​Carta aberta à professora Marcia Friggi que foi brutalmente agredida por seu aluno de 15 anos:

Querida Marcia,

Sou professora há vinte anos. Lecionei em escolas estaduais, particulares e, hoje, sou uma privilegiada por ser docente do CEFET/RJ. Digo isso porque, na esfera federal, temos condições melhores de trabalho ainda que nada seja definitivo. Enfim, somos colegas de luta.

Dizem por aí que quando uma mãe perde um filho é como se todas as mães enterrassem sua cria. A palavrinha da moda: empatia. A dor é sentida como se fosse nossa por, talvez, ser de todas realmente.

Penso que o mesmo se dá com essa linda profissão. Quando um professor leva um soco, é atingido por uma bala de borracha ou humilhado seja pelo diretor de escola seja pelo nosso próprio aluno, todos nós, educadores, padecemos. Portanto, venho lhe dizer, Marcia: estamos todos dilacerados.

O que achei de suma relevância em sua postagem foi a conjunção “mas” usada no último parágrafo: “Estou dilacerada, mas eu me recupero e vou dedicar a minha vida para que nenhum professor brasileiro passe por isso nunca mais“.

A força de um educador é impressionante e venho aqui hoje dizer que você não está só e podemos juntas fazer muito mais.

Para variar, pergunto-me o que levou o aluno a lhe agredir e como podemos agir para que isso não torne a acontecer com mais nenhum colega, como você mesma desejou.

Sabemos, Marcia, que damos o que recebemos. Li vários comentários em publicações que compartilharam de sua postagem dizendo que faltou a esse jovem “porrada” e “corretivos”.

Fiquei assustada e pensando sobre tudo isso.

Não sei se com violência melhoraremos o mundo e tenho quase absoluta certeza, a despeito do sangue que escorreu pelo seu rosto, de que você, Marcia, não deseja que o agressor seja assim corrigido e acredite que com mais desamor resolveremos esse problema epidêmico da falta de respeito entre os seres humanos no mundo.

Ele não deu um soco só em você. Seu aluno representa um grupo (grande) da sociedade e seu olho, inchado com o golpe recebido, o de todos nós professores. No que pese tamanha aflição que senti ao ver seu sangue, lembrei-me de Gandhi e questionei-me se, ao devolvermos com a mesma moeda essa violência, não terminaremos todos cegos.

No mais, Marcia, os nossos governantes não nos respeitam há tempos. O salário de um professor público da rede municipal e estadual é um insulto. Não escolhemos essa profissão para ficarmos ricos, mas condição de trabalho  digna era o mínimo que deveríamos ter. Nem isso, Marcia, estamos tendo. Há colegas sofrendo de depressão e se matando literalmente por não aguentar a vida que têm levado.

Os pais de muitos de nossos alunos também não nos tratam com o mínimo de educação.

A população não mais se comove com as condições em que se encontram as escolas públicas brasileiras.

O sucateamento do pouco que nos resta da Educação Pública segue a olhos vistos e desejam que acreditemos que isso é destino, ou seja, que nada pode ser mudado.

Quando queremos conscientizar os estudantes de que precisamos repensar a sociedade, diminuir o preconceito e as mazelas do mundo, Marcia, dizem que estamos fazendo doutrinação marxista nas escolas e nos ridicularizam.

Como exigir respeito de um adolescente se todo o resto da sociedade parece que nos abandonou, Marcia?

Punir esse aluno com mais violência talvez o assuste e, por medo, ele aprenda a controlar o ódio dentro dele. Mas pode ser que isso signifique enxugar gelo. Não sei se você concorda comigo já que está sob efeito desse susto. Seja lá o que você sentir e pensar, eu compreenderei.

Para finalizar, Marcia, divido com você a sua indignação e a minha dúvida: em que medida os pontos que você recebeu na sua ferida serão suficientes para fechar e curar o corte que nós, professores, recebemos todo santo dia de nossos governantes e da sociedade?

Conte com meu apoio nessa luta para que isso não mais aconteça com nenhum de nós.

Com carinho.

Elika Takimoto
—–

Segue a postagem da professora contando o triste ocorrido:

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1420157574727537&id=100001999254929

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Eu, Yuki e Charles Aznavour

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Ontem chamei Yuki, meu caçula de dez anos, para mostrar algo para ele.

– Kinho, vem ver aqui uma coisa. Quero te apresentar algo especial. Mas você tem que estar 100% comigo aqui.

