O coco de Duda

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Hoje fui ler no Aterro. Precisei me desconectar de tudo. Peguei um livro e lá fui eu com uma canga equilibrar meu universo no final da tarde. O local é democrático. Vemos frequentando o parque pessoas de comunidades, desempregados, gente de carteira assinada e empresários.

Perto de mim, havia um grupo de crianças. Uma menina estava há horas tentando subir no coqueiro. Não havia responsável com eles. Do outro lado, havia um pai vestindo um terno, um celular na mão e um filho aprendendo a andar naquele brinquedo que a pessoa fica em pé em cima de uma plataforma motorizada com rodas e, no caso, algumas luzinhas.

De repente, a menina pega o jeito. Grita de felicidade e desata a subir o coqueiro com ajuda de um cinto. Os meninos embaixo em festa dando apoio moral. Ao chegar nas folhas, não se dando por satisfeita, ela começa a balançar um coco com força avisando para saírem debaixo. O coco resiste mas não é de ferro nem imune a tanto foco e vem ao chão.

Ela desce rapidamente como se estivesse executando isso pela enésima vez. A felicidade tem essa mania de fazer a gente se esquecer de que não sabe das coisas.

Ela agarra o coco como se ele fosse um filhote de cachorro dado de presente. Os garotos batem nas costas dela em alvoroço cumprimentando a menina. O garotinho rico no brinquedo assistia a tudo absorto. Estava estático em cima de rodas enquanto o pai resolvia algo importante falando alto no telefone.

–  Eu quero coco! – gritou ele para o pai.

O pai fez shhhh com o dedo pedindo para ele falar baixo.

– Eu quero coco! – insistiu.

– Eu quero coco! – perturbou.

O pai terminou de forma ríspida a ligação e foi comprar um coco logo ali na barraquinha em frente.

Há várias pelo Aterro todo.

– Eu quero aquele coco! – explicou apontando para a menina que segurava a fruta como se fosse o troféu do Oscar.

O pai tinha problemas para resolver, pressa e dinheiro.

Foi até aquelas crianças.

– Quero esse coco. Quanto é? – perguntou para a menina que ficou séria na hora.

– Não estou vendendo. – ela respondeu.

O menino fez cara de choro.

– Dou dez reais – disse o pai.

– Não estou vendendo. – ela repetiu.

O pai tentou se afastar explicando para o filho a situação. O filho não entendeu e fez que ia chorar.

O pai voltou.

– Dou vinte reais – disse o pai.

Os meninos descalços e sem camisa olhavam assustados para a menina que segurava aquele coco como uma gestante acariciando a própria barriga.

– Não estou vendendo meu coco. – ela disse calmamente olhando nos olhos do homem de terno.

A cada vez que ela explicava que o coco não estava sendo vendido, parecia que aumentava a vontade do filho de ter o que não havia preço.

– Pago cinquenta reais – disse o pai impaciente.

Os meninos vociferavam, esbravejaram, estrondearam como se estivessem vendo um jogador dentro da área prestes a fazer um gol.

– Eu disse que ele não está a venda.- falou  a menina com a firmeza de uma mulher dizendo não.

Eu observava a cena como quem lê um livro.

O pai saiu irritado. Menos com a birra do filho e muito mais por ter encarado o olhar da dignidade.

Quando o pai se afastou, eu me aproximei. Descobri que a menina que aprendeu hoje a subir em um coqueiro se chama Duda. Perguntei o motivo de ela não querer vender o coco.

– Quero mostrar para meu avô. Ele veio do nordeste e diz que lá ele sempre subia em coqueiros e pegava cocos. Hoje ele tá velho, minha mãe cuida dele.

– Seu pai trabalha? – perguntei querendo entender mais sobre a Duda.

– Ele trabalha de bicicleta entregando remédio ali perto.

– E sua mãe?

– Ela só cuida do meu avô que não consegue nem mais andar e só fica deitado.- explicou para mim e para os meninos como agem os que amam.

– Vou levar esse coco para ele.- disse com o olhar de quem admira o mar antes de sair correndo para brincar dentro dele.

Takashi keiko kurama, Beth Carvalho

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Eu tenho uma história com a Beth Carvalho que me lembrei agora e gostaria de compartilhar com vocês. Não me orgulho do que irei contar mas, preciso confessar, não me arrependo de nada.

No Teatro Rival, no Centro do Rio, de 15 em 15 dias, às segundas, acontecia o Pagode do Arlindo com vários convidados. Eu, Nelson (meu marido na época) e um grupo de amigos não perdíamos um show sequer. Já tínhamos mesa cativa. Haja amor pelo samba. Chegava em Madureira para lá de meia noite para às sete da manhã no dia seguinte estar em pé dando aula…

Por conta dessa frequência, fomos até chamados para ir no batizado dos filhos do Arlindo. Vejam vocês a simpatia desses sambistas. Onde comem cinco comem duzentos e cinquenta.

Um dia a convidada da noite era Beth Carvalho. Nunca tinha visto a rainha pessoalmente. Que me perdoe a Teresa Cristina que fez um duelo com ela naquela segunda. Beth, mais baixa do que eu, dominou o palco. Fiquei assustada com tamanha energia. Nem consegui sambar. Sentei-me e fiquei boquiaberta admirando tamanha estrela.

Ao final do show, sempre íamos para o camarim dar um tchau para o Arlindo que já nos conhecia. Quando chegamos lá, vi Beth sentada no sofá.

Fiquei eufórica querendo ir até ela, tirar foto, dizer que ela é maravilhosa, tietar, abraçar, cantar um refrão alto, destilar toda o meu contentamento. Essas coisas de quem abre os braços naturalmente diante de uma beleza natural.

Nelson me freou. Disse que pegava mal esse tipo de comportamento naquele ambiente ali cheio de artistas. Os amigos concordaram que eu tinha que ficar quieta e deixá-la em paz.

Aceitei me controlar pelo bem do social.

Depois tive uma ideia.

– Vou lá falar com ela e ela vai se empolgar com o que vou dizer. Não vou fazer feio, podem ficar tranquilos. Vou conversar bonitinha e ela vai ficar super feliz com o que vou dizer.

– Mas o que você vai falar que ela? , perguntou um lá assustado com a minha firmeza.

– Observem, sussurrei para os amigos.

E dito isso, caminhei em direção ao sofá no qual a diva estava sentada. Pedi dálissença porque sou educada perguntando se podia falar dois minutos com ela.

Simpática, Beth Carvalho se mostrou disposta a me ouvir.

Abaixei-me ficando de costas para meus amigos e com os olhos escaneando aquela belezura de cabelos vermelhos.

Meus amigos viram o rosto da madrinha vibrar com o que estava falando. Testemunharam o nascimento do sorriso da Beth ao ouvir minha primeira frase.

Depois, falei mais e ela ficou mais eufórica ainda e desatou a falar a beça comigo super empolgada. Terminado o assunto, demos um abraço. Me coloquei ereta, virei-me e voltei para perto dos amigos que não estavam entendendo nada.

– Mas que diabos você falou para ela?

Antes de continuar, preciso repetir que eu não me orgulho dessa história mas que não me arrependo de nada.

