Caminho de Ogum e Iansã

Neste ano, Nara, minha filhinha de quinze anos passou a estudar em pleno bairro do Maracanã aqui no Rio. Moramos no subúrbio carioca, num bairro que é sorriso é paz e prazer, o seu nome é doce dizer: Madureeeeira, lá, laiá. ♪♫ Isso significa que Nara agora anda de trem e de ônibus todo santo dia (com exceção do dia de São Jorge que é feriado aqui no Rio) e recebe calor humano às seis da manhã de pessoas que nem conhece.

Nos primeiros dias, nós sempre a acompanhávamos orientando cada detalhe. Nossa bonequinha fofa nunca havia andado de ônibus sozinha e, de repente não mais que de repente, ela precisou fazer esse trajeto sem que ninguém tivesse ao seu lado para defendê-la de qualquer perigo iminente. Isso foi tenso para nós (digo, nós os pais). Mas antes mesmo do que a nossa vã filosofia pudesse imaginar, lá estava Nara completamente independente, livre e solta (ainda que muito apertada) indo e vindo do subúrbio ao centro da cidade, do centro da cidade ao subúrbio de transporte público. Narinha aprendeu novas palavras e agora fala treissincotrês, meioitocinco, treizoitotrês, ramal saracuruna, belforroxo e diodoro com uma desenvoltura de dar gosto. Ainda assim, é sempre um motivo de preocupação ter uma filha linda andando pelo mundo. Ainda mais de trem e ônibus. Fala sério…O que nos acalma é saber que ela segue tooooodas as nossas orientações direitinho.

Ontem, por exemplo, Nara dormiu na condução e quando acordou, percebeu que estava em um lugar “jamais visto antes”. Daí que os adolescentes de hoje são mega espertos e diante de qualquer problema (!!!) tem a solução sempre na palma da mão.

– Alô, mãe! Mãe! Tipo. Eu estou perdida! Nunca vi isso aqui antes na minha vida! Mãe?
– ONDE CÊ TÁ, NARA? NARA!!! Onde você está???? – Respondo perguntando com a tensão que meu posto de mãe me confere.
– No ônibus, mãe! – Nara responde como se eu estivesse feito uma pergunta idiota.
– ONDE CÊ TÁ, NARA? NARA!!!EM QUE LUGAR DO RIO? QUE BAIRRO?- Procuro assumir o controle da situação.
– Mãe? Mãe! Você não ouviu eu dizer que estou perdida? Eu não sei onde estou! Faço a menor ideia! – Responde rindo calmamente a minha filha e, pelo seu tom de voz em si menor, eu sabia que ela tinha certeza que eu conseguiria facilmente adivinhar.
– PERGUNTA PRO TROCADOR!!! – Oriento. Procuro lhe passar calma e segurança. Respira, Elika, respira!
– Mãe! – Nara ri. – Mãe! O meioitocinco não tem trocador! – Nara ri de novo.
– Nara!!!! Tem motorista? – Pergunto didaticamente após sentir que terei que ir com bastante calma.
– Tem! Tem sim! – Nara responde bem feliz.
– Legal. Pergunta pra ele onde você está – disse baixinho – sem que os outros percebam que você está…
– MOTORISTA! MOTORISTAAAAA! ONDE A GENTE TÁ? – Gritou Nara pelo visto para o motorista do outro ônibus.

– Momomumumumumdadadadidisifufot gugugutoitoibububu  irajá. – ouvi o motorista falando baixinho algo como se estivesse do outro lado da montanha.Estremeci quando entendi a última palavra. – Mãe! – Nara ri – A gente tá indo pra Irajá! Onde fica Irajá?

– Nara! – cacildis… eu não conheço nada de Irajá…- Nara!

Eu queria ligar pra minha mãe para pedir ajuda, mas estava com Nara ao telefone… Mega tenso.

– O que você está vendo na rua? Você já chegou em Irajá??? Me fala o que você está vendo!
– Mer-ca-dão-de-ma-du-re …
– DESCE AGORA!

Nara estava em frente ao Mercadão de Madureira, ponto turístico da nossa cidade, e a debilóide que mora ali pertinho há trocentos anos não fazia ideia de onde estava…aff… muito filhinha de mamãe a minha filhinha linda…

– MOTORISTA! EU VOU DESCER! Abre aqui por favor, motorista! Valeu, motorista!… Mãe! E agora?

