Sororidade que chama.

sororidade

Eu e Pipo fomos à farmácia e tudo aconteceu em questão de segundos.

Pedi o remédio para a farmacêutica no balcão. Um pouco atrás dela havia uma outra moça e um rapaz que estavam conversando.

A farmacêutica pediu para eu preencher a receita com meus dados.

Foi quando estava colocando minha identidade concentrada que ouvi sem querer a moça falando para o rapaz:

-Se tá morando com a namorada é como se estivesse casado sim! Não tem diferença!

Juro que não estava prestando atenção. Juro. Além de ser deficiente auditiva estava concentrada para não errar os números, mas a frase invadiu meus tímpanos. Frase forte e verdadeira, vale observar.

-Ouviu né, Pipo? Ouviu bem o que ela disse?, cutuquei a peça.

Pipo imediatamente com a fofura e a meiguice que lhe é peculiar respondeu:

– Eu não sou de ficar pescoçando a conversa dos outros não, tá entendendo? Ouvi nada!

Continuei preenchendo o papel concentrada.

-Posso falar uma coisa para a senhora?, perguntou a farmacêutica e já emendou sem que eu respondesse:

-Ele ouviu sim!, e olhou para mim forte.

-Mas o quêêêê. Eeeeeuuuu? Euuuu ouvi?! Mas de que lado você está?, disse Pipo com a mão no peito como se estivesse no palco interpretando Hamlet.

-Da mulher sempre!, gritou a outra lá de trás.

O rapaz era o caixa. Pegou meu dinheiro com cara de assustado com o que aconteceu ali.

Menos de um minuto, galera. Em menos de um minuto elas deram um jab, um direto e um cruzado. Impressionante, manas.

Eu não as conhecia. Elas não me conheciam. Sequer imaginavam que estou feliz ao lado do ser humano mais fantástico que já conheci. Sei que foram rápidas e atentas.

Sororidade que chama.

A revolução feminista é uma realidade até mesmo dentro das farmácias do Brasil.

Amém.

15 anos do Bolsa Família. Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.

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Hoje temos uma efeméride: 15 anos do Bolsa Família. O que é o benefício e que ele tirou o Brasil do mapa da fome já é sabido. Gostaria de trazer algumas reflexões do porquê tanta gente falar mal de algo que é elogiado pela ONU e pelo Banco Mundial: o maior programa de transferência de renda do mundo que ajudou não só na redução da pobreza, mas também na melhoria de indicadores de desenvolvimento humano.

Há uma certa aceitação sobre a importância no impacto positivo do Bolsa Família especialmente na saúde e na educação, pois temos dados que o comprovam. Mas, infelizmente, há uma parcela da sociedade e projetos políticos que conflitam com essa perspectiva e tem disseminado preconceito, ódio e criminalizam as famílias beneficiárias do Bolsa Família. É sobre esse sentimento que gostaria de me estender.

É regra na história da humanidade que grupos dominantes impõem sua concepção de mundo e aniquila o sofrimento dos pobres de forma a desumanizar sua dor. Interessante o fato de quase nenhum rico se sentir culpado pelo sofrimento dos menos abastados. Pior do que isso, há muitas pessoas que têm o que comer, carro do ano para dirigir, casa própria e outras preciosidades que responsabilizam o pobre pela sua condição. Esses seres, não raro, consideram os pobres burros, preguiçosos, promíscuos, pois – dizem os ricos que os pobres – não sabem usar o dinheiro e gastam o pouco que tem não para investir e sim “para comprar cachaça”, usam o tempo livre para “fazer filho” e que pobre tem “sexualidade precoce”.

Quando um rico aponta comportamentos como os ditos no parágrafo anterior, ele aponta uma irracionalidade no pobre e a condena como uma coisa natural. A sua própria irracionalidade não é questionada nesse processo.