Eu precisava falar que ela era maravilhosa até no Japão.

–  Beth, queria te contar uma. – falei como se fôssemos íntimas – Meus primos no Japão são loucos por você. Acredita que tive que mandar para lá vários CDs seus para eles?

– Menina, os japoneses me adoram! Eu não sei que química é essa que eu tenho com eles! –  Ela disse super feliz e com os olhos brilhando.

– Pois é, Beth. Qual o nome do lugar que você se apresentou lá mesmo?

Não tinha ideia de que ela havia conhecido o Japão. Chutei. Para Beth Carvalho ter falado que tem química com os japas só pode ter sido porque deu show lá.

Assim pensei.

Bingo.

Beth falou um nome que eu, óbvio, me esqueci e que nunca tinha ouvido falar porque do Japão só conheço Tóquio, Hiroshima e Nagasaki pelas revistas e jornais. Mas foi a deixa para eu compartilhar um pouco mais dos minutos com ela.

–  Então. Era esse mesmo! Fica ao lado da comunidade Hironaka que é um local bem interessante só formado de músicos e artistas de teatro basicamente…

Abre parênteses:

Sempre tive essa mania de dizer que sei falar japonês para quem me pergunta. Daí a pessoa fala: “Então diz aí alguma coisa aê” e eu falo o nome de vários primos bem rápido. Como “em terra de cego quem tem um olho é rei”, dou a tradução que der na telha e saio como a poliglota-bilíngue-meodeos-como-ela-é-inteligente.

No caso citado com a Beth Carvalho, eu misturei Hiroshi com Tanaka e voilá a vila Hironaka localizada somente nas profundezas do meu cérebro.

Fecha parênteses.

– Mas você nem sabe, Beth. Tive que comprar CDs com uma música em especial que eles ficaram doidos!

– Sei! Coisinha do pai! Eles amam!

–  Errou. Saigon. Eles, da comunidade Hironaka são loucos por Saigon. Comprei três coletâneas suas onde aparece essa música para eles. Parece que eles vão tentar regravá-la.

–  Mas que interessante! E eles…, ela me contou vários momentos do show onde o público amarelo se deleitou.

Estava em alfa já imersa naquela  história toda. Não me lembro mais o que inventei. Sei que ela ficou feliz e surpresa com a galera Hironaka. Mandou beijo para todos de lá. Me despedi de um jeito oriental dizendo: Takashi keiko kurama, Beth. Ela me puxou e me deu um abraço forte de despedida.

Essa não foi a única vez que a vi ao vivo.

Houve mais uma.

Em Agosto de 2018, eu, em plena campanha, me encontrei de novo com ela. Eu estava em pé na plateia formada por uma multidão. Beth estava sentada, mas não em um sofá. A  dona da voz mais linda do samba estava acomodada numa cadeira de rodas, no palco com o microfone na mão e cantando.

Cantou não só com alegria e aquela energia firme dos que acreditam, mas também com esperança (esse sentimento que, hoje, nos faz levantar para trabalhar em plena Era Bozo):

“O povo quer, o povo decide, o povo diz, nós queremos Lula andando livre no país”.

Foi no festival Lula Livre. Estávamos de vermelho e tínhamos a vontade bonita que as crianças têm de abrir a porta da gaiola para passarinho realizar sua essência que é trazer para a gente a primavera.

Chorei pela emoção de vê-la cantando e por Beth Carvalho, essa gigante conhecida no mundo todo como pude confirmar, estar ao nosso lado nesse momento tão dolorido.

Pelo sua libertação ontem, acabei me lembrando dessa história e tive vontade de compartilhar com vocês.

O que nos resta é o desabafo.

 

Houve uma reportagem que andou viralizando sobre a Livraria Cultura mostrando o quanto os empregados são coagidos pelo patrão. Quem leu ficou chocado. Gostaria de dizer hoje, 28 de Abril, no Dia da Educação, que isso é a realidade de muitas empresas e que escola particular, em muitos casos, funciona como tal.

Trago histórias pessoais já que leciono há 26 anos e trabalhei por mais de uma década em uma escola particular.

Com três anos de casa, fiquei grávida. Quando fui comunicar ao diretor, ouvi dele:

“Uma excelente maneira de acabar com uma excelente carreira é casando e tendo filhos. Você está acabando com a sua vida.”

Eu era muito nova mas havia entendido já muito coisa e, por isso, chorei. Não por acreditar naquela baboseira, mas por compreender o poder opressor do capital.

O diretor ela centralizador e arrumou uma maneira de descobrir quando errávamos na correção das provas, coisa absolutamente comum entre nós, professores e professoras, que corrigimos centenas de prova mensalmente. Erramos em contagem, em critério de correção, em não ter visto a resposta que o aluno colocou bem no canto da questão e por aí vai. Entregávamos a pauta com o nome e as notas dos alunos para o diretor antes de entregarmos as provas corrigidas para a turma.

Cada vez que um aluno vinha reclamar da correção e mudávamos o conceito dado, tínhamos que preencher um documento para que a nota fosse alternada “no sistema”.

Isso gerou um acúmulo de papel na mesa do diretor.

Na hora do recreio, enquanto conversávamos e lanchávamos na sala dos professores, o diretor entrou e jogou todos aqueles papéis com alteração de nota na mesa e começou a nos xingar de incompetentes para baixo.

Quando um professor foi falar que aquilo era normal dado nossa carga de trabalho, ele ouviu que “normal é o professor ser pago para trabalhar direito” e que se ele continuasse se equivocando na correção das provas que fosse ser “normal” em outro lugar.

Nunca tinha visto aquilo na vida. Uma humilhação sem tamanho. Teve professor que deixou o lanche pela metade não porque a fome tinha passado mas porque a tristeza tem dessas coisas de fazer com que abandonemos o que nos alimenta.

Um dia eu estava passando mal.

Muito mal.

Dor de cabeça e tonta pela manhã.

Encontrei o diretor no corredor e disse a ele que não estava bem. Pedi para ser liberada das aulas da tarde porque não estava conseguindo ficar em pé direito. Ele me disse que eu havia avisado em cima da hora e que não teria ninguém para me substituir. Ofereceu o sofá em sua sala com ar condicionado para eu deitar um pouco numa “janelinha” que tinha no final da manhã. Mesmo tímida, eu aceitei.

Apaguei no sofá.

A secretária veio me acordar às 13h para eu dar aula. Trabalhei a tarde toda. Cheguei em casa, minha mãe estava com meus filhos. Olhou para mim e se assustou.

Eu estava com 39,5 de febre.

Mas o pior não foi isso. Lembro-me que fomos convocados para uma reunião. Todos nós tínhamos carteira assinada e a reunião era para nos oferecer uma proposta: que déssemos baixa na nossa carteira e que a quantia paga de encargos trabalhistas seria acrescentada no nosso salário. Tudo bem que não teríamos mais o décimo terceiro, o diretor explicou. Mas se juntarmos o que ganharíamos de “aumento”, daria até mais no final. Havia professores que tinham um plano de carreira ali dentro. Os mais antigos ganhavam mais por isso.

Ele disse que essa “vantagem” seria mantida.

