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Genesis Revisitado

genesis

No princípio, era o impeachment.

E a coisa era aparentemente sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo.

E disseram: Solta o áudio de Jucá.

E vimos que o áudio era bom e uma luz, pois incriminava Romero Jucá, Aécio Neves e o próprio Michel Temer deixando muito claro o envolvimento do judiciário e da mídia.

E fez-se separação entre a luz e as trevas.

E daí chamamos o impeachment de golpe; e a democracia chamamos de passado. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

E disseram os golpistas: que venha a PEC 241 que congela gastos públicos por 20 anos, o que deve provocar o sucateamento da saúde, da educação e da Previdência Social. Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.

E fizeram os alunos a Ocupação, e assim a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.

E chamaram eles a ocupação de crime, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

E disse Temer: Vamos privatizar tudo.

E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

E disseram eles: Proíbam as greves.

E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

E disseram eles: desocupem as escolas ou levarão bala.

E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E disseram eles: proíbam os professores de debaterem com seus alunos em sala de aula.

E fez o governo Temer as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua vontade, e todo o réptil da terra conforme a sua necessidade; e viram eles que era bom e fácil.

E disseram os deputados e senadores: Façamos o certo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: homem, macho, branco e hétero. E dominemos sobre os negros das favelas, e sobre as mulheres em casa, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o analfabeto sem instrução que se move sobre a terra.

E que a discussão de gênero seja proibida e que não se fale sobre
a denúncia da Odebrecht contra José Serra, na qual o ministro das Relações Exteriores foi acusado de receber R$ 23 milhões via caixa 2 por meio de uma conta na Suíça.

E viram eles tudo quanto tinha feito, e eis que dar um golpe era muito fácil; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

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Enquanto isso na Índia, em Minas Gerais e na Nigéria…

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Aconteceu na Índia.

Quatro amigos monges budistas – Ryotan Igarashi, Shunyu Deshimaru, Taizen Rinpoche e Thich Susuki – estavam meditando há horas sem trocar uma palavrinha sequer entre eles. O local onde eles buscavam alcançar o nirvana,  o estado mais elevado e mais puro de existir, era em Madhya Pradesh, na Índia central, nos jardins do templo de Khajuraho.

Os budistas acreditam que quando atingimos este estado de pureza espiritual, o tal nirvana, conseguimos nos livrar do carma que todos temos por sermos condenados a reencarnar infinitamente. Somos por demais apegados ao mundo material e nossos, digamos, pecados nesta vida serão considerados nas nossas próximas vindas; esse é o nosso carma. Os budistas ainda creem que as reencarnações podem ser feitas em diversos tipos de seres vivos. Ao matar uma mosca, podemos estar dando fim ao nosso bisavô que veio nos visitar. Por isso, eles são meio São Francisco, amam os animais (até mesmo os mais peçonhentos) e não os comem de jeito maneira, nem assado nem frito. Nem com muito alho e com molho barbecue.

A ordem para os  budistas é se desapegar. Eles buscam o entendimento correto, o pensamento correto, a ação mais correta, o modo correto de se viver (virando monge) e para conseguir se livrar de todo desejo material e alcançar todo esse estado iluminado, o melhor caminho é a meditação que consiste em tentar limpar a mente de qualquer pensamento durante o tempo que suportarmos o desafio. Isso deve ser feito em um lugar de pouquíssimo ruído e em uma posição confortável para que nada nos incomode ou desvie a nossa atenção. Se não eliminarmos totalmente o carma, pelo menos, conseguimos diminui-lo um tanto assim considerável para a nossa próxima visita nesse mundo; isso, claro, se muito meditarmos. De fato, enquanto não fazemos nada e somente respiramos, não fazemos nada também de errado. Faz  todo sentido…

Isto posto e entendido, Ryotan, Shunyu, Taizen  e Thich estavam meditando, como já dito. Todos estavam sentados, com a coluna ereta, o pé esquerdo apoiado sobre a coxa direita e o pé direito apoiado sobre a coxa esquerda. Inspira. Expira. Inspira. Expira…

De repente, Shunyu  coloca as mãos para trás e dá-lhe de balançar os cotovelos.

