O rosto dela é o de todas nós

Aconteceu de novo. Uma menina de dez anos, abusada sexualmente pelo tio desde os seis anos, ficou grávida. A tia percebeu algo estranho e levou a sobrinha para o hospital onde foi constatado a gravidez de três meses. A tragédia se deu, dessa vez, no norte do Espírito Santo nessa bagaça chamada Brasil.

O caso é horrível, triste e nauseante mas mais repugnante e pavoroso é saber que não é o único e não será o último, assim como não foi a primeira vez que vemos uma menina ser estuprada e correr risco de vida por ter engravidado do estuprador.

Por lei, o aborto em situações como essa onde foi detectado crime de estupro e a gestante – friso, uma menina de 10 anos – corre risco de vida, enfim, por lei, o aborto é permitido aqui.

A reação dos conservadores de plantão não tardou a aparecer. Vieram com tudo para “defender o bebê”, a maioria homens pelo que percebi aqui no meu radar.

As mesmas pessoas que são “a favor da vida” são contra a educação sexual nas escolas. Esses seres não mostraram revolta e não demonstraram repúdio com o estupro que a menina sofreu – mas sim com a possibilidade do aborto, como disse, neste caso, permitido por lei.

Se acha que estou exagerando, faça a pesquisa com seus próprios olhos. Pode ser que a minha bolha esteja podre mas, dado o mundo, creio que não seja só a minha.

A violência sexual contra crianças e adolescentes é, infelizmente, uma realidade que estamos a todo custo, há tempos, tentando combater. Se o tema parece repetitivo e chato para você, imagine para nós que lidamos diariamente com essas notícias e até mesmo passamos por isso.

Se você se coloca contra a educação sexual nas escolas saiba que os casos de violência sexual são muitos, também, pela falta desse debate.

A questão de gênero, palavrinha que causa furor em conservadores, está vinculada a vários crimes de estupro cometido em crianças.

Trago alguns números. Vai que você não tem noção do tamanho da desgraça…

Ao menos uma em cada três mulheres foi vítima de violência física ou sexual exercida por um companheiro íntimo (ONU, 2014).

89% dos casos de violência sexual registrados no Brasil são contra mulheres. Do total, 70% representam casos contra crianças e adolescentes, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2014).

Em campanha realizada na internet pela organização Think Olga com a #PrimeiroAssedio, a idade média do primeiro assédio sofrido por mulheres é de 9,7 anos, ou seja, ainda na infância.

A esmagadora maioria das vítimas de violência sexual é de meninas entre 0 a 17 anos. Nos casos notificados ao Sistema VIVA/SUS, a porcentagem de crianças e adolescentes do sexo feminino foi de 83,5%.

Qual seria a causa disso? Há quem diga que os homens têm um impulso incontrolável. Será tão fora de controle assim? São em todas as comunidades do mundo em que temos estupros? E cá para nós, como assim os homens não são capazes, como dizem, por uma questão hormonal de sua natureza, de controlar sua disposição sexual mas conseguem, por exemplo, esperar a mãe da criança sair da casa para cometer o crime ou tem a calma para procurar um lugar seguro para agir violentamente? Que impulso incontrolável é esse que consegue esperar o momento ideal para segui-lo?

Sou a favor da Educação sexual nas escolas mas tenho pleno entendimento que essa responsabilidade não se restringe somente a elas.

Esse enfrentamento deve ser feito nas Igrejas, nos clubes, nas praias, nos bares e em qualquer lugar onde exista alguém que se incomode com esses números. Não cabe só ao professor o ato de educar. Debater a origem dessa violência é um dever de toda a sociedade.

Fato é: o caso dessa menina de dez anos não é um caso isolado. Pelo contrário, esses crimes integram a nossa organização social e fazem parte de uma estrutura que regula as relações entre homens e mulheres e meninas.

Vale dizer, que essa estrutura não é algo natural e sim cultural e, portanto, passível de releituras, debates e mudanças e elas só vão acontecer quando cada pessoa tomar para si a responsabilidade de participar dessa revolução.

O nome da menina de dez anos que ainda está grávida (dada a morosidade do processo para autorizar o aborto) não foi revelado e não importa.

Ela tem vários nomes e o rosto dela é a de todas nós.

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Não consegui descobrir o nome da artista para dar os créditos.

Flores para Laura e Maurício

Laura e Maurício estavam casados há uns 20 anos para mais. Laura já tinha tomado para si como verdade de que com mais de quarenta anos, a mulher perde a libido e o poder de sedução. Maurício não pensava sobre essas coisas.

Um dia, mais precisamente na terca-feira, a campainha tocou quando o casal estava vendo o jornal na televisão da sala. Laura se prontificou, como sempre, a atender. Era da floricultura e o buquê era “para a mulher que morava naquele apartamento”.

Laura recebeu o buquê de rosas ornamentado lindamente. Colocou em um vaso bem no meio da mesa da cozinha. Virou a cabeça de lado lentamente conferindo a imensidão de formosura.

Correu para beijar Maurício.

Ele – que não tirou os olhos da televisão – estranhou o carinho. Acho que até se sentiu um pouco incomodado, mas Laura seguia faceira adulando seu marido.

Quando Maurício chegou na cozinha, estranhou o colorido e perguntou para Laura o que era aquilo.

– Como assim, Maurício? São as flores que você me deu.

– Eu? Eu?! Não comprei flor nenhuma não, Laura. Quem te deu isso?

Laura não sabia responder. Procurou algum cartão escondido no meio das flores e nada.

– Não faço ideia, Maurício. Eu jurava que tinha sido você.

Maurício ficou, como dizem, bolado. Boladaço. Disse que sabia que Laura não fazia questão de flores e muito menos via graça em rosas. E complementou que seja lá quem fosse que tivesse dado aquilo não conhecia Laura como ele, Maurício, seu marido.

– Se te conhecesse bem, daria um… daria um… daria…

– Maurício, quem te disse que não gosto de flores, Maurício? Quando você me ouviu dizendo que não gosto de rosas, Maurício. Hein, Maurício?

Maurício buscou nos porões mais profundos e empoeirados de sua memória alguma frase de Laura para lhe jogar na cara.

– Você nunca falou que gostava, respondeu como aqueles que concluem que não existe aquecimento global quando estão diante de um inverno rigoroso.

Foram dormir.

No dia seguinte, Laura teve dificuldade em escolher a roupa para ir trabalhar e colocou brincos maiores. Laura demorou-se mais no banho do que de costume.

Maurício perguntou, assim que ela chegou do trabalho, se ela havia descoberto quem havia lhe dado aquilo.

– Não faço ideia, Maurício. Pensei que tivesse sido você. Já te disse.

– Ninguém falou nada lá na empresa?

– Não, Maurício.

Durante a semana que se passou, Laura trocou a água das flores duas vezes e o corte de cabelo, uma.

Na terça-feira, a campainha tocou novamente quando ambos estavam no sofá. Laura lia a autobiografia da Rita Lee. Maurício assistia qualquer coisa na TV.

Laura fechou o livro, ajeitou a blusa e foi ver quem era.

– Boa noite. Entrega para dona Laura.

