Noite de Lua

foguete-sair-uma-caixa_1025-871.jpg

Aconteceu de novo. Eu e Yuki, meu caçula de dez anos, indo para a escola. Tive a ideia de fazer um vídeo com ele de uma música mega maneira que aprendi com Os Cabinha lá no nordeste. Seria assim: Yuki na bateria e eu cantando.

Comecei a cantarolar para ele aprender a belíssima canção quando estávamos na porta da escola:

– ♪♩ Um dia, noite de lua! Abri a porta e fui cagar na rua! A bosta endureceu! Passou um carro e furou o pneu! ♪♩

– Mãe, vamos precisar arrumar um metrônomo para você. – observou ele tecnicamente e frio que só.

– Ôxi, meu filho. E desde quando preciso de alguém me dando o ritmo?! – assustei-me.

– Mãe, a gente precisa andar no mesmo compasso. – explicou ele calmamente.

– Vixi. Quem te ensinou isso? Não fui eu! Com quem você tem andado?

– Com meu professor de bateria.

– Pois diga a ele que filho meu toca no ritmo do coração. Se a música empolgar e a gente resolver acelerar, a gente vai acelerar sim senhor e a música vai ficar bem mais emocionante!

– Mãe, vai ficar uma merda. – falou ele didaticamente.

– Yuki, meu filho. Prestenção na sua mãe. Metrônomo para baterista é camisa de força para passarinho! Toque no ritmo que mandar a sua emoção. Entendeu, meu filho?

– Mãe, imagina só. Só imagina: eu tocando numa banda. Daí, eu me empolgo e o resto da banda fica no mesmo ritmo. Vai ficar horrível!

– E quem disse? Você está descartando a possibilidade da banda se empolgar com você e todos acelerarem ou diminuírem o passo. Vou cantar para você ver como podemos nos empolgar no final dessa belíssima canção. Ouça, Yuki: “♪♩Levaram à prefeitura! Examinaram a bosta dura! ME LEVARAM PARA O XADREZ E SE DUVIDAR EU CAGO OUTRA VEZ! ♪♩”. Viu só?

– Mãe, você manteve o ritmo. Só cantou mais alto, percebeu? E depois eu toco no máximo a 110.

– 110 volts? Pois eu só vivo ligada a 220, meu filho.

– BPM, né mãe. É bateria.

– Tô ligada, Yuki. Mas não estou falando em acelerar somente. Podemos diminuir também. O importante é não seguir o ritmo imposto por essa sociedade opressora e fazer o que o coração ditar.

– Mãe, meodeos, mãe, me ouve pelo menos uma vez na vida! Imagina Bili dim do Michael Jackson sendo tocado sem ritmo. Qual o problema de seguir um pouco as regras? Só um pouco? Por que isso é tão difícil para você? Deixa eu colocar um metrônomo para nos ajudar a fazer um vídeo decente?

– Não sei onde eu errei na educação que te dei, Yuki. Você não querendo ser feliz, me colocando freios… unghf.

– Nem eu. Mas eu sei que não vou errar na que eu te dou. Vamos fazer do meu jeito. Hideo na guitarra. Nara no teclado te ajudando a cantar porque você está péssima e eu na bateria fazendo o back vocal.

– Ok ok… mas e se a gente se empolgar com essa música maneira da porra? Vou jogar o metrônomo longe. Tô avisando. Quero voar. Me deixa voar, Yuki! Que saco essa marcação cerrada viu…

– Mãe, me beija que já tá na hora eu eu tenho que entrar.

– Quero te contar outra coisa. Péra.

– Quando eu voltar, mãe. A inspetora tá chamando.

– Como você aguenta tudo isso de cabeça baixa? Chega atrasado uma vez e diga lá que estava aprendendo uma bela canção com sua mãe!

– Mãe, me beija. Hoje o primeiro tempo é educação física e eu não vou chegar atrasado.

– Vai sem beijo.

– Não consigo. Me beija daquele seu jeito para eu ir bem.

Enchi minha criança de beijinhos. Fiz meu ritual de sempre: amassei ele todinho. Dei uma forte mordida na ponta do nariz e apertei bem as bochechas. Depois descabelei meu filhote fazendo um cafuné alucinante a 110 hertz.

Ele sempre entra em sala de aula todo vermelho dando tchau feliz para mim.