A gente mora do lado de cá, ou seja, bastava ela subir e descer o viaduto que estabelece a ligação entre as duas vertentes e ela reconheceria a fauna e a flora do local.

– Está vendo um viaduto? – Falei enquanto abria o gúgol mépis.
– Não.
– Anda mais um pouco.
– Tô!
– Então, é só subir e descer. Vou desligar porque pode ser perigoso você andar e falar no celular, tá? Prestenção e é só subir e descer!

Ufa.

Desligamos o telefone.

Cinco minutos e Nara liga de novo.

– Alô, mãe! Mãe! Eu estou em frente ao Império Serrano! – Nara riu.

Nara desceu antes do que deveria. Era para ter seguido por toooooodo o viaduto e ela desceu no meio do caminho! Agora ela estava em pleno coração de um dos grandes centros comerciais do mundo. O maior furdunço do universo! Já estava escurecendo. Eu tinha que ser rápida e ligeira com ela.

– Nara, sai daí, keep walking! – Orientei decidida.
– Mas pra onde?
– Vai se distanciando de onde você veio.
– Ai, mãe, tô vendo a Belíssima! Nossa! Uma blusa por quatro e noventa e nove? Mãe! Uma blusa por quatro e noventa e nove! E não é feia não, hein!?
– Isso. Vai! Anda! – De novo abri o gúgol mépis.
– Você está vendo a Sapatella? – perguntei.
– Sapateeeeellaaaa, tô! Ali!
– Então, vai nessa direção. Quando chegar lá me avisa para eu te orientar.
– Cheguei! E agora?
– Tem bota?
– Tem! Ai, mãe! Lin-da!!!!
– Vê o preço.
– Trezentos e…
– Ok. Se concentra, filha! Se concentra! Está vendo a Chiffon?
– Tô. Ali em frente!
– Então, vai andando até ela.
– Ai que legal! Quanta coisa legal, mãe! E tudo barato! Amanhã você vem comigo? Cheguei na Chiffon.
– Olha a vitrine.
– Mãe! A Chiffon está com a vitrine ótima! Você ia a-mar aquela blusa! Nossa! Quanta coisa legal! – Nara ria de felicidade.
– Ok. Se concentra, filha! Se concentra! Na mesma calçada…você vê a Sonhos dos Pés?
– Vejo.
– Segue na direção.
– Ai, mãe, que legal isso aqui! Sonho dos Pés! Cheguei.
– Tem bota?
– Hmmm xovêêê… Tem!

E assim eu fui orientando a minha filha sem-noção-mega-esperta-alto-astral a sair de uma forma bem confortável, segura e útil do centrão de Madureeeeeraaaa lálaiá ♪♫. Enquanto eu falava e fazia com que ela olhasse para tudo em sua volta, eu também corria com o celular ao seu encontro. Já havia escurecido e o caminho de Ogum e Iansã é sinistraço.

Assim que Nara me viu, sorriu mostrando todo o aparelho cheio de elásticos. Voltamos conversando sobre a dentista e a aula de canto e piano que ela tivera no meio da tarde. Nem sentimos necessidade de falar do fato dela ter se perdido. Estranho… Algo saiu tão diferente do planejado e ainda assim pareceu ser tão certo…

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O desenho que ilustra esse texto foi feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte

Meu Adorável Galanteador

 

Há algum tempo ando com problema de postura, sentindo umas dores na coluna e evitando o salto alto. Para mim, que tenho metro e meio de altura isso corresponde a dizer adeus à elegância, ao charme, ao frescor da manhã que só um calcanhar bem levantado faz a gente sentir em pleno final de tarde… A auto-estima fica do meu tamanho quando calço uma rasteirinha. Bah! Ainda que não possa reclamar do amor que recebo do meu marido, o que joga mesmo uma mulher pra cima é um assobio dado com vontade de um homem desconhecido. Se forem vários, tanto melhor. E eu nunca mais ouvi nem um sibilinho sequer depois que aposentei os saltinhos…

Mas hoje, vejam vocês, fui abastecer o carro e me deu vontade de comprar bananada na lojinha do posto. Eu e minha sandália, ambas mega sem-graça, fomos até ali enquanto o carro recebia os cuidados do frentista.

Quando estava me aproximando da lojinha, ouvi fiu fiiiuuuuu! Ãhn? Jura? Mas não foi um fiu fiu sem graça não, meu povo. Foi aquele com vontade, sabe?, esses que dão pras mulatas boazudas!