Muitos acreditaram e a festa do caixa dois aconteceu de comum acordo entre vários colegas e a direção. Era “opcional”, mas a pressão foi tanta que dava para contar nos dedos de uma mão quantos resistiram.

Conclusão: com o tempo, vários professores foram demitidos e outros tiveram o salário reduzido já que ganhamos em cima de tempo de aula dado e as turmas a nós oferecidas foram sendo dadas para professores mais novos “sem plano de carreira”. Na época, eu não tinha nem 30 anos mas havia professor que tinha quase isso de casa e foi substituído por um outro “mais barato”.

Quando resolvi fazer mestrado, fui avisar ao diretor que precisava reduzir a minha carga para estudar. Ele riu. Disse que eu não ganharia mais nada por isso na escola dele e que a hora que eu abrisse mão das minhas turmas teria uma fila de professores para pegar o meu lugar. E que, no dia que eu quisesse voltar, ele não poderia me garantir que eu teria as minhas turmas de volta.

Eu disse ok.

E ele ficou puto comigo e me xingou de burra. Perguntou como eu sendo professora de Física não sabia fazer conta. Era a época da crise. Lula estava na televisão dizendo que o Brasil não iria ser atingido. Lembro desse fato porque ele o citou:

“Você acredita no que esse presidente está falando? O desemprego vai chegar aqui sim e você abrindo mão de dinheiro?! Pensa bem, dona Elika!”.

Pensei.

E resolvi estudar.

No meio do mestrado, engravidei do Yuki, meu terceiro filho. Fui lá avisar ao diretor (havia 8 anos que ele havia me falado que a minha carreira iria acabar porque eu estava grávida).

Eu já era outra pessoa. Cheguei avisando e perguntando se ele ainda achava que isso significava meu fim. Ele não se lembrava de nada. Expliquei a ele que o cavalo que dá o coice não sente dor nenhuma mesmo.

Ao final do mestrado, abriu concurso para o CEFET. Fiz. Passei. Uma vaga só. Era minha, pensei. Eu quero ser professora de uma escola pública federal. Estava focada. Já tinha duas matrículas no Estado mas não estava feliz com as condições de trabalho também na rede estadual. Eu quero ter liberdade de lecionar. Quero ser tratada com dignidade e respeitada pelo que aprendi e ainda quero aprender na troca com meus alunos feita da maneira que eu achar mais bacana.

No dia em que fui pedir demissão, eu me arrumei. Mas não para sair de casa. Me arrumei como se fosse receber o Oscar. Não fui com roupa de gala.

Eu era a gala.

Fui de cara limpa. Sem maquiagem alguma como nesta foto e ainda assim estava reluzente como aqueles que não carregam saudade.

A fartura de alegria em forma de educadora deste país entrou sorrindo naquela sala em que tantas vezes fui humilhada.

“Estou com três filhos, sou mestre e, agora, professora do CEFET. Ganharei muito mais que ganho aqui e terei tempo livre para estudar e preparar as aulas que tanto sonhei. Pretendo escrever vários livros e já tenho um projeto delineado para meu doutorado”.

Assim foi feito.

Hoje sou doutora, tenho 12 livros escritos. Sete publicados e um deles foi vencedor do Prêmio Saraiva Literatura.

O diretor faleceu já tem algum tempo. Assumiu a direção outra pessoa muito pior. Conversei com colegas de lá outro dia (ficaram naquela bosta até hoje). Estão procurando bicos para complementar o salário e me contaram mais outros casos horríveis de humilhação. Eles têm que trabalhar de jaleco e as salas de aula todas têm câmeras. Não há cadeira para o professor sentar.

Há escolas particulares boas? Sim. Há. Mas são raríssimas e para poucos.

Hoje, com a experiência que tive e dos relatos que ouço, afirmo com convicção que a educação pela qual devemos lutar é a pública. Educação jamais pode ser fonte de lucro para ninguém. Não faz sentido, em essência.

Quem acredita em bondade do empregador deveria ser abraçado com muito carinho pois trata-se de uma criança num corpo de adulto. A ingenuidade faz com que muitas crianças indo atrás de uma bala caiam na mão de estupradores.

Sei que existem mais milhões de histórias parecidas com essas que contei seja de outros colegas professores ou de engenheiros, psicólogos, vendedores…

Se quiserem, podem compartilhar nos comentários.

O que nos resta é o desabafo. Obrigada por ler até aqui.

 

Sobre as endrôminas que tanto faltam nos meus versos.

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Estávamos, em Brasília, deitados enroscados um no outro como sempre fizemos desde o dia que nos conhecemos. Pipo é o único lugar em que me esqueço de todas as mazelas do mundo.

– Você é a minha paz, falei.

Ele sempre retribui falando coisas como “nunca tive isso na minha vida” que me fazem sentir a presidenta do Brasil.

(Isso é uma forma de dizer, é claro. Quero deixar claro que nunca pensei na Dilma quando estou pelada com o Pipo. Não que eu não goste da Dilma. Bem… vocês me entenderam… Foco na história.)

– Eu quero ver você feliz sempre, meu amor. Minha vida é fazer você feliz, disse toda pteridófita como dizem os poetas que sofrem de hipérboles.

Continuei falando olhando para ele bem pertinho enquanto acariciava seu rosto lindo:

– Quero te ver sorrindo sempre quando estivermos perto e long..

Daí, me lembrei que voltaria para o Rio logo depois e que não saberia quando nos veríamos novamente.

– Quando estivermos longe, meu amor, eu quero que você…

Percebi que não podia mais parar. Havia começado e tinha que terminar a frase. Prometemos um para o outro nunca mentir… Meus neurônios estavam dando um twist carpado no modus rewind acelerado.

Agora já era termina essa frase que quero ver se você é louca o suficiente para falar isso na fuça dele mas você não pode jamais deixar de falar o que pensa caceta custava ter calado a boca antes quero ver você sair dessa rua sem saída. – Pensei assim num átimo de milissegundos porque quando pensamos não usamos vírgula mesmo.

– Quando eu estiver longe de você, meu amor…

E ele ali me olhando com os olhinhos brilhando.

– …eu quero que você sofra, mas sofra muito. Quero você chorando em posição fetal com saudade de mim. – falei sem deixar de fazer carinho.

Dito isso, achei tudo muito engraçado e ri alto com os olhos esbugalhados como sempre faço.

Pipo continuava me olhando. Mas percebi que o amor da minha vida estava agora sem piscar engolindo a seco.

Ele falou algo que não ouvi porque eu estava gargalhando com a boca aberta.

Depois, só lembro que ele demorou para apagar a luz. Dormi com ele me abraçando muito forte segurando meus braços com a mesma firmeza que um policial coloca algemas num infrator. Fofo fofo fofo.

Espero que ele esteja sofrendo de verdade sem sequer dormir direito porque se não for para desgraçar a cabeça de tanta saudade nem quero viver ao lado dele para o resto da minha vida.

Benditas sejam as endrôminas que tanto faltam nos meus versos.

Ah, gente…

Isabel e o Brasil

Fui almoçar em um self service baratinho no Flamengo. Na entrada, uma menininha linda de uns sete anos me interceptou:

– Tia, me paga um prato de comida. Eu quero comida. Tô com fome.