Como dá trabalho educar essas crianças viu…

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

Amando novamente

livro2

Depois que eu me separei e de ter passado por uma crise depressiva, fiz tudo o que ensinaram os monges budistas, os psiquiatras, Simone de Beavoir e a Tati Quebra Barraco. Procurei me bastar, ser feliz sozinha…aquele papo né, não somos metade de nada. Somos inteiros. Não podemos colocar no colo do outro a responsabilidade por sermos felizes. Ok. Procurei assimilar isso.

Foi um puta aprendizado. Digo, ser mãe de três filhos, resolver problemas elétricos dentro de casa, vaso entupido, fazer compras, viajar para congressos, dar aula alucinadamente, escrever quando bate inspiração, levar filho na escola todo dia, tentar publicar meus livros custe o que custar, ler sem ter com quem conversar sobre tudo o que pensei, passar finais e finais de semana sozinha em casa produzindo, fazer exercícios físicos, enfim, aprendi com muito custo – mas aprendi – a ser a mulher maravilha.

Durante esses anos, recusei-me a ser chamada de namorada, a despeito de talvez ter sido. Não queria envolvimento com mais ninguém, dizia. Compromisso para quê? Dar nome ao que sentimos com qual objetivo? Apenas me leve para passear e me dê sua companhia. Assim seremos sempre livres, leves e felizes, dizia toda segura de mim. Você pode sair com quem quiser, não quero exclusividade. Se eu for sua prioridade, já está ótimo. Dizia enquanto sentia que havia evoluído espiritualmente e me tornado uma mulher-super-cabeça-mega-bem-resolvida.

E assim, de fato, percebia a tal da paz.

(Aquela insossa)

Mas paz.

Zzzzz.

Até que aconteceu algo inesperado. Conheci alguém que me mostrou que eu não estava evoluindo e sim morrendo. Por um motivo desses que não tem explicação, ao beijá-lo, uma descarga de serotonina, endorfina, adrenalina, e mais outros hormônios começaram a circular no meu corpo e eu sem saber o que era aquilo tudo… Perguntava-me por onde andavam os budistas e Beauvoir, e mais: por que estava vendo a explicação do que sentia nas músicas de Weslley Safadão e Fábio Junior e não mais nos livros de grandes filósofos?

Daí bateu medo, insegurança, desespero, aquela independência toda foi para o ralo antes do estalar dos dedos. Felicidade foi saber que havia simetria nessa doideira chamada (por quem já sentiu algo similar) de amor.

Parafraseando o poeta, nunca a metade foi tão inteira, numa medida que se supera. Metade era eu, a companheira. Outra metade era ele que eu era.

Não conseguia mais me definir sem falar em seu nome. Não conseguia dar nome ao que me definia. Não bastava estar perto, queria ele dentro, não bastava ele dentro, queria a transposição dos corpos. Estava superlativa, transcendendo e transbordando ao som de sinos, tóins tóins tóins de martelos de borracha na minha cabeça e música sertaneja.

Ressuscitei no terceiro beijo.

Sentia-me viva de novo.

Acordada e disposta a envergonhar Confúcio, Nietzsche, Sartre e minha mãe (mais uma vez…).

Preparada para sofrer e pular no precipício de braços abertos com um sorriso de orelha a orelha.

E assim o fiz. Surpreendentemente, caí em uma cama elástica armada por ele que me esperava nela de braços abertos.

A cama não aguentou.

Rompeu.

E estamos agora no chão quebrados em vários pedacinhos, juntando-os e misturando as peças, gargalhando com a bagunça que estamos fazendo.

8 Comentários

Arquivado em Crônicas

Até breve, Juazeiro do Norte

Screenshot_20170612-122622

Estou aqui no aeroporto de Juazeiro do Norte esperando meu avião para o Rio. Vim até essa terra através de um convite de uma professora para dar uma palestra no Encontro Pedagógico no Instituto Federal do Ceará. Eu imaginava que seria um momento especial como costuma ser cada viagem que faço a trabalho. Pisar em um lugar no qual nunca vimos sempre é algo ímpar a ser experimentado.

Mas não esperava que sairia daqui tão transformada.

As professoras que me receberam, Joquedebe e Roberta se tornaram bem íntimas na primeira noite. Não estou falando em terem sido simpáticas. Não. Já fui recebida com muita educação e sorrisos agradáveis em outros lugares.

Fora isso, sou amiga virtual há um ano de George Macêdo, um rapaz que me chamou a atenção pela sua inteligência e sensibilidade. Publicitário esperto e antenado, vale observar, assim que soube que eu viria a Juazeiro se prontificou a fazer as honras da casa. Fofo.