Caraca! Será?!? Fiquei ali. Estática. Paradona de tanta esperança. Daí, respirei fundo e dei um outro passo. E fiu fiiiuuuuu de novo!!! Ah que legal… E de rasteirinha, hein?!? Tô podendo…Meu coração saltitava. Queria olhar. Pouco me importava se o meu admirador era bonito ou feio. Tô nem aí. Mas queria olhar e dar um sorrisinho tipo de gostosa-meiga-pura agradecendo, sabe? Parei de novo. Inspirei o ar. Mexi no cabelo… Virei graciosamente e lentamente para curtir o momento. Olhei em volta.

Nada.

O frentista lá longe lavando o vidro da frente do takimóvel. E na lojinha, o caixa mascando chiclete com fones no ouvido vendo televisão. Onde está o meu adorável galanteador? Mais um passo e fiu fiiiuuuuu de novo. Fui andando devagar meio feliz meio curiosa. Rindo dele estar se escondendo…deve ser um pedreiro consertando o telhado. Fiu fiiiuuuuu!!! Que delícia…

Foi quando percebi que eu estava era me aproximando de um macaco de brinquedo de 20 centímetros que ficava pendurado na entrada da lojinha… Fala sério! Pode isso, Arnaldo????

Quase enfiei a bananada no buraco da boca daquele primata sem coração

 

Pobre Tumita…

3892d-ceia

Ontem fiz uma postagem no feicebuque que começava dizendo que eu estava admirando “A última Ceia”. Com medo de que alguém não soubesse o que era, eu, metida que só, expliquei: “o famoso quadro de Leonardo da Vinci” (depois de ter confirmado no gúgol (porque eu não sou boba nem nada) se o quadro era mesmo do Leo e não do Mich). Estabaquei-me logo no primeiro comentário de um jovem sábio que me disse que “A última Ceia” não era um quadro e sim um afresco. Pronto. Lá estava a minha ignorância exposta publicamente. Mas eu nunca fui mulher de ficar com vergonha de parecer desprovida de inteligência. Apaguei a postagem porque fiquei com medo de parecer desrespeitosa ao dizer que  comecei a  imaginar todos do “quadro” dançando o Harlem Shake. Deletei não pela gafe, mas por receio de cometer uma heresia logo na semana da Páscoa.

 E para provar que não tenho vergonha de minha ignorância, que não me senti derrotada como Napoleão depois da batalha de Watergate, vou expor outras mancadas. Semana passada na hora do banho, lembrei-me da música do Djavan, aquela que fala dos sentimentos que temos quando saímos do avião. Linda. Grande sucesso. Comecei a cantá-la alto. Ah Djavan… “gênio da nossa música popular brasileira”… pensava  eu enquanto entoava as belas notas daquela melodia e a sujeira era subtraída de meu corpo… “♪♫ Ao sair do avião, Zudi pisou num ímã. Branca é às três da manhã ♪♫”. Já limpa  e seca continuei cantando pela casa e cheguei ao computador. Peguei a letra e soltei a música bem alta pelos meus fones de ouvido para cantá-la toda juntinha com o grande mestre. Levei um susto… Djavan não estava fazendo uma Ode às pessoas que pisavam em solos firmes vivinhas da silva, se aproximando do solo como um metal se aproxima de um ímã e de tão alegres que via o dia claro em plena três da madrugada… O certo é “Açaí guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é a tez da manhã”. Sem metáforas alguma. Letra sem pé nem cabeça… Achei Djavan uma merda…

 Minha filha Nara entrou para aula de canto neste ano e eu quis enchê-la de cultura e dizer que não basta cantar, é também necessário que se interprete o que cada frase está dizendo para que a voz passe emoção. Aprenda com os grandes, minha filha! Mandei logo o vídeo da Elis cantado “Como Nossos Pais”. Havia uma parte em que ela falava que somos imaturos, não deixamos as ideias cozinharem no tempo certo e que por isso não conseguimos enxergar o novo. Prestenção quando chegar essa parte, Nara! Aquela estrofe, para mim, foi a minha filosofia de vida e se sou aberta às novas ideias até hoje foi porque Elis sempre me chamou a atenção de forma incisiva que ♪♫ “Mas é você que é mal-passado e que não vê…” ♪♫,  e repetia que ♪♫ “Mas é você que é mal-passado e que não vê…” ♪♫ e concluía … “♪♫ que o novo sempre veeeeemmmm♪♫”. Qual o quê! Imprimi a letra para dar para a Nara e meu mundo caiu. Quem não vê é quem ama o passado e não quem é mal-passado, imaturo e não-pensante… Odiei. Amassei a folha e fiquei um tempo me questionando com aquela bola de papel numa mão e a outra no queixo tal como aquela escultura “O Pensador” de Monet. Fiquei me perguntando como  não podemos amar o passado. Como??? Tem que ter paciência de Lot para repensar a vida. E eu não a tive. Joguei aquela porcaria no lixo.