– Tô pronto. – disse ele uns minutinhos depois.

Peguei meu celular. Coloquei os fones de ouvido nele. E dei o play em Charles Aznavour cantando Hier Encore.

Yuki, para vocês terem uma ideia, chorou com menos de dois anos quando ouviu pela primeira vez Sailing cantado por Rod Stewart no Rock in Rio. Eu estava assistindo o vídeo com ele ao meu lado e levei um susto com Yukinho em prantos. Quando perguntei por que ele chorava, meu bebê tirou a chupeta da boca e me respondeu:

– A muca, moin, a muca… – querendo dizer que era a música que havia emocionado.

Isso posto, fiquei com ele abraçada nesse momento importante onde somos apresentados a raridades.

Lágrimas mais uma vez.

Ele tirou os fones lentamente.

Silêncio alguns segundos.

– Mãe, que isso mãe… lindo!

Daí me empolguei e mostrei outras coisas do mesmo artista. Depois falei que Aznavour era tipo um Frank Sinatra só que francês.

– Quem é Frank Sinatra? – perguntou ele curioso.

Peguei e mostrei logo o My Way cantado pelo the voice. Sou dessas. Yuki estava só emoção.

Como forma de gratidão, ele me mostrou vários vídeos mega da hora de YouTubers jogando vídeo game hiper difíceis de estratégias e outros contando piadas e várias curiosidades. Amei todos! Ficamos conversando muito depois sobre o que acabamos de conhecer apresentado pelo outro.

É o que canso de falar para eles. Não me tornei mãe para “educar” ninguém e muito menos dizer o que é certo a se fazer nessa vida – já que eu mesma estou perdida nessa bagaça.

Coloquei filho no mundo para trocar ideia.

E como tem sido bom esse escambo com eles…

 

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PT? Tem certeza?

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O título dessa postagem é a frase que tenho ouvido com grande frequência depois de ter anunciado a minha filiação ao maior partido de esquerda da América Latina. Mais preocupante do que essa pergunta é o questionamento se eu quero mesmo entrar “para esse meio imundo que é a política”.

No que pese meu reconhecimento aos erros cometidos por vários políticos do PT, pergunto-me, sobretudo, se seria possível viver sem tropeçar e se há, para além do sonho e da utopia, alguma instituição ou um ser humano digno que só tenha acertado em sua história.

Ouvir que o PT  “institucionalizou a corrupção no país” causa uma certa dor. Fico incomodada não por acreditar nisso, mas por perceber o quanto as pessoas ignoram tudo o que o partido fez como, por exemplo, as medidas efetivas para combater a corrupção e as suas causas. Houve nos governos do PT um fortalecimento, sem precedentes na história, das instituições de controle da administração estatal e a promoção intensa a transparência da gestão pública.

E isso não é coisa minha movida pela cegueira que a esperança nos gera. Os próprios procuradores da Lava Jato já reconhecem que foram as políticas criadas pelo PT que permitiram o combate mais duro à corrupção. Ilusão é achar que a Lava Jato teria acontecido em outros governos como do PSDB. Se acreditam que nessa época não havia corrupção era porque imperava o acobertamento dos ilícitos nos gerando a falsa sensação de que não estávamos sendo roubados.

Depois que Lula me ligou por conta de um texto que havia escrito, muita coisa mudou em minha vida. Recebi convites para participar de várias plenárias, reuniões, conhecer melhor os movimentos sociais e até o acampamento do MST. Uma coisa ficou ainda mais certa na minha cabeça desde então: quem diz que na política só há corruptos é por pura ignorância, tomada aqui no sentido real da palavra, por “ignorar” tantas outras histórias e a luta de uma infinidade de gente séria do meio. A verdade não se encontra na televisão e na mídia que é financiada por empresários, vale sempre lembrar.

Esse sentimento de querer distância de política é extremamente perigoso. Quem não gosta de política, já dizia o próprio Lula, paga o preço por ser governado por quem dela se tira muito proveito. Ver jovens sem vontade de se envolver politicamente com causas sociais faz soar em mim um alarme de perigo. Creio que isso dificulta ou quiçá impede uma solução para nossos reais problemas, pois dá mais abertura, como podemos testemunhar, para que políticos que não respeitam a democracia encontrem saídas autoritárias para a crise que envolvem políticas neoliberais aliadas aos interesses do grande capital.