Inicialmente, eu, anti social e desconfiada, agradeci a todos eles que se ofereceram a me apresentar a região do Cariri. Combinei um café com eles separadamente e me programei para fazer tudo sozinha (como sempre prefiro) no meu dia de folga que foi ontem, no sábado.

No primeiro café, já estávamos (sabe-Deus-como-isso-aconteceu) todos juntos conversando sobre alegrias e angústias. George se integrou rápido no grupo das professoras e formamos um time que saiu na sexta à noite e que, no dia seguinte, passaria horas passeando, chorando, gargalhando e almoçando pelos melhores pontos turísticos daqui.

Tudo foi tão intenso e impossível de ser contado que é mega passível de ser considerado uma “fanfic” ainda que seja narrado de forma resumida. Mas vamos tentar.

George, completamente ateu, ajudou Roberta – que está naquela fase de sofrência – a receber a graça do Padre Cícero depois de ter dado a ideia de ela levar seu coração como oferenda no santuário do padroeiro. Roberta, que ouve atenta qualquer um que lhe aconselha, entendeu tudo ao pé da letra e, ao visitarmos um local de esculturas, foi direto ao artesão pedir para que ele esculpisse um coração (Oi? Como assim?!, pensei). Quando o objeto estava quase terminado, Roberta recebeu o telefonema esperado por meses do seu amor e desatou a chorar emocionada com o milagre.

Eu que também estou amando e sem saber o dia de amanhã e que também sou ateia, mas de burra não tenho nada, fiquei boba com aquela graça alcançada com tanta rapidez.

Ao chegar no horto do Padre Cícero e me deparar com a estátua gigantesca, dei três voltas na bengala do Padre fazendo três pedidos conforme os seus devotos agem quando querem algo com urgência.

O primeiro pedido eu pensei no meu amor. O segundo dei uma reforçada no primeiro. E o terceiro pedido foi para que o segundo fosse levado super a sério. Tudo isso sendo testemunhado por George que me conhece bem das redes sociais e estava com o queixo no pé sem acreditar que me via tonta de tanto girar na estátua do padinciço feliz da vida porque iria passar o resto dos meus dias com mozão.

Depois, Roberta falou para eu amarrar uma fitinha na grade de padinciço e fazer um pedido quando desse o nó para dar aquela garantida.

Comprei dez.

Amarrei vinte porque Roberta está na torcida por mim e me deu o resto. Amiga de infância está aí para essas coisas. Joquebede que está super bem no amor e não acredita em nada daquilo tentava sem sucesso frear todas as nossas tentativas de amarrar nosso mozão para a eternidade e fazer com que eles rastejassem aos nossos pés. Bobinha a Joquebede.

Visitei as urnas de pedidos por escrito para Padre Cícero. Já estava completamente tomada pela energia mágica do local. Registrei com vontade no papel: “Amor para o mundo. Meu amor para mim.” Coloquei o bilhetinho com carinho na caixinha. Não segura desse grande passo e para deixar tudo bem claro fiz outro: “Favor dar um jeito. Foco no segundo pedido que é mais fácil de ser atendido”. Pronto.

Virei-me para Meca e fiz o sinal de cruz.

No local das graças alcançadas, regozijei-me com um vestidinho longo e branquinho. Desejei também.

À noite, fomos até à Igreja de Santo Antônio. Falaram para eu colocar a mão no pau do santo casamenteiro pensando em mozão. Enorme o pau do santo. Aponta para as estrelas de tão grande. Comecei timidamente alisando aquela maravilha e, minutos depois, para garantir, fiz meu pole dance à la Madureira no pau do santo.

Disseram para escrever o nome do meu amor naquela tora abençoada de Santantônho que não teria erro daqui para a frente com mozão. “Santo Antônio é porreta”, ouvi por ali. Não tinha caneta. Que desgraça… Ôxi!, disse uma encalhada que estava por perto e já havia rabiscado no tronco ereto. Pois tome a minha! Fofurésima.

Escrevi no pau inteiro. Arranquei uma lasca e vou dar uma água batizada para mozão assim que nos encontrarmos de novo.

Trouxe a foto dele e fizeram um boneco idêntico ao meu amor. Depois, me explicaram a arte do vodu. Nada como cercar por todos os lados. Amei essa terra, gente.

