A maioria esmagadora de todas as atividades que acontecem sob o título “Educação” vem de um plano muito bem específico e elaborado que se mantém o mesmo há séculos. Em 1960, Walt Roston em “The Stages of Economic growth” afirmou que “a maioria da população deve estar preparada para aceitar o treinamento para um sistema econômico […] que cada vez mais confina o indivíduo em grandes e disciplinadas organizações que designam tarefas limitadas e especializadas”. Anterior a isso, em 1898, Ellwood P.Cubberly, da Universidade de Educação em Standford havia dito que “as especificações para a produção vêm da demanda da civilização do século 20 e é o dever da escola construir seus alunos de acordo com essas especificações dadas”.

Vejamos agora o projeto “Educação para Todos” sancionado por inúmeros países do mundo. Trata-se de um programa apoiado pelo Banco Mundial e pela ONU que tem financiamento de grandes corporações. O plano é colocar todas as crianças na escola. A alegação é que indo à escola as comunidades serão capazes de se desenvolver e de fazer parte de uma sociedade maior que, para mim está claro, significa tornar-se parte de uma economia global. Não é raro presidentes, ministros e até educadores confirmarem essa informação ao dizer que temos que educar para crescer como sociedade. O que eles querem dizer com isso?

A missão anunciada é “combater a pobreza global” pela educação. “É uma condição absolutamente necessária para a redução da pobreza”, afirmou Julian Schweitzer, diretor de desenvolvimento humano do Banco Mundial. Quais são os interesses que o banco serve? Ele mesmo, o próprio Schweitzer responde: “A demanda da educação está vindo de homens de negócios que estão descobrindo que eles não conseguem desenvolver suas fábricas porque há uma escassez de trabalhadores qualificados”. A questão que me faço lendo tudo isso é: quem se beneficia quando todas as crianças são educadas de uma mesma forma? Mais um pouco de Schweitzer: “Temos que ter cuidado para não sermos muito paternalistas com as chamadas culturas locais ou tradicionais [ele se referia às comunidades indígenas ou isoladas dos grandes centros]. Podemos não destruir essas culturas mas, por outro lado, ao tentar preservar essas culturas há um tipo de “congelamento” e para evitar isso, nós devemos ajudar educando as crianças”. Pergunto-me ao me deparar com isso: O que esses administradores de educação pensam sobre o “progresso”? Pesquisem vocês e vejam quantidade de crianças e adolescentes no mundo que sofrem de algum transtorno psicológico como a depressão, por exemplo. Vejam quantas tomam remédios psiquiátricos e quantos tentam o suicídio em nosso planeta.

Definitivamente, vivemos sob uma grande crença de que é através dessa educação que conhecemos que vamos tirar as pessoas da pobreza. Se prestarmos atenção, veremos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Nos outros sistemas de economia pré-modernas ou pré-desenvolvimento não encontramos o tipo de pobreza que se tem nas favelas. Futuro bom, para nós, é sinônimo de consumirmos muito e, vejam vocês, há pessoas estão se endividando para dar essa “boa educação” para seus filhos sob a grande esperança de que eles sejam futuros engenheiros ou médicos e “alguém na vida”. Quantos conseguem ter esse almejado “sucesso”? A grande maioria? Não. Pasmem. Menos de 10%.

Quando viajamos e visitamos culturas que não têm o nosso sistema educacional, deparamo-nos com uma economia sustentável, achamos pessoas extremamente desestressadas e vivendo em harmonia com o meio ambiente. Encontramos seres que interagem bem entre si e que se respeitam mutuamente. E acredita que ainda há quem defenda que devemos melhorar a vida dessas pessoas com escolarização? Tirar as crianças do contato com a natureza e colocá-las imersas em prisões de concreto, sem verde algum e darmos a elas livros que falam sobre a natureza da forma que falam? Para que faríamos isso? Com que propósito fazemos isso? Não é à toa que o grande mestre Albert Einstein disse ser “nada menos que um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não estrangularam por completo a sagrada curiosidade da pesquisa”.

