Isaac no Mundos das Partículas

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O nascimento de um cientista, de uma escritora e de um grande espetáculo:

Olá. Meu nome é Elika Takimoto e vivo da teimosia. Não me considero uma pessoa sonhadora, pois, as pessoas sonhadoras vivem… sonhando. Entre querer fazer e fazer para mim não há diferença. E não sou dessas de desanimar diante as portas que se fecham para mim e os “nãos” que acumulei jamais me diminuíram. Pelo contrário.

Isaac no mundo das partículas foi escrito há cinco anos. Desde então, ando com ele debaixo do braço oferecendo para todas as editoras que vejo pela frente. Colecionei respostas educadas rejeitando Isaac.

Todo o processo desde a sua elaboração até a publicação rendeu, para variar, muitas histórias que me engrandeceram e que pretendo compartilhar com quem quiser ouvir. Acho que não são apenas narrativas sobre fracassos que vocês lerão aqui e sim formas de lidar com a realidade, ou melhor, como fiz para driblar todas as bolas mal jogadas para mim e,   finalmente, fazer meu gol de placa.

O texto desse livro de Física de Partículas para crianças de 6 a 106 anos em pleno Brasil escrito por uma suburbana carioca já foi selecionado dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro. Isaac virou um mega espetáculo infantil cuja estreia foi 27 de Janeiro de 2018 no Teatro Oi Futuro em Ipanema. A peça (que foi um lindo musical infantil de extremo sucesso) recebeu indicações para vários prêmios!

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Mais essa. Ele virou peça antes de ser um livro publicado! Quanta história temos pela frente, não?

Como o livro nasceu?

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Em 2010, fui selecionada por análise de currículo, para fazer o curso de Física de Partículas no CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), o maior laboratório de física do mundo.

Fiz parte de uma atividade de um programa oficial do CERN para professores de Ensino Médio dos países membros. O Brasil, para quem não sabe, coopera com o CERN mas (ainda) não é membro. Logo, para que nós brasileiros participássemos deste evento, tivemos que entrar na cota dos portugueses que gentilmente nos abriram espaço por iniciativa do LIP – Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.

A organização do grupo foi coordenada pela Secretaria para Assuntos de Ensino da SBF – Sociedade Brasileira de Física. Nós, professores do Brasil, participantes deste curso de capacitação contamos com apoio financeiro do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e recebemos o apoio financeiro do Departamento de Educação Básica da CAPES e do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, foi algo sério e grandioso para a minha formação.

Mas nem tudo são flores. O CERN fica na fronteira entre Suiça e França. Eu já era mãe de três, estava casada na época e nunca havia pensado em viajar sem a minha família. Não foi fácil para mim esse processo porque a educação que tive (digo, educação como um todo, incluindo a sociedade doente da qual fazemos parte) foi tão castradora que a impressão que tinha o tempo todo era de que estava abandonando meus filhos.

– Mas eles vão ficar com quem? – perguntavam para mim quando eu dizia que ia fazer essa viagem.

Deixei-os sob cuidado do pai e dos avós e fui. Fui com medo, mas fui. Não dormi quase em todo o tempo que estive lá. Por ansiedade, por querer registrar tudo para não me esquecer de nada (para quem quiser tem toda a história no meu blog), e por viver algo tão mágico.

Voltei outra. Cheia de novidades e querendo dar palestras sobre tudo o que havia aprendido e visto com esses olhos arregalados.

Quem mais quis entender sobre o que vivi foi Yuki, meu filho caçula que na época estava super caçulete de tão pequetitito. Foi com ele que tive os melhores diálogos sobre física de partículas e graças às perguntas que ele me fazia me vi obrigada a ter que explicar para uma criança um tema tão complexo (bem sabemos que explicar para uma criança ou para uma pessoa idosa seja lá qual for o assunto nos exige manobras neurais de nível olímpico).

De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?

O interesse do Yuki foi tanto que comecei a procurar livros sobre o tema para lhe dar. Qual o quê. Quando encontrava era algo extremamente técnico e chato. Nem eu suportava.

Daí, tive a ideia de escrever um livro para Yuki mas que também fosse um registro dos diálogos que tive com ele.

A primeira vez que li Isaac no mundo das partículas para Yuki chorei de emoção. Quando era a vez do Isaac falar, Yuki o atropelava e dizia exatamente o que estava escrito. As dúvidas e as perguntas de Isaac eram as mesmas de uma criança!

