Sol e celular

Os dias não têm sido fáceis. Não tenho conseguido me concentrar para quase nada e há tempos não escrevo. Daí que hoje eu acordei e havia uma caixa esquisita no meio da sala. Era algo grande, de acrílico que tinha uma porta. Entrei e sentei-me na cadeira que ali estava super acolchoada. Havia um cinto de segurança. Coloquei e imediatamente ouvi uma voz metalizada.

– Preparada?

Eu que nem café da manhã tinha tomado e muito menos me penteado, coisa que não faço há uns quatro meses, lembrando de tudo o que fiz na vida plena de insegurança e de tanta coisa que deu errado nessa caminhada, respondi prontamente como fazem os que chutaram o balde:

– Sim!

Eu havia entrado na cápsula do tempo e fui parar no meu quarto em Madureira em 1990, há exatos 30 anos. O barulho da minha chegada assustou eu mesma com 17 anos que estava sentada lendo Ame e dê Vexame de Roberto Freire.

Nos olhamos. Eu 47 e eu 17. Depois de tudo explicado, eu tive um diálogo sem precedentes na minha vida. E tudo tinha que ser muito rápido porque eu não sabia que horas a cápsula iria partir e eu, 47, estava preocupada em fazer o café para o Yuki, 13.

– Mas que cabelo branco é esse? Por que não pinta?

– Mas, menina, você já tá decidida que não vai casar virgem, já decidiu que nenhum homem vai mudar o seu sobrenome, quer fazer faculdade de física, já implica com a música Minha Namorada de Vinícius arrumando treta com uma galera, ou seja, toda feminista, e está preocupada com o fato de eu pintar ou não o cabelo?

– Mas o que isso tem a ver? Eu vou casar com o Nelson?

– Vai. 

– Ah que felicidade!

– Vai ter três filhos e o primeiro não será dele mas ele lhe chamará de pai.

– Como?

– Não tenho tempo de explicar.

– Vou ser feliz para sempre?

– Com ele? Não. Mas terão 20 anos bem divertidos.

– Ele vai morrer?

– Não. Mas vocês vão se separar.

– Ele vai me deixar?

– Não. Você vai querer viver outras coisas.

– Eu? Você pode estar me confundindo! 

– Tô nada. 

– O Collor vai ficar até quando?

– Vai durar pouco. Calma que Lula vai entrar e vai fazer um monte de coisa.

– Jura? Ele vai conseguir? E o que ele fará?

– O Brasil vai sair do mapa da fome. Essa miséria que você vê todo dia de gente passando fome no Nordeste vai mudar. A população mais pobre vai conseguir entrar nas Universidades, vai ter médico nos confins do Brasil… E nos Estados Unidos teremos um homem negro como presidente.

– Ah que lindo! Jura! Que beleza! Que futuro lindo! Vamos melhorar o mundo! Nem acredito!

– Ih não. Obama vai sair e o PT vai durar uns 13, 14 anos aqui. Depois sai por um duro golpe.

– Golpe? 

– Golpe. 

– Golpe?

– Isso. Golpe.

– E não vai dar para evitar?

– Difícil. Há uma máquina potente endinheirada que vai querer o PT longe. E logo depois teremos o Didi Mocó como presidente, viveremos uma pandemia, não teremos ministro da saúde, as escolas irão fechar, não poderemos velar nossos mortos, o fundamentalismo religioso vai mandar e desmandar no país e o telefone fixo vai acabar.

– O quê? E como a gente vai se comunicar?

– Por celular. E falaremos pouco porque teremos whatsapp. Mandaremos áudio curtos se formos educados e a pessoa responde quando puder.

– Não é melhor ligar?

– Deus me livre. Não. Mensagens curtas e áudios breves.Poderemos fazer chamadas de vídeo.

– Tipo os Jetsons?

– Sim. Tipo isso. 

– Teremos carros voadores?

– Não. Teremos muito engarrafamentos.

– Usaremos capacete para andar nas ruas tipo os astronautas?

– Sim. Algo que o valha. Protegendo o nariz, a boca e os olhos.

– Vou me apaixonar de novo por uma outra pessoa?

– Vai. Mas vai muito. De perder a virgindade de novo. Mas isso depois que o Lula te ligar.

– O Lula vai me ligar?! Por quê?

– Porque você… ih! A máquina vai embora.

– Calma! Me dá uma dica boa! Um bom conselho! O que não devo fazer? O que você me aconselha?

– Aconselho você a, por favor, tome muito cuidado com o…

A cápsula acendeu e tive que entrar rapidamente nela. 

– Com quem? 

– wurfrejfrjgbjkefbg

Eu respondi mas eu não entendi porque a cápsula tem parede anti ruído.

Fui direto para 2050.  A cápsula apareceu dentro de um quarto onde estava eu com 77 anos lendo Guta Jimenez, uma escritora lésbica e surda que ninguém ainda conhece.

Depois de tudo mais ou menos entendido e explicado sobre a minha cápsula do tempo, eu 77 olhou para eu 47:

– Mas que cabelo branco é esse? Por que não raspa logo isso?

– Com que idade você raspou a cabeça?

– Foi uma promessa.

– Promessa? Mas você não acredita nisso!

– Até ter uma neta internada.

– Ela vai morrer?

– Não. Foi só um susto. Yuki (43) quase enfartou quando soube do acidente.

– Filha do Yuki? Meu bebê será pai?

– Sim. 

– E Nara? E Hideo? Pera. Meu deus… Minha mãe e meu pai… 

– …

– Não quero ficar aqui não. Preciso voltar e dar café para o Yuki! Como está o Brasil? Temos carros voadores? Vacina para o covid? Serei presidenta? Quantos livros você já escreveu? Acabou a intervenção no CEFET? As Escolas Públicas melhoraram? O meio ambiente, como está? A violência nas comunidades acabou? Sobrou algum indígena? Você ainda pedala? Haia cumpriu seu papel? Cadê seu celular?

– Aquilo não faz bem não. Agora temos chips debaixo da pele.

– Oi?

A cápsula começou a piscar rápido. Entrei correndo e antes que a porta se fechasse, perguntei para mim:

– O que você me aconselha? O que não posso deixar de fazer? Me fala algo importante!

– Jamais vá para a cama com…, ou melhor: evite ao máximo dormir com o… wrotuerjfgerufe

A porta se fechou no meio da frase e pá. Caí grazadeus na minha sala e vim correndo escrever para vocês o que eu vivi antes que eu me desconcentre de novo pensando em como paramos nessa lama e como sairemos desse caos.


Ilustração feita por Sergio Ricciuto Conte

Sobre o novo Ministro-pastor da Educação

Nunca espero que venha algo bom de qualquer coisa que Bolsonaro esteja envolvido. O quarto nome indicado para ministro da educação é um pastor. Qual o problema ser pastor nesse governo, né? Já deveríamos estar acostumados, afinal, temos a pastora Damares no comando do ministério dos Direitos Humanos e o ministro da justiça. Todos “terrivelmente evangélicos”, termo usado pelo próprio Bolsonaro.

Como professora que sou há uns 25 anos, o meu corpo chega a doer vendo essa pasta sendo alvo de grupos conservadores. Nada contra religião e tudo contra o fundamentalismo religioso regendo as leis e a conduta deste país.

Não vejo discussão alguma sobre a Educação desde que Bolsonaro assumiu. Só me deparo com várias tentativas de atender a essa alucinação coletiva. Não há projeto para educação. A escola de Bolsonaro nunca foi pautada pelo conhecimento e pela competência da pessoa e sim em agradar grupos que o apoiem.

Falei, assim que o pastor Milton Ribeiro foi nomeado, que não importa a religião dele, contanto que não a use para comandar essa pasta essencial para o futuro do país. Mantenho o que disse. Porém, agora, já tenho como traçar um perfil desse pastor depois de ter visto vários vídeos, disponibilizados pelo próprio, sobre seus valores e sua visão de educação. Não trago boas novas, mas é preciso e urgente que elas sejam explicitadas.

Para citar somente três exemplos, o pastor já:

  1.  Justificou o feminicídio: Ele afirmou que um homem de 33 anos que matou uma adolescente de 17 “confundiu paixão com amor”. Ao tentar justificar o feminicídio, o pastor ministro disse que paixão “é louca mesmo”. “Acho que esse homem foi acometido de uma loucura mesmo e confundiu paixão com amor. São coisas totalmente diferentes. Ele, naturalmente movido por paixão, paixão é louca mesmo, ele então entrou, cometeu esse ato louco, marcando a vida dele, marcando a vida de toda família. Triste”, disse.

Vê-se que o pastor nem sequer acompanha a evolução da nossa história. O que motiva homens a matarem mulheres não é o amor, nem a paixão e sim um sentimento de ódio e de propriedade, um sentimento de ter sido contrariado. Não existe “crime passional” e sim feminicídio. Quando se repete a ladainha que se matou por paixão, se induz a condição de atenuante de pena, e dá a entender que estamos falando de algo natural. Não é. É cultural. E essa fala do pastor ajuda a fortalecer essa cultura machista e contribui e muito para que outros crimes aconteçam.

  • Disse que “Quando o pai é ausente dentro da casa, o inimigo ataca. Quando não impõe, essa é a palavra, a direção que a família vai tomar (…) o homem dentro de uma casa, ele aponta o caminho que a família vai”.