Gente do céu que era de novo o florista com um buquê daqueles…

Laura recebeu as flores sem remetente e foi mostrar para o marido.

– Foi você dessa vez, Maurício? – perguntou como as pessoas que têm muitos medos, mas também determinadas esperanças.

– O que é isso, Laura? De novo? Não! Não fui eu, Laura. – respondeu enquanto olhava para o rosto da Laura que se misturava com as flores em que ela mergulhava o nariz.

Laura cuidou do segundo buquê melhor do que se encarregou do primeiro e ocupou-se dela – como se fizesse parte de um jardim cheio de pólens e abelhas.

Maurício seguiu questionando. Ambos buscavam na mente quem poderia estar por trás daquele gracejo e abuso, como Maurício já estava considerando. Mas nada. Laura era muito tímida, vivia para a casa, nem conversava direito com vizinhos, trabalhava em uma repartição em que as pessoas mal tinham tempo de ir ao banheiro, enfim, não dava para desconfiar de ninguém.

Laura chegou a ligar para o pai que morava em outra cidade. Além de não ter sido ele, ainda aconselhou Laura a não ficar “se engraçando por aí com qualquer um”.

Vou resumir a história porque hoje as pessoas andam sem tempo. E essa história melhora muito daqui para a frente.

Laura seguiu se arrumando melhor. Mais animada. Passou a se exercitar com mais frequência. Maurício que, no início, sentiu sabe deus o quê (mas, sentiu), do segundo buquê para cá, agiu.

Maurício voltou a usar perfume e na quarta, quando Laura chegou em casa, havia um jantar especial pronto.

Laura e Maurício foram ao cinema no fim de semana.

Na terça seguinte… dim dom! Lá estava o florista de novo que repetiu sua visita pelo menos umas três vezes.

Mas houve uma segunda-feira. Laura ainda não havia chegado do trabalho quando tocou a campainha.

Maurício atendeu.

Não era o florista e sim a vizinha de cima do 504.

Pela porta meio aberta com a antipatia dada aos moradores dos prédios, Maurício cumprimentou a vizinha.

– Boa noite, senhor. Um amigo me mandou um buquê de flores, perguntou se eu havia recebido, disse ele que foi na terça. Era para ser uma surpresa e estava esperando pela minha resposta. Hoje, teve coragem de me perguntar o que eu havia achado das flores. Eu não sabia o que dizer porque não as havia recebido. Perguntei ao porteiro sobre elas que me disse que um florista veio na terça e entregou um buquê no 404. Não quero as flores não, já devem estar murchas, só gostaria de saber se vocês receberam esse buquê ou se meu amigo está brincando com a minha cara. Sei lá, senhor. Desculpa incomodar, mas é importante eu saber.

Maurício olhou para o buquê ainda viçoso na mesa da cozinha que era cuidado com toda atenção por Laura. Olhou para a vizinha.

– Realmente, senhora, recebemos um buquê que foi jogando ontem fora. Não havia remetente. Mas certamente era para a senhora.

A vizinha riu animada batendo palminhas rapidinhas fazendo carinha de criança em véspera de praia e foi-se como se tivesse uma Lua só sua para uivar.

Maurício nunca tocou no assunto com Laura.

Assim que Laura abriu a porta, Maurício sugeriu uma viagem linda para os dois.

Nunca mais o florista apareceu.

Fim.

Não. Pera. Faltou uma coisinha.

Foi Laura que comprou, com exceção do primeiro, todos os buquês para ela.

Segura a minha mão?

Talvez você já saiba, mas quero falar mais sobre isso porque é muito importante para mim. Estou pré-candidata de novo. Anuncio isso como se tivesse anunciando uma gravidez – o que em essência tem lá suas intersecções.

A primeira vez que estive assim, a dizer, com essa disposição a me candidatar, foi em 2018. Nunca na vida tinha pensado em viver essa experiência. O fato de ser suburbana, mãe de três, professora, dona de casa… tinha me feito acreditar que não teria tempo para me dedicar à política.

Mal imaginava que eu já fazia política sendo mãe, professora, suburbana e fazendo a exposição das minhas emoções (alegria, tristeza, raiva, medo…) nas redes como sempre fiz. Não era política de rua (a famosa militância de base e orgânica), mas era política porque apontava meus sofrimentos e me indignava com outros.  Verdade que não usava a palavra falada, mas o fazia com a palavra escrita que também tem seu volume.

Na campanha em 2018, aprendi a falar no megafone, vejam vocês. Rompi minha timidez quando estavam chegando as eleições.

Antes disso, quem me apoiava diretamente se tornou minhas pernas, meus braços e, principalmente, meu pescoço. Era eu abaixar a cabeça e lá vinha a galera do pescoço colocando meu nariz numa posição de enfrentamento.

Entendi que eu não era mais uma. Tornei-me múltipla, coletiva, plural e mais forte como se torna qualquer pessoa que se alimenta de histórias.

Foram mais de 28 mil votos na ocasião. A campanha foi linda por ter sido repleta de aprendizado, bem se sabe quanto de beleza há no ato de aprender…

E agora, cá estou eu de novo.

Não fui eleita mas consegui ser a primeira suplente da Alerj. Há todo um cálculo que tem a ver com a quantidade de votos nos partidos e bem se sabe o que o PT sofreu na mão dessa mídia.

Sei que nenhum trabalho foi em vão porque aprendemos e muito em 2018 e eu conheci a Márcia – e mais tanta gente que expandiu e me densificou. A cereja do bolo foi ter tido a honra de conhecer de perto a força da Benedita. É algo impressionante de verdade.

Quando pensei que estava com uma certa experiência, veio 2020 que subtraiu tantas vidas e fechou escolas por todo Brasil.

A vontade de estar em um lugar onde podemos efetivamente fazer algo cresceu e resolvi “engravidar” novamente. Estou pré-candidata a vereadora aqui no Rio de Janeiro.

O parto será quando a campanha oficialmente começar. Cuidaremos desse bebê juntamente. Conversaremos sobre seu futuro e trocaremos muitas ideias de como ele pode crescer com muita saúde mesmo estando numa pandemia.

Nossa criança dará os primeiros passos quando chegarmos lá.

Não vou falar que estou feliz porque não consigo me ver assim diante de tantas mortes. 

Mas estou animada como uma professora que se matriculou em um curso e vai aprender novamente.

As contrações estão começando.

Segura a minha mão?

Sem mil vidas

Sinto muito. Sinto tanto. Em termos de número de mortos, é sempre estranho achar que cem mil é uma tragédia maior do que cinquenta mil, do que dez mil, do que mil… Quando a morte pode ser evitada, essa perda sempre será uma tragédia ao menos para uma mãe, um pai, um irmão ou um filho.

Falhei como educadora. Minha didática não serviu. Não teve voz. Não repercutiu.

Falhamos como escola quando estamos aprendendo, ao invés de frear um crime contra a humanidade, a conviver com a tragédia e a normalizar o que é abominável.

Ouço ainda que exagero com meus cuidados, que estou ficando deprimida e que posso ficar doente sem socializar, em suma, que “não é para tanto”. Não ouço isso de uma pessoa que tenha votado em Bolsonaro – desses eu recebo o deboche, o “e daí?”.  Ouço de quem, gozando saúde, acha que seja imortal e, perante o ilusório infinito, considera que uma dose de egoísmo não faz mal.