O nosso sistema educacional está classificando milhões e milhões de crianças e  jovens como fracassados. Pessoas extremamente talentosas e sensíveis se tornam os “rebeldes”, “problemáticos” e “repetentes”. O mais preocupante de tudo isso para mim é perceber que as pessoas que estão lutando pela justiça social não conseguem ver o gigantesco tipo de hierarquia e desigualdade que a nossa “Educação” gera. Vamos ligar alguns pontos: por que temos que aprender inglês? E se não tivéssemos aprendido? O que não estaríamos consumindo?

Todos os nossos índices de desenvolvimento não dizem nada sobre qualidade de vida. Ouvimos que “a renda per capita dobrou”. O que isso quer dizer? Devemos mesmo comemorar? Isso pode significar que algum agricultor saiu de uma economia agrária não-monetária para entrar em uma fábrica que explora seus empregados, não? A nossa qualidade de vida melhora, de fato, quando a nossa renda melhora?

Não quero, porém, desprezar tudo o que temos e sim propor um olhar mais crítico, pois quando analisamos a maneira que estamos ganhando o nosso dinheiro percebemos que ela é baseada em um paradigma econômico que segundo qualquer definição científica está mudando a bioquímica do planeta. O “sucesso” que a educação tradicional e a mídia nos fazem sonhar deteriora a olhos vistos o nosso meio ambiente e a nós mesmos como indivíduos. E pior, nosso “sucesso” implica o “fracasso” de outros. A riqueza material não existe sem seu oposto: a pobreza.

Pensemos com carinho e seriedade sobre o assunto.

Principal fonte da pesquisa: https://www.youtube.com/watch?v=gVSW652HrUg

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Conexão Entre Universos

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Por esses dias que se passaram, se olhássemos para o céu veríamos Júpiter e Vênus alinhados. A despeito de parecerem duas estrelas, esses e os demais planetas têm um comportamento diferente de outros astros. O movimento deles não é sempre em uma direção visto por nós aqui da Terra. Eles andam um pouquinho para frente e voltam um tanto. Depois andam mais um pouco e voltam… E assim, nessa aparente indecisão eles muito mais progridem do que retrocedem, e vão desse jeito errático saindo do nosso campo visual.

Em todo tempo que eles permaneceram visíveis, eu os observei um pouquinho cada noite. Odeio desperdícios e seria muito injusto comigo mesmo eu deixar passar esse fenômeno sem interagir com ele e viver as consequências disso.

Ao mirá-los do chão do subúrbio carioca, perguntei-me o que de fato contemplava. Seria o mesmo céu de Galileu ou o céu das ideias de Platão? Olhava para o espaço absoluto de Newton e para o espaço imaterial dos postulados euclidianos? Ou o espaço curvo de Einstein? Essa desconfiança em relação aos meus sentidos e minha inteligência impediu-me de me fazer sentir à vontade com todo o restante do Universo. Olhando assim para seja lá o que for que estiver no firmamento, pensava eu, não consigo extrair nenhuma ideia de dimensões, de distâncias, de ciência e de poesia. Desconfio de tudo o que sei e para o que ignoro mantenho meu conforto suspenso.

Não sabia quando deveria voltar a olhar para as coisas próximas de mim. Será que eu já me apropriei desses planetas o suficiente? De quanto é a medida certa que os corpos celestes podem entrar em meus olhos?

Se tudo o que estou contemplando agora, divagava eu, está tão grávido de incertezas, dúvidas e interrogações o que me resta além de ter que confiar na escuridão e no deserto das minhas respostas? Devo aceitar o nada pela sua estabilidade? Por que diabos a minha relação com o céu é tão perturbadora ao invés de ser algo sereno? De onde vem essa revolução interna a cada vez que eu observo o tempo contínuo e imutável e me desprendo do tempo fragmentado e finito de nós terráqueos?

Assoberbada e insegura, acabei me enervando com os corpos celestes como com muitas pessoas – compulsada e compulsiva – à procura de uma verdadeira conexão.