Um detalhe que não é um detalhe: as questões que Yuki fez quando cheguei do CERN eram as mesmas que movem os cientistas a fazer tanta pesquisa em um laboratório gigantesco. De que o mundo é feito? Como tudo começou? Como sabemos que tudo isso que falam é verdade se não conseguimos ver as partículas? Como é que somos feitos de partículas invisíveis se todos conseguem nos enxergar? A partir de quantas partículas invisíveis que se juntam temos um corpo com massa? O que é massa?… Todas essas e muito mais aparecem no Isaac no mundo das partículas.

Não tem como fazer ciência sem filosofia, assim penso. Isaac no mundo das partículas não é somente um livro de Física de Partículas. Considero-o também um livro que estimula todas as pessoas que o lêem a fazer mais e mais perguntas, pois, paradoxalmente, entendemos mais sobre um assunto não quando conseguimos  explicá-lo em sua plenitude (porque isso é impossível) mas sim quando somos capazes de fazer perguntas cada vez mais profundas sobre o que estamos estudando. Ou seja, quando deixamos fluir a filosofia subjacente a qualquer assunto.

Assim como fazem todas as crianças.

 

Ilustrado por um grande artista italiano. Mais essa.

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Antes de começar a escrever Isaac no mundo das partículas, tive que fazer um laboratório sobre linguagem infantil. Eu queria que houvesse um personagem com quem Isaac interagisse o tempo todo, um amigo. Daí surgiu a ideia de colocar um grão de areia falante.

Mas como fazer um grão falar? Qual seria a explicação que daria para um grão ter cordas vocais e pensar como um ser humano?

Fui ao mestre dos mestres. Li Reinações de Narizinho para descobrir como Monteiro Lobato fez Emília e Visconde – uma boneca de pano e um sabugo de milho – começarem a falar. Não vou contar o que li e nem como resolvi esse problema. Leiam Monteiro Lobato e simplesmente não vão se arrepender. Saibam que Argo, o grão de areia que é o amigo de Isaac nessa aventura, fala e muito. O pó mágico para isso acontecer peguei em Reinações de Narizinho.

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A linguagem que usei no Isaac fui aprendendo lendo outras coisas, vendo os desenhos animados atuais e os jogos de videogames. Fiquei assustada com a quantidade de informações e de ciência que passam hoje em dia para as crianças. Quem acha que um livro de Física de Partículas para o público infantil pode ser algo complexo para eles, sugiro acompanhar o que essas crianças de hoje consomem na Internet e na televisão. Não as subestimem. Vai por mim.

Mas nada disso estaria completo sem as ilustrações de Sérgio Ricciuto Conte. Acho que já falei aqui. Não considero esse livro de minha autoria somente. Isaac no mundo das partículas é um livro feito por Elika Takimoto e Sérgio Ricciuto Conte.

Ricciuto quando recebeu o texto se viu imerso em outras questões: como vou desenhar um grão falante? Como vou desenhar o CERN? Perguntas como essas mais ou menos tiraram literalmente o sono desse gênio. Ricciuto é um artista com uma sensibilidade e uma inteligência sem igual mas um ser humano acima de tudo e, como todos, receosos frente a novos desafios.

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Ótimo. Sei que o lugar de conforto é o que se morre em vida. Se ele nunca havia desenhado máquinas, que lindo será para nós dois. Assim pensei. E foi muito melhor do que eu esperava o resultado!

Ricciuto ficou tão imerso no mundo de Isaac que chegou a sonhar com uma cena. Acordou e desenhou. Mandou para mim observando que a ilustração que ele havia feito em que Isaac aparece com uma estrela pendurada no pescoço dada por Aristóteles não estava no texto e que ele só queria me mostrar a imagem que invadiu sua cabeça enquanto ele dormia. Tratei de modificar o texto incluindo esse momento maravilhoso.

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Enfim, Isaac no mundo das partículas é um livro em que mergulhei de todas as formas convidando para essa apneia uma pérola como Ricciuto que a cada ilustração fazia respirar algo onde já batia forte um coração.

 

Não basta escrever. Tem que ser teimosa.

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Publicar um livro nesse país é uma questão de teimosia. Você cisma com uma ideia doida em que não faltam pessoas da área dizendo que é impossível e inviável, mas você segue firme alheio ao tamanho dos muros que lhe cercam. Agora… publicar um livro infantil de física de partículas já ilustrado… aí é uma questão de sei lá meu deus. Teimosia nível advanced plus master.