A minha filiação se dá nesse cenário pós-golpe quando vi a soberania popular sendo “subtraída em tenebrosas transações”. O governo que aí está  – e que não seria eleito pelo povo – implementa medidas anti-sociais que terão um efeito longo e devastador principalmente nos campos do meio ambiente, da previdência, da saúde e da educação. Vi a retirada da credibilidade do voto e da política. O barco não está à deriva e sim sob o comando de um grupo guiado por uma mídia oligopolizada, juízes partidarizados e pelo capital.

Todas essas reformas que foram e estão sendo votadas buscam implantar um novo regime, com menos gastos na área social e fortes ataques a direitos conquistados a duras penas pelos trabalhadores, piorando muito as condições de trabalho e tornando aposentadoria do povo brasileiro um sonho.

Não há na história mundial uma superação a algo parecido do que está acontecendo em nosso país sem luta e sem resistência. Ou melhor, sem a retomada de confiança na força da democracia. A minha filiação se dá por acreditar nessa força e por ver políticos sérios combaterem bravamente essa agenda montada para tirar direitos e favorecer ainda mais aos setores rentistas.

Acompanhar tudo isso de perto fez com que eu quisesse participar de forma mais eficaz dessa luta. Quero ajudar a construir não somente dentro do PT mas junto com movimentos sociais, forças progressistas e também com outros partidos de esquerda e centro esquerda uma nova agenda para o Brasil que seja capaz de apontar um rumo para o desenvolvimento com redução da desigualdade. Percebo o grande obstáculo e o tamanho da dificuldade a ser enfrentada. Mas sei que as barreiras não se eternizam se fizermos por onde – e sei também que elas irão se fortalecer se não nos unirmos.

Respondendo a pergunta inicial: sim. PT. Tenho certeza. Como professora percebo que o PT é o meu lugar pois, tal como Madureira, é “cercado de luta e suor e esperança num mundo melhor”. Na Educação que é a minha área, vi somente nos governos do PT a criação de 18 universidades públicas e o orçamento do Ministério da Educação passar de 18 bilhões, em 2002, para 115,7 bilhões, em 2014.  Além disso, mais de um milhão de alunos tiveram acesso a bolsas integrais e parciais de estudos do Programa Universidade para Todos (Prouni) e quase três milhões de alunos se matricularam em universidades por meio do Sistema de Seleção Unificado (Sisu), em 2015. O número de escolas técnicas passou de 11, durante o governo FHC, para 420 unidades! E mais de 12 milhões de jovens foram matriculados no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Foi bonito acompanhar tudo isso.

Finalizando: a filiação ao partido que nasceu no mesmo dia que eu (10 de fevereiro) acontecer no subúrbio carioca, na quadra do Império Serrano, em Madureira, bairro em que moro há mais de quarenta anos, tem uma simbologia imensa em minha vida. Receber a benção de meu presidente nesse dia será uma honra e tanto.

Não tem como não dar samba tudo isso, gente.

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O que temos por enquanto…

 

Eu não tenho secretária, não tenho agente literário, não tenho assessor de imprensa, personal-qualquer-coisa, tenho nada. Tudo que vocês veem de Elika Takimoto por aí (palestras, entrevistas, livros…) foi conseguido única e exclusivamente através de mim mesma.

Sim. É uma loucura. E veja como as coisas acontecem aqui:

Há anos escrevo. Há anos tento publicar meus livros. Há anos bato em portas de editoras com meus exemplares e, depois de meses de expectativa e ansiedade, recebo um “não” bem redondo dado com educação.

Esse ano resolvi publicar dois livros de forma independente: “Tenso, logo escrito” e “Filhosofia”. O primeiro já está sendo vendido pela Amazon versão digital e impressa e também é possível comprar diretamente comigo via e-mail. O segundo está rolando o crowfunding dele no site do kickante como muitos já sabem.

Não é fácil. Nada fácil. Para vocês terem uma ideia, escritores amadores como eu me considero, investi quase dez mil reais para que o “Tenso, logo escrito” fosse publicado. Nesse valor, está incluído capa, revisão, formatação e mais a impressão de 300 exemplares para o lançamento dele que eu, por ser sozinha, ainda não consegui organizar já que…

aconteceram também, neste ano, três grandes coisas na minha vida:

1- recebi o convite de uma das maiores editoras do Brasil (Editora do Brasil) para publicar o meu livro “Como enlouquecer seu professor de física” que é um, modéstia à parte, puta livro de filosofia da ciência para todas as idades fruto de anos de pesquisa do meu doutorado.