Que venham outros alinhamentos…

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Somos Mesmo o Resultado de Nossas Escolhas?

livre arbitrio

Você já deve ter ouvido por aí que vivemos de acordo com as nossas escolhas ou que somos resultado daquilo que escolhemos. Há várias frases como essas compartilhadas ou ditas diariamente por alguém. A despeito de isso parecer algo óbvio e até sábio, esse papo motivacional, a meu ver, é uma grande ilusão. Há grandes possibilidades de que as “nossas escolhas” não sejam exatamente nossas, mesmo quando temos total certeza de que as tenhamos tomado de forma consciente.

Comecei a suspeitar de que a ‘liberdade’ é uma mentira em que acreditamos. Já escrevi sobre isso por aqui. Daí para concluir que a ‘escolha’ é uma ilusão não me custou nada. Nós, como seres humanos, gostamos muito dessa “ideia de liberdade”. Mas será que nós somos completamente autônomos como pensamos ser? No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que defendo é que esta noção é muito mais complexa quanto parece e que pode ser tão real quanto uma miragem no deserto. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre esse ou aquele caminho? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas? Ouvir que somos livres para escolher isso ou aquilo sempre me incomodou profundamente porque jamais me senti livre e escolhendo nada. Nem profissão, nem marido, nem ter ou não filhos e nem a separação foram me dados como alternativas. Como não?, diria você. Vem comigo que no caminho eu te explico.

Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito?

Ok. A ciência também pode ser um tremendo discurso romântico e subjetivo, mas trazê-la para a discussão nos permite perguntar se e quais forças externas desempenham algum papel na nossa tomada de decisões. E só pelo fato de flertar com a ciência sem sequer aprofundarmos em seus fundamentos já surge a dúvida: será que a razão pela qual a intuição nos diz que temos um livre-arbítrio não seria porque a nossa mente altamente limitada não consegue identificar todos os fatores que afetam a nossa “escolha”?

Diria você: mas eu me vejo escolhendo, por exemplo, em tomar café com açúcar ou com adoçante. É? Vejamos: seja lá qual for a sua “escolha”, considere que ela possa ter acontecido porque a mídia tem mostrado demasiadamente o mal que um ou outro produto faz, que seu paladar não aceita ou um ou outro, que o seu médico aconselhou a diminuir o consumo de um dos dois e por aí vai. Até a mais simples das escolhas conta com fatores que não podemos saber ao certo quais são e muito menos pensar em questioná-los, mas que existem, concordam?

Continuando… Se acreditarmos nas ideias levantadas por Freud, veremos que não agimos de forma livre mas sim conforme nossos impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns do mesmos.  Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos que se encontram em nosso inconsciente. E vejamos como isso faz sentido: o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas? O quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão? O quanto estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos? Dito de uma outra forma: se um objeto lançado por nós tivesse consciência do seu movimento não poderia ele se julgar livre para perseverar nesse movimento na medida em que ignorasse por completo o impulso que demos a ele? Em que medida aquele que crê ser livre não é tal e qual uma pedra lançada ao vento que ignora a força que a impeliu?

Se acompanharmos os estudos feitos pela neurociência veremos que atribuir à mente humana alguma liberdade de decisão não condicionada por processos inconscientes parece cada vez mais difícil. Para muitos neurocientistas, o nosso cérebro é um órgão do corpo, como tantos outros, igualmente formado por tecidos e células especializadas, que funcionam conforme nossa constituição bioquímica, reagindo a estímulos internos e externos de formas complexas, porém, de certa maneira, previsíveis. A mente é um troço que emerge da atividade do cérebro em conformidade com as leis da física e da química, o que implica em dizer que somos, em certa medida, o que a química de nossos cérebros faz de nós ainda que não sejamos previsíveis totalmente. Cada emoção pode ser associada a processos neurológicos que, por sua vez, podem ser reduzidos a processos bioquímicos que, em última instância, nós não temos controle.

