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Discussão de Gênero no Carro.

genero

Estava, como todos os dias, levando Yuki, meu caçula de dez anos, à escola. Na rádio, ouvimos a chamada da matéria:

“Estão sendo investigados casos de homofobia e transfobia em um…”

– Mãe, o que é transfobia?

– Vamos pela lógica. Se homofobia é o preconceito e o ódio por vezes trazendo consequências físicas aos homossexuais, a transfobia é o mesmo com os transexuais.

– O que é um transexual?

– É alguém que não se identifica com o gênero biológico. Por exemplo, a pessoa nasce com bilau e se sente mulher. Ou nasce com bimbinha e se sente homem.

(Sim. São esses os termos que uso. Acho-os fofos).

– Não entendi.

– Não é para entender. Não precisa. Basta respeitar. As pessoas, incrivelmente, implicam e debocham por eu ser vegetariana. Não precisa entender porque eu mesma não consigo explicar essa mudança que aconteceu comigo. Mas fico triste quando alguém insiste em me forçar algo que simplesmente não consigo mais. E estou bem assim. Por que implicam tanto com minha vida?

– Entendi isso. Mas existe homem que…?

– Meu filho, existe de tudo. Saiba disso para começo de conversa.

– Ok. Mas existe homem que é transexual, ou seja, mulher e que goste de mulher?

– Sim. E neste caso como você o qualificaria?

– Como homossexual.

– Eu também. Mas acho que neste caso está faltando uma outra palavra porque são situações diferentes.

– E se um homem se interessar por um homem transexual, ou seja, uma mulher. Eles podem ter filhos?

– Não de forma, digamos, natural. A transexual por mais mulher que seja em vários sentidos não tem útero e, portanto, não pode engravidar. Neste caso, eles partiriam para adoção, se quisessem.

E daí a conversa mudou e ficou muito mais profunda…

– Nossa. Deve ser horrível ser filho de um casal assim. Ou mesmo de dois homossexuais.

– Por que você diz isso?

– Porque na escola essa criança não teria paz. Seria zoada até a morte. Isso é muito diferente do “normal”.

– Acredito que ela poderia sofre bullying sim. A depender da escola. Mas, tirando o fato de isso “não ser normal”, você vê algo demais nisso?

– Nada demais. Apenas diferente.

Agradeci a Deus, mesmo sendo ateia, a oportunidade do diálogo e pedi sabedoria para este momento tão delicado.

– Ok. Você sabia que muitos de seus amigos são filhos, assim como você, de pais separados, não?

– Sim. Claro.

– E você sabia que muitos desses pais só vêem o filho de 15 em 15 dias?

– Por que tão pouco?!

(Eu e Nelson, a despeito de sermos separados, ainda saímos quase todo final de semana juntos com Yuki. E Nelson, sempre que pode, nos delicia com sua presença no meio da semana).

– Porque essa é a lei. Um final de semana sim e outro não.

– Mas por quê?! Por que tão pouco?

Daí eu expliquei ao Yuki que o que ele tem em casa é a famosa exceção à regra. Disse que a mãe precisa também de momento de lazer com o filho e bababá bububú.

– Há muitas crianças que, como você já está percebendo, sofrem demais com isso, a dizer, com a falta do pai. Então te pergunto: ter dois pais juntos e amigos seria, para você, pior para a criança do que uma situação em que o pai e a mãe sequer se falam e o pai tem contato com o filho só de 15 em 15 dias?

– Acho que não. Pelo contrário. – disse ele ainda com o semblante muito confuso.

– Não me conformo, mãe, com isso de as crianças verem tão pouco o pai…- e os olhos se encheram de lágrimas.

Yuki é desses feitos de açúcar…

– O mundo é complexo, Yuki…

– Estou percebendo. Mas e se o filho tiver duas mães? Quem vai caçar Pokemon com ele?

– Há muitas meninas caçando Pokemon e muitos pais que sequer ligam para isso. Já te disse, cada casa tem uma singularidade. O que você tem na sua não é regra e nem se aproxima do que seja considerado “normal”. Portanto, visto de perto, todos deveriam se enquadrar na categoria “potencial para sofredor de bullying”. Daí dessa coisa de zoar o amigo por ser diferente não fazer o menor sentido.

– Entendi tudo, mãe. Não há regra para ser feliz.

– Não mesmo, meu filho.

Deixei Yuki na escola. Assim que me despedi, tive uma crise de choro. Talvez por ter vivido algo tão intenso e ter a certeza de que esse diálogo será importante para o resto da vida de meu Yuki.