Valioso observar que o fenômeno de pobreza é gerado pela falta de reflexão e humanidade da classe dominante que sempre acha que o seu comportamento é o correto. Até mesmo uma orgia regada a drogas numa cobertura de Ipanema pode ser considerada algo aceitável e quiçá um exemplo a ser seguido. Certamente termos como “liberdade” ou “experiências alternativas” aparecerão para justificar o evento.

Leis econômicas são consideradas naturais da mesma forma que o sofrimento social. Tudo se passa como se o ser humano não fosse responsável pela sua história ou como se a história existisse mesmo sem ter quem a narre, escreva ou dirija.

É claro que nem todo sofrimento humano é culpa da falta de bens materiais ou causado pela má distribuição deles. Porém, há muitas dores que estão enraizadas na nossa estrutura social. Não sou eu quem as provoca nem você individualmente, mas as instituições como a escravidão, por exemplo, podem sim ser as grandes culpadas.

Tudo é uma construção cultural. Isso que é difícil enxergar já que vemos o mundo com os óculos impostos a nós pela sociedade em que vivemos. A ideia, por exemplo, de trabalho estar associado à moral, que precisamos trabalhar muito para ter direito ao lazer, esse medo de ser improdutivo e a vergonha de ser “inútil para a sociedade”, enfim, tudo isso não foi dado no mundo e sim construído no século 19.

Vejam que curioso: a nossa cultura que não considera parasita o cidadão rico que vive de renda financeira, a nossa cultura que considera justo conceder isenção, incentivos fiscais e perdão da dívida com os bancos públicos aos grandes empresários é a mesma cultura que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família.

O sistema é tão cruel que ricos fazem até mesmo com que os próprios pobres sintam vergonha de sua pobreza, pois a consideram como resultado de um fracasso pessoal e não de um arranjo socioeconômico.

Tenho usado aqui o termo “pobre”, mas é necessário que se esclareça que a pobreza tratada no texto não se refere somente a privação de dinheiro mas também privação de capacidades e o não desenvolvimento de diversos tipos de competências – o que faz do pobre (no sentido comum) um ser pobre também no nível imaterial.

Nessa esteira, pior do que o homem pobre é a mulher pobre que foi ensinada a ser muda, pois a sujeição feminina é muito mais cruel e complexa do que a sujeição de classes.

É dever das instituições próprias de nossa sociedade e de cada um de nós vetar a discriminação, a opressão e a exploração e criar condições para que todas as pessoas participem em pé de igualdade da educação e da cultura.

Em um lugar onde a democracia funcionasse, seria também obrigação de todo ser humano apoiar qualquer medida e política pública que contribuísse para a diminuição da desigualdade e reparasse injustiças históricas.

Nesse sentido, por tudo que já vi acontecendo nesse país, não houve medida mais eficaz e que representasse com mais propriedade essa reparação histórica do que o Bolsa Família.

Para finalizar, gostaria de dizer que lá pelos idos de 1950 os índices de crescimento econômico do Brasil estiveram entre os maiores do mundo. No entanto, nessa mesma época, vimos um aumento gigantesco da desigualdade social e da exploração. Em outras palavras, um país crescer economicamente não quer dizer um aumento generalizado nos padrões de vida.

Jamais evoluiremos como sociedade se um programa público que visa diminuir a pobreza – como o Bolsa Família – for considerado como paternalista.

A falta de capacidade de se colocar no lugar do outro nos trouxe a essa tirania ética na qual pessoas se recusam a apoiar políticas de justiça distributiva e de transferência de renda que deveriam ser consideradas por todos como uma política de urgência moral.

Foram 15 anos do Bolsa Família. Milhões de famílias beneficiadas e uma queda considerável na mortalidade infantil.

Seu futuro a nós pertence.

Justiça acima de tudo. Deus ao lado de todos.

Até breve, meu amigo.

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Ontem enterrei um amigo. Ricardo Santos, chamado carinhosamente por nós de Rico tinha a minha idade e muitos mais sonhos do que eu. Perdemos Rico para essa doença impiedosa que não escolhe casa. Quem nos dera se doçura nos tornasse imunes ao câncer. Rico estaria ainda aqui entre nós.