Eu poderia trazer dados do IBGE aqui que apontam que as mulheres têm chefiado mais famílias – mesmo quando possuem marido – representando a quase 50% dos casos e poderia mostrar como isso não tem nada a ver com a índole da família baseado em análises feitas e publicadas. Mas não importa porque para o pastor, como ele mesmo disse, o homem é responsável por “apontar o caminho”, dando a entender, obviamente, que o caminho apontado é o da moral.

Se o pastor usasse essa fala para denunciar o abandono paterno, seria um serviço. Mas não há vídeo, por mais que eu tenha procurado, que mostre que o pastor tenha esse tipo de preocupação com quase 6 milhões sem o nome do pai no registro. Também não encontramos nenhuma fala que demonstre um átimo de inquietação com o fato de que a maioria dos domicílios brasileiros tem mulheres negras como responsáveis pelo núcleo familiar. São elas que estão mais sujeitas à maternidade solitária, fruto de uma sociedade machista e de tradição escravocrata.

Que ter pai é importante, todos nós que temos ou deixamos de ter sabemos. O ponto é que a figura paterna tem várias funções relevantes na educação e a presença de um pai dentro de casa não quer dizer que, somente por causa dela, a família terá um norte moral e bom a seguir. O pastor desconsidera dados e a complexidade da sociedade.

  • Falou com todas as letras, pasmem, que: “Não dá para argumentar de igual para igual com criança, senão ela deixa de ser criança. Deve haver rigor, SEVERIDADE. Vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir DOR”. O “ensinamento” está em trecho de uma pregação que pode ser encontrada no canal de vídeos do próprio ministro da educação.

Segundo o pastor-ministro, a “cura” para uma criança não vai ser obtida por métodos “justos e suaves”. “Talvez uma porcentagem muito pequena de criança precoce, superdotada, é que vai entender seu argumento. Deve haver rigor, severidade.”

Ora, senhor pastor, a Educação deve ser usada para combater a violência e, portanto, não devemos usá-la. Mais uma vez, essa fala mostra o quanto o pastor está desatualizado sobre estudos na área da Educação. Para começar a “Educação” não pode ser pensada sozinha e sim juntamente com a saúde, justiça, cultura, esporte, de relações da comunidade e muito mais.

Para além disso, está nos nossos documentos oficiais, como Base Nacional Comum Curricular (BNCC), importantes referências para a Educação como proteção contra a violência.  Entre as que mais se relacionam ao assunto, destaco as seguintes: a de argumentar e promover os direitos humanos (No 7), a  de exercitar a empatia e valorização dos diferentes saberes e identidades (No 9) e o reforço pela autonomia, tomada de decisões com base em princípios democráticos e inclusivos (No 10).

Estudos apontam que até a metade do século XX os castigos físicos e punições corporais (ou não) eram práticas educativas socialmente aceitas e recomendadas, sendo utilizadas como instrumento de disciplina moral, garantia de respeito e obediência  especialmente à figura do pai, que, dentro de uma sociedade machista, foi considerada por tanto tempo como autoridade tanto para a esposa quanto para os filhos.

Se as pessoas considerarem o que o ministro-pastor disse, descartarão um fato apontado por vários especialistas na área que as punições físicas, ameaças, privação de privilégios e afetos não levam a criança a compreender as implicações do que fez. Por outro lado, quando não usamos violência, favorecemos a internalização valores, por propiciarem à criança a compreensão dos motivos que justificam a necessidade da mudança de comportamento, colocando-a como sujeito ativo em seu processo educativo e não como alguém submissa a ele.

Em outras palavras, não faltam livros que mostram que o uso de punições não é considerado eficaz à educação da criança e do adolescente na medida em que produz consequências negativas ao seu desenvolvimento a curto, médio e longo prazo.

A verdadeira autoridade não é violenta. E, se tivermos que usar a violência para sermos ouvidos, falhamos como educadores, pastor. Toma essa verdade.

Lamento profundamente em ter uma pessoa tão retrógrada, primitiva, antiquada, preconceituosa, desatualizada, absoleta e machista comandando uma pasta essencial para um futuro menos injusto.

Seguimos na luta pela cassação dessa chapa porque não há luz no fim do túnel enquanto Bolsonaro estiver presidindo esse país.

O Novo Marco do Saneamento Básico

Para quem perdeu essa última bomba: o Senado Federal aprovou no dia 24 de junho de 2020 o Novo Marco do Saneamento Básico.

Fico aqui me perguntando, é sabido que as empresas privadas costumam adotar política de exclusão de populações mais pobres. Será que veremos algo diferente disso com esse “Novo Marco de saneamento básico”?

Muita gente não sabe, então resolvi me estender um pouco aqui já que esse é um assunto que atinge todas as pessoas. Saneamento básico pode ser entendido como o conjunto de medidas adotadas para garantir a saúde da população, evitando que as pessoas se contaminem e prejudiquem seu bem-estar físico e mental. Dessa maneira, podemos dividir o saneamento básico em 4 vertentes:

  1. Abastecimento de água
  2. Esgotamento sanitário
  3. Manejo das águas pluviais
  4. Resíduos sólidos

No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988 [Lei nº. 11.445/2007] como o conjunto dos serviços, infraestrutura e instalações operacionais para essas quatro vertentes apontadas.

É importante dizer que a garantia de saneamento básico é uma responsabilidade do Estado, em todas as esferas de governo, mas, de acordo com a Lei, cabe aos prefeitos a responsabilidade dos serviços de saneamento básico nos municípios.

Para além disso, a Lei tem como pilares a integralidade, controle social e aplicação de tecnologias para a universalização do saneamento. Isso seria feito estabelecendo funções de gestão para os serviços públicos, como planejamento municipal, estadual e nacional e a regulação dos serviços, que devem ser usados com normas e padrões.

Com isso percebemos, de forma muito fácil, que a Lei garante saneamento para todos.

A pergunta é: por que, então, nossos governantes não colocam a lei em prática? Aguenta aí que respondemos já.

Vamos destrinchar esse “Novo Marco do Saneamento Básico” que, a meu ver, é mais um golpe que a população brasileira, principalmente os mais pobres, levou.

De maneira simplificada o Novo Marco afeta a titularidade dos municípios, privilegiando as empresas privadas. Para isso, o projeto dificulta a celebração de contratos de programa, que garantem que companhias estaduais prestem serviços para os municípios de seu estado. E coloca como obrigatório um chamamento público para verificar se há outros interessados, para além das empresas estatais, na concessão dos serviços. Ou seja, o Novo Marco acaba com a preferência de nossas estatais na concessão de serviços de saneamento básico e abre o setor para o capital privado.

Com a nova lei, uma das mudanças mais significativas é a retirada da autonomia dos estados e municípios do processo de contratação das empresas que distribuirão água para as populações e cuidarão dos resíduos sólidos. Passa a ser obrigatória a abertura de licitação, o que implementa a competição do acesso aos contratos e a inserção massiva de empresas privadas, em detrimento das empresas estatais nos estados, que atendem 70% da população.

No artigo 19 do que foi aprovado, os titulares de serviço público de saneamento básico deverão publicar seus planos de saneamento até dezembro de 2022. Mas, no parágrafo único seguinte diz que serão considerados os planos de saneamento básico os estudos que fundamentem a concessão ou privatização, desde que contenham os requisitos legais necessários.

Está nos documentos disponibilizados pelo governo que, a partir de 2023, esse plano de saneamento básico apresentado será REQUISITO para que municípios de todo o País possam ter acesso a recursos federais do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) para obras e ações do setor. 

Ou seja, se o requisito não for aprovado, não terá direito a nenhum investimento. Quem analisa esses planos de saneamento? O governo federal. O governo de Bolsonaro e Guedes.

SACOU?

Para terminar, outra modificação é que o governo federal coloca a Agência Nacional das Águas como reguladora do sistema de saneamento nos municípios para receber os recursos federais acabando, assim, com a autonomia de cada município.

Agora, vamos trazer o problema para o dia a dia. Aqui no Rio de Janeiro temos a CEDAE, uma empresa pública que, como já sabemos, gera muito lucro e presta serviços para diversos municípios do estado do Rio de Janeiro, com base na lógica de subsídios cruzados.

O subsídio cruzado, para quem não sabe, é um dispositivo que possibilita que municípios com menos recursos tenham acesso aos serviços. 

Pela nova lei, a CEDAE ficaria inviabilizada de atuar em municípios mais pobres, que, por sua vez, não poderão mais firmar esses contratos de programa e terão que abrir licitação para contratar empresas para atuar no setor de saneamento básico.

Mas que empresa, ainda mais sendo privada, terá interesse em atuar em municípios pobres? Que empresa privada se dedicará a lugares em que a arrecadação de capital é baixa? A resposta todos nós já sabemos: nenhuma. E com isso, o povo que até um tempo atrás tinha garantido por lei o direito a saneamento básico fica desprotegido e em meio ao lado mais cruel do capitalismo: manda quem tem dinheiro.

Nos municípios mais privilegiados, por exemplo, certamente haverá uma otimização do contrato de programa. E o superávit que seria gerado na hipótese de contrato de programa tende a ser consumido nesse processo de muita concorrência na licitação. Os municípios deficitários não serão assim mais subsidiados.

Ou seja, a prestação de serviço de forma regionalizada será muito mais difícil, pois essa medida inviabiliza os subsídios cruzados e a população mais carente, certamente, ficará prejudicada. 