Eu, particularmente, não acho que a mente possa se reduzir aos processos que ocorrem no cérebro. Para mim, a equação seria “cérebro + alguma coisa = mente”, sendo que essa alguma coisa geralmente é algo metafísico, que traria imprevisibilidade para as decisões do indivíduo, quebrando o determinismo do mundo físico. Mas ainda assim não acho que isso implique a existência do livre arbítrio. Sentir nojo de insetos não me parece uma escolha. Sentir-me mal em um determinado ambiente não me parece uma escolha. Sentir-me atraída por alguém não me parece uma escolha. Sentir saudade não me parece uma escolha. Sentir-me sozinha não me parece uma escolha. Sentir-me triste não me parece uma escolha. Sentir seja lá o que for não me parece uma escolha.

Afinal, “o que, então, determina a minha vontade?”, perguntaria você. Eu não sei ao certo, mas se você acha que é você mesmo ou nada, perceba o quanto isso é incoerente: se é você que determina a vontade, isso significa pressupor um “você” de certa natureza que determina necessariamente a vontade. Dizer que “você” determinou sua vontade só faz algum sentido na defesa do livre arbítrio se “você” não é determinado por nada. Porém, o que seria algo que não é determinado por nada? Complicado quando pensamos seriamente a respeito, não?

Ainda na esteira da ciência, pergunto-lhe: uma célula individual tem o livre-arbítrio? E uma bactéria, teria? Ou uma flor? E uma girafa, um cachorro ou um leão, por exemplo – será que eles têm livre-arbítrio? Em que ponto da nossa história essa tão contraditória e ilusória ideia de liberdade para escolher apareceu em nós?

Visto pelo lado religioso, perceberemos como essa ideia surge e a necessidade de que acreditemos nela, afinal, o fundamento do mal e da punição dos pecadores é o livre arbítrio. Que sentido teria mandar para o inferno pessoas cujos pecados não tivessem sido cometidos por vontade própria? Ou pior, sem agentes de vontade livre, a culpa pelo mal no mundo recairia sobre o único ser livre que sobraria: Deus. O fato de a ideia da escolha vir associada a outra de julgamento não é por acaso: a última precisa da existência da primeira. Isso é algo simples de compreender, afinal, quais seriam as consequências para a sociedade, então, se descobríssemos que não existe livre arbítrio? Como a doutrina da condenação e salvação se sustentaria?

Penso que grande parte da infelicidade, da culpa, do arrependimento e da angústia que sentimos é porque nos fazem acreditar que somos livres e que devemos pagar pelas más escolhas. No caso das religiões abraâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo) o impacto da ideia de que não somos livres para escolher seria fatal. Muito complicado, eu sei, acreditar que não escolhemos nada e que não somos culpados por nada. Como lidaremos com a responsabilidade e autonomia pessoal na Moral e no Direito? Como algumas religiões se legitimariam? Como educar nossos filhos sobre o certo e o errado?

Pesquisando aqui, li que em 2008, em um estudo publicado na Nature com o título Determinantes Inconscientes de Decisões Livres no Cérebro Humano, ficou provado que a decisão começa a ser formada no cérebro até 10 segundos antes dele tomar consciência disso. Ou seja, você se prepara inconscientemente pra fazer algo bem antes de sequer se dar conta que está fazendo isso – e bem antes de realizar o movimento de fato. Outros estudos, dessa vez focados na atividade de cada neurônio em vez do cérebro como um todo, mostraram que as células neurais ficavam ativas antes da decisão de apertar um botão, por exemplo.

Tudo bem. Vocês podem dizer que o livre arbítrio é muito mais profundo do que os resultados dessas pesquisas nos induzem a pensar. Em vez de mexer dedos e apertar botões, seria necessária a análise de atividades mais complexas. Concordo com isso, mas ainda assim percebo que mesmo essas tarefas mais abstratas e intelectuais do que propriamente de movimento não são totalmente espontâneas – elas dependem de coisas como carga genética, experiência, traumas de infância etc.

Talvez você acredite tanto nessa ideia de livre-arbítrio e da existência da escolha porque ignora as causas do seu querer. E veja que interessante e paradoxal: quanto mais imaginamos um livre-arbítrio para escolher, mais nos tornamos escravos porque precisamos de regras que limitem, justifiquem e expliquem a liberdade.