Na volta, Roberta fez questão de me tirar do hotel e me fazer dormir na casa dela. Como já éramos amiga de infância, eu, toda reservada, não tive como dizer não.

Tomamos café todos juntos hoje de novo. Conversamos sobre os problemas graves na Educação do Brasil. Combinamos de fazer um documentário já que temos material humano (publicitário foda, professoras engajadas e pedagoga marxista) para tocar esse projeto de cunho social para a frente denunciando o sucateamento das escolas públicas e mostrando, como disse Darcy Ribeiro, que a falência da educação pública é um projeto e não um acidente.

Almoçamos bolo de chocolate.

A despedida doeu. Queria ficar. Quero voltar. Amigos não se medem pelo tempo que os conhecemos e muito menos pelas horas que passamos juntos. A amizade é boa quando o amigo nos mostra um lado que nem sabíamos que existia dendagente e que nos surpreende pela transformação que nos causou para todo e o sempre.

Volto para o Rio melhor. Outro ser. Visivelmente bem satisfeita pelos rituais que experimentei. Mas, verdade seja dita, muito mais segura pelas trocas que vivi. O laço de amizade – dado com carinho nesses dias que aqui passei – é muito mais forte que todos os nós que dei naquelas fitas do Padre Cícero. E olha que não tem intempérie que desfaça aquilo…

As melhores viagens que fazemos são realizadas não pelos locais que passeamos, mas sim pelas pessoas com as quais interagimos.

Juazeiro do Norte, obrigada por sua gente.

Até breve.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

4 Comentários

Arquivado em Crônicas

Sobre cachorros e outros animais

eurosaurus-38

Eu hoje, como sempre, estava levando Yuki, meu caçula de dez anos, à escola. Paramos em um sinal e ele observou:

– Mãe, olha aquele cachorro ali na calçada! Olha que bonitinho!

Era um vira lata que estava sentado olhando para sabe Deus o quê.

– Mega lindo. – concordei.

Silêncio no carro.

Yuki de novo:

– Estava pensando… você sabe se aquele bicho era macho ou fêmea, mãe?

– Não. Olhando não dá para saber.

– E você gostou dele assim mesmo, né?

– Sim.

– E sem saber se ele gosta de cachorro ou cadela. Sem saber se ele já é pai ou é mãe. Sem saber se ele já cruzou e com quem na vida.

– … – assustei-me.

– E geralmente assim somos com todos os bichos. Por que o ser humano não age assim com outro ser humano, mãe? Por que se importam tanto com a sexualidade do outro ser antes de amar?

Meodeos. Fui discutir esses dias gênero com meu filho e deu nisso.

Criei um monstro.

8 Comentários

Arquivado em Crônicas

Tenso, logo escrito.

FACEBOOK-POST.png

Então, queridos amigos, é com muita emoção que compartilho o nascimento de meu novo livro “Tenso, logo escrito” que começa hoje a ser vendido pela Amazon para todo o Brasil e em outros países, na versão e-book e impressa. Farei o lançamento aqui no Rio e por onde mais conseguir. Em breve, quando souber, divulgo a data.

Segue o texto da contra capa:

Desde meus catorze anos, praticamente só tive um namorado, com quem fui casada por quase duas décadas. Separar-me dele obrigou-me a ter que reaprender a andar sem segurar em nada. A despeito de muitos textos incluídos neste livro terem sido feitos depois que meu casamento terminou, “Tenso, logo escrito” não é um livro que fala sobre separação, mas sim sobre descobertas. Percebi que não sabia quem eu era e peguei-me surpresa várias vezes com o que conseguia ou não fazer sozinha.

Hoje, tenho uma certeza com a qual lido de forma infantil: desconheço-me por completa. O desequilíbrio me persegue, mas quando escrevo a balança tende a ficar na horizontal, ainda que de forma bem instável. A sensação, logo depois do feito, é de ter jogado uma garrafa ao mar com meus pensamentos dentro. Será que alguém irá encontrá-la? Se abriu esse livro, está agora com você. Quebre o casco, porque ela está muito bem vedada.

Segue o link para adquiri-lo:

 

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

A professora e o ator

despedida (1)

A princípio, ela se viu conversando com ele e tendo que disfarçar o maravilhamento de poder falar sobre qualquer coisa que lhe importava. Mal conseguia a professora disfarçar a urgência de pôr em dia tudo o que nunca havia proferido. E meu deus como ela gostava de ouvi-lo mesmo sem saber que papel aquele ator estava desempenhando em sua vida.