A pergunta é: como ficarão esses municípios que dependem dos subsídios cruzados? Em um momento em que os recursos para a saúde estão congelados por vinte anos, ainda temos que lidar com mais essa medida que vem, pelo tudo o que aqui foi considerado, no sentido de aumentar as doenças que um saneamento básico evitaria. É bem possível que jamais teremos investimento no saneamento básico justamente nos municípios cuja população mais precisa.

Não é preciso ir muito longe para perceber o quão excludente é esse tipo de decisão. Quando passamos pela privatização da energia foi preciso que Lula criasse o “Luz Para Todos”, um programa público com recursos públicos, para garantir a universalização da energia elétrica. Tudo isso porque a inciativa privada se negou a iluminar os rincões do país.

Outro exemplo é o estado do Tocantins. Após a privatização da Saneatins, a empresa devolveu ao estado cerca de 78 municípios que eram deficitários, e ficou apenas com o controle de 47 municípios que apresentavam níveis mais altos de rentabilidade.

A ideia de que o Novo Marco do Saneamento Básico é impulsionado pelo interesse do capital se reforça quando descobrimos quem é o relator do PL no senado. o senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), um dos políticos mais ricos do país e acionista da Coca-Cola no Brasil, que consome enorme quantidade de água. Essa gente não dá ponto sem nó e tenta montar uma narrativa complemente surreal para enganar o povo, nos convencer de que nossas estatais de saneamento básico não são capazes de resolver os problemas. O que eles não contam é que a raiz do problema não é a CEDAE ou qualquer outra empresa pública do setor de saneamento básico e sim os gestores, que fazem, de maneira proposital e criminosa uma péssima gestão para justificar a privatização, através do Novo Marco.

O resultado disso é o avanço de doenças derivadas da falta de saneamento, o que por sua vez poderá sobrecarregar a atenção primária do Sistema Único de Saúde, o SUS, fazendo com que os atendimentos aumentem para além da capacidade. E com isso o Brasil, mais uma vez, vai na contramão do que acontece no  mundo. A privatização dos serviços de saneamento e água tem se revelado desastrosa no mundo. Cidades como Buenos Aires, Berlim, Paris e Budapeste são algumas das mais de 300 ao redor do mundo que decidiram retomar o controle sobre seus serviços após os péssimos resultados com a privatização. De 2000 a 2017, foram 900 reestatizações!

Por fim, fica claro que a lei está alinhada com o projeto político neoliberal iniciado no governo Temer e reforçado no atual governo. Se hoje existem pessoas sem saneamento básico, vivendo nos esgotos e sem água potável é graças a direita capitalista que, no lugar de aplicar a Lei e fazer valer a Constituição, prefere abandonar a população mais pobre de forma criminosa, fingindo não ver o problema da falta de saneamento básico e dando como única solução a privatização das empresas estatais. Essa é a resposta para a pergunta que fizemos no início. Isso não resolverá nada, muito pelo contrário.

O saneamento básico em suas mais diversas dimensões como saúde, moradia, meio ambiente e alimentação, deve ser encarado como direito humano, direito de todo cidadão e por conta disso é dever do Estado, e não de empresas privadas, garanti-lo.

Está bem explicitado de que tudo foi feito para favorecer as empresas privadas. É possível acreditar que a iniciativa privada terá interesse de cuidar do saneamento básico dos municípios mais pobres, mesmo eles gerando menos lucros? Por que dificultar a universalização dos serviços? Como vamos garantir o acesso da população nas áreas rurais e das periferias urbanas a esse serviço essencial?

Que espécie de senadores que o Brasil elegeu que permitam que isso aconteça? Que compromisso tem com a nossa soberania? Por que Bolsonaro, esse mesmo que mostrou inúmeras vezes que não se preocupa com a vida das pessoas mais pobres, defende tanto essa privatização?

Água virou uma mercadoria só para quem pode pagar.

A aprovação dessa lei vai representar um aumento significativo da exclusão das pessoas em processo de vulnerabilização, muito maior do que se tem hoje. Há a possibilidade de eu estar errada? Não descarto. Pode ser que Paulo Guedes esteja preocupado com a população mais carente e, por isso, está feliz com esse “novo marco”? Não. Acreditar nisso seria como acreditar que as regiões Norte e Nordeste do Brasil são influenciadas pelo inverno do Hemisfério Norte ou acreditar nos títulos de mestre e doutor de quem anda com Bolsonaro.

Aos diabos com a falsa simetria

Ando sem paciência. Os tempos duros me transformaram em um ser mais árido. Me filiei ao PT no olho do furacão e, na ocasião, até o Lula pediu para eu pensar direito por conta das pedras e bombas (sim bombas, o Instituto Lula chegou a ser alvo de bombas) que estavam tacando. A minha filiação se deu por um ato político de não compactuar com o ataque que o PT sofria.

O tempo passou. Veio Bolsonaro, Queiroz, Covid-19…  E o PT continua sofrendo ataques. Lula estava certíssimo. Não há um dia que não sou xingada e cobrada por estar filiada ao PT.

Para começar, entendo que muitas pessoas tenham suas reservas com um dos maiores partidos de esquerda da América Latina. Claro que entendo.

Só acho curioso que essas mesmas pessoas que fazem cobranças ao PT são as mesmas que se calaram diante casos como o Cartel dos metrôs e trens de São Paulo e Distrito Federal, Mensalão tucano, Máfia do Carlinhos Cachoeira, Aeroporto de Cláudio, JBS, Furnas Centrais Elétricas, Caso Sivam, Caso da Pasta Rosa e muitos outros. Em todos estes casos, há, ao menos, um figurão do PSDB envolvido: Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Azeredo, Beto Richa, Marconi Perillo e Aloysio Nunes entre outros.

Por que será que quando os protagonistas são tucanos os inquéritos são paralisados, juízes arquivam as denúncias e ninguém que exige uma autocrítica do PT reclama?

Descobriu-se uma conta de milhões em nome de José Serra, do PSDB, na Suíça, mas Serra está aí, livre, leve e solto. Sobre Fernando Henrique, tem até um livro para expor o que foi a privataria tucana. Aécio Neves? Preciso de mais de uma hora de vídeo para falar de todas as suas falcatruas.

Mas respondam: quem foi condenado e preso por um apartamento de classe média no Guarujá, no qual nunca passou um dia sequer e cuja posse e propriedade nunca teve? Mais uma: sabendo de todos esses escândalos e muitos outros, qual foi o jornal que dedicou 20 minutos de sua edição à compra por dona Marisa de pedalinho de alumínio, no valor de quatro mil reais, para ela se divertir com os netos?

A mídia que apanha hoje de Bolsonaro foi a mesma que apoiou sem restrições manifestações fascistas, saudando-as como algo legítimo e democrático. Assim como muitos médicos que hoje estão sendo ridicularizados por Bolsonaro foram os mesmos que proferiram xingamentos aos médicos cubanos dizendo que eles não tinham currículo para atuar no Brasil. Vale observar que Cuba ficou mais de dez dias sem registro de mortes por Covid-19.

Não falo isso com felicidade e sim com didática. A colheita está sendo farta e bem dizia nossas avós que o que se planta… Fora isso, não quero correr o risco de esquecer nada e não vou permitir que nem mesmo Bolsonaro me faça passar pano para quem preparou muito bem o solo e regou com cuidado as sementes que cresceram e se transformaram nessa plantação danosa que todos nós estamos vendo: pessoas que invadem hospitais, quebram computadores, gritam com os médicos estimuladas por Bolsonaro, o mesmo que não acreditou nos dados fornecidos pelo Ibama, pelo INPE e pelo IBGE para citar apenas alguns exemplos, esse mesmo ser pede criminosamente para que seus seguidores fiscalizem hospitais. Pessoas que agridem jornalistas, coveiros, cientistas, artistas, terreiros…

Mas “ódio ao PT” tem outra origem. E querer culpar o PT por termos Bolsonaro como presidente tem, para além de covardia, ingenuidade ou burrice mesmo, muito oportunismo.

Ainda que o PT acabe, o ódio ao PT vai continuar existindo porque tem uma essência. Quem odeia o PT não tem esse sentimento pelos erros do PT e sim pelos seus acertos. Ainda que o PT não tivesse cometido nenhuma aliança que mais tarde veio a pagar por isso, o ódio ao PT continuaria existindo porque esse ódio é inato. Ele existe antes do PT surgir como partido. Esse ódio está no DNA da elite brasileira que não suporta o que o PT representa.

Esse pessoal que vestiu a camisa da CBF, foi para rua enforcar bonecos de Dilma e Lula e pregar a volta da ditadura militar não estava nem aí com a corrupção, pois a ditadura militar foi um dos regimes mais corruptos da história do Brasil.

Eles esbravejavam contra as políticas de distribuição de renda do PT, contra as cotas que levam jovens negros da periferia aos bancos das melhores universidades e contra a valorização das trabalhadoras domésticas. Quando eles gritavam que queriam o país de volta e o fim do PT era porque o Brasil estava menos desigual e as regalias e os status (como a de explorar trabalhadoras domésticas e ter filho em universidade) estavam ameaçados.

Observem as variáveis da equação que resultou em “Bolsonaro 2018”, a pessoa que mais representa a estupidez escravocrata, misógina, machista e racista e que nunca negou isso, pelo contrário, usou em sua campanha:

classes altas e médias do Brasil + candidatos da direita moderada = ?