2- recebi o convite da editora Autografia que lançou o selo “subúrbio editorial” para publicar, juntamente com outros livros de outros suburbanos, dentre eles o maravilhoso (sigam! sigam!) Leandro Leal, um livro meu que será lançado na Bienal, em setembro. Acreditando na visibilidade do projeto e por ver a necessidade da representatividade da arte de nós, suburbanos, nasceu o “Beleza Suburbana”, um livro de crônicas minhas sobre beleza de forma geral focando nas relações entre seres humanos.

3 – Isaac no Mundo das Partículas, meu livro de física de partículas para criança ilustrado pelo gênio Sergio Ricciuto virou, antes de ser livro publicado, uma peça de teatro. Ele ganhou – dentre mais de sei lá quantos mil projetos – o patrocínio da Oi Futuro e, em janeiro, a peça estreia como um mega musical de rock para crianças, jovens e adultos. Contei para essa façanha com a ajuda de profissionais de peso na área: Joana Lebreiro e Camila Vidal. Isso fez com que eu, cansada de esperar, resolvesse também publicá-lo de forma independente e, em janeiro, “Isaac no Mundo das Partículas”, o livro, será lançado juntamente com a peça . Antes disso, também será vendido pela Amazon na versão e-book e impressa.

O que temos, então? Pasmem. Cinco livros sendo lançados esse semestre!

Várias pessoas já falaram que eu estou concorrendo comigo mesma, e perdendo dinheiro e preciso de um planejamento para tantos lançamentos. Paciência. Dinheiro não é a prioridade aqui.

Escritores normais lançam um livro por ano, ou a cada dois ou cinco anos e ficam trabalhando na publicidade dele. Eu não. Espero mais de 40 anos para publicar cinco livros em um só semestre.

Não estou pedindo ajuda para me organizar porque não há nem nunca houve planejamento na minha vida para nada e não vai ser agora que vou conseguir com essa ansiedade toda. É muito tempo chocando esses ovos aqui. Quando filho nasce, não dá para esperar meses e anos para mostrar para os amigos. Era para ter nascido somente dois. Vieram quíntuplos, não tenho culpa. E estou mega feliz!

Então, para os interessados, segue o que temos e teremos, em ordem de publicação:

1- História da Fisica na Sala de Aula – um livro fruto do meu mestrado onde narro várias histórias interessantes sobre a física que nunca ninguém havia me contado (Editora Livraria da Física). Está sendo vendido em várias livrarias onlines.

2 – Minha Vida é um Blog Aberto – vencedor do Prêmio Saraiva de Literatura na categoria crônicas. Vendido em várias editoras onlines e, por e-mail, você consegue o livro autografado (elikatakimoto@gmail.com).

3 – Tenso, logo escrito – um livro de crônicas mais introspectivas escritas mediante muito sofrimento e solidão. Acho, sinceramente, que ele está lindo. Está sendo vendido pela Amazon e por e-mail (elikatakimoto@gmail.com)

4 – Beleza Suburbana – livro de crônicas, como já dito, sobre a beleza da comunicação e das relações entre nós, seres humanos. A orelha desse livro foi escrita por uma pessoa que transpira talento e que tive a sorte e a honra de tê-lo como meu amigo este ano: Ricardo Garcia, vulgo Pipo da Cia de comédia Os Melhores do Mundo. Razei. Lançamento na Bienal no dia 03 de setembro.

5 – Como enlouquecer seu professor de física – a previsão é que a venda comece em setembro. Acho, sinceramente, esse livro uma obra-prima pois foi fruto de anos e anos de pesquisa de conteúdo e linguagem.

6 – Filhosofia – quer me ajudar a publicar esse e, de quebra, garantir seu exemplar? O livro é uma coletânea de crônicas mega divertidas com meus três filhos e mais algumas divagações minha sobre maternidade. Prefácio de nada menos que Xico Sá e orelha de Rita Lisauskas. Razei nessa, gente! Tá uma perolazinha.

https://www.kickante.com.br/cam…/filhosofia-o-livro-da-elika

7 – Isaac no Mundo das Partículas – em breve, disponível na Amazon. Lançamento, no Rio, em janeiro juntamente com a peça. Garanto que não tem nada que se equipare no mercado porque, antes de decidir escrevê-lo, fiz um curso de física de partículas lá no CERN, o maior laboratório de física do mundo, e pesquisei demais sobre o tema para as crianças. Achei tudo tão ruim, tão técnico e chato que resolvi fazer um para Yuki que amou, interagiu muito com a obra e chorou rios quando o livro terminou.