Ryotan abriu um olho ao perceber uma vibração no olhar. Viu o corpo de Shunyu começar a tremer. Shunyu soltou uma alta gargalhada. Levantou-se de uma forma extremamente afeminada, deu alguns giros ainda mexendo os cotovelos para frente e para trás, aproximou-se de Taizen e disse:

– Que Conouó mais odubauê… – (Que quer dizer: que nego mais cheiroso) E deu-lhe uma forte fungada no pescoço do amigo revirando os zóio.

Thich caiu para trás.

– Mas que silenço é esse? Kadê o atabakê? Cadê meus baluás e meus arimbós? – Perguntou em uma língua que misturava sânscrito com umbandês colocando as mãos nos lóbulos das orelhas como se procurasse por brincos e no colo catando por cordões.

Shunyu segurou o koromo (uma espécie de kimono usados pelos monges) pela barra e levantou-a colocando as mãos na altura do quadril. Gargalhou alto de novo com as pernas cabeludas e branquelas à mostra e saiu correndo rindo alto para dentro do templo enquanto gritava como fazem os recém-libertos:

– Eu quero Irubuá, eu quero Unuiê!

Antes que Ryotan, Taizen e Thich tivessem se recomposto, Shunyu voltou com uma garrafa de sakê segurando pelo gargalo. Pegou uma folha seca no chão, enrolou-a e colocou o charuto assim feito no canto da boca.

– Suncês ké sabê como se livrá do karmá? – Perguntou olhando bem na alma dos outros três.

Ryotan, Taizen e Thich balançaram a cabeça de uma forma lenta, mas positivamente.

Shunyu riu estridentemente. Agarrou ligeiro um gato que por ali passava. Com um golpe seco de kung-fu, decapitou o felino e se lambuzou todo com o sangue do animal. Ryotan, Taizen e Thich que nunca tinham ouvido o nome de Cristo colocaram lentamente a mão na testa, depois um pouco acima do umbigo, depois no ombro esquerdo e, finalmente, no ombro direito.

Shunyu rodava e gargalhava ensandecido com as mãos apoiadas no quadril e segurando o koromo. De repente, balançou os braços como um boneco de posto e caiu como os que desmaiaram vendo Elvis Presley ao vivo.

Fez-se o silêncio.

Shunyu, depois de lentos segundos, se mexeu.

– O que vocês fizeram com o gato???

Shunyu largou o koromo e mudou de espírito sem que o corpo tivesse morrido. Passou a escrever. Atualmente, ganha rios de dinheiro vendendo livros sobre poesias eróticas e parece bem mais feliz.

Até hoje, Ryotan, Taizen e Thich, a despeito de muito procurarem em livros e conversarem com monges mais experientes, não entenderam o que aconteceu naquele dia. Também pudera. Para acharmos a resposta certa, devemos saber fazer a pergunta que nos leve a ela e, cá entre nós, “Por que  diabos a Pombagira baixou em Shunyu?” jamais sairá da mente dos monges budistas de Khajuraho.

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Aconteceu em Minas.

No dia 16 de julho, quer faça um Sol de rachar o cocoruco ou caia chuva de encharcar a alma, ocorre a procissão das Comunidades na Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, na cidade do Carmo que fica em Minas Gerais. A Procissão acontece sempre nesse dia em louvor a Padroeira da cidade, de novo: a Nossa Senhora do Carmo. Vejam bem, eu disse Carmo e não carma.

O dia era desses de céu limpo e bem azul e a hora era pela manhã. A procissão seguia quando, de repente, nuvens começaram a aparecer do nada. Lúcia, Jacinta e Francisco, três crianças que iam à frente da procissão, ajoelharam-se onde estavam, bem no meio da rua. Quem olhou para o céu naquele dia viu vapor d´agua condensado de todos os formatos aparecendo do nada e voando em direção a rua onde passava a procissão. Do dia fez-se a noite já que névoas cinzentas eclipsaram por completo o Astro Rei.