Diante dos números, há tempos ando preocupada com quem fica doente.

Fico muito mais tensa, porém, com quem está andando feliz no inferno.

Não que eu não considere a possibilidade de sorrir. Longe de mim… logo eu dada a tantas gargalhadas. Não é isso. Considero repugnante quem não se comove com mais de mil mortes (que poderiam ter sido evitadas) por dia e que, mesmo não tendo votado em Bolsonaro, repete as palavras desse genocida: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”.

Pessoas com nomes e com futuro se foram precocemente e as famílias não puderam velar os corpos levando – o que já era traumático – a um nível insuportável.

Por mais que alertasse para essa dor da perda e de não poder viver o luto, falhei.

Não consegui barrar um extermínio.

Eu, professora, não soube explicar. Não comovi. Não empolguei.

Enquanto falava, vi a turma me dando as costas e ir brincar no pátio antecipando um recreio.

Gostaria de ter conseguido sensibilizar e fazer dos números, como sempre fiz, uma demonstração. Sinalizei que cada ponto no gráfico continha uma história e era um ser humano. Mostrei o número de profissionais de saúde que trabalhavam – e continuam trabalhando –  sem equipamentos de proteção por negligência do Estado, apontei quantos morreram ao cuidar das pessoas contaminadas. Mas sequer você – que me ouviu – tem andado com máscara ou ficado em casa tendo condições para isso.

Você que votou em Bolsonaro, tem agido como ele. Você que não votou em Bolsonaro, também.

Falando nele, gostaria de deixar registrado que nós que estamos indignados não sejamos, talvez, a maioria. Mas somos muitos.  E não desistiremos de denunciar os crimes cometidos e de cobrar a responsabilidade que Bolsonaro tem de proteger a população.

Seguimos ainda, deste lado, mobilizados em respeitar as vidas e em não esquecer dos mortos.

Lutaremos para que a justiça apareça e puna o assassino.

Sim, assassino. 

Não evitar a morte, tendo maneiras de fazer isso, é uma forma de matar.

E será sempre um assassino se pudesse ter evitado uma morte e não o fez de propósito. Porque não quis. Pelo contrário, criou condições para isso.

Sinto muito. Sinto tanto por estar sem tantas vidas. E, prometo, como muitos de vocês, que seguirei tentando.

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A ilustração desse texto foi feita pelo artista Sérgio Ricciuto Conte que ilustrou Isaac no Mundo das Partículas e outras capas de livros meus. Ricciuto também falhou. Mas, como eu e muitos de vocês, segue também tentando.

Breve reflexão

Estou refletindo aqui e me lembrei de uma história.

Um dia, do nada, meu filho Hideo, que na época tinha 8 anos, começou a ficar estranho andando atrás de mim pela casa. Ele sempre sentiu muito medo mas estava fora do normal.

Parei para perguntar o que estava acontecendo e ele me falou: “Eu estou com problemas com os espelhos dessa casa.”

Eu que sempre fui toda cética achei que era coisa de criança. Alucinação, talvez.

Fiquei com ele no quarto dele até ele dormir.

Um detalhe que não é detalhe. Eu tinha uma cachorrinha da idade dele, a Pati. E ela sempre ficava por perto como uma sombra.

Quando Hideo dormiu, eu fui para o meu quarto com a Pati na minha cola sempre. No meio do caminho, havia um espelho grande e quando ela o viu, desatou a latir loucamente.

Ela já conhecia a casa toda há anos e sempre passou por ali deboa.

Acendi a luz.

Poderia ser alguma sombra que ele estava estranhando.

Nada. Ela continuou com os olhos fixos no espelho latindo e querendo avançar no que estava vendo. Latindo com ódio canino desse que envolvem amor ao dono.

Peguei a Pati no colo e fui para meu quarto. Ela seguia inquieta querendo sair do quarto.

Acalmei a Pati. Acalmei bem porque precisava avaliar toda aquela situação.

Quando ela estava quietinha, peguei ela no colo e refiz o caminho.

Mesma coisa.

Ao olhar para o espelho, desatou a latir babando de ódio.

Eu estava sozinha em casa com as crianças e a Pati. Era de noite.

Eu, óbvio, estava bolada com tudo aquilo já que sempre desdenhei desse tipo de história.

Peguei a Pati e coloquei em vários ângulos diferentes em frente ao espelho. Ela não parava de querer avançar nele.

Levei, depois, a cachorrinha para o meu banheiro. Ela estava calma no chão. Quando peguei no colo e ela viu o outro espelho, mesma coisa. Começou a latir.

Enfim. Ela estava vendo o mesmo que meu filho e, de fato, havia algo ali.

Acreditem. Eu fiz todos os testes com ela. Com a luz apagada ou acesa, ela latia como os que têm algo a dizer.

Apaguei a acendi a luz várias vezes. Coloquei em outros ambientes com espelho. Antes, sempre a distraía.

Como lidar com essa situação?

Entendi que seja lá o que fosse que eles estivessem vendo não sairia dali para nos machucar. Se não, já teria saído. Resolvi impor uma lógica que nem sei se cabia. Mas assim pensei há exatos 20 anos.

Peguei as crianças no colo (pesadas para um caramba) que já estavam dormindo e fiquei ao lado delas na minha cama com a cachorrinha no nosso meio.

No dia seguinte, com calma, expliquei para o Hideo que seja lá o que ele visse nos espelhos que era para pensar em coisas boas e não se preocupar.

Falei que há coisas que a gente não entende mesmo e que o amor e bons pensamentos sempre são armas boas até para seres de outra dimensão.

Durante vários dias fiz mais testes com a minha cachorrinha. Ela chegou a esboçar um rosnado um dia, mas foi tímido. Passou.

Meu filho disse que nunca mais viu nada.

Enfim, contei isso porque olhei para o espelho agora há pouco e vi uma mulher toda descabelada, meio grisalha, com olheiras e com um olhar triste e desesperador.

Vendo o meu reflexo, lembrei-me dessa história e resolvi contá-la pela primeira vez para vocês.

Não será desprezando os saberes que ensinaremos a valorizá-los

Foto ilustração por Doug Chayka.

Há, pelo Brasil afora, o debate sobre quando voltaremos às aulas presenciais. Antes de entrar no quando, pretendo debater o para quê.

Para que educamos, afinal?

A escola não pode ser um lugar que ensina injustiças. Existe a diferença de atitude e preocupação em relação às escolas privadas e públicas. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Crivella deu uma data, 3 de Agosto, para o retorno das aulas nas escolas privadas. Não temos previsão certa para escolas públicas e, dentro desse cenário, acho eu, quem for às aulas irá desaprender. Desaprender a ser justo. Desaprender como ser solidário. Desaprender a cuidar do próximo. Desaprender a ser gente.

Estamos lidando com crianças e jovens que, ainda que tivéssemos a certeza de que nenhum deles morreria mesmo que fosse contaminado, se tornarão vetores. Se queremos ensiná-los a ter sucesso, não podemos fazer isso navegando com eles em um oceano de miséria e num mar de mortos pedindo para que só olhem lá longe, que mirem somente o horizonte. Não lapidaremos um ser humano dessa forma e sim prepararemos mais um monstro para atuar com todo o seu egoísmo nesse universo.