Ele passou a chamá-la de garota. E, após um abraço, achou-a por demais ergonômica. Ela, necessário. Andaram por aí e suas pegadas eram escritas por uma caligrafia surpreendentemente perfeita.  Eles passaram a se procurar sem entender a curvatura do espaço-tempo, o inverso do quadrado da distância e a ausência de gravidade em algo tão denso.

Os paradoxos se faziam presentes e sequer eram percebidos.

Não compactuaram, pois tinham medo de que a palavra falada os traísse. Eles não tomavam cuidado já que a confusão era natural assim como a impossibilidade de elucidação. Ela, que vivia de explicar, desistiu de ser didática quando recebeu seu beijo.

Apesar da conexão entre eles se tornar cada vez mais intensa e darem-se as mãos – mesmo ele estando no palco e ela na plateia -, eles não podiam evitar a separação.

Se, na boca de outros, chamá-los de amantes era um julgamento, entre ambos, era uma incompreensão e uma desgraça irremediável ainda que plena de coerência.

Não conseguiram deixar de se procurar porque, embora a distância em breve se fizesse entre eles (dado a realidade de cada um), mesmo que futuramente e devidamente afastados, eles sabiam que não se perdoariam se economizassem o que seria alimento para o monstro da saudade: não foram mesquinhos com o que chamam por aí de felicidade.

Passaram por cima do fato de terem muita facilidade para sofrer como se o que realmente importasse fosse somente o pretérito perfeito e o presente. Possuíam apenas uma consciência vaga de que havia algo de perverso no mundo tão cheio de quilômetros, estradas e Estados.

O fato é que se encontraram numa espécie de nave que os levou para uma parte secreta deles mesmos. O destino foi alcançado por um acaso quando ele, ator, ensinou a ela, professora, ser indisciplinada até mesmo ao sorrir e ao sentar.

Falharam em todos os encontros porque a meta era desiludirem-se. A lição de dormir juntos em uma casa teria que vir simultaneamente com o aprendizado de se livrar de uma carência que emergia quando justamente faziam amor. Ah os malditos paradoxos.

Havia uma salvação. Não serem encontrados por poetas. Por um descuido, foram achados por caramujos, aranhas e guinchos, o que deu no mesmo.

Aprofundaram tudo como se tivessem todo o tempo do mundo, como se não existisse algo que não pudesse ser supérfluo.

Havia uma dúvida tosca, uma espécie de não entendimento ao mesmo tempo em que se sentiam sábios chineses por terem alcançado a essência das músicas sertanejas.

Ela tinha renascido como mulher de um homem. Mas, mal assumira a possibilidade e a alegria de ser definida com pronomes possessivos, mal assumira a alegria de ouvir que é amada, veio o medo de ter esperança, esse sentimento que imobiliza e dá rugas a quem espera.

Paciência.

Tarde demais.

Nunca, nunca aconteceu alguma coisa que enfim apontasse uma cegueira e os tornasse prontos para o destino que despudoradamente os esperava e os obrigasse, enfim, dizer adeus.

8 Comentários

Arquivado em Crônicas

Conversa entre vovó e netinhx sobre sexo.

pe

Dona Josefa é uma avó dessas adoráveis que dão trocado para os netos e frequentam teatros pela cidade. Acha-se prafrentex e orgulha-se de ser toda despida de preconceitos. Josefa tem umx netx Ricardx que anda apresentando, digamos, um certo desafio à família pelas limitações que o dicionários nos oferece. Fofa que é, foi conversar com elx demonstrando seu apoio e sua compreensão:

– Ricardo, meu neto, vovó te entende, mas seu pai tem lá os preconceitos dele. A homofobia é muito estrutural em nossa sociedade. Temos que ter paciência… Eu, por exemplo, demorei a entender, mas hoje eu sei que atualmente todo mundo é bi assim como você, não é mesmo? – disse a senhorinha toda moderninha e simpática.

– Vó , eu sou pan. – explicou Ricardo.

– Pan?, assustou-se Josefa, o que é isso?

– Pansexual. É quem curte qualquer tipo de pessoa.

– Bi, Ricardinho querido. Então, estou certa. Quem curte homem e mulher é bisexual, meu filho. Bi e pan é tudo a mesma coisa, querido.

– Não, vó. Não é bem assim… Eu me apaixonei por um trans não binário.