Com só essas variáveis não conseguimos chegar ao resultado “Bolsonaro 2018”, concordam? Vamos colocar mais elementos nessa equação:

classes altas e médias do Brasil + candidatos da direita moderada + mídia oportunista + política perseguidora ao PT + judiciário partidarizado e corrupto…

Com essas outras que acrescentei ainda não conseguimos dar conta da desgraça em que estamos, dado que o sistema é complexo demais. Mas, sem elas, verdade seja dita, encarada e escancarada, nada disso se explica. Podemos colocar também o silêncio de Fernando Henrique e a fuga de Ciro Gomes nessa conta.

Cabe aqui um salve para a mídia que mesmo com Haddad no segundo turno falou em “uma decisão muito difícil”. Nem se fosse Bolsonaro e um sapato essa decisão seria difícil. Ah vá… Essa falsa simetria me irrita, ainda mais feita nos dias de hoje. Sinto-me ofendida quando acham que sou burra e desmemoriada.

Uma frente ampla contra o fascismo é um imperativo para todos os verdadeiros democratas. Mas não vamos nos esquecer que falávamos disso no golpe de 2016 e nas eleições de 2018. O ódio ao PT se explica pelo amor à política de Guedes e ao que Moro representa. Não se iludam: frentes na oposição que perdem mais tempo falando mal do PT do que tentando tirar Bolsonaro (beijo, Ciro!) pretendem continuar com a política de concentração de renda.

Ando sem paciência como disse. Mas, para o azar dos que vêm aqui me xingar, não me falta disposição para explicar.

Barcos nos quintais

Lá se vão não sei quantos dias que estamos vivendo em outro mundo. Muita coisa já passou pelas nossas cabeças e vivemos várias fases. Antes de começar a divagar, vale assinalar que nesse pandemônio há pessoas que estão trabalhando muito como, por exemplo, os profissionais de saúde e outras que ficam procurando o que fazer para não surtar dentro de casa. Pertenço à essa segunda categoria. Não me falta trabalho, não me entendam errado. A carência é de ter um oceano.

Por vezes, começo a preparar algumas aulas (sou professora de física); outras, pego-me orientando meu filho a acordar cedo para não perder a aula (ele, como muitos privilegiados nessa sociedade, está tendo um acompanhamento on-line com seus professores). Conversando com pessoas queridas, percebi muitas exaustas trabalhando em home office. O ponto é que antes havia sentido no que fazíamos. Ando me questionando se ainda há alguma logicidade em agir pensando num futuro como se nada houvesse se transformado radicalmente.

Trabalhar para ganhar dinheiro, juntar e passar férias em algum lugar diferente já é coisa que ninguém mais pensa. Não tem por que acumular dinheiro para além da nossa sobrevivência e para ajudar quem amamos e os mais vulneráveis nesses tempos esquisitos. Se tiver alguém aqui que já tem o básico estiver querendo muito mais do que isso mesmo testemunhando a fragilidade do ser humano nessa conjuntura, creio que essa pessoa não entendeu nada.

Minhas reflexões por aqui têm ido no sentido de imaginar uma nova forma social que substituirá essa ordem mundial liberal-capitalista.

Para além dessas divagações, tenho procurado formas de não enlouquecer. Não basta pensar nos meus privilégios pelo fato de ter comida e uma casa para que eu encontre um equilíbrio e consiga ficar bem. A felicidade ou algo que o valha não chega a mim por saber que existem pessoas em piores condições. Já passei pelas cinco fases das mudanças drásticas (no nosso caso, vivendo um isolamento por conta de uma pandemia em pleno Brasil com Bolsonaro como presidente): negação (não é possível que esse vírus chegou aqui neste momento), raiva (Por que não morre só quem não respeita esse isolamento?), negociação (se eu conseguir ler, vou me esquecer de toda essa desgraça), depressão (Não consigo me concentrar em nada e sou impotente diante dessa catástrofe) e aceitação (vamos ver o que podemos fazer para derrubar Bolsonaro e como iniciar uma revolução digital).

Amyr Klink que cruzou o Atlântico Sul a remo, sozinho, por um barco projetado para esse fim, assim que começou esse período de isolamento chegou a lembrar desse feito e pensou: “É só me meter no barco de novo e ficar lá sozinho como já fiquei por meses navegando no meio do oceano”. Pegou uma garrafa de vinho, boas comidinhas e se trancou na sua nau que estava em seu quintal. Ao contrário do que aconteceu no mar, Amyr quase enlouqueceu. Não aguentou ficar nem por uma hora ali dentro.

A viagem era uma escolha de um estilo de vida e não uma fuga dela.

Por que estou falando disso? Porque sou dessas pessoas anti sociais que a despeito de amar dar aula e de uma roda de samba, sempre tive um prazer fora do comum em ficar em casa lendo, escrevendo e cozinhando. As aglomerações das quais participei eram meu oceano. Agora o barco está no meu quintal e não vejo prazer em estar dentro dele de forma tão forçada. Quando ia a um restaurante perguntava sobre todos os sucos que a casa tinha. Sempre escolhia o de laranja, mas eu gostava de saber quantas opções estava desprezando. Se me dissessem que só vendiam suco de laranja, ficaria incomodada. Certamente perguntaria sobre as variedades dos refrigerantes para me sentir na liberdade da escolha, essa coisa tão suntuosa e luxuosa que é apontar o dedo e dizer “eu prefiro esse”.

A verdade dura é que não retomaremos de onde paramos. Teremos que aprender a viver em um mundo muito mais delicado, fraco, débil, suscetível e repleto de ameaças. Não conseguiremos manter o ritmo, os mesmos valores, a mesma postura, atitude e sonhos diante dessa nova vida. Toda grande mudança implica em dor, perda, crescimento e muita resiliência, prudência, ruminação e cautela.

Interessante pensar que se alguém nos falasse que o mundo iria dar essa bela parada, ninguém acreditaria. Como assim a gente que vive sempre correndo atrás de dinheiro para pagar nossos boletos e mais alguns excessos oferecidos por esse sistema, a gente que pega todo dia engarrafamento, trem e metrô lotados, a gente que estuda para passar de ano e fica apavorado se vai mal em alguma avaliação, a gente que trabalha pensando nas férias, na roupa nova, em trocar de carro… como assim tudo parar ao mesmo tempo não só no nosso país como em várias partes do mundo? Como assim? Não cogitávamos essa possibilidade porque em certa medida alguém nos fez acreditar que a economia não podia parar como se “economia” fosse um ser com vida e, portanto, pudesse vir a óbito.

Daí veio o vírus e fizeram com que acreditássemos que teríamos que fazer uma escolha entre nossa saúde (a (falta de) saúde de cada pessoa passa a ser a minha também) e o vigor, a vitalidade, a robustez da tal da economia. E vieram os comentaristas, os epidemiologistas, os economistas progressistas, os cientistas, os sociólogos, os filósofos e PT, o PSOL o PCdoB, Drauzio Varella e minha mãe dizendo que eu tinha que ficar em casa e que a economia nem gente é para começo de conversa. Depois de ouvir vários especialistas do mundo, percebi que de fato, a economia não é gente e sim um bicho, mais especificamente, um gato – esse animal fluido que se molda em vários recipientes e passa por buracos com diâmetro de uma azeitona. Ela se resolve.

O mundo não vai ficar parado para sempre. E já não está. O mais importante: o ser humano que para, nesse contexto, jamais volta de onde parou. Reaparece transformado, com outra cara, com outra roupa. E é sobre como vamos nos vestir que queria conversar agora.

Não acredito que o conhecimento nos torna mais sábios. Os livros de história não possuem a capacidade de evitar que erros grotescos continuem a acontecer. Seguimos com um mundo que possui em pleno século 21 pessoas escravizadas e outras comprando armas. É possível que saiamos dessa pandemia vendo mais injustiças e sofrimento. Mesmo com todas as informações que tivemos e das previsões certeiras que nos foram apresentadas, vários governos do mundo minimizaram a vida do ser humano para salvar algo que sequer existe sem nós – a tal da economia. Escrevo em um dia que temos aqui no Brasil aproximadamente 35 mil mortos e, ainda assim, com muitas cidades reabrindo o comércio. Não será por falta de conhecimento e nem de informação que essa taxa de letalidade vai disparar. Muito menos foi por falta de alerta que estamos sendo massacrados. Dava tempo de se preparar para passar com menos perdas humanas por essa catástrofe.

Pode ser que tudo piore. Que a pobreza aumente e que muito mais pessoas tenham a vida abreviada por abandono do Estado. Mas deixarei para ser pessimista em um momento melhor da nossa história. Prefiro acreditar que já havia muitas pessoas apontando que o sistema que tínhamos se encontrava em uma séria crise (vide as desigualdades sociais, o racismo, a violência urbana e a deterioração do meio ambiente) e que esta epidemia nos obriga a pensar em uma nova forma de ordem social pois ela só pode ser revertida por meio de uma abordagem coordenada e coletiva.

Ou teremos guerras civis ou seremos forçados a nos organizar através de vários tipos de cooperação internacional e entre nós mesmos para produzir e compartilhar alimentos, recursos financeiros, médicos e psicológicos. Não há como o isolamento terminar de forma pacífica sem solidariedade.