Quem vai negar um prato de comida para uma criança?

– Claro. Vamos, falei. Qual seu nome?

– Isabel, tia.

– Vamos lá, Isabel.

Assim que entramos ela começou:

– Pode ser quentinha? É que eu preciso levar para meus irmãos também, tia.

– Quantos são?, perguntei.

– Muitos, tia. Respondeu ela olhando para as opções. Pode ser quentinha, tia?

– Claro. O que você quer que eu coloque aqui?

– Arroz, tia. Coloca muito arroz. Agora feijão, tia. Purê de batata. Mais purê. Macarrão, tia.

– Não quer legumes? Uma salada também? Não quer?, insisti como faço com meus filhos.

– Não, tia. Quero comida. Carne, tia. Pode colocar carne também?

A quentinha deu 40 reais de tanto peso. Geralmente pago menos que 15 no meu prato.

Entreguei para Isabel com uma garrafa de refrigerante que ela havia escolhido. Isabel pegou tudo e saiu correndo.

Fiz meu prato e sentei para almoçar com calma.

Em poucos minutos, vi Isabel mais uma vez com outra tia apontando o que queria colocar na quentinha.

Lá saiu Isabel apressada com outra marmita…

Logo depois, veio Isabel segurando a mão de um tio de novo. O tio olha para ela carinhosamente e coloca tudo o que Isabel quer.

Nessa hora eu estava pagando e resolvi seguir Isabel.

Ela foi ali para a praça do Largo do Machado. Havia várias pessoas com cobertores sujos, roupas rasgadas, sentadas no chão e deitadas em cima de papelão esperando por Isabel.

Isabel não mentiu. Ela dava comida para “seus irmãos”.

Tão pequena e já carrega a responsabilidade de um Estado e a pressa – daqueles que entendem a necessidade – de alimentar um Brasil.

Que pesadelo horrível…

 

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Hoje eu tive um pesadelo horrível.

Sonhei que tínhamos um presidente que se dizia cristão mas era a favor de armar a população. Em entrevistas, ele dizia claramente que não se importava em matar inocentes desde que o crime fosse combatido.

Sonhei que esse presidente não era capaz de entender que o que causa a violência urbana é a desigualdade social. Ele não tinha nenhuma proposta para dar conta de tanta injustiça histórica.

Sonhei que esse presidente era burro de verdade. E tinha filhos. Todos iguais a ele que acreditavam que diminuir a maioridade penal significaria que os crimes seriam reduzidos. Agora vejam vocês: se a ameaça de ser preso evitasse atitudes criminosas, em nossos presídios sobrariam espaços…

Sonhei que era explicado para eles de várias formas diferentes que se um jovem entra com 16 anos na prisão e se ficar preso durante 10 anos ele sairá ainda novo e sem estar reabilitado porque nosso sistema carcerário não melhora ninguém. Muito menos essa pessoa sairia dando bom dia para o padeiro. A prisão no Brasil não ressocializa ninguém e sonhei que eles não enxergavam que unir jovens de 16 a 18 anos aos criminosos adultos certamente os qualificariam para mais crimes.

Sonhei que essa família inteira que estava do poder do nosso país não tinha capacidade para enxergar que matar quem mata não evita que mais criminosos brotem em cada esquina e que apostar na redução da maioridade penal como resolução da violência juvenil é investir na reprodução da violência como mostra a experiência em outros países. Meodeos como eles eram burros.

Mas o pesadelo não terminava…

Sonhei que, ao invés de cuidar dos professores, eles os pisoteavam. Sonhei que esse presidente via a escola como um lugar para se gerar uma mão de obra acrítica e barata – e não um local de crescimento intelectual em que questionamentos são estimulados em crianças e adolescentes.

Sonhei também com uns objetos estranhos como mamadeiras com o bico em formato de pênis e eles segurando esse objeto estranho e aos berros babando diziam que aquilo era coisa de comunista.

Sonhei que uma família inteira foi alvejada com 80 tiros e eles não sentiam nada além de desprezo. Diziam que era normal, que estamos em guerra civil e em toda guerra morrem inocentes.

Para piorar o pesadelo, sonhei que a pessoa que mais olhou para os pobres e fez por eles em nosso país estava presa, que era para ele ter sido nosso presidente de novo já que liderava todas as pesquisas, mas que o prenderam justamente por isso. E pior, contra ele, não havia nenhuma prova. A prisão era na verdade arbitrária e significava um sequestro da dignidade do povo brasileiro.

Que pesadelo horrível, gente. Que pesadelo horrível…

O estranho fenômeno do gado que aplaude quem lhe tira o pasto.

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Obra feita pelo artista Sergio Ricciuto Conte

Há quem comemore o dia de hoje sob a justificativa de que o golpe de 64 livrou o Brasil do comunismo. Se João Goulart se mantivesse no poder, ninguém aqui pode afirmar o que teria acontecido no Brasil dada a complexidade da história e da natureza humana. Contudo, a hipótese da “ameaça vermelha” é burlesca. A incipiente e isolada luta armada que tivemos aconteceu depois do golpe civil-militar e em reação a ele.

Porém, há alguns elementos e documentos históricos que garantem algumas certezas. E sobre elas pretendo discorrer aqui.

Para começar, a versão da história de que vinte anos de torturas, assassinatos e censura foram necessárias para o bem do país não se sustenta quando entendemos que um país é composto pelo seu povo. A desigualdade social aumentou de forma exorbitante. Mataram e calaram para o bem de uma elite.

Outro erro frequente é dizer que só morreu ou foi torturado na época da ditadura quem era subversivo. Fala-se de um jeito como se fosse altamente justificável matar uma pessoa pelo simples fato de ela pensar de uma forma diferente. No entanto, nem isso é verdade. Tivemos mais de mil índios mortos. Na construção da  hidrelétrica de Tucuruí fizeram um massacre.  Índio de esquerda? Índio comunista? Ou índio querendo viver em paz em uma terra que estava sendo almejada por grandes empreiteiros e empresários?

Temos hoje mais de 12 milhões de desempregados. Vemos a violência urbana aumentando. As escolas seguem sem estrutura básica com professores cada vez mais depressivos e alunos desestimulados. Ainda assim, acompanhamos desde antes da posse do eleito, uma absurda atenção e prioridade para se comemorar e rememorar um período em que vimos um aumento sem precedentes na pobreza deste país e a nossa Constituição ser desprezada pelos militares.

Faltam medidas concretas para as demandas de nosso país. Daí, a aposta vai para essa batalha ideológica. Estamos vendo um movimento de negar o golpe de 64. Este esforço faz parte de uma estratégia consciente de substituir o debate político clássico sobre nossos problemas urgentes como o aumento da pobreza, por exemplo, por uma pauta moral.

Isso não é sem motivo. Há um interesse gigantesco por trás dessas atitudes e pelo desprezo e o escamoteio do verdadeiro modus operandi da Ditadura.