– E o que isso, Jesus? É uma máquina tipo um robô? Você se apaixonou por um computador tipo Her, aquele filme? Tudo bem se for isso também, meu neto. – disse ela hiper sincera porque quem ama entende e empatia está aí para ser usada nessas horas.

– Não, vó… eu também não sou esse cis que a senhora pensa.

– Ricardo querido, você não é o quê, meu bem? – perguntou a senhora com o zóio regalado.

– Cis, vó, é o antônimo de trans. Transgênero é pessoa que não se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento. O cisgênero fica deboa com a definição de gênero dada pelo órgão genital que possui no meio das pernas. Não é o meu caso agora. Isso que estou querendo te dizer.

– Bissexual não é trans?

– Nada a ver, vó. A senhora está confundindo tudo. A minha orientação sexual não tem nada a ver com a minha identidade de gênero.

Josefa procurava manter a naturalidade mas, lá no fundo, estava achando que aquilo estava longe demais de sua compreensão e isso a incomodava já que ela era dessas de amar também com a razão.

– Ricardo, meu filho, eu já havia convencido seu pai que não havia problema nenhum você ser gay quando você começou a demonstrar um jeito mais afeminado. Depois você apareceu namorando a Juliana e nos confundiu um pouco. Ok. Daí depois você se apaixonou pelo Leonardo e eu entendi quando você disse que era bissexual. Há mais do que isso, Ricardo?! – sondou a avó com certo temor.

– Pouca coisa, vó, tipo uma pequena infinidade. Eu me identifico mesmo com o gênero feminino agora. – disse Ricardx.

– Você está me dizendo que agora gosta de mulher, é isso?

– Não. Já te falei, vó. Você está confundindo orientação sexual com identidade de gênero. Estou dizendo que sou mulher, vó.

– Você então é um homem trans. Já ouvi esse termo. Entendi, querido.- disse a avó ainda tensa.

– Não. Sou uma mulher trans, vó.

– Você é uma mulher trans porque nasceu homem e se sente uma mulher, é isso? – tentou entender Josefa.

– A senhora está sendo preconceituosa falando assim, vó. – engrossou ela.

– Tô tentando entender, cacete!, descompensou-se a meiga da  dona Josefa. Onde está meu preconceito?

– Seu discurso define o que é natural e o que não é natural e isso não é nada bacana para a humanidade. – explicou Ricardx.

– Mas para ser mulher você não tem que operar e ficar igual a uma?

– Nada disso. Se eu me reconheço mulher eu sou uma mulher. Minha identidade de gênero não está instalada no meu genital e sim na minha mente.- disse Ricardx super segurx.

– Faz sentido. – raciocinou Josefa – Se gênero estivesse instalado no genital das pessoas, quando um homem tivesse seu pênis amputado em um acidente ele deixaria de ser homem.

– Sim,vó. Isso mesmo. E há mulheres trans que não tem dinheiro e saúde para operar ou simplesmente não querem, como eu.

– Mas você nem depila a perna como as mulheres! Como pode se sentir uma mulher assim com essas pernas cabeludas, Ricardo?

– Há mulheres que não se depilam, vó. Isso é cultural.

– Ok ok…, convenceu-se Josefa. E você namora o ‘que’ agora?

– Vó… reformule, vó, reformule pelamoooooordedeus. – avisou Ricardx.

– ‘Quem’ você namora, meu filho, quer dizer, minha filha, ai cacete, Ricardo, você está me deixando confusa! Você agora gosta de homem ou de mulher?

– Então, vó, é isso que estou querendo te explicar. Nem uma coisa nem outra.

– Como assim, meu pai? Como assim?!

– Juju não se sente confortável em se classificar em um dos gêneros. Como não posso apontar para essa pessoa e dizer se é homem ou mulher, também não posso me definir como hétero, homo ou bi nesse caso. Por isso, sou pansexual, vó, apaixonada por um trans não binário andrógino.

– Mas essa pessoa Juju nasceu homem ou mulher? – questionou a avó desconstruída parcialmente.

– O que importa? Desapega do dicionário, vó. Desapega que isso só gera sofrimento.

– Ok ok…

Dona Josefa percebeu que querer entender é tentar limitar com palavras (necessárias para qualquer explicação) as infinitas formas de ser e amar. Bobagem alimentar a ilusão de que conseguimos racionalizar sentimentos, pensou ela.

– Quer uns dinheirinhos para passear com Juju?

E foi ao teatro feliz e contente.

10 Comentários

Arquivado em Crônicas