O Estado precisa ser muito mais ativo e proficiente garantindo o mínimo para a sobrevivência de todos os desempregados e passar a fazer coisas ignorando os mecanismos de mercado. Agora a verdade é que vivemos em um mundo viral e, portanto, faz-se urgente reconstruir, dolorosamente, um novo modo de vida.

Não importa se você é um neoliberal e tenha teorias conspiratórias sobre a instalação do comunismo no mundo pelo coronavírus. A sua interpretação social não faz com que a necessidade de sermos solidários para que sobrevivamos daqui para sempre desapareça.

A pandemia é um sistema complexo e impossível de se equacionar. As variáveis são infinitas passando, para citar somente algumas, pela internet, pelo direito, pela organização dos hospitais, pela logística do Estado, pelo clima, pelo capital, pelo vírus, pela bactéria, pelo Trump, pelo Bolsonaro, por George Floyd e Miguel.  Das combinações dessas variáveis, emergem algumas propriedades não previsíveis. A pandemia é uma mistura na qual se combinam processos naturais, econômicos e culturais. Ainda assim sabemos que a única forma de evitarmos a barbárie é estendendo a mão para quem está ao nosso lado.

Para superarmos essa catástrofe, governos precisam lançar medidas que protejam a população da extrema pobreza como a renda básica emergencial que deve ser permanente e universal. Mas percebam: ao fazer isso, o dinheiro cumpre outra função em nossa sociedade. Seu valor passa a ser pela disponibilização de recursos para que tudo, em certa medida, continue funcionando. Assim, o colapso econômico deixa de ser uma ameaça maior que o vírus. Olha aí uma nova ordem social aparecendo, gente.

Há relatos de que os soldados que haviam sido feridos na guerra foram os que conseguiram elaborar suas experiências traumáticas melhor que aqueles que voltavam ilesos – estes últimos ficaram muito mais perturbados depois que retornaram. Talvez, muitas pessoas que estão encarando essa realidade de frente e tendo algumas atitudes como, por exemplo, arrecadando dinheiro para ajudar pessoas que estão mais vulneráveis, confeccionando máscaras e quentinhas,  elaborando material de entretenimento para crianças, jovens e adultos ociosos em casa, fortalecendo as redes de ações solidárias, mobilizando-se em mídias sociais para a conscientização do avanço do fascismo, ouvindo os mais oprimidos e aprendendo com eles, estendendo os ombros de forma metafórica para quem chora e disponibilizando, literalmente, os ouvidos para quem precisa falar, debatendo qualquer coisa de forma exaustiva em reuniões e lives, talvez essas pessoas tenham algum benefício como efeito colateral e sejam menos capazes de esmorecer, render-se, sucumbir a paranoias. Talvez.

Só há um suco e nem de laranja ele é. Só há barcos nos quintais.

Será navegando em um cimento bebendo algo que não pedimos que a mudança que precisamos há de surgir.

Genesis 2020

No princípio, era só na China.

E a coisa era aparentemente sem entendimento e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo.

E disseram: fiquem em casa.

E vimos que ficar em casa era bom e uma luz, pois fazia a curva ser achatada e o sistema de saúde não entrar em colapso. E vimos a praga se alastrar pelo mundo.

Mas muitos chefes de nação se preocuparam com a economia.

E fez-se separação entre a luz e as trevas.

E daí chamamos o covid de pandemia; e vimos a importância do SUS e de um estado forte. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

E disseram os bolsominions: temos a cloroquina, o Brasil não pode parar, isso é coisa de comunista. E morreram mais dez mil. E caiu um ministro da saúde. Moro denunciou Bolsonaro. E caiu o segundo ministro da saúde. Mais de 20 mil mortos. Houve uma expansão no meio das águas, e houve separação entre águas e águas.

E fizeram os bolsominions mais manifestações e assim a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.

E chamaram eles a contaminação do vírus de fakenews, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

E disse Bolsonaro: E daí?.

E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

E disseram eles: A oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, ir passando a boiada, mudando todo o regramento.

E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

E disse ele: Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. É a vida.

E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E disse ele: O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. O cara pula em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada.

E fez o governo Bolsonaro as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua vontade, e todo o réptil da terra conforme a sua necessidade; e viram eles que era rápido e fácil.

E disseram alguns governadores e prefeitos: Façamos o certo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: homem, macho, branco e hétero. E dominemos sobre os negros das favelas, e sobre as mulheres em casa, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o analfabeto sem instrução que se move sobre a terra.

E que o comércio seja reaberto e que não se fale sobre os hospitais lotados, que se mencione sempre a cloroquina, que se manipule o número de óbitos, que tudo se transforme numa conspiração comunista e que não seja paga a renda emergencial.

E viram eles tudo quanto tinha feito, e eis que matar os mais pobres, idosos e vulneráveis era muito fácil; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

E houve manifestações antifacistas com aglomeração pelas capitais e a gente não sabia se ficava triste ou regozijava-se. E foi domingo, o dia sétimo.

Força, Rafaela. É para abraçar com força, Rafaela.

Oi, Rafaela. Aqui quem escreve é sua vizinha do 404. 

Tenho acompanhado um pouco da sua vida, mesmo sem nunca ter te visto.

Sei, por exemplo, que hoje você só comeu arroz no almoço. Sua mãe ameaçou deixar você trancada no quarto se não comesse os legumes e, pelo silêncio da tarde, concluo que você não tenha conseguido obedecer. Estava lavando minha louça quando me assustei com a frequência e a intensidade da voz dela.

Não consegui ouvir a sua resposta e imaginei você olhando para a sua mãe assustada – ou debochada – mas sem nenhum movimento além de continuar comendo somente o arroz.

– VOCÊ NÃO VAI COMER SÓ ARROZ, RAFAELA! RAFAELA, COME O RESTO, RAFAELA! VOCÊ VAI ME ENLOUQUECER, RAFAELA!

Percebi também, e isso me deixou muito angustiada, que você está com muita dificuldade para fazer os trabalhos que a escola tem mandado.

Todas as manhãs, meu vidro treme com a impaciência do seu pai.

– FAZ LOGO ESSA MERDA, RAFAELA!

– COPIA, RAFAELA!

– AINDA NÃO FEZ, RAFAELA!

– VAI FICAR SEM TELEVISÃO DE NOVO, RAFAELA!

Confesso que senti vontade de bater na sua porta para oferecer ajuda mas, por conta do isolamento e por não conhecer vocês, achei prudente me conter aqui.

Sei o quanto é difícil a gente se sentir motivado para ler um livro chato ou fazer uma conta sem necessidade. Quando isso acontece dentro de uma sala de aula, muitas vezes, o professor ou a professora tem mecanismos para tornar o processo menos doloroso e quiçá divertido.

Não sei qual a sua idade mas creio que está chegando na adolescência. Ouvi sua mãe avisando que ia jogar seu violão pela janela quando seu pai pediu para que ela intercedesse no seu processo de aprendizagem à distância.

Queria saber o que você está tocando, Rafaela.  Depois da quarentena, quem sabe, monte uma dupla com Yuki, meu caçula, que passa quase o dia inteiro trancado no quarto gravando e compondo músicas eletrônicas.

Yuki também não está conseguindo fazer muita coisa que tem recebido por e-mail da escola em que estuda. Disse que são chatas demais as listas de exercícios, reclama que sente falta dos amigos e que não consegue se concentrar para ler um parágrafo do texto que indicaram para um trabalho. A escola me disponibilizou até um suporte psicológico para ele.

Para ocupar o tempo, Yuki pediu que eu comprasse cubos mágicos que nem cubos são, Rafaela. No tempo em que era criança, era só um modelo. Comprei cinco diferentes para ele e, em uma semana, ele aprendeu a montar todos e chegou a me explicar as fórmulas para que eu conseguisse também. Era muita coisa. Minha cabeça não deu conta.

Concluí, porém, que ele não estava com um problema psicológico e sim o mundo que está doente.

Me estendi, querida. Eu queria somente te dizer que aprender é algo maravilhoso assim como o arroz de sua mãe e que a sua dificuldade é a regra e não exceção. 

Você, percebo, é muito inteligente, Rafaela. Não grita com seu papai e nem com a sua mamãe, típico de quem tem noção do perigo. Você avalia as conseqüências com a velocidade do seu primo que faz os trabalhos de casa em minutos. Seu pai sempre te lembra de como o Marquinho é sabido, não é verdade? Eu sei. Ouço bem daqui mesmo sem minhas próteses auditivas.

Não fique triste, querida. Estamos vivendo um período que nem os adultos sabem direito o que fazer. E, mesmo sem sermos crianças, protelamos também nossos deveres de casa. É imposto de renda que ainda não fiz, é exercício de agachamento que não vou fazer, é um livro que não consigo terminar, é uma faxina que deixei para amanhã… O futuro, Rafaela, está longe e nunca esteve tão incerto. Não dá ânimo mesmo e a gente sente uma insegurança danada de até tirar o sono.

É normal não conseguir fazer nada com tanta gente indo para o céu e outros que deveriam queimar no fogo do inferno, querida.

Mas entenda, Rafaela. O coronavírus faz a festa em quem não se alimenta direito. Procure jantar bem hoje e saiba que seu papai e sua mamãe estão precisando, mais do que sua obediência, de um forte abraço.

Viver sem isso não está sendo fácil.