Acima das três crianças, que continuaram ajoelhadas com as palmas das mãos juntas, abriu-se um buraco nas nuvens e raios de Sol rasgaram mais ainda a fresta iluminando, como um holofote, somente o local onde estavam Lúcia, Jacinta e Francisco. Daquela brecha, todos viram apontar dois pés. Lentamente, conforme era a descida, as pernas começaram a aparecer. Percebia-se que estavam vestidas com uma calça larga e brilhosa a la Alladin. Logo depois, apareceu o barrigão que teve sua passagem dificultada pela abertura insuficiente. A saída foi feita com a ajuda de duas mãos ornamentadas de anéis e pulseiras. A – até então – Santa continuava descendo e aparecendo bem devagar e com muito menos charme do que se espera para uma imaculada. Mais duas mãos surgem e finalmente os devotos de Nossa Senhora do Carmo viram uma cabeça de elefante com uma presa quebrada e que tinha, ainda por cima, um desenho esquisito no meio da testa! Minha Nossa Senhora que não era a Nossa Senhora do Carmo! Era Ganesha!

Ganesha, o mais conhecido e venerado dos deuses do hinduísmo que tem um cabeção de elefante simbolizando a inteligência, quatro braços e corpo de menino e representa uma solução lógica para nossos problemas, parecia mais ainda atordoado com o que via. Coçou a cabeça com uma das quatro mãos e decidiu por descer assim mesmo.

Todos se afastaram menos Lúcia, Jacinta e Francisco que seguiam de joelhos no asfalto. Ganesha acariciou a cabeça dos três ao mesmo tempo enquanto segurava a flor de lótus com a mão que lhe restava. Beijou as pétalas e entregou aquela parte de vegetal à Jacinta.

As três crianças cresceram. Tornaram-se adultas, jamais engordaram e passaram, de primeira, em concursos públicos federais.

Muitos moradores de Carmo, depois do episódio, evitam comer carne e acendem, ainda hoje, vela para a Nossa Senhora do Carmo que apareceu, assim do nada, no meio de um ritual africano em Kaduna, na Nigéria.

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Páscoa

Essa parada da Páscoa é bem interessante e tem toda uma simbologia e uma confusão encantadora. Ninguém sabe direito o que é que está sendo celebrado, mas todos entram na onda pascal de uma forma ou de outra já que existe o feriado. Há até uma crônica de Luis Fernando Veríssimo que sempre é muito compartilhada nas redes sociais sobre o embaraço de ideias que fazem parte desta data. Jesus nasce no dia 25 de Dezembro, morre na Sexta-feira santa e nas quartas de cinzas ninguém sabe o que O deixou tão cabisbaixo. Judas, quem traiu Jesus, é malhado no Sábado e sabe deus porque não na própria sexta. E o coelho com tudo isso? Seria porque procriam muito e é o símbolo da vida? Fertilidade? Por que não os ratos? Ok, ratos são feios. E o ovo associado ao coelho? Como se deu esse amálgama? E os chocolates? Como eles entraram para essa história??? Quem veio primeiro: o ovo ou o coelho? É uma confusão dos diabos…

Para os que são realmente cristãos, semana-santa é coisa pra lá de séria. Em cidades do interior é comum vermos muitas pessoas pagando penitências. Mamãe, que sempre foi fumante desde que me conheço por gente e católica outrora bem mais praticante, tem mania de passar a semana santa sem fumar. É preciso sofrer como uma forma de agradecimento ou cumplicidade e como é bem sabido, Deus gosta de ver seus filhos sofrerem. Reconhece a nossa aflição. E no Domingo, mamãe vira aquela chaminé de felicidade e libertação! Um troço lindo de se ver!