Ou talvez por lamentar por todos aqueles que não conseguem enxergar o quão bacana e fértil é discutir gênero com uma criança e que isso nada tem a ver com o incentivo à promiscuidade. Pelo contrário.

Nao tenho dúvidas de que meu filho hoje se tornou um ser humano muito melhor.

E eu? Resgatei a minha esperança perdida.

Seguimos na luta.

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Vacinando Meus Filhos

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Ontem cheguei no quarto do Yuki e ele estava assistindo um vídeo no YouTube do Felipe Neto.

Respira. Expira. Inspira.

– Garoto, tu sabe que essa cara ridículo já falou mal da fofa da sua mãe no Twitter?

Comigo é assim. No equilíbrio. Imparcialidade é meu sobrenome. Só falo verdades e deixo que a criança conclua o resto.

– Ele? Mas ele é YouTuber, mãe!
– É tuiteiro também. Mas vamos ouvir o que esse imbecil tá falando.

O vídeo mostrava umas respostas mal criadas que ele recebia via rede social e o babaca do Felipe Neto debochava de quem escrevia e ainda ficava respondendo falando um bando de idiotice felipenetonianas. Um nojo.

– Olha aí. Por que você está vendo essa porcaria que só estimula o ódio e a desavença entre os seres humanos?
– Ele te xingou por quê?
– Porque eu falei dos negros e ele me chamou de racista.
– Você? Racista?
– Pois então. Ele não entendeu o texto e começou a falar impropérios ao meu respeito. Daí, que esses seguidores dele que acham bonito ficar xingando os outros e não sabem nem ler direito resolveram se unir e começaram a me xingar de tudo que é nome feio que eu só deixo você falar quando bater o dedinho na quina do sofá.
– Te xingaram?
– E muito! Estimulados por esse imbecil que tu tá dando ibope. Me chamaram de japonesa burra em um texto em que eu falava justamente de racismo e intolerância.
– Poxa vida, mãe. Não sabia. Me desculpa…
– Não tem que pedir desculpas. Você já está bem grandinho para entender os discursos. Se tem alguém estimulando o ódio, a briga, fuja disso. Jamais se revida uma resposta quando alguém nos xinga. Já te expliquei isso. E você aí vendo esse vídeo desse babaca ensinando justamente o oposto.
– Foi mal, mãe.
– Já te disse. Quando alguém nos xinga é porque esse alguém não tem amor no coração. Quem recebeu muito carinho só tem vontade de dar mais carinho. Quem foi muito xingado e humilhado acha que isso é o certo a ser feito. Essas pessoas precisam de abraços, de voz mansa, de uma verdadeira atenção.
– E você falou isso para ele?
– Tentei conversar. Mas ele continuou. Daí, deixei quieto. Não sei rezar, mas desejei paz para esse infeliz. Mas agora tenho que reequilibrar esse seu universo. Quantos minutos você viu desse lixo?
– Dois vídeos.
– Hmmm. Isso equivale a um filme de Chaplin. Bora ver aquele da nossa coleção?
– Formô, mãe.

Assim eu curo as doenças iminentes por aqui. Para sobreviver nesse mundo e não sermos contagiados por tanto vírus ruim, só mesmo vacinando nossos filhos com muita arte e poesia.

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Leia gibi agora, meu filho.

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Obra feita pelo artista Sergio Ricciuto especialmente para mim.

 – Mãe, como é possível a perna se mexer? É a veia que é a responsável por isso? Não me diga que é o cérebro, aquela massa cinzenta toda embolorada que faz isso? E se for, como, mãe? Me explica? Eu te dou um tempo para você consultar o gúgol, tá? Te espero. A historinha que você vai contar pra mim hoje é essa: “Como a perna se mexe.”

Consultei gúgol, estudei anatomia, nervos e músculos para debater com Yuki como sempre fazemos em cima de um tema ou de um livro. João e Maria, Os três porquinhos, Patinho Feio, diário de um Banana, a saga do MineCraft, Menino Maluquinho… pelo visto, eles são bem menos encantadores do que a própria natureza quando esta se revela para os olhos atentos de uma criança.

Pior que descambou para o campo da metafísica. Nem os cientistas mais estudados no campo da neurociência e da cognição corpórea chegaram a um acordo ou a uma conclusão de como isso se dá… Se você pensou que a resposta fosse enzimas ou sinapses, você não entendeu o nível de profundidade da pergunta da criança.

Yuki quer saber de onde surgem os pensamentos e como algo imaterial age na matéria.

Comecei o dia contando uma historinha aqui para o meu pequenininho segurando um atlas anatômico, duas teses de doutorado, um livro de um filósofo francês que fala sobre mente e corpo e um gibi da Mônica.