Falamos muito das crianças e dos jovens. Mas precisamos falar com eles. Precisamos que eles saibam que não podem ser usados como ferramenta eleitoreira e que não há nada mais precioso do que existir. Entre voltar ou não a nos encontrarmos, precisamos, antes, confessar que não podemos e não sabemos mais como fazer. Nós, professores e professoras, que já demos tantas respostas, agora, estamos buscando por elas.

Em tempo algum, fomos explicados somente pela química, física, biologia ou pela matemática. Mas, mais do que nunca, precisamos da filosofia e da sociologia para conseguirmos avançar no mínimo entendimento do que vem a ser essa tal realidade.

Tenho formação em Filosofia e em Física.  Não considero a Física uma disciplina científica e sim uma indisciplina. Aprendi a ser rebelde estudando ciência, a não me contentar com respostas simples. Entendi que estudar a natureza é, antes de tudo, estudar como raciocinamos e as maneiras eficazes de lermos o mundo.

Uma das perguntas que me fazem com muita frequência é como eu concilio a Física com a Filosofia. A pergunta é interessante, mas mais curioso é pensar como surgiu a ideia de que esses dois saberes não conversam – se não se faz um sem a existência do outro. Não se estuda o átomo sem questionarmos a possibilidade de sermos feitos todos do mesmo tijolo.

Não existe conflito algum entre ciências exatas e humanas e sim preconceitos que foram semeados há anos e que fizeram da realidade um Frankenstein ao compartimentarem o que é uno em essência.  

Por que estou falando sobre isso? Porque a Escola sempre foi pensada e manipulada pelos poderes. Geralmente é gerida por administradores e não por educadores. Um dos poderes se chama mercado. E, dentro da escola, há conhecimentos que são mais valorizados do que outros, a meu ver, de forma muito equivocada. Não podemos desprezar a história e muito menos ensiná-la de forma presencial hoje se depreciamos, desrespeitamos, desconsideramos e subestimamos o que historiadores, sociólogos e filósofos têm escrito sobre essa pandemia. Não faz sentido ensinar sobre a natureza dentro de uma sala de aula desdenhando um vírus.

Se estamos aqui para estudarmos a realidade e o mundo, diante uma mudança radical que o coronavírus nos trouxe, precisamos repensar se queremos, de fato, educar ou nos convertermos em meros funcionários estúpidos e broncos desse laboratório gigante chamado Brasil. Não faz sentido cancelar o Reveillon e o Carnaval e querer que as aulas presenciais voltem.

Não existe conhecimento exterior e independente ao ser humano. O ambiente é múltiplo e tem conjunturas, conjecturas e relações diversas. Não é somente adquirir “conteúdo” de que o aluno necessita. Educação e sociedade são entidades que não se podem confundir, mas podem e devem morar na mesma casa e em todas as Escolas.

A atitude que tomarmos agora será escrita nos livros de história pelos quais seremos avaliados e estudados em um breve porvir. Gostaria, permito-me sonhar, que vivêssemos também para sermos registrados e virarmos palavras de um texto mais abrangente que é a nossa própria vida, a nossa própria biografia, a nossa própria história.

Estamos sendo apresentados a números e gráficos o tempo todo. Inclusive, prefeitos e governadores os usam para mostrar que estamos em condições de retomar nossa rotina aos poucos. Mas é necessário dizer que dentre os milhões de estudantes temos, por exemplo, a Natália, o Jorge, o Maurício, a Luana… que não são aquilo que cabe em sua carteira de estudante com um número de matrícula. Para além de número, têm nome, pensam, assimilam, observam e aprendem com exemplos. Ensinar a cidadania é mostrar a possibilidade de ser feliz e não há felicidade autêntica quando o sucesso de um depende do fracasso ou causa a morte do outro.

Entendo que muitos pais, mães e políticos estão preocupados em preparar os jovens para o futuro. Mas é necessário que ele exista para que seja vivido. Para sonharmos, fazermos planos e sermos aceitos pelo póstero não podemos nos exilar da atualidade.

Ouvimos que as escolas particulares têm condições financeiras de voltar e já vem negociando a volta com o poder público. Ainda que obedeçam às exigências sanitárias (o que é extremamente difícil beirando o impossível, dado o número de alunos e o tamanho das salas de aula) e que a volta “seja voluntária” como estão propondo (ou seja, faltas não serão computadas), pergunto-me se todas essas crianças irão de carro particular para as escolas. Se considerarmos que uma só pessoa use transporte público (que bem sabemos não há distanciamento seguro possível), como garantir a segurança de todos os demais?

De acordo com o prefeito do Rio, esse retorno seria facultativo a professores, funcionários e alunos que assim desejarem. Considerar essa possiblidade é esquecer por completo que vivemos em um país no qual as relações de trabalho que o capitalismo estabelece não são “facultativas”. Quando as atividades retornarem, nenhum professor, ou outro funcionário, terá a opção de escolher entre trabalhar ou não. O destino dos que optarem em continuar o isolamento, posso afirmar sem medo de errar, será o desemprego. No mais, como as escolas garantirão a equidade no ensino entre aqueles que decidiram voltar e os que preferiram ficar em casa?

A Fiocruz já se manifestou dizendo que o retorno às aulas presenciais neste momento é uma medida prematura e que a pandemia não está controlada. Para que vamos ensinar ciência presencialmente se desconsideramos o que ela tem nos falado? Como vamos mostrar a importância da biologia se desconsideramos a letalidade de um vírus? Como vamos ensinar a importância de saber fazer e ler os gráficos se desconsideramos o que nos são mostrados? Qual o sentido disso?

Voltaremos a nos ver em sala de aula quando esse encontro não tiver o peso da responsabilidade no aumento dos números de mortos.

Nós, professores e professoras, seguimos nos mobilizando e dando nossas aulas.

Sabemos que não será desprezando os saberes que ensinaremos a valorizá-los.

Sol e celular

Os dias não têm sido fáceis. Não tenho conseguido me concentrar para quase nada e há tempos não escrevo. Daí que hoje eu acordei e havia uma caixa esquisita no meio da sala. Era algo grande, de acrílico que tinha uma porta. Entrei e sentei-me na cadeira que ali estava super acolchoada. Havia um cinto de segurança. Coloquei e imediatamente ouvi uma voz metalizada.

– Preparada?

Eu que nem café da manhã tinha tomado e muito menos me penteado, coisa que não faço há uns quatro meses, lembrando de tudo o que fiz na vida plena de insegurança e de tanta coisa que deu errado nessa caminhada, respondi prontamente como fazem os que chutaram o balde:

– Sim!

Eu havia entrado na cápsula do tempo e fui parar no meu quarto em Madureira em 1990, há exatos 30 anos. O barulho da minha chegada assustou eu mesma com 17 anos que estava sentada lendo Ame e dê Vexame de Roberto Freire.

Nos olhamos. Eu 47 e eu 17. Depois de tudo explicado, eu tive um diálogo sem precedentes na minha vida. E tudo tinha que ser muito rápido porque eu não sabia que horas a cápsula iria partir e eu, 47, estava preocupada em fazer o café para o Yuki, 13.