Confesso que a data me encanta. Ela tem algo de poético e a poesia não está nem aí para os fatos reais, para as crenças pessoais, pois não tem obrigação com o passado, não versa sobre um futuro, mas acrescenta muito no nosso presente. Fatos como guerra, violência urbana, pastores no congresso, corrupção, fechamento do engenhão, orgia de elites perdidas, droga, fome pelo mundo… entram nas nossas casas diariamente. E a Páscoa com seus símbolos e seus logotipos indestrutíveis e imortais – : peixe, estrela, cordeiro, pomba, pão, cálice de vinho, sinos, velas, coelhos, chocolates, ovos, bacalhoada, festa…- é como a música Alegria Alegria de Caetano Veloso. O Sol pode se repartir em crimes, espaçonaves, guerrilhas, por entre fotos e nomes, ela pensar em casamento e o cara nem aí pra menina mudando de assunto na lata dizendo que nunca mais foi à escola… com todo esse furdunço por que não ir em frente? Quem lê tanta notícia? Quem liga para tanta desgraça? Não há solução para tantos problemas e ainda mais o da morte! Aí que entra o raio de esperança (ou seria o raio da esperança?) da Páscoa… a gente precisa seguir vivendo a qualquer custo. A imagem de Cristo vivinho da Silva, limpinho e alvíssimo depois de ter levado tanta porrada dos zoto é a nossa imagem e semelhança. A gente continua vivo também e que legal seria se pudesse ser com os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores, sem livros e sem fuzil, sem fome e sem telefone…

Contemplando as cenas de morte que a mídia de maneira fantasmagórica nos desenha e nos faz lembrar de como somos efêmeros, a Páscoa está aí para nos dar uma boa sensação de sermos infinitos tal como Jesus que teve a sua vida devolvida depois de ter sido, como nós, tão agredido. Com ou sem chocolate, com ou sem bacalhau, com ou sem sacrifício, a despeito de não entendermos nada sobre o assunto e de muitos de nós não sermos sequer cristãos, somos lembrados que devemos aproveitar a data para revigorarmos e fortalecer a crença numa humanidade melhor. Aquela velha pieguice de sempre: renovação, libertação, recomeço… Por que não? Por que não? Por que não?

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A obra que ilustra esse texto são do artista Sergio Ricciuto Conte

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Conclave Sem Clave II



E a fumaça saiu preta de novo… mas, seja ela branca ou preta não deve ofuscar a atenção dos motivos que levaram Bento XVI a renunciar. Para muitos católicos, foi um gesto de humildade, a renúncia a imortalidade, ao poder. 

Quem conhece um pouquinho só da história da Igreja sabe quantos abusos e crimes foram cometidos por ela em nome do Senhor. Padres se mostraram coniventes com a escravatura; a Inquisição levou à fogueira homens e mulheres,… e não nos esqueçamos que a expressão “santo de pau oco” evoca o contrabando de ouro e diamante recheando as imagens dos santos que viajavam com os sacerdotes. Joseph Ratzinger renunciou durante os maiores escândalos de pedofilia mundo afora e com a revelação da rede de prostituição que opera em Roma que oferece serviços sexuais de seminaristas. (Sei que nada disso diminui o mérito de muitos clérigos que se despojam de ambição e conforto e dão as suas vidas para que outros tenham uma outra melhor.) (Mas isso, infelizmente é só um parênteses dentro de um parágrafo).


Enquanto milhares de fiéis esperam a fumaça branca, eu espero que juntamente com os votos abrasados que viram pó e fumaça preta não sejam também queimados documentos que provam a corrupção no banco do Vaticano e quiçá o mordomo de Bento XVI que botou a boca no trombone. Espero também que o novo papa não fuja de muitas questões como fugiu Joseph Ratzinger porque, caso contrário, seguirá convivendo com a hipocrisia de uma moral contida na doutrina que vai de encontro com a moral vivida pelos fiéis. 


É isso. Desejo, do fundo do meu coração que o novo papa calce as sandálias da humildade (aquelas de pescador tal como usou Jesus), que ele abdique dos títulos honoríficos herdados do Império Romano e assuma com os cardeais de todo o mundo, o mais evangélico de todos os seus títulos oficiais do Papa e que é utilizado para se referir a ele no início das bulas pontifícias: Servus Servorum Dei, que quer dizer, “Servo dos Servos de Deus”.






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Conclave sem clave

 
 
Na semana passada o mundo comemorou o Dia Internacional da Mulher. Lindas postagens no feicebuque nos parabenizando, outras nem tanto fazendo piadinhas machistas e outras tantas mostrando a importância do dia para reflexão do papel feminino na sociedade.


Hoje inicia-se o conclave e em todos os jornais só se fala disso. O mundo olhando uma chaminé.