A moral da história é a mesma de tantas outras que já contei para ele: mesmo que não se tenha resposta para uma dada pergunta, quando ela é feita a ponto de nos fazer pensar sobre algo que nunca nos parou, aumentamos por demais o nosso entendimento sobre a natureza.

Conhecer é saber o tamanho da nossa ignorância.

– Ok, mãe. Vou pensar em outra então para ver mais fumaça saindo da sua cabeça.

E assim vamos esclarecendo as coisas por aqui vendo tudo muito mais confuso…

– Tá bom, meu filho, mas leia um pouco de gibi agora para eu preparar nosso café.

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Nikolas

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Yuki me pediu para passar a tarde com um amigo ontem aqui em casa. Liguei para a mãe do Nikolas, o menino mais levado da turma dele. Todo dia Yuki chega da escola contando algo que o Nikolas aprontou. Adoro. A mãe dele topou deboa. Trouxe ele aqui em casa e combinamos que à noite, eu o levaria.
 
Eles brincaram de tudo. Espada. Cabana. Carrinho. Corrida. Mexeram com o gato e com o cachorro. Yuki ensinou Nikolas umas batidas de bateria e os dois ficaram um tempão um tocando e o outro cantando um rock jamais ouvido nesse Universo.
 
Deu setimeia no relógio.
 
– Nikolas, tenho que te levar embora.
– Ah tia não! Deixa eu brincar mais um pouquinho, nem deu tempo de jogar boliche!
– Mãe, deixa ele dormir aqui!
– Tia, nem precisa pegar roupa lá em casa. Nós somos do mesmo tamanho!
 
A despeito da dor, resisti e fiz o combinado. A vontade que tinha era ligar para a mãe do Nikolas e pedir para ela deixar ele morar com a gente. Sublimei o sonho. Peguei os dois, enfiei-os no Takimóvel e lá fomos nós rumo a Piedade guiados pelo waze.
 
– Tia, meu pai sempre para nessa sorveteira para tomarmos sorvete! Bora parar nós três agora?
– Vocês ainda não jantaram…
– Tia, você sabia que toda terça se comprar uma pizza na dominos vem duas pelo preço de só uma, tia? Podemos comprar pizza quando chegarmos na minha casa?
– Não. A minha janta já está pronta. Outro dia a gente faz isso, ok?
– Tia, depois que você me deixar em casa, depois que você jantar, vocês têm algum compromisso?
– Daí a gente vai dormir.
– Mas não tem nenhum “compromisso de hora”?
– De hora não. Mas temos que dormir cedo. Amanhã o pai do Yuki…
– Ah! Então vocês podem conhecer a minha casa? Eu queria mostrar meu quarto para vocês! Você entra, tia, na minha casa?
– Sua mãe deve estar ocupada, Nikolas.
– Ela mostra a casa para os amigos dela também, tia! Eu passei o dia na de vocês. Vi como é tudo. Vê como é a minha casa, tia? Deixa o Yuki conhecer meu quarto? Deixa, tia?
 
Chegando lá, a mãe veio nos receber. Eles entraram varados com Nikolas puxando Yuki pelo braço e gritando:
 
– Tia, é rapidinho!
 
Voltaram depois que buzinei três vezes. Nikolas de bicicleta e Yuki de patinete com uma capa.
 
Não vejo a hora de ver o Nikolas novamente…

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Mãe, estou apavorado. Acho que vou ser gay.

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Hoje, dia 01 de outubro, comemoramos aqui dez anos de Yuki que estreou no dia 27 de setembro. Fiz o que ele me pediu: queria passar o dia com seus melhores amigos. Isso significou que desde às 11h da manhã de hoje até às 20h a minha casa estava com dez meninos. Está tudo de cabeça para baixo aqui. Ou seja, estamos todos mega felizes porque tudo correu na mais perfeita ordem.

Passamos o sábado entre brincadeiras e algumas observações sobre o dia de amanhã. Agora, antes de dormir, Yuki veio me perguntar se Crivella era homofóbico.

– Tudo indica que sim, Yuki. Ele já fez discursos falando que homossexualidade não é coisa de Deus.

– E Pedro Paulo?

– Este bate em mulher. Machista. Se é homofóbico não sei mas, a julgar pela postura, não duvido.

– Por que as pessoas são assim? Por que se irritam com o outro se o outro nem se mete na vida delas?

– Não sei, meu filho.

– Eu não quero ser gay, mãe. Não quero ter que lidar com gente assim.