Somos o que somos porque, acredito eu, temos uma essência que não controlamos. Talvez, se houver liberdade de fato, esta deva ser compreendida como a proximidade máxima do conhecimento dessa nossa essência (que é ímpar para cada ser), do que nos torna tristes ou mais felizes. Vocês que acham que existe liberdade de escolha perdem o tempo pensando que tudo poderia ter sido diferente e ficam se culpando por caminhos (que não existem de fato) que poderiam ter tomado. É para isso que o livre-arbítrio nos serve. Para condenar e nos culpar.

Mas, então, perguntaria você, se eu não posso escolher como posso ser julgado? Justamente. Eu acho que essa ideia de ‘escolha’ leva diretamente a outras como de julgamento e moral que eu não aceito como objetivas e universais. Mas, continuaria você, se não há certo nem errado, matar, por exemplo, seria lícito? Se estou criticando a escolha, estou dizendo exatamente que quem mata não teve outra alternativa; o que não quer dizer que um assassino não deva ser condenado porque entendo que o ‘mal’ pode ser considerado como aquilo que prejudica o outro.

Perceba o que quero dizer: ainda que eu acredite que não exista o bem e o mal nesse mundo isso não significa que dispenso qualquer valor. Não existir o bem e o mal não quer dizer que não exista o bom e o ruim. Tenho meus valores. O ponto é que penso no ser em si, no que o movimenta, no que o engrandece e o diminui e dispenso um critério exterior e moral para julgar as coisas. Refugiamo-nos naquilo que nos limita, nossa moral nos protege, concordo. Mas friso que isso nos enfraquece e nos tira muitas essências. Quando eu nego essa ordem moral do mundo abro as portas para os devires: permito-me tornar o que sou e a aceitar o outro como ele é. Sem julgamentos.

Compreendo, vale observar, que a liberdade da vontade não poder ser coerentemente pensada através de conceitos (uma vez que, em última instância sempre caímos ou no determinismo ou no acaso) não significa que sua possibilidade esteja negada. Mas não consigo desistir da ideia de que a metáfora da bifurcação e de caminhos escolhidos é uma invenção que só nos serve para nos gerar culpa e medo.

Se entendo que agi mal em uma situação é pelo fato de ter feito uma coisa de uma determinada maneira e ter tido um resultado ruim.  Neste caso, tentarei mudar, digamos, a química de meu corpo ou o meu modo de pensar para que eu seja capaz de agir de uma forma diferente quando submetida a uma situação similar.

Por fim, as consequências de acreditar que não temos escolhas, ou seja, reconhecer que minha mente consciente nem sempre vai originar meus pensamentos, minhas intenções e ações não muda, a meu ver, o fato de que pensamentos, intenções e ações de todos os tipos são necessários para a vida.

Delirei muito? Não tenho culpa se entendo tudo assim.

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Voando como um Passarinho.

cefetbosque

Estava eu lendo em pleno bosque que fica no meio do CEFET no meu intervalo de tempo entre duas aulas. Na verdade, eu ainda trabalhava em silêncio. Quando gostamos do que fazemos nos tornamos escravos do que nos sustenta e nos sentimos felizes e condenados a não deixar de labutar mesmo quando repousamos embaixo das árvores numa manhã de inverno em pleno recreio. A despeito de ouvir mal, pude perceber com clareza vários cantos de pássaros invisíveis entre os ramos. Eu não sou dessas que sabem distinguir pelo assobio a raça do passarinho, digamos que jamais consegui ligar o nome à “pessoa”, salvos os Bem-te-vis e os pombos. Mas, confesso, gosto da minha ignorância neste e em outros determinados assuntos porque me parece que se soubesse associar um trinado ao pássaro que o emite perderia algo que se apreende sem o uso das palavras e que nenhum livro pode ensinar. Não sei descrever ao certo, mas aponto para alguma coisa da mesma natureza daquilo que passeia na memória da sensação de quando ainda éramos feto.