Cheguei no velório meio perdida tal como aqueles que perdem um amigo. Sabia que encontraria dores fortes e que aumentariam a cada abraço porque junto com o contato físico são potencializadas as boas lembranças, a saudade e a indignação com o propósito dessa dádiva que damos o nome de vida.

Rita e Léo enterraram um filho.

Preciso confessar. Eu estava com medo de abraçar Rita. Queria dar todo meu apoio mas quando um filho morre, todas as mães murcham. Não sabia se tinha estrutura para abraçar uma mãe em um velório. Sou ateia mas pedi a Deus perdão pela minha fraqueza.

Rita me viu com o olhar embaçado de tanta umidade. Somos amigas de anos e minha amizade precisava levar força para ela.

Mas cadê que eu a encontrava?

Como sou desajeitada com minha descrença…

Fiquei parada e ela veio até mim.

Eu chorava querendo ficar firme para passar calma para Rita. Só queria ser algo bom para ela e eu estava me perdendo.

Rita, então, serena, firme no olhar, me perguntou:

– Quer ver o Rico, minha filha?

Eu não sabia. Já fui a vários velórios mas nunca nem cheguei perto do caixão e também jamais vi alguém que eu tivesse amado sem vida. Balancei a cabeça esboçando um respeitoso não.

– Quero te mostrar meu filho. Rita me disse. Não precisa ter medo nem receio algum. Você precisa vê-lo. Não haverá problema. Vem comigo.

Pegou a minha mão e me levou até ele.

– Ele agora está em paz, calmo, sem dor. Assim quero que você olhe para ele. Não antes com meu filho sofrendo, gemendo e tendo alucinação. Não queria que você o visse daquele jeito porque ele não mereceu o sofrimento que teve. Era muito dolorido para nós que estávamos com Rico. Agora não – e acariciava o seu rosto – agora ele está bem. O que você está vendo é só uma casca. Ele não é só corpo e está livre da dor em boas mãos agora.

Uma paz foi se apossando de mim. Não que a dor diminuísse. Mas a mão da Rita, que sempre me transmitiu muita coisa boa, superou o Universo.

– Eu só tenho a agradecer por ele ter me escolhido para ser sua mãe. Foi uma honra todo o momento que passamos juntos. Só nos deu alegria e me fez um ser especial.

Eu tenho essa mania de não acreditar em nada e não dar espaço para as certezas que muitos pregam. Já visitei vários templos, já frequentei Igrejas, já fui a centros, conversei com padres, mestres, pastores e pais de santo.

Mas não fui imune a Rita.

Ali percebi que há algo maior do que o segredo do universo: o amor de uma mãe.

Havia dor, mas também havia alegria, honra, satisfação, orgulho e um cordão umbilical feito de um tempo que me pareceu muito mais do que 46 anos de história. Talvez um tempo que não se conte por sua natureza incomensurável. Mas era tempo.

É possível que eu tenha me equivocado até agora na minha percepção de tudo e a realidade seja uma parte daquilo que senti nos dois.

Não sei se devo me entregar à dúvida.

Mas talvez não sejamos só corpo.

Estou refletindo sobre isso porque já vi Rita acariciando Rico muitas vezes. Já vi vários abraços entre os dois. Mas ontem, percebi um enlace.

Não dormi. Acredito que a noite tenha sido difícil para muitas pessoas que conheceram e conviveram com o Rico.

Está sendo muito difícil lidar com tantas interrogações, medos, aprendizados e a sensação de que não estamos valorizando os segundos devidamente (tão comum a todas as pessoas que sobrevivem a essa dor da despedida).

Muito mais complicado, porém, para mim, é agora lidar com o que senti ali com a Rita segurando a minha mão enquanto acariava Rico cercado de flores: a presença de algo grandioso como a eternidade.