Quantas mulheres vemos nas imagens mostradas na televisão ou estampadas nos jornais? Nenhuma. Curioso isso. Ainda que sejam madres, freiras e tenham um vida dedicada à Igreja, elas, as mulheres, não têm direito a voz e nem a voto dentro da convenção clerical em lugar nenhum no mundo e muito menos em Roma.  Há mulheres lá dentro, mas apenas para cozinhar, lavar e quem sabe até prestar algum serviço sexual! (Dadas as notícias dos últimos tempos não há mais o absurdo).

Agora vejam: a ex-freira brasileira Ivone Gebara, que possui doutorado em filosofia e teologia, sofreu um processo de silêncio obsequioso (pena decretada pelo Vaticano a religiosos que publicam livros contrários aos dogmas da igreja) na década de 80. Tal castigo a obrigou a renunciar os seus votos de freira. O que ela queria? Mais participação! Fala sério…
 
Aff. Esses homens com chapéus vermelhos não poderiam, além da escolha do novo papa, repensar as estruturas de governo e os privilégios medievais que a comunidade católica ainda oferece??? Aí sim, eu veria alguma beleza nesse ritual, por ora, impossível….

Vou dar uma de Galileu que perguntou aos seus opositores: O que Aristóteles acharia de tudo isso? É claro que Aristóteles, inteligente que só, compreenderia os argumentos do filósofo italiano e concordaria que essa parada da Terra ser o centro não cola mais. Se querem imitar Aristóteles comecem pela inteligência, ma che cazzo!!! Pois, então, imitando Galileu, pergunto-me: O que Jesus Cristo acharia se estivesse vendo isso tudo? Como procederia Jesus nas atuais situações? Seria contra o preservativo? Os anti-conceptivos? Acharia correto proibir as mulheres de participar de grandes decisões da Igreja? Teria medo delas? O que Jesus acharia desse monopólio? E desse juridicismo e desse clericalismo? Dessa violência espiritual e dessa hipocrisia? Obrigaria Jesus o celibato? Proibiria Jesus a comunhão aos recasados? Que diria Jesus sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia Jesus em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso? O que acharia Jesus vendo os bispos bebendo vinhos caríssimos em taças de ouro decidindo quem será o novo líder da Igreja e proibindo não só as mulheres, mas todo o seu rebanho de participar dessa decisão???
Esses que se dizem cristãos são os que menos parecem entender sobre Jesus. Ao que ele foi, é (sim, para muitos ele é como Elvis, está vivo em nós), quis e quiçá quer! 
 
Se a Igreja, e agora me remeto à todas as Igrejas Cristãs, é a comunidade dos que de fato acreditam em Cristo, não seria mais coerente ser o exemplo e pregar a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus?

 

Pois muito bem, sabe o que eu acho que diria Jesus se acompanhasse, como eu, essas notícias todas de conclave pra cá, sem clave pra lá? Jesus diria:

 

Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.

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– O que esses palhaços estão fazendo aí, mãe? – Perguntou-me Yuki, meu caçula de seis anos, apontando pra televisão que mostrava os cardeais entrando na Capela Sistina protegidos pelos guardas em riste.

– Que isso, meu filho?

É… eu estou pegando muito pesado. Devo estar falando alto pela casa o que penso e o menino está aprendendo a se dirigir as pessoas dessa forma…desrespeitosa… Que feio, Elika. Que feio… É hora de rever tudo de novo… ver meu filhinho se dirigindo aos…se dirigindo aos…se dirig…

– Yuki, meu filho, de quem vc está falando, afinal???

– Desses palhaços do patati patatá, mãe! Não são eles aí em pé durinhos olhando os padres?

Não é que parece???

– Eu pensava que vc estivesse se referind… esquece, meu filho, esquece. Esses aí não são os palhaços não, tá?

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Lei de Murphy ( 0 ) x ( 5 ) Fé na Kátia

 
 
 

Estou participando do V Seminário de História e Filosofia da Ciência na UFABC em Santo André e ontem, exatamente marcada para 16:30h, seria a minha apresentação. Se tudo o que eu havia planejado desse certo, já seria um dia mega tenso para mim que sou hiper apegada a uma rotina. Mas a despeito de  ter conseguido, eu  que ando questionando a base e a verdade das leis científicas descobri que há uma lei nesse universo que é inquestionável e que não devemos negligenciá-la jamais: A Lei de Murphy. Há de nos preocuparmos com ela e estarmos bem preparados para a sua atuação.