Observando aquela cantoria percebi que havia pelo menos uns quatro tipos diferentes de assobio. Além disso, o pipio se repetia depois de um breve intervalo. Será que eles conversam entre si mesmo sendo de raças diferentes? Por que repetem o mesmo assobio? O que será que significa para eles o silêncio? O que ocorre no intervalo de dois silvos? Uma reflexão? Há um bate-papo ou cada um canta para si mesmo? Se o barulhinho que fazem se repete, será que se trata de uma mesma pergunta a ser repetida indefinidamente? Algo como: Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?. E o outro responde: E eu lá sei? E eu lá sei? E eu lá sei?. Ou seria uma afirmação que reforça o amor e amizade? Estou aqui! Estou aqui! Estou aqui!, e o outro responde: eu também! eu também! eu também! Ou…

Vai que o que acontece no meio dessas árvores é o mesmo que ocorre aqui embaixo onde ninguém se entende e cada um ingenuamente acredita na objetividade de cada proposição dita quando coloca a subjetividade como objeto para o outro e ainda formulam sentenças esdrúxulas como esta? Vai que eles são como nós que monologamos com o nosso interior em forma de sons articulados em direção a um ouvinte que apreende cada frase de uma forma diferente da que nós experimentamos quando a liberamos? Falo isso porque acho que é impossível exprimir pela via da linguagem o que em nós existe já que não há palavras que o revele; por isso, a música, a poesia, a dança, a pintura, a arte de forma geral que representa, na minha opinião, o desespero do homem em se fazer entender. Ou…

Vai que, como se realiza com os seres humanos, é no silêncio que tudo acontece já que a linguagem é a maior fonte de mal-entendidos e que cada gorjeio seja apenas um sinal de pontuação ou uma necessidade de se confirmar que os outros estão prestando atenção?: não concorda?, está me entendendo?, não lhe parece razoável?… coisas assim.  Ou…

Vai que a frase esboçada em forma de assobio seja tão linda que é melhor que seja repetida cem mil vezes do que dizer qualquer outra coisa? Ou vai que eles só nomearam uma coisa e isso lhes basta? Nós, bobos que somos, que nem aceitamos que as metáforas possam ser mais reais do que a nossa própria existência ou o chão que pisamos, ignoramos tudo o que não tem nome e acreditamos somente naquilo que pode ser chamado, por isso, dicionários cada vez mais grossos e entendimento que é bom…

Enfim, lá fiquei no meio daquelas árvores a observar aquele bando de passarinhos sem saber classificá-los. A ausência total desse conhecimento permeado de nomenclaturas acabou me fazendo vaguear por tantas interrogações. Talvez nenhuma enciclopédia possa nos ensinar aquilo que só podemos aprender quando somos saudáveis crianças ou adultos ignorantes – como eu – que se deixam levar pela investigação contínua e infinita da natureza de seja lá o que for e que não leva a conhecimento algum.

Acabei perdendo a noção do tempo no meio de tantas divagações. Vejam vocês, fiquei voando voando e voando e ainda tive que sair voando dali.

Tal como os passarinhos.

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Deus, Jesus e Duvivier

Querido povo terráqueo,

Aqui quem fala é Deus. Tenho acompanhado vocês faz um tempo e sei que dispenso explicações de minha, digamos, pessoa. Resolvi interferir diretamente e de forma clara desta vez porque parece que as coisas fugiram do controle a ponto de um tal de Duvivier escrever em nome de Jesus se dizendo de esquerda e que já voltou à Terra disfarçado de prostituta, escravo, transexual, cachorro de chinês e sei lá mais o quê. Até aí, vá lá, tudo bem. Mas ele errou feio, errou rude quando disse que a nossa biografia é a Bíblia. Lendo as Escrituras fica confuso concluir algo sobre meu filho e Eu.

Vejam os Dez Mandamentos, por exemplo. Respondam-me: vocês deveriam honrar a vontade de seus pais se eles me pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Vocês podem roubar para prevenir um assassinato? É certo quebrar o sábado santo ou mentir para salvar a vida de alguém? Percebem como o bem e o mal são relativos? Não dá para tomar esse livro como verdade absoluta se cada um pode interpretar de um jeito e ainda assim todos estejam corretos.