Não sei o que é isso exatamente. E não tenho pressa em descobrir. O fato de ter percebido já me basta por ora, pois ontem fui pronta para dizer adeus.

Na minha noite insone, enfim, sussurrei:

– Até breve, meu amigo.

“Meninos vestem azul. Meninas vestem rosa”. Por que essa diferença precisa ser repudiada?

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“Menino veste azul, menina veste rosa”, esta foi a frase proferida pela nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que anunciou uma nova era para o Brasil escancarando a sua principal preocupação. Não tardou para que memes, piadas e comentários pipocassem em todas as redes. Imediata também foi a reação de quem elegeu Bolsonaro: replicaram nosso deboche e nossa revolta “explicando” que “não é para ser entendida ao pé da letra a frase da ministra já que se trata de uma figura de linguagem”. Como se não tivéssemos entendido… E exatamente por sabermos o que Damares quis dizer, ficamos perplexos com a proposição feita em pleno século 21 onde temos estudos e mais estudos sérios sobre gênero.

Muitos que aplaudem Damares não lerão até o final, pois acham que debater o conceito de gênero é fazer “doutrinação homossexual” (pasmem, eles estão usando esse termo).

Para começar, preciso dizer o quanto fico triste em ver uma ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos apontar que sua maior preocupação é com esse tema e não com as taxas de violência e mortalidade em nosso país. Tivemos que cunhar a palavra feminicídio para dar conta da nossa realidade,  somos a sociedade que mais mata LGBTs no mundo, há famílias inteiras morando nas ruas, a pobreza voltou a aumentar…, mas isso não entrou no discurso de Damares como prioridade.

Vamos discutir, porém, “a nova era” apresentada pela ministra. Ela quis dizer com a frase “menino veste azul, menina veste rosa” que há “coisas de menino” e “coisas de menina” contrariando pesquisas com rigor acadêmico sobre o tema.

A Natureza fez com que homens e mulheres se sentissem atraídos uns pelos outros, umas pelas outras, uns pelas outras e deu a nós algumas tantas possibilidades. A biologia nos dá um leque de opções. Algumas religiões e  mitos permitem somente uma dizendo que todo o resto “não é natural”. Ora, tudo o que sentimos não é natural?  Há alguma lei nos proibindo de sentir fome, de sentir sede, de sentir dor quando batemos o pé em uma pedra…? Por que tem que haver lei proibindo seres humanos de sentir prazer se esse sentimento não trouxer nenhum dano para as pessoas envolvidas?

De forma bem simples e resumida (sem levar em consideração outras questões pertinentes), biologicamente os seres humanos estão divididos entre sexo masculino e feminino e isso tem a ver com ter ou não o cromossomo Y. Mas o conceito de “homem” e de “mulher” são construídos socialmente e não tem nada a ver com nossas células.

Já ouvi por aí que as mulheres devem se submeter aos homens, pois estes são mais fortes e mais preparados para lidar com adversidades. Mais uma vez, historicamente e biologicamente isso não se sustenta. Mulheres são mais resistentes a fome e a doenças e há muitas com mais força do que vários homens. No mais, se o problema fosse a força, tarefas que não exigem força muscular deveriam ser permitidas desde sempre para as mulheres como cargos políticos e o sacerdócio, por exemplo.

Existem muitas espécies de animais que são “matriarcais” pois as fêmeas desenvolveram redes sociais que ajudam cada um dos membros a cuidar de seus filhotes. Os machos ficam lutando entre si e suas habilidades sociais são relativamente menos desenvolvidas. A origem do patriarcado em nossa sociedade é controversa e inconclusa, porém, é fato que durante o último século os papéis sociais de gênero passaram por mudanças consideráveis. Direitos políticos, status jurídico e tratamento igual são coisas que tornam a discussão de gênero urgente já que o sistema patriarcal se baseou não em fatos biológicos e sim de mentiras infundadas principalmente vindas da teologia cristã.