– Mas que cabelo branco é esse? Por que não pinta?

– Mas, menina, você já tá decidida que não vai casar virgem, já decidiu que nenhum homem vai mudar o seu sobrenome, quer fazer faculdade de física, já implica com a música Minha Namorada de Vinícius arrumando treta com uma galera, ou seja, toda feminista, e está preocupada com o fato de eu pintar ou não o cabelo?

– Mas o que isso tem a ver? Eu vou casar com o Nelson?

– Vai. 

– Ah que felicidade!

– Vai ter três filhos e o primeiro não será dele mas ele lhe chamará de pai.

– Como?

– Não tenho tempo de explicar.

– Vou ser feliz para sempre?

– Com ele? Não. Mas terão 20 anos bem divertidos.

– Ele vai morrer?

– Não. Mas vocês vão se separar.

– Ele vai me deixar?

– Não. Você vai querer viver outras coisas.

– Eu? Você pode estar me confundindo! 

– Tô nada. 

– O Collor vai ficar até quando?

– Vai durar pouco. Calma que Lula vai entrar e vai fazer um monte de coisa.

– Jura? Ele vai conseguir? E o que ele fará?

– O Brasil vai sair do mapa da fome. Essa miséria que você vê todo dia de gente passando fome no Nordeste vai mudar. A população mais pobre vai conseguir entrar nas Universidades, vai ter médico nos confins do Brasil… E nos Estados Unidos teremos um homem negro como presidente.

– Ah que lindo! Jura! Que beleza! Que futuro lindo! Vamos melhorar o mundo! Nem acredito!

– Ih não. Obama vai sair e o PT vai durar uns 13, 14 anos aqui. Depois sai por um duro golpe.

– Golpe? 

– Golpe. 

– Golpe?

– Isso. Golpe.

– E não vai dar para evitar?

– Difícil. Há uma máquina potente endinheirada que vai querer o PT longe. E logo depois teremos o Didi Mocó como presidente, viveremos uma pandemia, não teremos ministro da saúde, as escolas irão fechar, não poderemos velar nossos mortos, o fundamentalismo religioso vai mandar e desmandar no país e o telefone fixo vai acabar.

– O quê? E como a gente vai se comunicar?

– Por celular. E falaremos pouco porque teremos whatsapp. Mandaremos áudio curtos se formos educados e a pessoa responde quando puder.

– Não é melhor ligar?

– Deus me livre. Não. Mensagens curtas e áudios breves.Poderemos fazer chamadas de vídeo.

– Tipo os Jetsons?

– Sim. Tipo isso. 

– Teremos carros voadores?

– Não. Teremos muito engarrafamentos.

– Usaremos capacete para andar nas ruas tipo os astronautas?

– Sim. Algo que o valha. Protegendo o nariz, a boca e os olhos.

– Vou me apaixonar de novo por uma outra pessoa?

– Vai. Mas vai muito. De perder a virgindade de novo. Mas isso depois que o Lula te ligar.

– O Lula vai me ligar?! Por quê?

– Porque você… ih! A máquina vai embora.

– Calma! Me dá uma dica boa! Um bom conselho! O que não devo fazer? O que você me aconselha?

– Aconselho você a, por favor, tome muito cuidado com o…

A cápsula acendeu e tive que entrar rapidamente nela. 

– Com quem? 

– wurfrejfrjgbjkefbg

Eu respondi mas eu não entendi porque a cápsula tem parede anti ruído.

Fui direto para 2050.  A cápsula apareceu dentro de um quarto onde estava eu com 77 anos lendo Guta Jimenez, uma escritora lésbica e surda que ninguém ainda conhece.

Depois de tudo mais ou menos entendido e explicado sobre a minha cápsula do tempo, eu 77 olhou para eu 47:

– Mas que cabelo branco é esse? Por que não raspa logo isso?

– Com que idade você raspou a cabeça?

– Foi uma promessa.

– Promessa? Mas você não acredita nisso!

– Até ter uma neta internada.

– Ela vai morrer?

– Não. Foi só um susto. Yuki (43) quase enfartou quando soube do acidente.

– Filha do Yuki? Meu bebê será pai?

– Sim. 

– E Nara? E Hideo? Pera. Meu deus… Minha mãe e meu pai… 

– …

– Não quero ficar aqui não. Preciso voltar e dar café para o Yuki! Como está o Brasil? Temos carros voadores? Vacina para o covid? Serei presidenta? Quantos livros você já escreveu? Acabou a intervenção no CEFET? As Escolas Públicas melhoraram? O meio ambiente, como está? A violência nas comunidades acabou? Sobrou algum indígena? Você ainda pedala? Haia cumpriu seu papel? Cadê seu celular?

– Aquilo não faz bem não. Agora temos chips debaixo da pele.

– Oi?

A cápsula começou a piscar rápido. Entrei correndo e antes que a porta se fechasse, perguntei para mim:

– O que você me aconselha? O que não posso deixar de fazer? Me fala algo importante!

– Jamais vá para a cama com…, ou melhor: evite ao máximo dormir com o… wrotuerjfgerufe

A porta se fechou no meio da frase e pá. Caí grazadeus na minha sala e vim correndo escrever para vocês o que eu vivi antes que eu me desconcentre de novo pensando em como paramos nessa lama e como sairemos desse caos.


Ilustração feita por Sergio Ricciuto Conte

Sobre o novo Ministro-pastor da Educação

Nunca espero que venha algo bom de qualquer coisa que Bolsonaro esteja envolvido. O quarto nome indicado para ministro da educação é um pastor. Qual o problema ser pastor nesse governo, né? Já deveríamos estar acostumados, afinal, temos a pastora Damares no comando do ministério dos Direitos Humanos e o ministro da justiça. Todos “terrivelmente evangélicos”, termo usado pelo próprio Bolsonaro.

Como professora que sou há uns 25 anos, o meu corpo chega a doer vendo essa pasta sendo alvo de grupos conservadores. Nada contra religião e tudo contra o fundamentalismo religioso regendo as leis e a conduta deste país.

Não vejo discussão alguma sobre a Educação desde que Bolsonaro assumiu. Só me deparo com várias tentativas de atender a essa alucinação coletiva. Não há projeto para educação. A escola de Bolsonaro nunca foi pautada pelo conhecimento e pela competência da pessoa e sim em agradar grupos que o apoiem.

Falei, assim que o pastor Milton Ribeiro foi nomeado, que não importa a religião dele, contanto que não a use para comandar essa pasta essencial para o futuro do país. Mantenho o que disse. Porém, agora, já tenho como traçar um perfil desse pastor depois de ter visto vários vídeos, disponibilizados pelo próprio, sobre seus valores e sua visão de educação. Não trago boas novas, mas é preciso e urgente que elas sejam explicitadas.