A tortura foi considerada como um “método científico” a ponto de ter sido incluído, pasmem, no currículo de formação dos militares. O ensino sobre esse método nunca foi meramente teórico. As cobaias, inicialmente, eram mendigos pegos nas ruas. Depois, alunos e alunas, professores e professoras e cidadãos que – simplesmente – possuíam uma ideologia de vida diferente de quem estava no poder. Nos documentos, temos mais de cem tipos diferentes de tortura que vai desde a psicológica até a agressão física e utilização de vários tipos de instrumentos.

O pau de arara era apenas um deles que consistia numa barra de ferro atravessada entre os punhos e a dobra dos joelhos. O corpo ficava assim pendurado. Por si só, isso já é um tanto humilhante, dolorido e agressivo. Ainda assim, com a pessoa nessas condições, eram aplicados eletrochoques nas partes íntimas, nos ouvidos, dentes e dedos, eram dados socos e usada a prática do afogamento (que consistia em introduzir um tubo na boca do torturado e jogar bastante água. Temos também variações do “método”. O tubo era inserido também nas narinas e quando a pessoa recebia o choque elétrico era obrigada a respirar causando assim o afogamento).

Havia “cadeiras especiais” como a famosa “cadeira do dragão” feita especialmente para um tipo de tortura em que a pessoa era torcida ao mesmo tempo em que recebia intensos choques elétricos e, também, “geladeiras” onde a pessoa ficava horas no escuro em uma temperatura extremamente baixa.

Insetos e animais foram usados nesse “método” para fazer com que o torturado entregasse outros companheiros e companheiras. Ratos, cobras e baratas vivas eram enfiados no ânus e na vagina por muitos oficiais. Queimaduras com cigarro, surra com cassetete a ponto de deixar o local em carne viva, amarrar o pênis para impedir que a pessoa que já estava pendurada não urinasse, pendurar os homens pelo testículo, colocar os testículos espaldados na cadeira com o oficial em sua frente segurando uma palmatória, deixar a pessoa esticada e desferir socos seguidos no estômago, encher a boca da pessoa de gasolina ou amarrar em um cano de descarga, tudo isso são apenas alguns exemplos desse “método”.

Não. Não havia limites. Crianças e mulheres grávidas também passaram por isso. Colocar crianças para assistirem os pais e as mães sendo torturados e estuprados e obrigar pais e mães assistirem seus filhos passarem por uma situação extrema de dor provocada pelos militares era algo recorrente. Mulheres foram estupradas, passaram por diversos tipos de humilhações e muitas abortaram devido ao tratamento que receberam. O relato delas é roteiro para filme de terror.

Antes de 64, houve um rápido aumento das lutas populares por reformas estruturais. Estudantes, artistas, professores e diversas pessoas da classe trabalhadora lutavam por uma reforma educacional, pela Reforma Agrária e pelo impedimento de remessa de lucros para bancos estrangeiros.  Ainda assim, não houve condições de competir com as forças armadas e impedir o golpe de 64.

Muito semelhante ao que estamos vendo, ao mesmo tempo em que se falava em nacionalismo, abriam-se as portas para o capital estrangeiro causando a implantação de multinacionais, facilitando a remessa de lucros para fora e um endividamento externo.  Para se ter uma ideia, a dívida externa saltou de 3,4 para 100 bilhões entre 1964 e 1985.

Houve um achatamento de salários nunca visto em nossa história. De fato, vimos com isso alguns índices da economia indicando um “milagre brasileiro”. Obras faraônicas, “estranhas catedrais” sendo erguias enquanto “seus filhos levavam pedras feito penitentes”. O povo seguia piorando as condições de vida. A inflação explodiu na segunda metade da Ditadura chegando a mais de 200% ao ano. As favelas, a fome e a marginalidade seguiam crescendo em números expressivos e a olhos vistos.

No governo Jango, havia um compromisso com a Educação. A legislação previa a destinação de 12% do PIB para escolas. Os militares acabaram com isso, as escolas públicas foram abandonadas e aulas de filosofia e sociologia que permitem debater a sociedade foram retiradas do currículo já que um povo que tenha noção de que sua pobreza seja um projeto é um perigo para esse tipo de governo. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

Para que tudo isso acontecesse, foi necessário mudar toda a estrutura jurídica para reforçar a aparato de controle e repressão. Daí, os Atos Institucionais.

O fato de hoje nenhuma ação desse governo ter qualquer ligação com a valorização e criação de empregos, de testemunharmos o fim de políticas sociais que contribuíram para a retirada do Brasil do mapa da fome, de acompanharmos os ataques às escolas direcionados a liberdade de cátedra dos professores – principalmente de história, filosofia e sociologia acusando-os de uma suposta “doutrinação marxista” por exporem  e debaterem os métodos da ditadura -, o fato de todo dia vermos o desmonte da cultura e de o eleito se mostrar submisso às políticas neoliberais dos Estados Unidos e uma exaltação ao período em que só era legitimado e permitido o discurso de quem se alinhava aos que estavam no poder – a ponto de hoje termos que insistir que não há nada para ser comemorado -, o fato de Lula estar preso enquanto outros comprovadamente criminosos estão no poder é um sinal de que o perigo iminente não é vermelho.

Muito menos verde e amarelo que é a cor de nossa bandeira.

O perigo é voltarmos a uma época sem cor. Sem brilho. Sem cantos. Sem arte. Sem leitura.

E com o gado aplaudindo quem lhe tira o pasto.

Se os sintomas persistirem, procure um professor.

Dentre uma das coisas mais tristes que vejo nesse governo é o tratamento que se dá para a nossa Educação que tem problemas urgentes como falta de motivação de alunos e professores, as péssimas condições das escolas, péssimos salários, professores sem tempo de fazer a formação continuada e o alto índice de evasão, somente para citar alguns exemplos.

Em três meses de (des)governo, é inacreditável o que já foi feito para piorar todo nosso quadro e o fato de não termos ainda nenhuma proposta ou projeto para melhorarmos os índices.

Com demissões em série, recuos e interferências externas, o Ministério da Educação está sem rumo nenhum até a presente data.

Para quem não está acompanhando, segue o resumo dessa desgraça:

– O escolhido para ministro da Educação de Bolsonaro foi Ricardo Vélez Rodríguez, indicação de Olavo de Carvalho, sem experiência em gestão no setor público.

– Em sua posse, Vélez exaltou o combate ao “marxismo cultural” nas escolas mostrando na largada que era mais um que sofria dessa alucinação endêmica.

– Antes da posse, a cúpula do MEC sofreu a primeira baixa – de muitas outras que ainda viriam. Antônio Flávio Testa, que assumiria secretaria-executiva, rompeu com Vélez por discordar da forma como as indicações eram feitas.

– Houve, pasmem, uma mudança em edital para livros didáticos. Deixava-se de exigir referências bibliográficas, o que, por óbvio, fazia cair a qualidade do material abrindo margem para erros.

– Após protestos… advinha. Bolsonaro recuou e atribuiu a culpa à gestão Temer.

– A gestão Temer negou a responsabilidade pelas mudanças no edital.

– Sabemos que a equipe de Bolsonaro participou de 17 reuniões de transição desde o início de dezembro.

– Vélez declarou ao jornal Valor Econômico que não é possível haver universidade para todos.