Oh, Senhor. Era só para dar um boa noite e ele me vem com essa? E lá vamos nós porque mãe não pode perder oportunidade…

– Bom. Duas coisas. A primeira é que isso não é uma opção. No momento certo, você vai saber o que te atrai. Se é mulher ou se é homem. Mas você agora está muito novo para pensar sobre isso. Segundo, ainda que lááááá na frente você queira namorar só mulheres, a homofobia vai continuar sendo um problema seu sim senhor.

– Mas eu não terei medo das pessoas me maltratarem.

– Mas terão outras sendo maltratadas e, enquanto houver gente sofrendo, isso diz a nosso respeito porque o mundo é um só e temos todos a obrigação de fazer dele um lugar bom de se viver para qualquer um. E se você pensa que não é problema seu, saiba que está tudo interligado. Mais cedo ou mais tarde você vai ver como fazer o bem é contagioso e idem com o mal. E mais! Você vai ver como tudo nos atinge…

– Mãe, a verdade é que estou apavorado. Eu não quis chamar meninas para minha festa. Eu acho que vou ser gay.

– Ué. Normal só querer andar com meninos na sua idade. Isso não diz nada a respeito de sua sexualidade no futuro. Há muitos homens héteros que quando criança agiam exatamente assim como você hoje. Mas já disse, Yuki, está cedo para você se preocupar com isso. Daqui a uns dois anos, talvez tenhamos algumas indicações, mas agora não. Você é ainda uma criança.

Agora perceba… vai que você seja gay ou bi. Se eu pensasse, como você pensou agora há pouco, que pelo fato de eu ser hétera não preciso me preocupar com homofóbicos e não tivesse levantando essa bandeira contra a homofobia em cada oportunidade que tive para fazê-lo, a sua vida já ia ser muito mais difícil. Percebe como é importante cuidarmos uns dos outros? Tudo é uma coisa só, meu filho.

– Entendi. Se eu não for, meu filho pode ser…

– Justamente! Ou seu amigo, por exemplo. Já pensou ver o Nikolas apanhar ou morrer porque é gay?

Tive que parar de falar. Yuki começou a chorar. Ele é desses que sofrem quando entendem tudo.

Abracei-o como abraçamos um objetivo.

– Gostou do seu dia?

-Amei, mãe…

– Vamos fazer mais isso independente de seu aniversário?

– Pode, mãe?!

Pronto. O rosto já mudou e consegui reverter aqueles pensamentos… Conversamos sobre a farra que rolou aqui hoje. Ele chegou a gargalhar, até que finalmente dormiu.

Agora estou aqui pensando no que mais posso fazer para que, nos próximos anos, eu continue vendo esse sorriso estampado no rosto de um filho que tanto sonha…

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Só mais 50 minutinhos…

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Ontem fomos todos para um sarau e voltamos tarde. Tipo dez, onze horas da noite. Yuki, meu caçula de 9 anos, sempre junto. Já no carro a caminho de casa, ele mete essa:

– Vou ter que ir à escola amanhã?
– Ué. Claro. Por que não iria? – perguntei conhecendo meu eleitorado.
– Porque estamos chegando em casa muito tarde e eu vou acordar muito cansado.

Abre parêntese.

Yuki acorda cedo desde que nasceu. Não importa a hora que vai dormir e se vai passar o dia inteiro chato ranhetando de sono. O horário dele é sempre entre cinco e seis. Muito raro eu precisar de despertador para tirá-lo da cama. Finais de semana são sempre o ó. Eu quero dormir e ele quer fazer coisinhas tipo andar de skate no parque antes mesmo das sete.

Fecha parêntese.

– Mas se você acorda cedo de qualquer jeito, qual a diferença de ir para a escola ou ficar em casa olhando para o teto? – questionei.

– Pode ser que eu precise descansar muito. Você não está considerando isso, mãe? – rebateu ele com o tom de quem está na iminência de ser torturado.

– Sempre considero, Yuki, só que nunca acontece… Façamos o seguinte: você dorme e acorda a hora que o olho abrir. Sem pressão. Se não der para entrar no primeiro tempo, a gente entra no segundo. – falei com mó carinho e boa vontade.

– Mãe, eu nunca cheguei atrasado em nada em toda a minha vida! Você quer quebrar isso agora??? Foi você que sempre me ensinou isso! – Aff. Yuki jogando pesado. A minha sorte é que eu sou mais inteligente que ele.

– Yuki, sejamos claros, você está me enrolando. Chegar para o segundo tempo não deixa ninguém esperando e não prejudica ninguém. Deixa disso. Para que tá feio. Se você acordar a tempo de irmos para o segundo tempo, a gente vai.- expliquei cheia de paciência.