De uma forma mais clara e didática: “menino veste azul, menina veste rosa” sinaliza que brinquedos como kits de cozinha e de limpeza são para elas; carrinhos, jogos de lógica e ciência e bola para eles.  Ou seja, temos um universo restrito à vida doméstica para as meninas, enquanto os “que vestem azul” são incentivados a desenvolver um comportamento aventureiro, de liberdade de escolha e de pensamento.

Dados científicos já mostraram que até os dois anos de idade são formadas as mais importantes conexões neurais de uma pessoa. Por isso, é fato que os estímulos oferecidos aos bebês e crianças pequenas são  capazes de direcionar seus interesses até o fim da vida.

É extremamente negativo para o desenvolvimento da criança seguir a raiz social de ideias que concebe que a mulher seja diferente do homem desde a infância, em relação a obrigação, direitos e competências, porque isso vai determinar a conduta, os valores e os preconceitos que refletirão nas ações desse ser na sociedade. Uma determinação social forjada encaminha a mulher para alguns perfis e o homem para outros.

Observe como a história é contada e como nos tornamos marionetes desse sistema. Os costumes, as relações e os valores que são produtos culturais  (construídos e, portanto, passíveis de serem desconstruídos) foram naturalizados nos livros, nos filmes, nos discursos e na linguagem. Ficamos reproduzindo estereótipos de “coisa de menino” e “coisa de menina”, valorizando (sem sentir) a hierarquia de gênero e subestimando a capacidade das pessoas de exercerem tarefas que não são adequadas “ao seu gênero”.

Qual a melhor forma de evitar  que meninas e meninos sejam estimulados de formas diferentes durante a infância e cada um descubra por si suas próprias habilidades e competências? Fazendo justamente o oposto que a nova ministra prega.  É possível ensinar crianças a mandar essa lógica desigual às favas, policiando a linguagem e apresentando a elas outras possibilidades para além da reprodução de papéis de gênero.

Como já dito, a igualdade de tratamento e de oportunidade entre meninos e meninas é fundamental na medida em que as escolhas profissionais vão sendo concebidas a partir das brincadeiras e das relações estabelecidas no meio social. Sugiro que a nova ministra veja dados sobre a quantidade de mulheres ocupando cargos de chefia, presentes na política e na ciência e que pense na causa desses números tão desiguais.

Termino insistindo na pergunta: Damares, em que medida teimar com essa divisão de comportamento entre meninos e meninas vai diminuir os índices de violência e tornar os percentuais mais igualitários e justos para “os que vestem azul e as que vestem rosa” nas empresas, nas câmaras, nos congressos e até mesmo nas Igrejas?

Homem

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Na tela, vemos um Homem feliz na cozinha assobiando. No plano, ele está de costas e há muitas panelas e pratos sujos em cima da pia e da mesa.

Ouvimos a voz do Homem como se estivéssemos dentro de sua cabeça.

A câmera agora foca no rosto.

Homem:

Estou aqui lavando a louça enquanto ela dorme e pensando que isso é o certo a se fazer. Afinal, ela foi ao supermercado, ao banco, fez a comida, depois ainda foi ao salão fazer as unhas. Não entendo essa necessidade de fazer as unhas, acho ela linda de qualquer jeito. E ela fica muito tempo no salão. Mas quem sou eu para julgar e dizer o que ela deve ou não fazer, não é mesmo? Cabe a mim ajudar.

Homem com fisionomia brava:

Não. “Ajudar” não porque esse trabalho de casa é coisa de homem também fazer. Obrigação nossa. Não dela!

Homem balançando a cabeça dizendo “não”. As mãos estão sem movimento dentro da pia. A água cai forte da torneira aberta:

Digo, dela somente. É de nós dois.

Homem balança a cabeça positivamente e volta a esfregar a louça.

Acho legal as mulheres estarem se posicionando. É bonito de ver esse ‘empoderamento’, como elas falam. Antigamente nós, homens, éramos uns abusados.

Homem faz cara de mal.

Depois homem faz pose de mal segurando uma faca suja.