É isso, gente. Por enquanto. Estou escrevendo mais três aqui ao mesmo tempo fora outros que tenho para lançar já prontos.

Obrigada pelo apoio nessa empreitada a todos que me seguem e me acompanham por aqui.

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Massagem Tântrica. Minha amiga fez.

Borboleta

Tenho uma amiga que fez massagem tântrica pela primeira vez e veio me contar os detalhes que, na medida do possível, vou narrar para vocês.

Há gerações de todas as épocas por aqui. Temos os últimos héteros do planeta, os avós do tempo da televisão preto e branco, a galera que jogou Atari, os que faziam piada homofóbica (mas que agora já sabem que isso não é legal), os que viveram a adolescência sem celular e viram o clipe We are the World várias vezes, as meninas que foram educadas para casarem virgens e casaram mesmo, a outra geração (a minha) que dava escondido dos pais, o povo do Goku e todos os LGBTs e os sem-gênero-poliamor-beijo-triplo.

Essa minha amiga é dessas que só recebem elogios agora com “ona” no final da palavra. Tá lindona! Gostosona! Bonitona! Que quarentona! Ou seja, do meu time que pulava elástico na hora do recreio.

Foi educada para casar virgem, sentar de pernas cruzadas, viu incessantemente filmes da Disney onde felicidade era ter macho rico, não podia falar palavrão, fez balé na infância, brincava de fazer comidinha e jamais foi estimulada a se masturbar na adolescência e, quando adulta, achava isso mega estranho quiçá engraçado. Ficou casada por muito tempo, abriu mão de uma série de coisas para cuidar da família e separou-se como eu há pouco e, na mesma vibe que a minha, está querendo se tatuar, rebolar até o chão, sair com médico cubano, fumar charuto de médico cubano e mais essas coisas super radicais para nós, as bobonas.

Arrumar namorado está tenso para ela. Eu não. Tô super deboa aqui. Mas ela tá péssima porque está se sentindo insegura já que o corpo tá todo mole, as muxiba pendurada, barrigão protuso essas coisas que só um cirurgião para dar jeito ou uma boa terapia que, mesmo fazendo por dez anos, jamais chegaria perto dessas empoderadas que posam lindamente de lingerie com o corpo todo convexo.

Nós não. Nós temos problemas. Quer dizer. Ela. A minha amiga. Eu não. Eu tô deboa aqui. Só observo. E sei que por mais feministas que todas sejamos, ter visto o primeiro elenco do Sítio do Pica Pau Amarelo tem lá seu peso em nossas vidas. Fomos muito castradas, colocaram-nos muitos medos, temos travas, traumas, vergonhas que nos imobilizam. Mas minha amiga hoje resolveu vencer uma barreira e, desde que eu garantisse o anonimato, deixou-me contar sua experiência.

A desculpa era que queria se conhecer melhor. Saber os limites do corpo. Mas isso é conversa para boi dormir de quem parte para uma massagem que termina nos genitais.

Quem narra, vale observar, sou eu. E antes que me venham com “noooossaaa olha ela com tanto preconceito”, já adianto que tudo aqui é pós conceito depois de tê-la ouvido. “Ah mas você não ouviu todos e não é bem assim.” Ok. Você está certo. Massagem tântrica faz sua alma levitar. Agora deixe-me contar minha história. Quer dizer, da minha amiga.

– E aí, amiga, foi legal? Eles fazem aquilo tudo mesmo? Você gostou? Gozou? É sexo? Qual a diferença? – perguntei curiosa.

– Miga, foi uma merda. A pior experiência da minha vida. Paguei quase quatrocentos reais e chorei como uma bezerra desmamada ao final.

– Não gozou?

– Cinco vezes. Mas foi triste. Muito triste. Nunca pensei que em um orgasmo coubesse tanta tristeza.

– Miga, foram cinco!

– De que adianta? Gozaria muito mais até! se ele continuasse com a mão ali daquele jeito. E é mega diferente. O corpo treme todo. Profundo o orgasmo. Impressionante. E as, chamemos assim, preliminares são uma delícia. Carinho no corpo todo de forma bem suave.

– Mas ele te penetrou?

– Que nada! Nem beijo esses massagistas dão! Só carinho mesmo com as mãos. Quase duas horas ali naquela situação deprimente.

