Feliz Ano Novo!!!

– Adeus Ano Velho!
– Feliz Ano Novo!!!
Já que os antigos diziam que fazer a barulheira é fundamental no início de um novo ciclo para despachar os maus espíritos para os cafundós do além, eu que não sou boba de ser racional nessa hora e não encarar a meia-noite de 31 de dezembro como um recomeço. Vou fazer o que faço de melhor: um furdunço daqueles para garantir que nada me falte e para afastar qualquer alma penada mal intencionada que me ronde. E essa é a hora que ninguém me reconhece porque sigo todas as crendices que estiverem ao meu alcance e apego-me a qualquer santo que estiver passando na hora. Oxalá, Jesus! Namumyouhourenguekyou! E aí, meu irmão, sai de perto e me deixa surtar em paz.
Felizmente somos otimistas, pelo menos nos últimos dias do ano.  Ainda bem que não paramos para meditar que na verdade não existe o Ano Bom, pois além de tudo não passar de uma convenção que se diferencia e muito ao longo do globo terrestre, 2012 será um ano como outro qualquer onde o que nos aborrece continuará nos tirando dos eixos e certos obstáculos persistirão intransponíveis.
Depois – ou mesmo antes, – os votos que fazemos a nós mesmos…afe… As metas que estabelecemos deslumbrando um futuro mais produtivo e mais magro, caloricamente falando, começam inutilmente a serem enumeradas. Nesse ano eu vou… Fôssemos nós mais realistas não perderíamos tempo com esses desvarios, pois dos quilos que já possuímos com sorte outros não serão acrescentados e dos planos de cada um pouquíssimos serão aqueles que irão se concretizar.
Mas esse tipo de pensamento não é nada acalentador, não é humano, deprime, enlouquece e não é a minha praia. Então, sublimemos esse amargo discurso. Não vamos abafar nossos sonhos e vamos nos dar sempre (pelo menos uma vez por ano e quando ele se encerra) uma nova chance!
–  Feliz Ano Novo!
–  Pra você também! Tudibom!!!


Desejamos o bem com exclamação porque assim manda a tradição. E fazemos nós muito bem em respeitá-la em prol do nosso humor. Enviamos votos de felicitações àqueles que amamos e àqueles que nada representam para nós porque imediatamente os recebemos de volta e as palavras tem poder! Acreditar que o ano que está entrando será um ano feliz, tal como acreditamos no dezembro do ano passado, faz um bem danado. E se este ano não foi um Feliz 2011, a quem importa agora? Passou. No mais, nada impede aos que nele se esbaldaram como, por exemplo, os corinthianos, de nos desejarem dias mais retemperados ainda. E lá vamos nós abarrotados de boas intenções distribuir abraços e sorrisos para quem está ao nosso lado e bons augúrios para todos os amigos do facebook e da nossa lista de email.
–  Que todos os seus desejos se realizem!!!
–  Os seus também!!!


Da minha parte, estou disposta a esquecer todo o prejuízo que tive por conta de uns malditos pedreiros que contratei em Maio para fazer um terraço aqui em casa. Ficarei somente com a lembrança do Luciano, o primeiro profissional que reveste muro que eu vi lendo na vida e que ficou emocionado diante à minha biblioteca que nem é lá grandes-coisa. Estou planejando muito para o ano vindouro, mas nada impossível. O de sempre. Miguel Pereira em Janeiro, fantasias para Fevereiro, me preparar para as águas de Março… Que possa eu continuar a fazer novamente o que venho fazendo já está pra lá de bom. Que não me falte o samba com os amigos, um bom livro para ler, inspiração para escrever, conversas para jogar fora, vontade de trabalhar, a cumplicidade no lar e o feijão com arroz para comer!
–  Saúde e paz!!!!
–  Pra você também!!!

E para que tudo aconteça nos conformes, há quem não me reconheça no último dia do ano. Tomo banho de arruda, encho a boca de lentilhas, visto-me com roupas brancas, coloco sementes de romã na carteira, troco as roupas de cama, imito índio do velho oeste, dou três pulinhos com o pé direito, subo degraus,  batuco na panela, ando igual chinês em círculos, me viro para Meca, como doze uvas, ponho seis moedas debaixo do tapete, recebo passe, peço a benção, canto pra subir e, finalmente, conto regressivamente bem alto quando o ponteiro dos minutos quase encosta no 12. Caraca! No 12!!! Essa virada promete…
FELIZ 2012, GENTE !!!

