Clic-Clichês

Fotos clichês são ridículas, mas mais ridículo é não tê-las. Os braços cruzados de forma desajeitada no casamento com o cálice na mão, o beijo clássico do pai na barriga da gestante, a foto do primeiro banho que tanto nos envergonham quando adolescentes, a presença do Papai Noel na noite de Natal, o bebê com a boca toda suja de chocolate, duas taças de vinho (meio cheia ou meio vazias?) em cima de uma mesa, o formando de beca, o grupo de amigos fantasiados numa festa à fantasia,.., tudo ridículo. Mas passar pela vida e não tê-las é como vir ao Rio e não ser fotografado perto do Cristo. Mais ridículo ainda. 
 
E ainda que você diga “dessa máquina não clicarei”, uma vez amado, meu amigo, você está condenado a ver o passarinho e, por tabela, ser lugar-comum no álbum da humanidade. Seus passos ridicularmente registrados sem a menor arte. Sem um toque qualquer de criatividade. E você ajudará a perpetuar o previsível porque este quando congelado através da captação de uma lente objetiva faz chacota com o subjetivo, mas dá sentido ao acaso. Ao caos da sua existência. Porque os retratos-chavões são os cartões-postais de uma vida bem vivida, a prova de que existimos e passamos bem por esse planeta tendo o mínimo que justifique tanto esforço do espermatozóide para fecundar o óvulo de nossa mãe. 
 
São essas ridículas imagens projetadas e que reproduziremos até o Juízo Final as que vamos sentir saudades. Com essas gravuras merecedoras de escárnio em mãos, vamos rir e chorar ao mostrar pros nossos filhos, sobrinhos e netos. 
 
Pobre daquele que não é ridículo e que não vive o clichê nosso de cada dia…
WP

Para Sempre Meninos


Apesar de muitos falarem que consideram um amigo como um irmão, nós, possuidores reais desse título de fraternidade, sabemos que no fundo não é a mesma coisa. Irmão é irmão. Não está ligado ao fato de “ter que ser o nosso melhor amigo”. Ainda que tenham personalidades bem diferentes, que não se suportem e que você prefira manter certa distância, dois indivíduos quando educados exatamente pela(s) mesma(s) pessoa(s) estão unidos de uma tal forma que os fazem imprescindíveis na vida e na personalidade do outro. Esse amálgama ainda que seja ódio é o verdadeiro ‘amor fraterno’. Se for mesmo feito de amor e os irmãos tiverem sido criados na mesma ninhada, juntos e solidários ah… aí é capaz de perfumar fotografias!E foi esse perfume que fez cócegas ainda a pouco em meu coração a ponto de me fazer gargalhar e escrever.



Abri um álbum antigo na estante e transferi-me para aquela dimensão que  frequentamos sempre acompanhados mas que não nos permite levar nada do que temos no presente. Fui atingida por uma rajada de saudades ao ver a minha infância em preto e branco e dediquei-me a refletir sobre algo…e mais uma vez cá estou eu no topo da montanha olhando o horizonte pensando sobre como a minha vida sem os meus irmãos seria muito menos interessante.


Os cabelos podem ficar brancos, as rugas podem ter ‘feito residências em nossos rostos’, mas se temos pelo menos um irmão, haverá sempre um lugar dentro da gente em que seremos eternamente meninos. Ainda que a relação esteja longe de ser igual a uma planície serena e sim, cheia de altos e baixos esse amor jamais se desloca para uma área de risco – para onde vão sempre os outros tipos de amor. Frases inteiras são desnecessárias, pois o entendimento se dá muitas vezes pela troca de um sorriso que sabe lá – sabemos somente nós – que longínquas lembranças aquela troca de olhares desenterrou. E a despeito dessa tal natureza humana que é tão pérfida e traiçoeira, o amor de irmão nem sequer precisa ser verbalizado e ainda assim permanece evidente. Eles sabem sem sombras, faíscas e nódoas de dúvidas, e ninguém precisa ficar reafirmando nem em emails, nem em redes sociais públicas, nem em telefonemas, nem em blogs!, pois somente as coisas abaláveis precisam dessas evidências.


Certamente, mais pobre, mais amarga, mais só e menos Elika eu seria sem eles, os meus outros takimotos. Como viveria sem todo esse tesouro lapidado pelas horas aromáticas na infância e na adolescência que só nós, os irmãos, os nascidos em tempo hábil da carne de mãe e pai, sabemos onde está enterrado?