Para citar somente três exemplos, o pastor já:

  1.  Justificou o feminicídio: Ele afirmou que um homem de 33 anos que matou uma adolescente de 17 “confundiu paixão com amor”. Ao tentar justificar o feminicídio, o pastor ministro disse que paixão “é louca mesmo”. “Acho que esse homem foi acometido de uma loucura mesmo e confundiu paixão com amor. São coisas totalmente diferentes. Ele, naturalmente movido por paixão, paixão é louca mesmo, ele então entrou, cometeu esse ato louco, marcando a vida dele, marcando a vida de toda família. Triste”, disse.

Vê-se que o pastor nem sequer acompanha a evolução da nossa história. O que motiva homens a matarem mulheres não é o amor, nem a paixão e sim um sentimento de ódio e de propriedade, um sentimento de ter sido contrariado. Não existe “crime passional” e sim feminicídio. Quando se repete a ladainha que se matou por paixão, se induz a condição de atenuante de pena, e dá a entender que estamos falando de algo natural. Não é. É cultural. E essa fala do pastor ajuda a fortalecer essa cultura machista e contribui e muito para que outros crimes aconteçam.

  • Disse que “Quando o pai é ausente dentro da casa, o inimigo ataca. Quando não impõe, essa é a palavra, a direção que a família vai tomar (…) o homem dentro de uma casa, ele aponta o caminho que a família vai”.

Eu poderia trazer dados do IBGE aqui que apontam que as mulheres têm chefiado mais famílias – mesmo quando possuem marido – representando a quase 50% dos casos e poderia mostrar como isso não tem nada a ver com a índole da família baseado em análises feitas e publicadas. Mas não importa porque para o pastor, como ele mesmo disse, o homem é responsável por “apontar o caminho”, dando a entender, obviamente, que o caminho apontado é o da moral.

Se o pastor usasse essa fala para denunciar o abandono paterno, seria um serviço. Mas não há vídeo, por mais que eu tenha procurado, que mostre que o pastor tenha esse tipo de preocupação com quase 6 milhões sem o nome do pai no registro. Também não encontramos nenhuma fala que demonstre um átimo de inquietação com o fato de que a maioria dos domicílios brasileiros tem mulheres negras como responsáveis pelo núcleo familiar. São elas que estão mais sujeitas à maternidade solitária, fruto de uma sociedade machista e de tradição escravocrata.

Que ter pai é importante, todos nós que temos ou deixamos de ter sabemos. O ponto é que a figura paterna tem várias funções relevantes na educação e a presença de um pai dentro de casa não quer dizer que, somente por causa dela, a família terá um norte moral e bom a seguir. O pastor desconsidera dados e a complexidade da sociedade.

  • Falou com todas as letras, pasmem, que: “Não dá para argumentar de igual para igual com criança, senão ela deixa de ser criança. Deve haver rigor, SEVERIDADE. Vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir DOR”. O “ensinamento” está em trecho de uma pregação que pode ser encontrada no canal de vídeos do próprio ministro da educação.

Segundo o pastor-ministro, a “cura” para uma criança não vai ser obtida por métodos “justos e suaves”. “Talvez uma porcentagem muito pequena de criança precoce, superdotada, é que vai entender seu argumento. Deve haver rigor, severidade.”

Ora, senhor pastor, a Educação deve ser usada para combater a violência e, portanto, não devemos usá-la. Mais uma vez, essa fala mostra o quanto o pastor está desatualizado sobre estudos na área da Educação. Para começar a “Educação” não pode ser pensada sozinha e sim juntamente com a saúde, justiça, cultura, esporte, de relações da comunidade e muito mais.

Para além disso, está nos nossos documentos oficiais, como Base Nacional Comum Curricular (BNCC), importantes referências para a Educação como proteção contra a violência.  Entre as que mais se relacionam ao assunto, destaco as seguintes: a de argumentar e promover os direitos humanos (No 7), a  de exercitar a empatia e valorização dos diferentes saberes e identidades (No 9) e o reforço pela autonomia, tomada de decisões com base em princípios democráticos e inclusivos (No 10).

Estudos apontam que até a metade do século XX os castigos físicos e punições corporais (ou não) eram práticas educativas socialmente aceitas e recomendadas, sendo utilizadas como instrumento de disciplina moral, garantia de respeito e obediência  especialmente à figura do pai, que, dentro de uma sociedade machista, foi considerada por tanto tempo como autoridade tanto para a esposa quanto para os filhos.

Se as pessoas considerarem o que o ministro-pastor disse, descartarão um fato apontado por vários especialistas na área que as punições físicas, ameaças, privação de privilégios e afetos não levam a criança a compreender as implicações do que fez. Por outro lado, quando não usamos violência, favorecemos a internalização valores, por propiciarem à criança a compreensão dos motivos que justificam a necessidade da mudança de comportamento, colocando-a como sujeito ativo em seu processo educativo e não como alguém submissa a ele.

Em outras palavras, não faltam livros que mostram que o uso de punições não é considerado eficaz à educação da criança e do adolescente na medida em que produz consequências negativas ao seu desenvolvimento a curto, médio e longo prazo.

A verdadeira autoridade não é violenta. E, se tivermos que usar a violência para sermos ouvidos, falhamos como educadores, pastor. Toma essa verdade.

Lamento profundamente em ter uma pessoa tão retrógrada, primitiva, antiquada, preconceituosa, desatualizada, absoleta e machista comandando uma pasta essencial para um futuro menos injusto.

Seguimos na luta pela cassação dessa chapa porque não há luz no fim do túnel enquanto Bolsonaro estiver presidindo esse país.

O Novo Marco do Saneamento Básico

Para quem perdeu essa última bomba: o Senado Federal aprovou no dia 24 de junho de 2020 o Novo Marco do Saneamento Básico.

Fico aqui me perguntando, é sabido que as empresas privadas costumam adotar política de exclusão de populações mais pobres. Será que veremos algo diferente disso com esse “Novo Marco de saneamento básico”?

Muita gente não sabe, então resolvi me estender um pouco aqui já que esse é um assunto que atinge todas as pessoas. Saneamento básico pode ser entendido como o conjunto de medidas adotadas para garantir a saúde da população, evitando que as pessoas se contaminem e prejudiquem seu bem-estar físico e mental. Dessa maneira, podemos dividir o saneamento básico em 4 vertentes:

  1. Abastecimento de água
  2. Esgotamento sanitário
  3. Manejo das águas pluviais
  4. Resíduos sólidos

No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988 [Lei nº. 11.445/2007] como o conjunto dos serviços, infraestrutura e instalações operacionais para essas quatro vertentes apontadas.

É importante dizer que a garantia de saneamento básico é uma responsabilidade do Estado, em todas as esferas de governo, mas, de acordo com a Lei, cabe aos prefeitos a responsabilidade dos serviços de saneamento básico nos municípios.

Para além disso, a Lei tem como pilares a integralidade, controle social e aplicação de tecnologias para a universalização do saneamento. Isso seria feito estabelecendo funções de gestão para os serviços públicos, como planejamento municipal, estadual e nacional e a regulação dos serviços, que devem ser usados com normas e padrões.

Com isso percebemos, de forma muito fácil, que a Lei garante saneamento para todos.

A pergunta é: por que, então, nossos governantes não colocam a lei em prática? Aguenta aí que respondemos já.

Vamos destrinchar esse “Novo Marco do Saneamento Básico” que, a meu ver, é mais um golpe que a população brasileira, principalmente os mais pobres, levou.