Gestação

Lá estava Juliana caminhando em direção à central para pegar o trem das 16:50h. Vinha sem pressa, sem ambição, sem desespero e também sem raiva embora, no fundo de seu coração Juliana carregasse, como todos, uma certa incompreensão sobre algumas coisas que acontecem no mundo e  sobre outras que não se realizaram. Principalmente com ela. Juliana.
Vinha a moça portando seu útero inútil e uma bolsa que dentre outras coisas trazia uma marmita vazia, um livro de Paulo Coelho e um batom que ela já não via mais necessidade de usar, mas  que carregava por precaução, pois a esperança é assim. Como uma maquiagem sem utilidade guardada na bolsa de Juliana que em nada contribui para a beleza desse mundo. Vinha com a humildade de uma a criança descalça que pede para a gente alguma moedinha. Ia como tantas mulheres que vem e vão por todas as calçadas, que já tiveram dias vividos com os nervos expostos e incontáveis noites sem sonhos e sem gozo.
Andava com seus passos sem importância e sem marcação. O tempo de viagem para casa não era contado regressivamente por ninguém. Seguia, portanto, com a força da conformação, semelhante aquela que nos empurra para o cinema e que nos permite o riso mesmo após termos lido uma notícia de um crime hediondo nos jornais.
Voltava para casa essa Juliana como voltam as Marias e as Lúcias da Igreja. Com a falsa leveza conquistada ao preço de alguma parca penitência. Seus cabelos estavam soltos como seus pensamentos. Preocupava-se com uma conta atrasada, comprou pipoca doce, olhava para algumas bijuterias expostas por um chileno e achou a blusa daquela senhora muito bonita.
Trazia consigo seus quarenta anos, a disposição para viver mais trinta e uma vontade muda de fazer alguma coisa bem excêntrica.
Foi então que aconteceu.
Esperando na calçada o sinal fechar para poder, enfim, após metros de insípidas divagações, atravessar a Presidente Vargas, Juliana viu dentro de um táxi que acabara de parar quase em cima da faixa de pedestres, um menino de aproximadamente cinco anos que a olhava. Juliana se assustou. O menino sorriu e mostrou-lhe a palma da mão dando-lhe um tchau como vinha fazendo para todos que o notavam desde que saiu de casa. Juliana, tão indiferente para o mundo e tão insuficiente para ela mesma, interpretou aquele gesto como um doce olá dado somente por aqueles que se conhecem e se reconhecem no meio de uma multidão.
Juliana sorriu e enquanto seus lábios ganhavam um novo formato, levou às mãos ao ventre e lembrou-se de Pedrinho, o nome dado ao fruto de uma gestação de três meses que não perseverou por problemas hormonais jamais solucionados. Retribui a moça aquele cumprimento – mal sabia ela – indiferente com a inércia de seu corpo ou – que diferença faz?,- com a sua própria alma.
        As pessoas a empurravam ou simplesmente se desviavam da Juliana do mesmo modo que se desviam de um poste para cruzar a avenida. Resistente a insensibilidade e a desatenção dos transeuntes, o olhar dessa Juliana mantinha-se fixo naquela mãozinha, o seu coração infértil disparava, suas pernas tremiam e as buzinas emudeceram.  Aqueles segundos de sinal fechado tiveram, para essa senhora, a densidade das horas.
Ao ver o automóvel partir, Juliana correu desesperada na tentativa de sei lá, meu deus. Nada mais incompreensível do que a dor de uma mulher vendo um álbum de belas imagens fotografadas de seus tantos devaneios ser levado por um táxi.
A impura poeira do asfalto tratou de enegrecer o corpo e os sonhos desta pobre moça. Coube ao ônibus 373, impetuoso e desatento, como todos aqueles que viram e veem tantas Julianas, dar fim a essa história.
 

 
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