– Para Veja, Vélez disse que o brasileiro é um canibal que rouba aviões e hotéis.

– Na guerra contra o “marxismo cultural”, o MEC anuncia que vai criar comissão para fazer um pente-fino ideológico de questões do Enem. Segundo o INEP, abordagem de gênero nas questões é inadequada.

– MEC manda e-mail a escolas pedindo para que alunos, professores e funcionários fossem colocados em fila para cantar o hino em frente à bandeira do Brasil e que o momento fosse filmado e enviado ao governo. A mensagem ainda continha o slogan de Bolsonaro.

– Vélez admitiu erro no episódio. Desistiu do pedido de vídeo alegando questões técnicas e de segurança.

– Em março, começam as demissões em série no MEC.

– O coronel Ricardo Wagner foi exonerado do cargo de diretor do Programa da Secretaria-Executiva da pasta. Olavo o apontava como responsável pelo episódio do hino.

– Inicialmente foram seis exonerações, duas delas de dois ex-alunos de Olavo de Carvalho.

– Logo depois, Vélez demitiu o número 2 do MEC, Luiz Antônio Tozi, a pedido de Olavo de Carvalho, em meio ao turbilhão de disputas internas.

– A inesquecível professora Iolene Lima foi anunciada por Vélez como a nova número 2 do MEC. Seu nome não agradou nem olavistas, nem a bancada evangélica, e Iolene foi demitida.

– Nessa semana, governo Bolsonaro anunciou a suspensão por dois anos da avaliação de alfabetização.

– Logo depois, Vélez recuou mais uma vez e revogou a portaria que suspendia avaliação de alfabetização por dois anos.

– A suspensão da avaliação de alfabetização resultou no pedido de demissão da secretária de Educação Básica do MEC, Tania Leme de Almeida, que não foi previamente consultada sobre a medida do governo.

– O episódio derrubou também o presidente do INEP, Marcus Vinícius Rodrigues. O ministro não teria ciência da suspensão da avaliação e se irritou por não ter sido comunicado.

– No total, houve 15 exonerações somente neste mês de março. Segundo Vélez, elas foram motivadas “por critérios técnicos”.

– Vélez, ontem, chamou Paulo Freire de inimigo e elogiou o trabalho de Pablo Escobar com as crianças da Colômbia.

– Sabatinado na Comissão de Educação da Câmara ontem, o ministro mostrou nervosismo. Deputados cobraram ações e metas mais consistentes para a área, não apenas intenções.

– A deputada Tabata Amaral pediu gentilmente que Vélez pedisse demissão do cargo para que foquemos no que de fato interessa já que nossos problemas são urgentes. O vídeo viralizou na internet e, mais uma vez, o ministro foi humilhado e mostrou total despreparo para o cargo.

Nada é surpresa vindo de quem já escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”.

O ministro da Educação comparou, pasmem, a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como do “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa.

A forma como ele se referiu à Comissão da Verdade é assustadora. Para quem não sabe, essa comissão buscou elucidar crimes cometidos pela repressão militar, como torturas e assassinatos de civis.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou relatório com os nomes de 434 pessoas que morreram ou desapareceram durante o regime. Após o golpe, vale lembrar, os militares permaneceram por 21 anos no poder.

Quem comanda a Educação do país sobre isso disse:

“Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64”. “A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”.

Debochar de Direitos Humanos virou modalidade olímpica nesse novo governo. O eleito chegou onde chegou sendo aplaudido elogiando torturador e dizendo que se matou pouco na ditadura.

O ministro da Educação não deixa nada a desejar nessa esteira: ele ironiza sempre que pode o conceito de direitos humanos e faz saudações ao “patriótico papel” desempenhado pelos militares no período.

Eles vão fazer de tudo para acabar com essa profissão linda que em essência estimula o vôo do pensamento. As asas dos professores e das professoras desse país estão sendo cortadas.

Há um déficit imenso de profissionais na área da educação, principalmente nas escolas públicas. Essas novas políticas vão desestimular ainda mais quem se interessa por essa profissão já desgastada, desvalorizada e, agora, emudecida.

Defender o que aí está demonstra fragilidade na saúde e no caráter. Se os sintomas persistirem, procure um professor.

Partiu usar a Bíblia em sala de aula!

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Foto: Bárbara Lopes

O ministro da educação Ricardo Vélez anunciou Iolene Lima para chefiar a Secretaria Executiva do MEC. Na prática, ela será a número dois da pasta. Ela defende que a Bíblia deve ser a base para a Educação e cita Gênesis para que a criança aprenda matemática inicialmente por ele (no 1o dia Deus fez isso, no 2o dia aquilo, um, dois, três… dias da semana… Gênesis nas cabeça).

O vídeo com Iolene explicando didaticamente com podemos usar a Bíblia em aula de geografia, biologia e matemática está em todas as redes. Não deixem de ver.

Eu gostei disso de levar Bíblia para a sala de aula. Na verdade, adorei. Já quero.

Vamos ver alguns fatos para debatermos em sala de aula? Vamos!

Comecemos no Gênesis com a adorada história de Noé. A lenda dos animais entrando na arca aos pares.

Deus condenou os seres humanos e resolveu – com exceção de uma família – afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais, presumivelmente os inocentes, de certo…

Deus é bom? Deus é perfeito? Por que condenou crianças? Vamos fazer um problema de matemática com isso utilizando Gênesis como propõe a secretária executiva do MEC? Vamos!

Deus afogou 25 famílias com 4 crianças cada uma. Quantas crianças morreram sem ter culpa de nada?

Vamos agora para destruição de Sodoma e Gomorra. Foi Ló, sobrinho de Abraão, o escolhido para ser poupado junto com a sua família por ser especialmente correto.

Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar a Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre.

Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então, todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para sua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”(Gênesis, 19,5).

A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma.

Mas… a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (Gênesis, 19,7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura inteiramente religiosa.

Bom tema para discutirmos gênero em sala, o papel da mulher na história e coisa e tal. Réchi tégui fica a dica.

No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os opressores cegando-os por milagre.

Pausa para uma boa questão de matemática utilizando Gênesis:

Os anjos de Ló cegaram 27 soldados. Quantos olhos deixaram de enxergar por conta desse crime?

Voltando à Bíblia. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com a sua família e seus animais porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

Vejam vocês, a curiosidade de uma mulher na Bíblia foi duramente condenada.

Bora seguir que eu adoro a Bíblia em sala de aula:

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele.

Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também (Gênesis, 10, 31-36).

Vamos usar a Bíblia para nos inspirarmos em questões de biologia?

Considerando o cruzamento genético e o papel do ambiente no desencadeamento de problemas, as chances de um recessivo se manifestar é de 50%. Por que o risco é 100 vezes maior quando Ló transa com as filhas do que se elas tivessem copulado com os soldados, por exemplo?

Cá para nós, se essa família tão perturbada era a melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para entender o enxofre punitivo mandado por Deus!

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juízes, quando um levita (padre) não identificado viajava com a concubina em Jebus.

Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado “para que dele abusemos”.

Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: “Não, irmão meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura”(juízes 19, 23-24).