Homem faz cara de orgulhoso:

Se tivesse nascido em outra época, não estaria aqui ariando essa frigideira. Poderia estar em cima de um cavalo lutando pela libertação de uma nação depois de ter matado e comido um javali.

Homem mostra os dentes como se fosse um leão.

Se Abrahan Lincoln tivesse que trocar fralda de madrugada como eu fiz, colocar roupa na máquina e tivesse que dar alguma atenção a essa maldita mancha na frigideira, é possível que a escravidão continuasse até o século 20 tanto lá nos Estados Unidos quanto aqui – e a situação dos negros certamente seria pior!

Homem se lembrado de como Lincoln entrou para história… imagens passam pela sua cabeça.

Homem alucina:

Eu posso melhorar também a vida dos oprimidos do Brasil e diminuir as injustiças! Basta Maria Lucia me falar menos sobre Simone de Beauvoir.

Homem volta a lavar louça sério. Homem pega a porcelana com brutalidade.

Homem para de novo de movimentar as mãos e faz cara de quem está resolvendo um problema da mecânica dos fluidos com o uso do cálculo diferencial e integral.

Duvido que Freud pensou em tudo que pensou estendendo roupa na corda. Duvido. Não se tira aquela ideia toda mirabolante do Complexo de Édipo de filho querendo comer a mãe enquanto cheiramos amaciante antes de colocar no último enxague. Freud tinha liberdade e tempo para cheirar outras coisas.

Homem estufa o peito:

Se eu vivesse sem as obrigações impostas pela revolução feminista, ia conseguir explicar, por exemplo, porque todo mundo só fala sem sexo hoje.

É mamadeira de pinto para cá, é boneca inflável para lá… Eu podendo explicar o Brasil , me tornar um Julio Cesar em pleno século 21 e estou aqui ajudando nas tarefas domésticas!

Homem para. Reflete e faz cara de impaciente enquanto pega uma panela suja.

Homem faz cara de criança birrenta olhando para cima com a boca mole.

Ajudando não. Cumprindo minhas obrigações!

Homem volta a lavar a louça bufando impaciente.

Passam alguns segundos.

Homem faz cara de Arquimedes quando saiu da banheira e para de lavar a louça.

O próprio Jesus, por exemplo, se fosse macho desconstruído como eu sou e ciente de seus privilégios com aqueles olhos azuis, ia ser famoso? Ia ter tempo para dar atenção para tanto apóstolo? ah gente duvido…

Homem suspira.

Homem ouve um barulho e se assusta. Volta a lavar a louça correndo. O barulho sumiu.

Homem fecha a torneira e vai ver o que está acontecendo.

Era o gato.

Abre a torneira devagar e já se perde de novo. Faz cara de quem está jogando xadrez.

Não dá para ficar inventando história para o filho abrir a boca e comer a comidinha e pensar na humanidade!

Homem fica puto.

O cara para pensar que a espécie humana evoluiu, como todas as outras, por meio de um processo que não tem direção definida, com todos os animais partilhando um ancestral comum, que a espécie humana não foi feita à imagem e semelhança de Deus, mas surgiu de um macaco na savana africana ah me desculpe, Darwin para pensar nisso tudo não sabia a hora que o filho tinha que tomar antibiótico!

Homem passa pano em tudo.

Maria Lucia acorda.

A louça está limpa.

Ela o convida para irem ao cinema. Mostra os filmes que estão em cartaz. 

Homem olha. Homem sugere. Ela concorda alegre e animada.

Homem esquece.

Na tela, vemos um homem feliz na cozinha.

 

Dormindo no sofá x posse de Bolsonaro

Muitas pessoas aqui já sabem que eu estou apaixonada e morando com meu Pipo há pouco tempo. Sempre procurei ficar bonitinha para que ele continuasse nessa vibe romântica comigo.

Encolho o barrigão, mantenho uma postura e movimento o pescoço com delicadeza quando estamos juntos.