– Mas cinco orgasmos em duas horas é uma puta depressão que taaí eu queria…

– Os orgasmos vieram ao final. Na última meia hora. Acho. E foram intensos. Acho que se colocasse uma lâmpada de 700W ali na minha buça na hora acendia.

– E por que ficou triste? Por que não comemorou?

– Porque paguei para mexerem em mim. Isso é terrível. É o cúmulo da solidão. Por que nenhum homem teve tanta paciência comigo antes? Por que todos não se preocuparam em arrancar de mim tudo isso? O massagista estava tranquilo. Como assim não ficou excitado? Quer coisa mais estimulante do que ver o parceiro em êxtase? Nunca chorei tanto na minha vida. Me vesti chorando e falando tudo isso que me vinha à cabeça. Deixei o cara lá cheirando incenso naquela meia luz com aquela música com fundo de água de cachoeira.

– Miga, se você queria sexo tinha que pagar um puto e não um massagista!

– E eu sou lá mulher de pagar prostituto? Deve vir cheio de super gonorreia.

– Mas o massagista é profissional. Deve fazer isso várias vezes por dia. Não dá para ter romance mesmo.

– Olha só. Vê se isso não é triste. Várias pessoas procurando profissionais para fazer isso com elas. Não podiam apresentar umas para as outras pelo menos? Mandar a gente fazer um cadastro para ver o parceiro ideal. Tipo Isso? Qual a dificuldade?

– Miga, é casa de massagem tântrica e não casa de swing! Vai em uma dessas então!

– E eu sou lá mulher de ir nesses lugares? Imagina a vergonha. Igual meu terapeuta.

– Igual como? Não entendi.

– Ele fica uma hora me ouvindo. A coisa mais linda de se ver. Beijar que é bom nada.

– Miga, esquece tudo isso. Faça igual a mim. Desiste. Vai andar de skate.

– Tem professor?

– Tem. Ótimo. Em uma aula você já consegue andar.

– Bonito?

– Larga mão que vi primeiro.

Rimos muito.

Depois choramos.

Não narrei aqui como foi para ela estranho ter que se deitar totalmente nua em um colchonete com o cara sentado esperando. Ela não tinha mãos para esconder o que considera ser tão feio nela e esperava que, ao menos, ele a ajudasse a se despir. E cheirasse seu cabelo. No mais, ela me falou que tinha imagens de Buda na parede, um tal de Osho, elefantes vestidos, Jesus que é bom nada. Palavras dela. Não minhas. Dela.

– Miga, eu te entendo. Sei que essa vontade de amar e ser amada grita em nós que vimos Lagoa Azul várias vezes nas sessões da tarde. Mas, sei lá. Parece tão inútil nos esforçarmos… e depois, tem o outro lado: nada fazemos e o amor se rende aos nossos pés e o dispensamos.

Os sentimentos são uma caixinha de surpresas. Nunca surgem de uma caridade mendigada ou uma compaixão. Quase sempre amamos a quem nos ama de forma estranha e desprezamos quem melhor nos quer.

Assim, percebi por tanto sofrer, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho: o de aprender alguma coisa – não com a experiência porque ela não vai nos servir de nada para as próximas. Quiçá atrapalhe porque nos enche de medos, traumas e preconceitos. Digo aprender algo para nós a ponto de mudarmos e ocuparmos a nossa cabeça. Por isso vivo estudando, lendo, escrevendo. Só por causa da sofrência. Tem nada a ver com vontade de conhecer não. É necessidade de não pensar no mozão. Com o mozão perto quero ler é nada.

– Mas você vive pensando nessas coisas também, Elika. Nem vem. Outro dia foi no acampamento do MST e com tanta coisa para perguntar a primeira pergunta foi onde e como eles faziam sexo.

– Mas não tinha paredes! Miga, abafa essa história. Foco aqui. Outro dia, estava entrando em um túnel e vi uma borboleta grande, amarela, toda imponente voando atordoada para dentro daquela escuridão. Fiquei olhando para o retrovisor até onde consegui acompanhar. Não sei se ela saiu. Fiquei agoniada. De que adiantou tanta libertação e transformação quando rasgou o casulo se foi para ficar eternamente procurando sair de um lugar tenebroso? Antes continuasse com aquela vida de lagarta comendo folha. Se virou borboleta, miga, não entre nesse túnel de achar que a vida é só amar e ser amado. O amor, dizem os mais novos, é uma construção social. A gente aprendeu a romantizar isso de um homem, uma mulher e paixão intensa. Mas, pelo que me contam há felicidade em outras formas de se relacionar.