Acho o termo “humilhai-as” especialmente aterrador. É como se dissesse: Divirtam-se humilhando e estuprando a minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem!

A concubina não teve a mesma sorte que as filhas esquisitas de Ló. O levita a entrega à multidão que a estupra coletivamente a noite inteira: “E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e , subindo a lava, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro”(Juízes 19, 25-26).

De manhã o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz: “Levanta-te e vamos”. Mas ela não se moveu.

Estava morta.

Então ele “tomou um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e a enviou por todos os limites de Israel”.

Sim. Você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29.

Vamos fazer um probleminha de matemática utilizando as partes do corpo da concubina para estudar fração?

Vou passar essa.

Podemos ir além nesse história bíblica que deve ser debatida em sala de aula. Havia um motivo para esse esquartejamento: provocar uma vingança.

E deu resultado, pois o incidente causou a guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juízes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos.

Matemática? Probleminhas? Vamos fazer? Deus é o matemático mais perfeito que existe, segundo o MEC. Bora?

Depois eu faço. Continuando.

Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério.

Calma que isso não é nada! As aulas podem ficar ainda mais interessantes!

–  Abram a Bíblia na página tal! Hoje a aula vai ser sobre Abraão!

Todos os episódios desagradáveis citados acima não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de filho de Abraão: Isaac.

Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido em oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha.

(Questão sobre física boa aqui. Como o atrito gera calor…)

A faca assassina já estava em suas mãos quando um anjo interveio drasticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, estava apenas testando a fé de Abraão.

Ufa!

Mas, como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico?

Fica a dica para aulas de Moral e Cívica. Podemos discutir que Deus foi bom pois poupou a vida de Isaac no último minuto.

Isso prova que Deus realmente é bom, mas quero ver como vai explicar a onisciência se baseando nessa história… Por que Ele não foi capaz de entrar na cabeça de Abraão e poupar a criança do trauma?!

Vai ser um excelente debate.

Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonistas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, “aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu.”

(Analisar a gramática e o estilo da Bíblia nas aulas de português. Não faltam frases interessantes).

Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonistas e voltou para a casa vitorioso.

Como era de se esperar, sua filha, única filha, saiu de casa para recebê-lo e, que pena, foi a primeira a sair pela porta…

Jefté rasgou suas roupas, compreensivelmente, mas não havia nada que pudesse fazer. Deus estava ansioso pela oferenda prometida, e dadas às circunstâncias, a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada.

Ela só pediu permissão para ficar dois meses na montanha para lamentar a sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e seu pai a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso.

(Questões sobre geografia e biologia aqui. Pressão em montanhas, falta de oxigênio, hemácias e coisa e tal.)

Vou adorar chegar em sala com o Novo Testamento! Venha nimim, MEC!

Jesus, meu ídolo! Se Jesus não era comunista era radicalmente contra um sistema que permite que uns tenham de tudo e outros quase nada.

E mais! Jesus estaria a favor, certamente, das políticas sociais instaladas no Brasil no governo do PT pois ele foi O Cara que distribuiu pão e multiplicou os peixes e só depois é que ensinou a pescar porque sabe que “quem tem fome tem pressa”.

Jesus seria contra essas reformas todas que só prejudicam os pobres e seria Réchitégui-EleNão nas cabeças. Petralhudo, mortadelaço ou algo que o valha seriam os apelidos de Jesus.

Jesus era um típico pé rapado. Vivia descalço de vestidão, parecia que nunca viu um pente e uma tesoura para aparar aquela barba. Ele era contra o consumismo, meus alunos. Parecia um universitário de humanas.

Percebem? Não tinha vaidades, não usava terno e maletas, principalmente, não tinha preconceito algum.

Jesus não julgou ninguém. “Atire a primeira pedra aquele que…” é A Frase mais LGBTT que eu já vi nesse mundo!

“Não faça com os outros aquilo que você não quer que façam com você” resume todo o resto.

Já me vejo falando em sala de aula com a Bíblia na mão emocionada:

– Eu tenho a impressão, meus alunos e minhas alunas, de que se Jesus voltasse, a primeira coisa que ele faria era tacar uma bomba (no sentido metafórico ou quem sabe mesmo literal) em várias Igrejas que doutrinam as pessoas e as obrigam praticamente a selecionar somente um tipo de amor que lhes é permitido e ainda por cima lucram exorbitantemente falando coisas que Jesus jamais proferiu e vendendo de tudo com a Sua imagem.

E continuaria:

– Há uma passagem que eu adoro em que Jesus chega chutando literalmente o pau da barraca. Quando ele chega no Templo de Jerusalém e vê um punhado de gente vendendo vários badulaques, Jesus fica possesso e sai quebrando tudo. O que ele faria no Templo do Salomão? Ou vá lá, no Vaticano? O que ele faria vendo Malafaia oferecendo todos os dias produtos em sua rede?

– Jesus queimaria pneus no meio de estrada contra medidas que estão querendo nos impor que prejudicam a classe trabalhadora? Vamos debater esse tema, turma!

Concluiremos em sala de aula que se Jesus voltasse, ele seria crucificado de novo.

Exatamente pelas pessoas que falam diariamente em Seu nome e me obrigam a isso.

Vai ser lindo. Adorei a ideia e já penso em começar na semana que vem! Estou empolgada!

Pelas mulheres e pela liberdade de Luiz Inácio Lula da Silva

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Olá, gostaria de me apresentar. Eu sou uma mulher comum, professora, mãe de dois filhos e de uma filha, minha casa fica no subúrbio do Rio de Janeiro, mais especificamente em Madureira bem ao lado do Império Serrano, onde Lula assinou a minha ficha de filiação ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em agosto do ano passado.

Como isso foi acontecer, é uma história que tentarei contar para quem quiser ouvir por acreditar que ela vale a pena – principalmente em um dia especial como hoje em que celebramos conquistas sociais e políticas das mulheres no mundo inteiro.

Nunca fui uma militante típica de ir a manifestações, plenárias e coisas afins até mesmo porque, como mãe de crianças e moradora do subúrbio carioca, não é fácil o ir e vir. Porém, fui professora a vida inteira e não tem como trabalhar no Ensino Público e ficar alheia ao que acontece nas Assembleias e nas Câmaras. Já tive duas matrículas no Estado e hoje sou professora e a primeira coordenadora mulher de Física do CEFET/RJ em 100 anos. Paralelamente a isso, sou escritora. Uma escritora desconhecida como tantas outras que não têm berço e nem facilidade de fazer contatos que agilizam a publicação de um livro. No início de 2016, um agente literário se aproximou de mim. Aceitei a mão estendida. Depois de três meses analisando meus livros e minha rede, fui comunicada que poderia me transformar em uma escritora famosa, contanto que mudasse meu comportamento. Disse-me que não poderia falar mais tanto de política nas redes sociais que, na época, era meu único espaço de manifestação.