Ser meiguinha não é algo simples para mulheres como eu. Mas a gente se esforça porque os filmes da Disney fizeram muito bem o trabalho de azucrinar nosso empoderamento.

Daí que hoje eu apaguei no sofá.

Um calor do cão aqui no Rio. Eu estava super cansada.

E dormi.

No sofá.

Nem Gisele Bündchen consegue manter aquele charme todo tirando um cochilo no sofá.

Elika Takimoto muito menos.

Desmaiei, gente.

Acordei limpando a baba e olhei assustada para os lados. Pipo estava sentado no chão vendo filme. Lembrei-me que minha cabeça estava na perna dele e ele me fazia um cafuné quando minha consciência se perdeu para o mundo.

Juntei minhas pernas e me levantei tentando entender onde foi que me perdi.

Tenso, galera.

Fui para a cozinha em silêncio beber água porque estava suando rios. Meu pescoço todo encharcado. Mais essa.

Minutos depois, Pipo apareceu na minha frente:

-Amor, você dormiu pesado como nunca vi!

Puta merda…

– Eu fiquei bonitinha dormindo?, sondei inclinando a cabeça docemente.

Pipo se deitou no chão para tentar explicar como eu estava.

Jogou uma perna para a geladeira, a outra no sentido do fogão, torceu o corpo todo, lançou o braço esquerdo no rosto na modalidade cheira-sovaco enquanto escondia o direito e assim ficou por alguns segundos que nem estátua.

Fiquei olhando para ele parado deitado todo arreganhado e ao mesmo tempo torcido como um pano de chão em plena cozinha.

Assim começou meu ano, galera.

A posse de Bolsonaro não foi nada mediante essa derrota.

Estranha Mania

Ontem eu e Pipo mega fofos fomos ver Bitucanto – um show com um coro fodástico com músicas de Milton Nascimento tendo nada menos do que o gênio José Assumpção como regente.

Ao final do espetáculo, o hall do teatro estava lotado com pessoas parabenizando os artistas.

Eu e Pipo lá mega fofos esperando nosso amigo Daniel, vulgo Dani Ramalho, que divou no palco da Sala Cecília Meireles dividindo o oxigênio com Zé Renato (mais essa honra na noite).

Até que chega uma mulher com o celular na mão sorrindo pronta para tirar uma foto:

-Elika e Pipo, seus lindos!

Eu e Pipo lá mega fofos ficamos mais fofos ainda com o rostinho colado um no outro e sorrindo para a super fã giga simpática que nos ama a nos reconheceu no meio da multidão.

-Vocês podem chegar para o lado que eu quero tirar foto do painel?

Tóim tóim tóim. Mil martelos de borracha bateram na nossa cabeça.

Eu e Pipo com a fofura toda descaralhada ficamos sérios, chegamos para o lado para a mulher sem alma fazer o registro da parede.

Quando Daniel, o Dani Ramalho, chegou logo após cumprimentar seus cinco fãs, eu e Pipo estávamos murchos de pé tipo Maria Maria – essa gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.

Contamos para nosso amigo, a estrelinha da noite, o massacre que fizeram com a nossa auto estima para justificar aquele sorriso amarelo e o quanto estávamos nos esforçando para ter manha, ter graça, ter sonho sempre.

Daniel, o pavão, que quer ser conhecido mundialmente por Dani Ramalho, depois de ouvir nossa derrota, mandou logo essa para encerrar a noite:

-E meu amigo que enviou agora um Whatsapp para mim dizendo que a empresa tal estava procurando por homens lindos entre 20 e 30 anos para servir de modelo?

Eu e Pipo sem cor nem fofura ouvindo.

Daniel, vulgorésimo Dani Ramalho, o pavãozaço, completou:

-Eu todo feliz lendo aquilo e ele vai e me pergunta logo em seguida se eu conheço alguém para indicar. Ah gente…

Saímos de lá correndo e fomos pro bar.

Falar de nossos projetos para o futuro.

Porque é aquele ditado né: quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.