– Você já fez algo diferente? Você sai por aí se aventurando?

– Não. Tô esperando meu Mozão que nunca tem tempo para mim e que mal fala comigo vir me ver. Mora em Brasília ele. Diz que me ama loucamente. É um lindo, estou super apaixonada. Outro dia…

E assim ficamos horas conversando sem sequer concluir nada. Há pessoas que acham que o amor só vive pelo sofrimento e cessa com a felicidade. Porque o amor feliz, dizem, é a perfeição dos mais belos sonhos, e tudo que é perfeito é o fim. Ou seja, a alegria pode estar na luta, na tentativa, nas dores envolvidas e não na vitória propriamente dita. Fico lendo essas bobagens e tentando me convencer também de alguma coisa para acalmar meu coração…

Pelo sim pelo não, peguei a referência do massagista. Mas nunca fui em nenhum não. Só a minha amiga. Eu tô deboa aqui. Só contando o que ouvi.

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Você decide.

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Tenho algo aqui para vocês.

Fernando havia recebido o resultado dos exames. Estava com câncer avançado no pulmão.

Voltou para casa decidido a não contar nada para a esposa, para os filhos e para a amante. Sua consciência pesava por não ter vivido como queria e por ter postergado tanto a felicidade. Ficara muito tempo em rede social, não fez os cursos que planejou, não viajou com os filhos para mudar de casa, brigou com amigos por causa do Aécio e não experimentou um ménage que tanto sonhara. E agora? O que fazer?

Resolveu ligar para um amigo e lamentar-se de suas escolhas – mal sabendo que o livre arbítrio é uma grande ilusão segundo muitos estudados no assunto.

Caio o atendeu em sua casa. Depois de tudo explicado e muitas lágrimas roladas, Fernando confessou que esperava um milagre.

– Cara, eu fiz uma promessa assim que saí daquela maldita clínica. Se essa porra sumir de mim, eu paro de beber e termino com a Dri.

Dri era a amante.

Caio ficou como os que ficam tanto tempo pensando em uma jogada de xadrez que não lembrava mais sequer de quem era a vez. Não sabia se falava algo ou continuava ouvindo. Na dúvida, não disse nada:

– Vai dar tudo certo, Fernando.

Enquanto Fernando fumava olhando ansioso e triste para o zero, seu celular tocou. Era seu médico chamando.

– Alô, Fernando. Doutor Maurício aqui. É para dizer que houve um grande engano. A minha secretária trocou os envelopes. Seu exame está em minhas mãos. Você não tem nada. Por favor, traga esses que estão com você para eu fazer a troca. Me desculpe por isso. Quando chegar aqui eu te explico melhor e deixo você me xingar à vontade. Foi um grande erro. Mil perdões.

Fernando desligou.

Estava atônito.

– Isso foi um milagre? Devo cumprir a promessa, Caio?

Caio estava como os que acabaram de perder os direitos trabalhistas em 2017.

– Eu não sei, Fernando, o que isso significa. Não estou conseguindo pensar. Acho que temos que comemorar! Você não tem câncer e vai viver muito!

– Comemorar sem beber? Viver sem a Dri? Caio, isso foi ou não um milagre? Preciso saber!

– Cara, vamos pensar. – ponderou o amigo. – Seria se você estivesse com câncer e fosse curado. Você não tem nada. Foi um erro gigantesco do seu médico! Isso sim!

– Mas será que se eu beber e continuar com a Dri eu posso ser castigado?

Nunca na vida Fernando teve tanta dúvida sobre como agir.

Caio pensou muito.

– O negócio é ver se o verdadeiro doente se cura então, Fernando.

É mesmo. Havia uma pessoa que ia morrer e eles ali felizes. Diabo de gente pequena que nós somos…

– Doutor Maurício, sou eu Fernando. Como é o paciente que está com câncer? Ele é casado? Tem filhos?

– É um senhor de quase 90 anos e viúvo.

Pronto. Bateu desespero. Uma pessoa dessa idade não iria ter força para lutar contra essa doença e não haveria necessidade de um milagre.

Fernando, por medo, acabou entregando tudo o que mais lhe dava alegria – a cerveja com os amigos e o tesão com a amante – em troca de uma vida insossa com uma mulher que não mais amava que só não havia antes se separado por conta dos filhos que já estavam grandes agora.

Que sentido daria a sua vida depois dessa?