De maneira simplificada o Novo Marco afeta a titularidade dos municípios, privilegiando as empresas privadas. Para isso, o projeto dificulta a celebração de contratos de programa, que garantem que companhias estaduais prestem serviços para os municípios de seu estado. E coloca como obrigatório um chamamento público para verificar se há outros interessados, para além das empresas estatais, na concessão dos serviços. Ou seja, o Novo Marco acaba com a preferência de nossas estatais na concessão de serviços de saneamento básico e abre o setor para o capital privado.

Com a nova lei, uma das mudanças mais significativas é a retirada da autonomia dos estados e municípios do processo de contratação das empresas que distribuirão água para as populações e cuidarão dos resíduos sólidos. Passa a ser obrigatória a abertura de licitação, o que implementa a competição do acesso aos contratos e a inserção massiva de empresas privadas, em detrimento das empresas estatais nos estados, que atendem 70% da população.

No artigo 19 do que foi aprovado, os titulares de serviço público de saneamento básico deverão publicar seus planos de saneamento até dezembro de 2022. Mas, no parágrafo único seguinte diz que serão considerados os planos de saneamento básico os estudos que fundamentem a concessão ou privatização, desde que contenham os requisitos legais necessários.

Está nos documentos disponibilizados pelo governo que, a partir de 2023, esse plano de saneamento básico apresentado será REQUISITO para que municípios de todo o País possam ter acesso a recursos federais do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) para obras e ações do setor. 

Ou seja, se o requisito não for aprovado, não terá direito a nenhum investimento. Quem analisa esses planos de saneamento? O governo federal. O governo de Bolsonaro e Guedes.

SACOU?

Para terminar, outra modificação é que o governo federal coloca a Agência Nacional das Águas como reguladora do sistema de saneamento nos municípios para receber os recursos federais acabando, assim, com a autonomia de cada município.

Agora, vamos trazer o problema para o dia a dia. Aqui no Rio de Janeiro temos a CEDAE, uma empresa pública que, como já sabemos, gera muito lucro e presta serviços para diversos municípios do estado do Rio de Janeiro, com base na lógica de subsídios cruzados.

O subsídio cruzado, para quem não sabe, é um dispositivo que possibilita que municípios com menos recursos tenham acesso aos serviços. 

Pela nova lei, a CEDAE ficaria inviabilizada de atuar em municípios mais pobres, que, por sua vez, não poderão mais firmar esses contratos de programa e terão que abrir licitação para contratar empresas para atuar no setor de saneamento básico.

Mas que empresa, ainda mais sendo privada, terá interesse em atuar em municípios pobres? Que empresa privada se dedicará a lugares em que a arrecadação de capital é baixa? A resposta todos nós já sabemos: nenhuma. E com isso, o povo que até um tempo atrás tinha garantido por lei o direito a saneamento básico fica desprotegido e em meio ao lado mais cruel do capitalismo: manda quem tem dinheiro.

Nos municípios mais privilegiados, por exemplo, certamente haverá uma otimização do contrato de programa. E o superávit que seria gerado na hipótese de contrato de programa tende a ser consumido nesse processo de muita concorrência na licitação. Os municípios deficitários não serão assim mais subsidiados.

Ou seja, a prestação de serviço de forma regionalizada será muito mais difícil, pois essa medida inviabiliza os subsídios cruzados e a população mais carente, certamente, ficará prejudicada. 

A pergunta é: como ficarão esses municípios que dependem dos subsídios cruzados? Em um momento em que os recursos para a saúde estão congelados por vinte anos, ainda temos que lidar com mais essa medida que vem, pelo tudo o que aqui foi considerado, no sentido de aumentar as doenças que um saneamento básico evitaria. É bem possível que jamais teremos investimento no saneamento básico justamente nos municípios cuja população mais precisa.

Não é preciso ir muito longe para perceber o quão excludente é esse tipo de decisão. Quando passamos pela privatização da energia foi preciso que Lula criasse o “Luz Para Todos”, um programa público com recursos públicos, para garantir a universalização da energia elétrica. Tudo isso porque a inciativa privada se negou a iluminar os rincões do país.

Outro exemplo é o estado do Tocantins. Após a privatização da Saneatins, a empresa devolveu ao estado cerca de 78 municípios que eram deficitários, e ficou apenas com o controle de 47 municípios que apresentavam níveis mais altos de rentabilidade.

A ideia de que o Novo Marco do Saneamento Básico é impulsionado pelo interesse do capital se reforça quando descobrimos quem é o relator do PL no senado. o senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), um dos políticos mais ricos do país e acionista da Coca-Cola no Brasil, que consome enorme quantidade de água. Essa gente não dá ponto sem nó e tenta montar uma narrativa complemente surreal para enganar o povo, nos convencer de que nossas estatais de saneamento básico não são capazes de resolver os problemas. O que eles não contam é que a raiz do problema não é a CEDAE ou qualquer outra empresa pública do setor de saneamento básico e sim os gestores, que fazem, de maneira proposital e criminosa uma péssima gestão para justificar a privatização, através do Novo Marco.

O resultado disso é o avanço de doenças derivadas da falta de saneamento, o que por sua vez poderá sobrecarregar a atenção primária do Sistema Único de Saúde, o SUS, fazendo com que os atendimentos aumentem para além da capacidade. E com isso o Brasil, mais uma vez, vai na contramão do que acontece no  mundo. A privatização dos serviços de saneamento e água tem se revelado desastrosa no mundo. Cidades como Buenos Aires, Berlim, Paris e Budapeste são algumas das mais de 300 ao redor do mundo que decidiram retomar o controle sobre seus serviços após os péssimos resultados com a privatização. De 2000 a 2017, foram 900 reestatizações!

Por fim, fica claro que a lei está alinhada com o projeto político neoliberal iniciado no governo Temer e reforçado no atual governo. Se hoje existem pessoas sem saneamento básico, vivendo nos esgotos e sem água potável é graças a direita capitalista que, no lugar de aplicar a Lei e fazer valer a Constituição, prefere abandonar a população mais pobre de forma criminosa, fingindo não ver o problema da falta de saneamento básico e dando como única solução a privatização das empresas estatais. Essa é a resposta para a pergunta que fizemos no início. Isso não resolverá nada, muito pelo contrário.

O saneamento básico em suas mais diversas dimensões como saúde, moradia, meio ambiente e alimentação, deve ser encarado como direito humano, direito de todo cidadão e por conta disso é dever do Estado, e não de empresas privadas, garanti-lo.

Está bem explicitado de que tudo foi feito para favorecer as empresas privadas. É possível acreditar que a iniciativa privada terá interesse de cuidar do saneamento básico dos municípios mais pobres, mesmo eles gerando menos lucros? Por que dificultar a universalização dos serviços? Como vamos garantir o acesso da população nas áreas rurais e das periferias urbanas a esse serviço essencial?

Que espécie de senadores que o Brasil elegeu que permitam que isso aconteça? Que compromisso tem com a nossa soberania? Por que Bolsonaro, esse mesmo que mostrou inúmeras vezes que não se preocupa com a vida das pessoas mais pobres, defende tanto essa privatização?