 Como a minha postagem mostrou, as minhas inépcias não fazem parte somente do passado. As músicas de hoje também podem piorar aos meus ouvidos (embora elas já não tenham mesmo quase nenhum encanto (tais como muitas da minha época… Sejamos justos como Moisés, né? Lembram da “Kátia Flávia, a cotia de Irajá”? Então… mesmo concertando não tem jeito aquela porcaria. ♪♫ O que você qué? Calcinha! O que você qué? Calcinha! ♪♫ Cruzes…)) Por isso estranhava Vanessa da Mata “ter medo do inseguro e dos fantasmas da minha avó”. Sempre achei a música desrespeitosa. Tratar as avós assim como assombrações é muita falta de amor e de versos mais bonitos e criativos. Mas nunca mudei a estação da rádio quando da Mata cantarolava esse disparate por causa da Elis que até pouco tempo atrás como já disse,  falava-me que o novo sempre veeeeemmmm e que era para eu deixar as coisas amadurecerem no meu intelecto! E por isso, abri-me tanto para esses noviços que cheguei a  achar Seu Jorge mega bacana porque fez uma música exaltando todas as mulheres de hoje que fazem várias coisas tipo ir ao cabeleiro, ao eletricista, malhar o dia inteiro e ainda assim ter pinta de artista.

 E nem vamos falar de quando eu era criança e que ao cirandar morria de pena do Tumitinha, cujo amor era pouco e por isso se acabou. Tumitinha…aquele mesmo que dava anel de vidro para a namorada não por carecer de dinheiro mas por ser incapaz de se apaixonar intensamente e presentear a sua pouco-amada com algo decente. Tipo ouro. Amemos! Mas não pouco como Tumitinha para não ficarmos que nem tontos dando meia volta, volta e meia dando por esse mundo mundo vasto mundo como já nos dizia Vinícius.

 Pobre Tumita…

Lei de Murphy ( 0 ) x ( 5 ) Fé na Kátia

 
 
 

Estou participando do V Seminário de História e Filosofia da Ciência na UFABC em Santo André e ontem, exatamente marcada para 16:30h, seria a minha apresentação. Se tudo o que eu havia planejado desse certo, já seria um dia mega tenso para mim que sou hiper apegada a uma rotina. Mas a despeito de  ter conseguido, eu  que ando questionando a base e a verdade das leis científicas descobri que há uma lei nesse universo que é inquestionável e que não devemos negligenciá-la jamais: A Lei de Murphy. Há de nos preocuparmos com ela e estarmos bem preparados para a sua atuação.

Confiei na informação de uma secretária sobre o meu voo para SP. A moça falou tudo corretamente, só errou em um pequeno detalhe: o aeroporto. Na hora certinha, na verdade com uma folga porque sou meio neurótica com horário e estava nervosa com a apresentação, cheguei.Exatamente às 10h da manhã eu estava pronta no Galeão para o voo que seria às 11:20h no Santos Dumont. Se não fosse o fato do Rio ser ameaçado a perder os royalties que correspondem a uma bagatela de três bilhões de reais por ano e o carioca lutar seriamente por essa causa com a participação dos Acadêmicos do Grande Rio justo no dia da minha viagem, eu chegaria a tempo. Mas não. O Rio estava em festa e o trânsito com TPM nível máximo. Estressadíssimo. Perdi o voo e tive que pegar o próximo que era às 14:00h.

No meio de minha atenieidade, eu procurava um mantra para me acalmar. Algum budista me disse uma vez que quando recitamos seguidamente nam mi orró rem gue quiô, Buda fica contente e não haverá mais beco sem saída em nossas vidas. Eu só não me lembrava da sequência direito dessas sílabas, mas resolvi mesmo assim agradar o enorme ser iluminado já que não havia mais nada a perder. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô … era o que eu consegui falar baixinho. Acho que Buda se enfureceu porque o meu voo das 14h…atrasou. Resolvi deixar de lado o merengue que só me deu azar e fui buscar outra coisa para me acalmar. Tudo posso naquele que me fortalece! Pensei. Pão de queijo com cappuccino! Yes!