Boto fé que você resolve mole, em grande parte, essa questão.

Com carinho

Sua vizinha do andar debaixo.

Institutos Federais e CEFET sob intervenção federal!

Meu nome é Elika Takimoto. Sou professora do CEFET/RJ e tenho algo importante para falar com você. Precisamos estar bem informados nesses tempos esquisitos.

Que a nossa democracia está sob fortes abalos não é uma novidade. Quero apontar, no entanto, a sujeira que está sendo feita em plena pandemia para além de termos um chefe de nação que não valoriza a vida dos brasileiros, um ministro da saúde que é trocado no olho do furacão e atraso do pagamento da renda básica emergencial.

Nesta semana,foram nomeados de forma ILEGAL reitores pró-tempore nos Institutos Federais do Rio Grande do Norte (IFRN) e no de Santa Catarina (IFSC). Acompanhamos – quase sem acreditar – narrativas dolosamente fabricadas por interventores que flertam com movimentos autoritários que tentam macular os processos democráticos vivenciados na Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica.

Preciso observar que o CEFET/RJ, desde Agosto do ano passado, está sob intervenção federal. Foi aberta uma sindicância a qual não tivemos NENHUM acesso. Tomando essa sindicância como base, justificaram a não homologação do nome de Maurício Motta como Diretor Geral que escolhemos de forma democrática como sempre foi feita na história do CEFET/RJ. 

Na ocasião, pedimos socorro e apoio à sociedade alertando que essa medida autoritária não seria pontual já que o CEFET/RJ, pela importância e alcance que tem, sempre foi uma vitrine para as demais instituições educacionais neste Brasil.

No nosso caso, tivemos acesso à tramitação do documento e soubemos – porque é de domínio público – que ele foi entregue no dia 21 de fevereiro deste ano para o fechamento do relatório. Ou seja,  a Sindicância foi finalizada e o relatório colocado no sistema. O documento encontra-se na corregedoria do MEC. O resultado não foi publicado e os interessados, salvo melhor juízo, não possuem acesso ao relatório da sindicância, descumprindo assim o princípio da transparência. 

O silêncio administrativo, assim como a inércia da Administração que envolve esse processo, acarreta prejuízos consideráveis à Instituição, que continua com uma gestão provisória, sem poder traçar os rumos de seu futuro.

Enquanto eles enrolam para nos dar uma resposta, o diretor pró-tempore vai colocando pessoas em funções de direção sem ter legitimidade para isso no CEFET/RJ como podemos testemunhar com as mudanças das direções internas.

O ambiente dentro do CEFET/RJ que sempre foi saudável e propício para nossa produção está árido. Não há como ficarmos felizes sendo vítimas de uma medida anti democrática como essa e lidar com uma “denúncia” sigilosa por tanto tempo. Nunca na minha vida, desde que entrei no CEFET/RJ há mais de dez anos, vi colegas tão desanimados como vejo agora. E bem se sabe da necessidade da tal da felicidade para a realização de bons trabalhos.

Vamos agora ver o que aconteceu no Instituto Federal do Rio Grande do Norte e no Instituto Federal de Santa Catarina. Pretendo explicar para vocês o absurdo disso. Peço atenção e que espalhem essas informações para que a sociedade tome ciência da gravidade dessas medidas.

Mais uma vez, isso não é problema somente do CEFET/RJ e, agora, desses IFs. Se está acontecendo algo desse nível aqui e se a gente não se manifestar, tenha a certeza de que cedo ou tarde, você, de alguma forma, também será atingido. 

É urgente que a sociedade se mobilize para que as leis sejam respeitadas. Esse é o mínimo que pedimos. 

A presente análise que trago agora visa trazer argumentos IRREFUTÁVEIS para as nossas comunidades, com o intuito de rebater argumentos pueris trazidos pelo MEC e seus interventores.  

A Lei 11.892, publicada em  dezembro de 2008, instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e criou os 38 Institutos Federais (IFs) existentes no Brasil e determinou a estrutura organizacional e suas formas de provimento. 

Recentemente, o presidente da república editou a Medida Provisória (MP) de n.º 914, publicada em 24 de dezembro de 2019, que dispôs sobre o processo de escolha dos dirigentes das Universidades Federais, dos Institutos Federais e do Colégio Pedro II, revogando importantes dispositivos de lei, inclusive os que tutelam a escolha dos dirigentes dos IFs. 

No entanto, vejam bem, no art. 11, que estabelece que “o disposto nesta Medida Provisória não se aplica aos processos de consulta cujo edital, em conformidade com a legislação ANTERIOR, tenha sido publicado ANTES da data de entrada em vigor desta Medida Provisória.” 

Essa inflexão nos remete novamente a Lei de 2008 pois é a norma aplicável aos processos de consulta realizados no IFRN e IFSC, visto que as respectivas datas de publicação dos editais se deram ANTES da entrada em vigor da MP. Percebem?

A publicação do Edital do IFRN se deu no dia 13 de setembro de 2019, enquanto a publicação do Edital do IFSC se deu no dia 25 de setembro de 2019. 

Portanto, é absolutamente obrigatória a nomeação dos reitores democraticamente eleitos pelas comunidades do IFRN e do IFSC, como se verifica do arcabouço legal atinente aos processos eleitorais. 

 Não obstante, no que pese a nítida vigência normativa estabelecida, o MEC encaminhou ofícios aos Institutos Federais informando a designação de reitores pro tempore (ou seja, interventores), nos termos da malfadada MP 914/19. 

Vale frisar, da análise dos autos do processo de consulta eleitoral, desde o seu início até a sua homologação, não se verificou NENHUMA irregularidade processual.

Para todo os os lados que analisamos seguindo todas as regras e leis da nossa Constituição, é absolutamente necessária e obrigatória a nomeação dos reitores eleitos por suas respectivas comunidades, nos termos da Lei 11.892/08 e Decreto 6.986/09. 

Mesmo que houvesse qualquer dúvida acerca da aplicação da MP 914/19, como também se colocou à prova, ainda assim, as designações dos interventores seriam nulas de pleno direito, pois a motivação do ato administrativo é viciada e não encontra amparo algum no ordenamento jurídico pátrio. 

Se a motivação do ato é viciada, vincula todo o ato administrativo, tendo como consequência a nulidade dos atos de designação dos interventores. 

Assim, diante dos argumentos expostos, firmamos a convicção de que os atos ministeriais que designaram os interventores no IFRN e no IFSC e também do CEFET/RJ são viciados e merecem reparo judicial imediato. 

Essas pessoas que não tem o menor comprometimento com a Educação neste país estão encontrando nesta pandemia um ambiente confortável para continuar agindo com arbitrariedades antidemocráticas. Qual seria interesse por trás disso?

Vale observar que o interventor nomeado no IFRN é filiado ao PSL.

Essas pessoas afrontam a vontade soberana das nossas comunidades e o ordenamento jurídico brasileiro. 

Não nos calaremos e faremos de tudo para que essa sujeira seja exposta para toda a sociedade. 

Estamos juntos e juntas nessa luta!

O sábio japonês e seu cão

A história que eu vou contar não se passa em uma aldeia isolada no Japão há milênios e sim na década de oitenta em Madureira. O sábio japonês é meu pai.

Isso posto vamos à história real que me deu um grande ensinamento, a dizer, que nem tudo o que a gente aprende nos torna mais inteligentes.

Meu pai veio do Japão com 28 anos sem saber falar nada de português. Aos 30, com um vocabulário limitadíssimo, casou-se com minha mãe e tiveram quatro filhos. Minha mãe – que já foi freira – sempre nos falava que para se comunicar no amor há outras línguas. Eu nunca soube se ela estava sendo romântica ou tarada, mas isso não vem ao caso nessa história. Foco no sábio japonês e seu cão.

Morávamos em um casa em Madureira com um quintal enorme onde havia uma mangueira e um coqueiro. Para proteger a casa, meu pai comprou um cão. Na verdade, era uma cadela toda cheia de pedigree que prometia lealdade e inteligência pela sua raça: collie.

Abre parêntese:

Para quem tem mais ou menos a minha idade, sabe que a raça ficou famosa por conta da série Lassie, uma collie que sempre salvava humanos que por algum motivo entravam em perigo. Até hoje, Lassie é o animal mais famoso do cinema superando com folga o porquinho Baby e a coruja do Harry Potter.

Fecha parêntese.

Para minha infelicidade, colocaram o nome da cachorra de Laika. Digo isso porque me chamo Elika e todos lá de casa viviam trocando o nosso nome a ponto de eu latir quando acertavam. Mas foco no sábio japonês e seu cão.

O sábio japonês tinha várias habilidades, dentre elas, a marcenaria. Assim que Laika chegou, meu pai fez uma casinha de madeira bem parecida com a do Snoopy, pintou de amarelo e finalizou colorindo algumas partes de azul. Ficou uma graça! A gente se divertia só vendo.

Em cima da portinha da casinha, lia-se LaIKA. O “a” minúsculo foi porque meu pai havia se esquecido de colocar o primeiro “A” e, depois, expremeu-o entre o “L” e o “I”.

Nada que estragasse a obra.

Mas meu pai foi além.

Ele resolveu fazer um banheiro do lado de fora da casa, na verdade, bem distante da casinha da Laika porque meu pai é higiênico.