– Que horas começa o segundo tempo? – voltou ele depois de trinta segundos refletindo.

– Sei lá. Acho que oito. – chutei.

– Qual o limite que você dá para eu acordar e não ir à escola?

– Yuki, você quer saber a partir de qual hora eu não te levo mais porque não dá tempo nem de chegar para o segundo tempo? – eu já não estava acreditando…

– Isso. Justamente. – respondeu ele sério.

– Você sabe que há o terceiro tempo, não? – joguei. Os alunos só podem chegar até o segundo tempo.

– Mas aí não faz sentido a gente se mobilizar todo para eu assistir só metade das aulas. – droga. Ele estava coberto de razão.

– Ok. O limite é 7:45. Em 15 minutos dá tempo da gente tomar café e sair. Você pode descansar bastante e ainda estudar pelo resto da manhã.

– Mas e se eu não acordar? Seria muito pedir para você me deixar descansar?

– Ok. Acho que uma vez na vida não faz mal a ninguém. Mas duvido. Nunca dantes na história da humanidade você acordou depois das sete.

E mais ou menos assim foi a nossa conversa ontem antes de dormirmos.

São mais de oito horas. Acabei de ir até o quarto dele e ele está dormindo profundamente. Mas gente… Isso nunca aconteceu! Que poder tem o consciente sobre o inconsciente, não?

No próximo fim de semana, vou mentir dizendo que a escola colocou aula extra sábado e domingo. De matemática ainda por cima! E que começa às nove!!!

Mas se estiver cansado, pode ficar em casa dormindo…

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A Queda dos Corpos e o Peso das Reflexões.

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Hoje, eu levando Yuki para a escola, rolou um diálogo entre nós:

– Mãe, qual o nome daquele negócio que tem em volta dos planetas no Angry Birds Stars Wars?
– Sei lá, Yuki. Atmosfera?
– É a atmosfera que atrai os projéteis quando passam perto dos planetas?
– Ah não, é o campo gravitacional.
– Isso! Era esse o nome que tinha me esquecido.
– Mas ó, filho, o campo gravitacional existe mesmo nos planetas que não estão no jogo do AngryBirds, tá?
– Então quer dizer que se tacarem algo no planeta Terra, isso pode ficar rodando até cair de vez?
– É.
– E se jogar muito rápido? Pode ficar girando sem cair como no AngryBirds StarWars?
– Sim. Esse é o princípio que se usa para colocar satélite em órbita.
– Que maneiro! Quem descobriu isso?
– Isaac Newton. E ó, atmosfera não tem nada a ver com campo gravitacional. Na Lua, não tem
atmosfera e ela também atrai os corpos.
– Da mesma forma que a Terra?
– Não. Como ela tem a massa muito menor, a força da gravidade que é gerada é bem menor.
– A gravidade depende da massa do planeta?
– Justamente. É o que falam. E a até agora não teve nada, até onde eu saiba, que contradissesse isso, ou melhor, um planeta com pouca massa e com um campo gravitacional muito potente.
– Mas pode acontecer?
– Nada impede. O universo sempre é capaz de nos surpreender e teoria científica, ao fim e ao cabo, não deixa de ser um ato de crença.
– Como assim?
– “Acreditou-se” um dia que um corpo só se movia se houvesse uma força atuando sobre ele, ou seja, só tem velocidade se tiver força.
– E não é mais assim?
– Não. Newton mostrou que força não tem nada a ver com velocidade e sim com variação de velocidade. Um corpo pode se mover sem que nenhuma força atue sobre ele.
– Como ele explicou isso?
– Usando a palavra inércia…

A conversa se estendeu a ponto de eu ter a ideia de escrever mais um livro infantil e Yuki chegar atrasado.

Deixei meu menino na escola, ele está no quarto ano. Mas tive a impressão de que se ele fizer a prova do Enem, pelo menos em física, ele se sairia muito bem. Está sabendo as três leis de Newton e a essência da lei da gravitação universal. E creio eu que não vai se esquecer já que aprendeu com o coração.

Assim deveria ser qualquer aprendizado. No tempo em que as perguntas aparecem, com alegria e trabalhando a curiosidade e o prazer da descoberta e não isso que temos… com crianças e jovens aprendendo o que não tem a menor vontade de saber no tempo em que queremos que ela aprenda e não quando ela está preparada. Se o estômago não tiver preparado, não adianta, ele não vai digerir o alimento que sairá do jeito que der e assim que puder do nosso corpo. Por que insistem nesse modelo?

Enfim, acho que essa foi a melhor manhã de terça que tive na minha vida… Yuki se despediu de mim pensando e eu muito mais.

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