Se existe o Bem e o Mal, como vocês afirmam, como podem dizer que Eu, representando o Bem, estou no comando dado o estado calamitoso em que vocês se encontram? Como vocês justificam o câncer, os micróbios, a difteria e milhares de outras doenças que atacam as crianças comigo no poder? Vocês acham realmente que se eu fosse O Bom, O Criador e acima de tudo O Protetor isso tudo seria possível? Já contou a quantidade de pedófilos nesse mundo? Acham que Eu, O Bondoso, os criei? Quantos inocentes morrem por causa dos ciclones, dos terremotos, da pestilência e da fome? Se Eu sou o Bom e O Criador como podendo criar um mundo sem dor criei deliberadamente o contrário? Pensem, meus filhos. Reflitam peloamordedeos.

Vocês criaram conceitos que, para mim, são extremamente confusos e que não consigo sequer pensar a respeito. Comecemos pelo Amor. Muitos dizem que ele não acaba, o que não me parece verdade. Outros dizem que é um sentimento que só faz o bem, mais um equívoco gigantesco dado o número de crimes e o estado em que muitos de vocês ficam. O amor que vocês criaram vem junto de outros sentimentos que não me parecem coisa boa como ciúmes, tormentos, medo, insegurança, saudades e coisas assim que tiram a paz de qualquer amado, amante e amador tomado aqui no sentido de quem ama.

Outro conceito extremamente confuso e ininteligível é o de liberdade. O que é ser livre para vocês afinal? Quanto custa a liberdade? Como ser livre com regras que limitam e explicam essa tal liberdade? O mundo é um obstáculo para a liberdade? Um escravo pode ser livre? Dentro de seja lá qualquer sistema econômico de vocês, faz sentido falar em liberdade? Vocês se acham mesmo livres para mudar? Não é possível entender esse mundo com as palavras e conceitos que vocês criaram…

Até com a morte eu fico confuso depois que vocês passaram a existir. O que é morte depois do ser humano ter existido? A morte mata exatamente o quê? A morte liberta? Como vocês podem sentir falta de algo que nunca tiveram? Para quem teve verdadeiramente um amigo, não será a sua ausência a mais forte das presenças? É preciso estar vivo para semear uma amizade? Só há um jeito de estarmos vivos? A morte é compatível com o sentido da vida que vocês acham que existe? A morte é ou não o fim? Existimos depois de morrer?

E acrescento mais: Os pensamentos são reais? Tudo o que existe é material? Podem os mortos terem acesso a vocês? Podem os mortos compreenderem mais do que os vivos? Podem os mortos lhes ajudar senão pelas obras de arte que criaram quando vivos? As palavras que vocês criaram apontam para alguma realidade? As palavras criam mundos? O tempo que vocês inventaram, mensurável pelos relógios, é real? Há tempo por extenso? Um incêndio pode ser belo? Por que é tão difícil a comunicação entre vocês? O que vos conduz à verdade? A Verdade pode ser um ponto de vista? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em algo? Vocês são mesmo racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que vocês se preocupam com o passado? Quem vocês são agora determina quem serão amanhã? Pode o sentido da vida de vocês parecer sem sentido? São os deuses astronautas? Vocês podem conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa de alguém prova a sua inocência? Onde é que as palavras criadas por vocês se encontram com as coisas que Eu criei? Vocês conhecem melhor o mundo através dos sentidos ou através das ideias? Vocês escolhem mesmo o futuro?

Enfim, queria mostrar que as palavras são controversas e que a despeito do texto do Duvivier ter sido muito bom, ele, digamos, pecou quando mencionou que Eu e meu filho temos uma biografia pois é impossível nos descrever e falar sobre nós pelas palavras.

Em relação ao Malafaia não posso dizer nada porque não o conheço muito bem. Perguntem pro Capeta.

Fiquem em paz e bebam menos refrigerante.

Beijos divinos

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