A reunião em que fui avisada sobre a necessidade de me silenciar para que as editoras me aceitassem aconteceu em uma cobertura no Leblon. Lembro-me de que chovia muito quando saí de lá, mas, ainda assim, ao lado do meu carro, sentei-me no meio fio e chorei antes de pegar o túnel Rebouças de volta para minha casa. Ali, com a água gelada correndo nas minhas costas e um filete úmido, quente e intenso escorrendo pelo meu rosto, percebi o que era todo esse sistema em que vivemos. Porém, fui além. Percebi também quem eu era, a dizer, uma mulher tão comum dessas que vemos em qualquer esquina cheia de foco e de sonhos.

Estava como ficam as pessoas que decidem a própria amputação de um membro. E com essa sensação que perderia as pernas – mas que o cérebro continuaria intacto -, chorando do início ao fim escrevi um texto que acabou viralizando na internet. O texto está aqui para quem quiser ler.

O interessante é que ele foi lido por parentes e amigos, mas ninguém identificou nele o que Lula captou com sua sensibilidade ímpar: tratava-se de uma mulher tão comum como vemos por aí que precisava ser empoderada. E ele fez algo que mudou para sempre a minha vida: Lula estendeu a sua mão, me colocou em pé e me abraçou com sua ligação inusitada. Os detalhes da ligação estão registrados em um outro texto que está neste link.

Dentre outras coisas, Lula me disse que percebeu em mim uma força e a necessidade de receber um abraço forte. Frisou que para isso ele havia me ligado. Nunca, em tempo algum, jamais pensei em um dia receber essa atenção de uma pessoa famosa. De Lula, nem se fala. Era quarta-feira de cinzas de 2017. Dona Marisa havia falecido há pouco e Lula me ligou em pleno luto. Não perdi a oportunidade. Agradeci em nome de todas as pessoas que hoje tem diploma e que, sem ele, estariam à margem da nossa sociedade. Eu sabia que estava diante do político que mais fez pelas mulheres em nosso país.

Para quem não sabe, no primeiro ano do governo Lula, a Secretaria dos Direitos da Mulher foi desvinculada do Ministério da Justiça e transformada na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM). Hoje, o Ministério passou a ser pasta e voltou a ser subordinada ao Ministério da Justiça e da Cidadania.

Muita gente não tem conhecimento sobre isso, mas o programa que tirou o Brasil do mapa da fome também promoveu uma verdadeira revolução feminista nos confins do Brasil por meio de uma ideia simples: o dinheiro é transferido sempre para a mulher. Com a garantia do benefício, encerrou-se em muitos lares o ciclo de abusos muitas vezes alimentado pela dependência financeira do companheiro. O relato delas é impressionante e pode ser conferido no livro “Vozes do Bolsa Família”, de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani. (São Paulo: Editora Unesp, 2013). Vale lembrar que só pode receber o benefício as mulheres cujos filhos de seis a 15 anos estejam matriculados e frequentem pelo menos 85% das aulas. Menores de sete anos têm que ter a carteira de vacinação sempre em dia. Depois do golpe, pasmem, perdemos mais de 1 bilhão de investimentos nesse programa e em torno de um milhão de famílias que recebiam por volta de R$ 170,00 ficaram sem o auxílio.

Para muitas famílias, a criação do programa Minha Casa Minha Vida representou uma chance única de realizar o sonho da casa própria. O programa foi lançado em 2009, um ano antes de Lula deixar a presidência. Quase quatro milhões de famílias foram beneficiadas em seis anos. Quando Dilma assumiu o poder, o programa foi aperfeiçoado para contribuir com a autonomia feminina. Elas passaram a ter preferência na assinatura da escritura e, caso fossem separadas, não precisavam da assinatura do cônjuge, mesmo se o divórcio ainda não estivesse no papel.

E não vamos nos esquecer das companheiras rurais. Foram criados nas gestões do PT serviços especializados para atender as trabalhadoras em situação de violência e o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural, as linhas de crédito Pronaf Mulher e o Programa de Organização Produtiva de Mulheres Rurais.

Em um país no qual todos os dias lemos notícias de mulheres que sofrem com os mais diversos tipos de violência seja em casa seja fora dela, essas políticas significam muito e eu sabia disso quando Lula me ligou. Em nome de todas as mulheres deste país, quer elas soubessem ou não do quanto Lula melhorou suas vidas, quer reconhecessem ou não, eu agradeci.

Depois dessa ligação que completou agora exatos dois anos, encontrei-me com Lula pessoalmente, pois muita gente começou a cogitar meu nome para ocupar algum cargo político – coisa que jamais havia vislumbrado na minha vida – e eu queria conversar com ele. Afinal, a minha vida havia virado um rebuliço quando souberam que Lula me ligou.

Após me receber no Instituto, Lula ouviu toda a minha história como fazem os grandes líderes políticos. Nunca havia recebido aquela atenção nem mesmo nas minhas sessões de terapia. É uma experiência que desejo a todas as pessoas, principalmente, àqueles que zombam da inteligência de um possível Prêmio Nobel da Paz.

Lula, ao contrário do que imaginei, desencorajou-me de imediato a vincular meu nome ao PT, pois, disse ele, a minha vida iria virar um inferno. “Veja o que fizeram com Marisa”, alertou-me. Expliquei ao nosso presidente que inferno é ler todos os dias nos jornais o que estão fazendo com a Educação Pública desse país e que eu fui até ele não para pedir autorização e muito menos conselho – que foi o que havia falado quando pedi a sua assessora dez minutos com ele. “Vim aqui para pedir a sua bênção, presidente. Vai ser com ela ou sem ela, mas vou me filiar ao PT”.

Ao ouvir minha teimosia, Lula sorriu e disse que sabia que não tinha errado ao me ligar.

Depois disso, nos encontramos por aí em alguns palanques. No meio de tanta gente importante, ele sempre me reconheceu e perguntou dos meus filhos e de Lucimar, a moça que trabalha aqui em casa.

Hoje, 8 de Março de 2019, o presidente que mais fez pelas mulheres neste país está preso. Tiraram-lhe a possibilidade de interação com outros seres, o que ele faz de melhor. Perdeu o povo com o seu silêncio porque suas palavras são como um bom cobertor no inverno e, dependendo de onde estamos, sentimos uma frieza danada aqui fora.

Sigo apanhando por ter aprendido de uma forma natural a amar Lula como acontece quando lemos um livro maravilhoso. Tudo o que estão fazendo com ele é demasiado injusto e já está claro que o Brasil piora muito quando não o deixam agir e fazer mais pelas minorias.

Mas, ainda que eu esteja plena de hematomas, quando vejo o olhar de quem me ataca e ouço o discurso dos que me xingam, reafirmo meu amor ao homem que diminuiu a desigualdade social neste país e mudou a vida de milhares de brasileiras.

Como lhe disse em uma carta que ele respondeu em seu cárcere, estarei lhe esperando aqui fora:

“Para que você me veja e me reconheça no meio da multidão quando sair, darei uma dica: estarei de vermelho e de braços abertos. Não vai ter erro, presidente, porque eu também virei uma ideia. Você irá reconhecê-la”.

Hoje eu, uma mulher comum cheia de impaciência com as injustiças, anseios e ideias, estarei nas ruas ao lado de outras mulheres. Pelas mulheres e pela liberdade de Luiz Inácio Lula da Silva, nosso eterno presidente.

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