Nesse momento, galera, eu me sinto Deus. Criei um personagem e posso dar a ele o destino que eu quiser e ainda por cima, criar uma moral para essa história toda que inventei sentada da minha poltrona recém comprada. Mas não. Vou dar a Fernando três finais para vocês escolherem e que lhe dirão muito sobre o que vocês são.

Final 1:

Fernando considerou seriamente esse sinal do além. Cumpriria a promessa porque com santo não se brinca. Chegaria em casa, proporia um ménage com Rita que aceitaria de pronto. Se inscreveria em corridas de rua e partiria imediatamente com toda a família para conhecerem o Nordeste dando graças a deus por ter lhe dado uma nova chance e reconhecer a tempo o quanto estava no caminho errado. Pensaria em Dri todas as noites e nunca mais sobrou dinheiro para ele e a família conhecerem outro lugar.

Final 2:

Fernando poderia se tocar que sempre foi ateu e que foi tudo uma força de expressão. Que não existem santos e a sua promessa foi apenas retórica. Saiu para beber com seu amigo Caio, propôs o Ménage à Rita que recusou ofendida e teve com a Dri o melhor dos gozos. Passou a ir com os filhos ao cinema. Por vias das dúvidas, começou a fazer exercícios físicos e cortou a carne vermelha durante a semana, ao menos. Sua esposa exalava infelicidade.

Final 3:

Fernando sem ter ideia sobre o que fazer, sem conseguir se decidir se aquilo foi ou não um milagre já que era ateu mas sabe Deus como é isso de não acreditar em nada, voltou para casa andando para pensar. Distraído com seus pensamentos, Fernando não viu que o sinal estava aberto. Foi atropelado. Não morreu. Ficou paraplégico. Fernando fez a mesma promessa caso voltasse a andar.

Não há outro final além desses três para Fernando. O destino dele está agora com vocês.

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Pipo

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Não há como usar sujeito verbo predicado e vírgula porque a gramática não dá conta. Poesia é coisa que requer lua primavera e talento e nada disso se presencia aqui nas tangentes…

Aprendi com o Riobaldo da Diadorim que se falar tudo errado sem rima nem métrica diremos coisas sem pé nem cabeça, mas sentimento é assim mesmo a la Picasso. A gente vai falando ao ritmo de sístole e diástole e os outros vão enxergando o que a alma permite.

Turbuliu tudo no repente de um minuto em que pisquei e fiquei piscada no beijo de Pipo que fez o coração virar fogo – depois de ter sido cinzas.

Ouvido meu gargalhava entretanto. A voz dele não se ouvia enquanto só imaginava o ele tão possível de encostar minha boca as infinitas mais vezes – jamais nunca mais! – sempre para sempre.

Perdi meu bom dormir porque para sonhar é preciso consciência e ficar espairecendo de contentamento virou vício sem consentimento. A mente não mais transladava. Adivinhava coisas por rotacionar em duvidações de quem suspeitava entender não por que se morre mas por que se nasce.

Como é que a alma dá conta de esquecer de tantos reveillons em pleno abril maio junho? O amor é medonho demais? Tem.

Dor que vem quando não se encosta nas ideias.

Mareja tudo.

Pipo não é mais gente e sim sentimento de vontade quando não se vê. Vira susto de grito no meio da escuridão. Existia falta de luz nenhuma, é verdade. Mas não há amortecedor para os trancos da saudade. Mora longe ele de mim.

Todos querendo emprego, sucesso, casamento, saúde, chuva e eu desejando entrar com força no furacão dos hormônimos da dopamina, ocitocina, endorfina me ensina a lidar com essa química por favor.

Religião só uma não dá conta, nenhuma muito menos. Pior que ando órfã de mão de bença para, da platéia, lotada, eu dar um sopro, fazer a cortina se abrir e o ator desfigurinado (Pipo é ator. Ele) falar somente para mim um texto decorado de flor miudinha dessas que só tem na cabeça de quem está louco – para os demais.

Os demais. Os julgadores de nós.

Aqueles que não sentem ou não se sentam grudados no maior amor. E nunca deitam e rolam.

Também. Como  explicar o poder disso que se surge criado gigante destamanho?! E tudo que nasce não é porque já zigoto um dia?

Loucura é achar que a vida é pra ser meio morta.

Pipo não é pessoa para quem o ama. Ele é um lugar. Tipo sombra fresca. Biblioteca. Sorveteira.

Pudim.

Amor que amei e, como Riobaldo, só então acreditei.

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