Ele fez uma caixa grande de madeira, pintou também de amarelo, coloriu da mesma forma que na casinha algumas extremidades com o azul e escreveu W.C.. Comprou alguns sacos de areia e tcharã: uma caixa de areia para cachorro. Foi a primeira e única vez que vi isso na minha vida. Achei muito interessante.

Logo de cara eu, lá com meus 6 anos de idade, não entendi por que diabos W.C. significava Banheiro de Cachorro. Quando perguntei para meu pai, ele respondeu que no lugar do “B”, ele havia se enganado e colocado o “W”. Como ele já havia errado o “A” de LaIKA anteriormente, concluí que aqueles erros poderiam ser por causa da falta de familiaridade com o português. Até hoje quando leio W.C., traduzo como banheiro de cachorro como se meu pai tivesse pintado todas as portas de banheiro pelas quais passei.

Foco na história.

Laika inicialmente cagou para a caixa de areia e não NA caixa de areia. Ela corria, brincava por todo aquele quintal e fazia cocô e xixi em um outro cantinho daquele vasto espaço acimentado.

Meu pai, com toda a paciência e sabedoria que trouxe do oriente, sempre que via a Laika fazendo as necessidades dela fora do B.C., esfregava o focinho da Laika no xixi dizendo “não”. Depois corria com ela para a caixa de areia, apontava e dizia: aqui xixi. Aqui cocô.

Como meu pai não ficava muito tempo no quintal, ele pedia para a gente gritar por ele sempre que nós víssemos a Laika se preparar para eliminar as sobras da ração. É muito importante o cachorro saber quem é o dono, dizia meu pai.

Por dias, semanas talvez, vi meu pai esfregando o focinho da Laika e, depois, roçando-o na caixa de areia. Não. Aqui xixi. Aqui cocô.

Nada daquele filhote de collie responder a tamanha dedicação e ensinamento.

Meu pai falava que todo mundo tem seu tempo e que era para a gente respeitar o da Laika.

Eu observava tudo atentamente.

Até que um dia aconteceu.

Laika começou a fazer xixi no cantinho que ela sempre gostava de fazer.

Gritamos “PAI! CORRE!”. Meu pai veio correndo lá de dentro da casa como aqueles que sabem o que querem da vida. Se alguém me contasse, eu não acreditaria. A comunicação entre um animal e um ser humano, de fato, é uma coisa muito doida e linda de se ver.

Eu apreciava tudo com o semblante dos que vivenciam a iminência de um gol.

O olhar da Laika cruzou com o do seu Takimoto.

Milésimos de segundo de tensão.

É agora, pensei.

Imediatamente, Laika esfregou sozinha o focinho no xixi e correu para limpá-lo na caixa de areia.

Fake News: Separando o joio dos tigres.

Já que estou com tempo sobrando, resolvi pensar um pouco aqui sobre as as mazelas do capitalismo e compartilhar com quem quiser me ouvir.

Para analisar a palavrinha da moda expressa quase sempre em inglês, fake news, minha cabeça me levou para os conceitos como liberdade, escolha, verdade, história, jornalismo e ignorância. Não sei até onde terei disposição e capacidade para explanar sobre o que andei lendo e matutando. Há muita coisa me causando estranhamento. Como o significado de fake news está diretamente associado à mentira, aproveitei para lembrar das fraudes, dos embustes, dos engodos, das fantasias, das farsas e trapaças que convivem de forma harmoniosa com tanta gente.

Gostaria de começar a refletir sobre a lenda de que seres humanos pensam de forma livre.

Comecei a suspeitar de que a ‘liberdade’ é uma mentira em que acreditamos. Nós, como seres humanos, gostamos muito dessa “ideia de liberdade”. Mas será que nós somos completamente autônomos como pensamos ser? No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que penso é que esta noção de liberdade é muito mais complexa quanto parece e que pode ser tão real quanto uma miragem no deserto. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre esse ou aquele caminho? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas?

Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito? Cada emoção pode ser associada a processos neurológicos que, por sua vez, podem ser reduzidos a processos bioquímicos que, em última instância, nós não temos controle.

Pesquisando aqui, li que em 2008, em um estudo publicado na Nature com o título Determinantes Inconscientes de Decisões Livres no Cérebro Humano, ficou provado que a decisão começa a ser formada no cérebro até 10 segundos antes dele tomar consciência disso. Ou seja, você se prepara inconscientemente pra fazer algo bem antes de sequer se dar conta que está fazendo isso – e bem antes de realizar o movimento de fato. Outros estudos, dessa vez focados na atividade de cada neurônio em vez do cérebro como um todo, mostraram que as células neurais ficavam ativas antes da decisão de apertar um botão, por exemplo.

Poderia divagar por horas sobre esse conceito de “liberdade”, mas quero colocar outras coisas nesse caldeirão.

O nível da nossa ignorância é assustador. Se perguntarmos para qualquer adulto que seja super escolarizado sobre, por exemplo, o funcionamento do microondas, de onde vem a comida que come ou para onde vai o esgoto e como ele é tratado, tcharã, olha aí a ignorância aparecendo em estado bruto. Para vivermos no mundo moderno, temos que acreditar em muitas histórias que nos contam e desprezar outras tantas. Para tomar um banho e assistir um programa de TV, dependemos de uma rede gigantesca de laços econômicos e políticos. E, se por um acaso, você resolver entender como tudo se dá em sua própria casa, possivelmente, o tempo livre que a quarentena nos disponibiliza não será suficiente.

Agora vamos para o mundo.

Problemas como o aquecimento global, as guerras, a injustiça, as eleições, a fome e o coronavírus, por exemplo, são complexos demais. Devemos nos apegar, caso queiramos entender ou manifestar alguma opinião, a alguma narrativa, teoria ou quiçá liderança política porque precisamos nos livrar da desconforto que sentimos ao ver o quanto não sabemos. Neste sentido, estamos todos muito vulneráveis e nem um pouco livres para fazer escolhas.

Fake News e Pós-verdade são palavras que denotam circunstâncias nas quais fatos objetivos praticamente não importam para moldar a opinião pública e sim apelos à emoção e a crenças pessoais. Sabemos que Trump e Bolsonaro, por exemplo, foram eleitos pela força de uma narrativa mentirosa e, todo dia, somos atingidos por notícias que não têm o menor compromisso com a verdade. Dizem por aí, que estamos na era da pós-verdade, ou seja, da fake news. Não sem motivo, percebemos, tanto em Trump quanto em Bolsonaro, o ataque às universidades e aos sistemas educacionais, típico dos governos autoritários. É necessário diminuir a importância das instituições que poderiam contestar suas ideias.

O que me pergunto é: quando foi que vivemos a era da verdade?

Muitos vivem em um mundo em que, por exemplo, o Walt Disney está congelado esperando o avanço da ciência, Van Gogh arrancou a orelha em um ato de loucura, Galileu provou que a Terra gira em torno do Sol, Julio César disse “até tu, Brutus?”, coca-cola com mentos é uma combinação fatal e que a máquina da medicina trabalha unicamente para que tenhamos mais saúde.

Sinto informar, nada disso é verdade.

Walt Disney virou pó há tempos; foi Gauguin que, em plena discussão, cortou parte do lóbulo esquerdo de Van Gogh com uma espada (e não sua orelha toda); o máximo que Galileu fez, em relação ao movimento do nosso planeta, (o que foi, por si só, grandioso demais) foi mostrar que todas as provas usadas para comprovar que a Terra estava em repouso não tinham o menor fundamento; foi Shakespeare que colocou a indagação “Até tu, Brutus?” na boca de Julio Cesar; coca-cola e mentos fazem muito mal separadamente e juntos não apresentam um mal maior; e quanto à medicina, bem… podemos começar observando que saúde não é inverso de doença, que a doença está nas mãos dos médicos para a cura ou para a morte, que a gente, sempre ou quase sempre, vai ao médico esperando que eles nos receitem algum remédio, que a indústria farmacêutica é uma das que mais lucra no mundo e que nunca na história da humanidade estivemos tão doentes a despeito de termos mais de uma farmácia por quarteirão em grandes centros urbanos, ou seja, há muita informação que não se encaixa nessa narrativa linear de que quanto mais remédios no mundo, mais saudáveis estamos. É claro que não estou negando o poder da ciência e sim expondo algumas observações que considero pertinentes para pensar sobre vários tipos de informações enganosas.

Não há, também, nenhuma comprovação científica em muitas outras histórias consideradas sagradas. Mas não vou falar nada sobre outras possíveis fake news que alteram o comportamento de bilhões de pessoas por milhares de anos. Deixo esses questionamentos pessoais mais polêmicos somente para mim e vou me ater a outras narrativas sem nenhuma validação que mudaram e compõem a nossa história.

Também não pretendo aqui falar da lenda de que ficamos mais inteligentes quando frequentamos escolas ou ficamos muito tempo dentro delas. Basta olhar para o mundo em que temos pessoas que “frequentaram as melhores escolas” nos locais de poder e para nós mesmos. Possíveis conclusões perturbadoras podem aparecer.