Confiei na informação de uma secretária sobre o meu voo para SP. A moça falou tudo corretamente, só errou em um pequeno detalhe: o aeroporto. Na hora certinha, na verdade com uma folga porque sou meio neurótica com horário e estava nervosa com a apresentação, cheguei.Exatamente às 10h da manhã eu estava pronta no Galeão para o voo que seria às 11:20h no Santos Dumont. Se não fosse o fato do Rio ser ameaçado a perder os royalties que correspondem a uma bagatela de três bilhões de reais por ano e o carioca lutar seriamente por essa causa com a participação dos Acadêmicos do Grande Rio justo no dia da minha viagem, eu chegaria a tempo. Mas não. O Rio estava em festa e o trânsito com TPM nível máximo. Estressadíssimo. Perdi o voo e tive que pegar o próximo que era às 14:00h.

No meio de minha atenieidade, eu procurava um mantra para me acalmar. Algum budista me disse uma vez que quando recitamos seguidamente nam mi orró rem gue quiô, Buda fica contente e não haverá mais beco sem saída em nossas vidas. Eu só não me lembrava da sequência direito dessas sílabas, mas resolvi mesmo assim agradar o enorme ser iluminado já que não havia mais nada a perder. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô … era o que eu consegui falar baixinho. Acho que Buda se enfureceu porque o meu voo das 14h…atrasou. Resolvi deixar de lado o merengue que só me deu azar e fui buscar outra coisa para me acalmar. Tudo posso naquele que me fortalece! Pensei. Pão de queijo com cappuccino! Yes!

A atendente me deu a bebida e eu assim que peguei no copo fiquei aborrecida por ela me vender um cappuccino gelado. Ledo engano. O bicho não estava frio e sim isolado por paredes de isopor. Dei um sugadão e queimei a faringe e o esôfago na entrada do líquido; na saída que foi pelo nariz devo ter queimado também a traquéia e todos os brônquios. O peito doía, a garganta ardia e as lágrimas rolavam contra a minha vontade borrando a maquiagem.

Chegando em SP, apertada para ir ao banheiro olhei para o relógio:15:37h. Não dá tempo. Peguei o primeiro táxi que vi. Furei a fila e pedi para todos que estavam nela, contorcendo as minhas pernas, que me desculpassem porque eu estava com muita pressa.

O motorista era um senhor e disse assim que entrei no carro que devemos ter muita calma no trânsito paulista para que não enfartemos. Além disso, ele falou que eu dei o mó azar porque ele havia emprestado pela primeira vez o GPS para a filha dele e ele não sabia andar por Santo André. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô… peraí: tudo posso naquele que me fortalece: o meu celular! Liguei meu super GPS e pé na tábua, seu moço! Trânsito um ó do borogodó. Demorou tanto que a bateria entrou no modus economiquis e o GPS travou. O moço ficou com pena de mim e disse: olha, toma umas balinhas, vai chupando que a senhora vai se acalmar. Eu disse que não queria e ele jogou umas dez no meu colo. Eram 16:22h quando estávamos perto da UFABC que fica ao lado do Carrefour onde o moço entrou por engano. Tivemos que ficar na mó filona de carros para sairmos dali. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô.

E graças a dilatação do tempo que ocorre quando estamos perto da velocidade da luz, exatamente ás 16:33h adentrei com mala, cuia, um palmo de língua queimada para fora e com as pernas ainda se contorcendo o recinto da Universidade pleno de historiadores e filósofos sentadinhos me esperando. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô… Sublimei, então, tudo o que contei para vocês aqui. Tudo podendo naquela que me fortalece, lembrei-me da Kátia que certamente acendeu uma vela para mim para que tudo desse certo na minha apresentação. Essa imagem, como comentada em outra crônica  tem um poder lexotânico na minha mente e não há Murphy com suas malditas leis que me faça esquecê-la.

Quanta sorte a minha, não?






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Feijoada com ou sem Cristo?