Ter uma obra feita com tanta seriedade, pesquisa e amor como Isaac no mundo das partículas ser recusada por grandes editoras com o argumento de que o livro não será compreendido, não terá público para comprá-lo ou com a condição de que não se use as ilustrações já que as editoras têm seus próprios desenhistas é algo, diria, por incrível que pareça, edificador.

Cresci ouvindo os nãos dados das formas mais secas ou mais polidas para Isaac. Entendi bem mais como o capitalismo funciona e como os adultos subestimam a inteligência de nossas crianças e como são escravos do tal Deus Mercado.

Parece-me, no entanto, que Isaac tem mesmo uma força metafísica interna que vai além do livro e permeia o campo dos sonhos e das ideias. Antes de virar livro impresso, o texto de Isaac foi escolhido dentre não sei quantos mil para receber o patrocínio do Oi Futuro e virar um mega espetáculo. Isaac foi parar nas mãos de Joana Lebreiro que, acostumada com o público infantil, enxergou nele um potencial para uma grande troca e uma excelente oportunidade de divulgar ciência em forma de arte, luz e muito som.

Com o espetáculo à vista, decidi publicar Isaac de forma independente. E, segue daí, uma história de peregrinação. Escolher as pessoas que fariam a diagramação e a revisão não foi algo simples e tive que rever minhas escolhas mesmo depois de tudo pago e pronto.

Não aceitei que ninguém trabalhasse nessa obra se não tivesse por ela muito respeito e amor. Diante a menor percepção de uma falta de carinho, abortava o projeto e voltava para a estaca zero. Não foi fácil nenhum desses passos. Noites e dias de ansiedade e trocas de ideias, medos e inseguranças com meu amigo Sergio Ricciuto Conte, o ilustrador do Isaac.

Não tenho berço, sou suburbana, meu pai foi engenheiro e minha mãe sempre dona de casa. Não tenho contatos. Só me resta a opção de confiar em quem me aparece para ajudar ou se vender. E, claro, há uma coleção de decepções que não valem à pena narrar aqui. Apenas é necessário dizer que a Isaac é fruto de muitos fracassos porque foram eles que me levaram às pessoas que assinaram a obra.

Paralelamente a isso, ver o espetáculo ganhando forma é uma emoção indescritível. Entendo que a linguagem teatral não é a mesma do que a literária. A despeito de muitas modificações, Joana Lebreiro é uma pessoa que soube lidar com meu filho. Trocou sua roupa, mas não o obrigou a mudar de personalidade. A alma de Isaac seguiu, em essência, do início ao fim do espetáculo e só agregou valor a tudo que fizemos.

Enfim, como já disse Clarice. Felicidade é pouco. O que sinto tem outro nome.

Isaac no mundo das partículas nasceu por teimosia.

Monteiro Lobato, depois que fazia os livros, saía pelo Brasil para vendê-los. Por muitas vezes, colocava em chalanas, embarcações rústicas, charretes, para levá-los a aldeias distantes. Ele queria ser lido. Acreditava que a sua obra abriria a mente de crianças e não mensurava esforços para isso. Tinha prazer de oferecer o mundo que saiu de sua cabeça.

Guiada pela imagem de Monteiro Lobato, fui só de carro buscar os livros que foram impressos em São Paulo, na gráfica que achei o melhor preço e com a melhor qualidade de impressão. Pobre é uma desgraça.  A gente tem que superar os traumas no susto.

O medo foi gigantesco. Mas o foco foi maior. Imagino crianças abrindo Isaac, olhando pela lupa com ele, e observando esse mundo mágico da ciência. Vislumbro mais pessoas formulando mais perguntas sobre o tema porque acredito que, quando estudamos um assunto, se ele nos cativa, não nos satisfazemos com as respostas e acabamos sempre por ter mais dúvidas sobre o mundo. Incrivelmente, estudamos não para saber mais mas sim para sabermos o quanto não sabemos e, a despeito disso, que coisa deliciosa é a pesquisa sobre seja lá qual for o tema…

Fui só, mas voltei com muitos livros. Meu carro se transformou na nave que Isaac usa para viajar no tempo e no espaço. Dentro dela, carreguei, além de infinitas partículas, um universo de sonhos a ser compartilhado, a partir de hoje, com você.

Boa leitura e vida longa a Isaac!

lampiano

 

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