Ao longo da história, temos inúmeros exemplos de farsas que circularam entre todas as classes sociais. Vários reis, imperadores e ditadores se beneficiaram das fake news desde o tempo do papiro. A índole de Marco Antonio, amante de Cleópatra, foi atirada no lata do lixo por Otavio, que viria a ser o imperador romano Augusto. Marco Antonio até hoje é visto como referência de um homem mulherengo, fanfarrão e sem nenhuma responsabilidade. Indo do século 4 antes de Cristo direto para as vésperas da Revolução Francesa no século 18, vimos “homens-parágrafo” que ficavam imprimindo fofocas e vendendo para editores como se fossem verdades. José Bonifácio fazia entrevista com ele mesmo, falava o que dava na telha sobre Dom Pedro I e publicava no jornal. Como podemos perceber com poucos exemplos, a frase “Se está em jornal impresso só pode ser verdade” evoluiu para “recebi no whatsapp”.

Em Mein Kampf , Hitler escreveu: “a mais brilhante técnica de propaganda não vai ter sucesso a menos que se leve sempre em consideração um princípio fundamental: ela tem de se limitar a alguns pontos e repeti-los sem parar”. E assim foi feita a lenda da supremacia branca.

Como sempre nos disse a nossa avó e Paul Joseph Goebbels, fundador e líder do Ministério do Esclarecimento e da Propaganda do nazismo: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se realidade”.

Certamente, seguindo os conselhos de Hitler e Goebbels mesmo sem saber, a Rede Globo, por exemplo, fez a conexão por anos a fio sobre um partido político e a corrupção no Brasil fazendo com que pelo menos metade do país acreditasse que o mundo é dicotômico como uma novela: existe o mal (PT) e existe o bem (Sérgio Moro). Da mesma forma, a revista Veja, Isto É, a Folha dentre outros veículos ditos jornalísticos usaram de uma narrativa nitidamente partidária e controversa para fazer as suas matérias com o inegável intuito de mudar o plano político do país.

Daí, fico me lembrando do massacre midiático que tivemos e me perguntando: aquilo também não era fake news?

Podemos também mudar o olhar e ir para o campo das propagandas com as quais somos bombardeados diariamente. Nenhum comercial de cerveja faz a correlação entre violência doméstica e acidentes de trânsito com o consumo de álcool. Num outro sentido, fazem com que acreditemos que uma festa sem muita cerveja não é possível e que o álcool é um caminho para a felicidade assim como já aconteceu com o cigarro um dia. Nutella, por exemplo, que contém em sua composição mais de 20 gramas de açúcar e 11 gramas de gordura por porção foi anunciada como “um elemento saudável para o café da manhã das crianças, além de conter vários benefícios nutricionais”. Activia fez várias campanhas usando as palavras “clinicamente” e ” cientificamente” para comprovar os benefícios do iogurte sendo que nunca houve comprovação científica acerca do benefício do produto. Red Bull não te dá asas, Volkswagen não tem “diesel limpo” e a foto do perfil em sites de relacionamento não corresponde ao que vemos pessoalmente.

Uma fake news (tomada aqui no sentido de que dados objetivos não são levados em consideração para avaliar um fato) muito interessante com a qual muitas pessoas convivem super deboa com ela é a de que quanto maior o número de presídios, mais segurança e menos violência teremos. A verdade é que pessoas envolvidas com drogas são mandadas para um local onde se vende drogas, sofrem muita violência e, após um tempo, são reinseridas na sociedade.

Ainda assim, há quem acredite que esse sistema é o mais eficaz para nos trazer segurança a despeito de todas as provas que apontam o contrário. Mais do que isso: a ideia de que “se está preso é porque coisa boa não é” também é uma mentira que é repetida muitas vezes. É sabido que há muita gente que nem sequer foi julgada está encarcerada. Não faltam exemplos de inocentes que foram soltos depois de terem sido presos durante muito tempo injustamente. A chance de uma pessoa ser solta logo depois de ter sido presa como “traficante de drogas” é quase nula mesmo com os livros de direito repletos de princípios como a presunção da inocência. Qual a consequência disso? No Brasil, em alguns lugares, a quantidade de presos provisórios chega a ultrapassar a dos condenados. E pessoas que portaram uma pequena quantidade de maconha, não raro, ficam confinadas na mesma cela que assassinos.

Por que, então, há uma infinidade de pessoas que acredita que quanto mais se prende, menos violento se torna o mundo mesmo que a realidade nos mostre que isso não é verdade? Nessa esteira, outra mentira que muita gente gosta de ouvir é sobre o “sucesso” de uma operação policial no combate as drogas. Não importa se a violência só tenha aumentado desde que certas drogas foram consideradas ilícitas por pura arbitrariedade de um grupo. O sucesso é medido pela quantidade de droga apreendida desconsiderando por total a quantidade que ingressa no mercado. E assim segue o mundo desde que alguns produtos tiveram a venda proibida.

Aliás… Se mudarmos o ângulo que vemos o problema da guerra às drogas e, no lugar de perguntar por que não liberamos o uso, tentar descobrir por qual motivo o uso de uma planta (considerada medicinal em muitas culturas) foi proibido, chegaremos a um dos maiores exemplos de fake news da história. Temos de tudo nessa trágica novela: interesses políticos, mentiras científicas e vários outros ingredientes que não podem faltar para que uma grande mentira se torne verdade. Essa novela tem início lá pelos idos dos novecentos e grandes protagonistas como Estados Unidos e China. A proibição criou uma ilusão de que há um comércio saudável e outro que nos adoece. Quem decidiu isso e colocou açúcar, por exemplo, como um produto saudável?

Falando em coisa saudável, ou seja, em saúde, e aproveitando que já falamos um pouco de publicidade, pergunto: como a propaganda industrial deforma a mente dos médicos que são submetidos diariamente ao bombardeio dos propagandistas dos laboratórios farmacêuticos? Podemos considerar a possibilidade de quando um médico prescreve um remédio, este ato ser, com uma certa frequência, baseado em forças não relacionadas às propriedades químicas da droga?

Se já está nítido que a indústria de fármacos não tem a ambição de produzir remédios que não sejam lucrativos e não investiga remédios para doenças cujo número de vítimas seja pequeno, em que medida podemos acreditar que os remédios como tranquilizantes estão nos curando?

Para finalizar essa breve reflexão sobre fake news, lembro aqui de uma última que contribuiu para que muitos colegas professores entrassem em depressão. O movimento Escola Sem Partido nascido em 2004 buscou denunciar uma suposta “doutrinação política e ideológica de esquerda por parte dos professores”. O grupo inspirou mais de 60 projetos de lei em câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país. No ano passado, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, lançou um projeto “Escola para Todos” com explícitas influências do Escola sem Partido. No lançamento desta campanha, Weintraub enviou ofícios para todas as secretarias municipais e estaduais de ensino do país, determinando que as instituições de ensino adotem o “pluralismo de ideais e concepções pedagógicas, evitando o que a equipe classifica como propagandas-político-partidárias”. Soma-se a isso, mais uma infinidade de mentiras contadas até mesmo pelo presidente sobre Universidades.

Por óbvio, entendo que há diferenças das “fake news” em todos os exemplos aqui citados. Entendo que há informações falsas que não causam danos nenhum, pelo contrário. O mundo pode ficar mais bonito, interessante e agradável quando propagamos algumas mentiras. Pode ser também que pessoas morram, reis sejam depostos, uma presidenta golpeada e a desigualdades sociais sejam mantidas por anos porque fomos e continuamos sendo ingênuos demais.

Uso isso tudo para refletir o que mudou desde o início do mundo até agora. A ânsia do poder parece ser uma constante na história da humanidade. Se a desinformação sempre foi usada como estratégia política e/ou para aumentar os lucros, o que mudou hoje foi a inserção da tecnologia. Agora temos, para além de pessoas sem nenhum caráter, instrumentos tecnológicos capazes de potencializar o alcance de mensagens enganosas. E nós, deste lado, seres que são bombardeados por uma número excessivo de informação, e cada vez menos capazes de distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é uma mentira criminosa.

Penso que um dos novos papéis que a escola deve desempenhar é buscar, criar e desenvolver ferramentas, juntamente com o corpo docente e discente, sobre como podemos reconhecer discursos e conteúdos falaciosos. Não basta saber ler, é necessário mais do nunca, desenvolver uma leitura crítica. E, ainda que eu entenda que a realidade é complexa demais para ser resumida em um texto, acredito que devemos valorizar e fortalecer os veículos profissionais de comunicação que têm comprometimento com a verdade.

Se tudo vai ser visto como “antes e depois dessa pandemia”, espero que tenhamos pela frente – após tanto isolamento, mortes e dor -, maneiras, instrumentos, metodologias, uma maior capacidade e muito mais paciência para separar o joio dos tigres.

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Referências bibliográficas:

EKMAN, Paul, Telling Lies: Clues to deceit in the Marketplace, politcs and marriage, Norton & Company, 2009

HARARI, Noah Yuval, 21 lições para o século 21, Companhia das Letras, 2018

LANDMANN, Jayme, Medicina não é Saúde, editora Nova Fronteira, 1983

LEBRUN, Gérard, A Filosofia e sua História, Cosacnaify, 2006

POSETTI, Julie e MATTHEWS, Alice, A Short Guide to the History of ‘Fake News’ and Disinformation,  International Center for Journalists (ICFJ), 2018.

VALOIS, Luís Carlos, O Direito Penal da Guerra às Drogas, Editora D´Plácido, 2019.

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A figura que ilustra esse texto foi feita pelo artista Sergio Ricciuto Conte. Essa é uma das várias que ele fez para as minhas palestras.