Água virou uma mercadoria só para quem pode pagar.

A aprovação dessa lei vai representar um aumento significativo da exclusão das pessoas em processo de vulnerabilização, muito maior do que se tem hoje. Há a possibilidade de eu estar errada? Não descarto. Pode ser que Paulo Guedes esteja preocupado com a população mais carente e, por isso, está feliz com esse “novo marco”? Não. Acreditar nisso seria como acreditar que as regiões Norte e Nordeste do Brasil são influenciadas pelo inverno do Hemisfério Norte ou acreditar nos títulos de mestre e doutor de quem anda com Bolsonaro.

Aos diabos com a falsa simetria

Ando sem paciência. Os tempos duros me transformaram em um ser mais árido. Me filiei ao PT no olho do furacão e, na ocasião, até o Lula pediu para eu pensar direito por conta das pedras e bombas (sim bombas, o Instituto Lula chegou a ser alvo de bombas) que estavam tacando. A minha filiação se deu por um ato político de não compactuar com o ataque que o PT sofria.

O tempo passou. Veio Bolsonaro, Queiroz, Covid-19…  E o PT continua sofrendo ataques. Lula estava certíssimo. Não há um dia que não sou xingada e cobrada por estar filiada ao PT.

Para começar, entendo que muitas pessoas tenham suas reservas com um dos maiores partidos de esquerda da América Latina. Claro que entendo.

Só acho curioso que essas mesmas pessoas que fazem cobranças ao PT são as mesmas que se calaram diante casos como o Cartel dos metrôs e trens de São Paulo e Distrito Federal, Mensalão tucano, Máfia do Carlinhos Cachoeira, Aeroporto de Cláudio, JBS, Furnas Centrais Elétricas, Caso Sivam, Caso da Pasta Rosa e muitos outros. Em todos estes casos, há, ao menos, um figurão do PSDB envolvido: Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Azeredo, Beto Richa, Marconi Perillo e Aloysio Nunes entre outros.

Por que será que quando os protagonistas são tucanos os inquéritos são paralisados, juízes arquivam as denúncias e ninguém que exige uma autocrítica do PT reclama?

Descobriu-se uma conta de milhões em nome de José Serra, do PSDB, na Suíça, mas Serra está aí, livre, leve e solto. Sobre Fernando Henrique, tem até um livro para expor o que foi a privataria tucana. Aécio Neves? Preciso de mais de uma hora de vídeo para falar de todas as suas falcatruas.

Mas respondam: quem foi condenado e preso por um apartamento de classe média no Guarujá, no qual nunca passou um dia sequer e cuja posse e propriedade nunca teve? Mais uma: sabendo de todos esses escândalos e muitos outros, qual foi o jornal que dedicou 20 minutos de sua edição à compra por dona Marisa de pedalinho de alumínio, no valor de quatro mil reais, para ela se divertir com os netos?

A mídia que apanha hoje de Bolsonaro foi a mesma que apoiou sem restrições manifestações fascistas, saudando-as como algo legítimo e democrático. Assim como muitos médicos que hoje estão sendo ridicularizados por Bolsonaro foram os mesmos que proferiram xingamentos aos médicos cubanos dizendo que eles não tinham currículo para atuar no Brasil. Vale observar que Cuba ficou mais de dez dias sem registro de mortes por Covid-19.

Não falo isso com felicidade e sim com didática. A colheita está sendo farta e bem dizia nossas avós que o que se planta… Fora isso, não quero correr o risco de esquecer nada e não vou permitir que nem mesmo Bolsonaro me faça passar pano para quem preparou muito bem o solo e regou com cuidado as sementes que cresceram e se transformaram nessa plantação danosa que todos nós estamos vendo: pessoas que invadem hospitais, quebram computadores, gritam com os médicos estimuladas por Bolsonaro, o mesmo que não acreditou nos dados fornecidos pelo Ibama, pelo INPE e pelo IBGE para citar apenas alguns exemplos, esse mesmo ser pede criminosamente para que seus seguidores fiscalizem hospitais. Pessoas que agridem jornalistas, coveiros, cientistas, artistas, terreiros…

Mas “ódio ao PT” tem outra origem. E querer culpar o PT por termos Bolsonaro como presidente tem, para além de covardia, ingenuidade ou burrice mesmo, muito oportunismo.

Ainda que o PT acabe, o ódio ao PT vai continuar existindo porque tem uma essência. Quem odeia o PT não tem esse sentimento pelos erros do PT e sim pelos seus acertos. Ainda que o PT não tivesse cometido nenhuma aliança que mais tarde veio a pagar por isso, o ódio ao PT continuaria existindo porque esse ódio é inato. Ele existe antes do PT surgir como partido. Esse ódio está no DNA da elite brasileira que não suporta o que o PT representa.

Esse pessoal que vestiu a camisa da CBF, foi para rua enforcar bonecos de Dilma e Lula e pregar a volta da ditadura militar não estava nem aí com a corrupção, pois a ditadura militar foi um dos regimes mais corruptos da história do Brasil.

Eles esbravejavam contra as políticas de distribuição de renda do PT, contra as cotas que levam jovens negros da periferia aos bancos das melhores universidades e contra a valorização das trabalhadoras domésticas. Quando eles gritavam que queriam o país de volta e o fim do PT era porque o Brasil estava menos desigual e as regalias e os status (como a de explorar trabalhadoras domésticas e ter filho em universidade) estavam ameaçados.

Observem as variáveis da equação que resultou em “Bolsonaro 2018”, a pessoa que mais representa a estupidez escravocrata, misógina, machista e racista e que nunca negou isso, pelo contrário, usou em sua campanha:

classes altas e médias do Brasil + candidatos da direita moderada = ?

Com só essas variáveis não conseguimos chegar ao resultado “Bolsonaro 2018”, concordam? Vamos colocar mais elementos nessa equação:

classes altas e médias do Brasil + candidatos da direita moderada + mídia oportunista + política perseguidora ao PT + judiciário partidarizado e corrupto…

Com essas outras que acrescentei ainda não conseguimos dar conta da desgraça em que estamos, dado que o sistema é complexo demais. Mas, sem elas, verdade seja dita, encarada e escancarada, nada disso se explica. Podemos colocar também o silêncio de Fernando Henrique e a fuga de Ciro Gomes nessa conta.

Cabe aqui um salve para a mídia que mesmo com Haddad no segundo turno falou em “uma decisão muito difícil”. Nem se fosse Bolsonaro e um sapato essa decisão seria difícil. Ah vá… Essa falsa simetria me irrita, ainda mais feita nos dias de hoje. Sinto-me ofendida quando acham que sou burra e desmemoriada.

Uma frente ampla contra o fascismo é um imperativo para todos os verdadeiros democratas. Mas não vamos nos esquecer que falávamos disso no golpe de 2016 e nas eleições de 2018. O ódio ao PT se explica pelo amor à política de Guedes e ao que Moro representa. Não se iludam: frentes na oposição que perdem mais tempo falando mal do PT do que tentando tirar Bolsonaro (beijo, Ciro!) pretendem continuar com a política de concentração de renda.

Ando sem paciência como disse. Mas, para o azar dos que vêm aqui me xingar, não me falta disposição para explicar.