Passo sempre indiferente por essa Igreja na final da 24 de Maio, mas outro dia um cartaz em sua fachada me fez meditar. “Tradicional feijoada do Encontro de Casais com Cristo”. Inicialmente a reflexão foi voltada para a ambiguidade da frase. O evento poderia ser para prestigiar duas coisas diferentes: Uma, que Cristo se encontraria com os casais e a feijoada seria apenas um detalhe. A outra, que Cristo estaria presente já antes na feijoada (assim como durante, é claro), que os casais viriam ao Seu encontro e poderiam ainda, com moderação, sorver o alimento rico em ferro. Esses são pormenores da nossa língua portuguesa que nos tornam imprecisos mesmo com Cristo… Confesso que a primeira opção não me faria parar tudo que ando fazendo para estar aqui divagando com meus fiéis seis leitores. Já a segunda (e que conforme me disse uma integrante da paróquia é o que acontece todo ano) me fez ponderar.  Eu que nada bebo mas de tudo como, parei para questionar se não estaria perdendo uma feijoada divina por não ter nenhuma religião e, Deus que me perdoe, pensei até em uma conversão só para participar dessa farra.
Farra? Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de permitir que a ‘feijoada com Cristo’ entre no meu estômago ao preço de deixá-Lo, antes, entrar na minha mente (ou vá lá, no meu coração). Colocando tudo na balança ruminei: O que seria afinal uma feijoada com Cristo? O que seria uma feijoada sem Cristo? Aquela que eu sempre como afinal…Ele está ou não presente? Não me lembro Dele ter sido convidado, mas também nunca vi ninguém impedindo a Sua entrada…
Quando pensamos nessa iguaria feita de feijão preto cozido com miúdos de porco, partes íntimas e gordurosas e quaisquer outras coisas nojentas, desde que contenham gordura suficiente e muita pele de qualquer quadrúpede, além de ingredientes trazidos pelo vento que a cozinheira diz ser folha de louro, não imaginamos gente triste ou com algum sentimento de culpa quer cozinhando quer  fazendo parte da degustação que pode levar horas. Não há espaço para o silêncio quando estamos diante desse manjar dos deuses e a falta de ruído jamais pode ser preenchida pela música clássica. Seria um sacrilégio. Não há quietude, sossego, calma e som de harpas…. Há de entrar pelos ouvidos uns ziriguinduns, telecotecos, balacobacos, borogodós e buruguduns para que a feijoada não fique sem sal. E nesse paticundum, pracatás, sabadás e badaiás, bailarinas vestidas de branco ou  de rosa clarinho com uma saia que parece feita de nuvem não tem vez! Ao nosso lado, compondo o prato, deve ter uma nega com salto alto, vestidinho estampado e bem curto sambando com o diabo no corpo. Risadas estridentes estimuladas pelas cervejas estupidamente geladas e ucas, açúcar, cumbucas de gelo e limão são imprescindíveis para engrossar o caldo (Saravá Chico!).  E nada de vinho pelo amor de deus!  
 
É. Definitivamente Cristo não pode fazer parte desse tipo de coisa e pensando bem, Ele nunca esteve presente em nenhuma feijoada em que fui.
O ponto é que não vejo como isso pode ficar mais divertido e gostoso se modificarmos algum ingrediente ou se acrescentarmos algo, ainda que esse um-tanto-a-mais seja supremo. Cristo nesse ambiente poderia ou ficar deslocado ou inibir nossas gargalhadas com dentes sujos à mostra ou pior! acabar se divertindo nesse meio. Deus me livre.
Isso posto, não irei a “Tradicional Feijoada do Encontro de Casais com Cristo” e agora, depois dessa meditação, não estou mais angustiada com uma certa sensação de perda. Estou bem mais tranquila. Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, disse que uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. Só quem já saboreou devidamente o pitéu percebe que a genialidade de Ponte Preta nessa proposição foi ter captado e expresso em poucas palavras a essência desse maravilhoso e fenomenal sustentoPercebo, então, sem me sentir uma perversa profana, que Jesus deve mesmo é ficar do lado de fora. Literalmente. Fazendo o que faz de melhor! Absolvendo-nos e guiando nossos passos até chegarmos ao nosso abençoado lar.
 

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