A atendente me deu a bebida e eu assim que peguei no copo fiquei aborrecida por ela me vender um cappuccino gelado. Ledo engano. O bicho não estava frio e sim isolado por paredes de isopor. Dei um sugadão e queimei a faringe e o esôfago na entrada do líquido; na saída que foi pelo nariz devo ter queimado também a traquéia e todos os brônquios. O peito doía, a garganta ardia e as lágrimas rolavam contra a minha vontade borrando a maquiagem.

Chegando em SP, apertada para ir ao banheiro olhei para o relógio:15:37h. Não dá tempo. Peguei o primeiro táxi que vi. Furei a fila e pedi para todos que estavam nela, contorcendo as minhas pernas, que me desculpassem porque eu estava com muita pressa.

O motorista era um senhor e disse assim que entrei no carro que devemos ter muita calma no trânsito paulista para que não enfartemos. Além disso, ele falou que eu dei o mó azar porque ele havia emprestado pela primeira vez o GPS para a filha dele e ele não sabia andar por Santo André. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô… peraí: tudo posso naquele que me fortalece: o meu celular! Liguei meu super GPS e pé na tábua, seu moço! Trânsito um ó do borogodó. Demorou tanto que a bateria entrou no modus economiquis e o GPS travou. O moço ficou com pena de mim e disse: olha, toma umas balinhas, vai chupando que a senhora vai se acalmar. Eu disse que não queria e ele jogou umas dez no meu colo. Eram 16:22h quando estávamos perto da UFABC que fica ao lado do Carrefour onde o moço entrou por engano. Tivemos que ficar na mó filona de carros para sairmos dali. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô.

E graças a dilatação do tempo que ocorre quando estamos perto da velocidade da luz, exatamente ás 16:33h adentrei com mala, cuia, um palmo de língua queimada para fora e com as pernas ainda se contorcendo o recinto da Universidade pleno de historiadores e filósofos sentadinhos me esperando. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô… Sublimei, então, tudo o que contei para vocês aqui. Tudo podendo naquela que me fortalece, lembrei-me da Kátia que certamente acendeu uma vela para mim para que tudo desse certo na minha apresentação. Essa imagem, como comentada em outra crônica  tem um poder lexotânico na minha mente e não há Murphy com suas malditas leis que me faça esquecê-la.

Quanta sorte a minha, não?






Carrossel

 

Sou professora há mais de dez anos, na verdade quase vinte, mas isso pouco importa, na verdade importa, mas eu não quero falar sobre isso. Eu hoje já tenho ex-alunas que são mães, ex-alunos carecas, casados e até separados. Tenho ex-aluno nas universidades e nos shoppings. Ex-aluno artista, ex-aluno dentista. Tenho ex-aluno na França, na Alemanha e ex-aluno que não sei onde está. E é claro que não lembro o nome de todos eles (fato esse que entristece menos a eles do que a mim).

Mas nem só de ex-alunos é repleto o meu passado. Andei em academias de ginástica em toda a minha vida, na verdade de cinco em cinco anos, mas isso pouco importa. O que importa é que fiz amizades inesquecíveis das quais não me lembro do nome de quase ninguém. Fiz faculdade e conheci um tanto de gente assim lá, fiz mestrado e conheci outro tantão de gente mega inteligente, fiz curso de italiano, viajei pras Európis a trabalho com colegas de profissão e fiz três filhos. E de todas as pessoas que couberam nesse parágrafo e com as quais realizei altas trocas, eu sei o nome de mais ou menos cinco delas!

Isso posto, o fato do dia: Enquanto a minha vez não chegava na fila da pipoca em pleno calçadão de Copacabana, uma moça sorriu pra mim. Eu, mega fofa, sorri para ela. E daí, a dona do sorriso veio com o próprio escancarado na minha direção.

-Elika!!!! Há quanto tempo!!!!! – Exclamou com vontade a moça que me conhecia.

De onde, meodeos? Quem é você, jesuis? Pensa, Elika, pensa rápido. Abraça essa menina que está com braços abertos te esperando!

– Ô, põe tempo nisso, amiga!

Que amiga mané amiga?!? Por que falei assim? Por que essa louca está me esmagando?

– Como é que você tá, linda? E sua mãe… está bem?

Caramba… a menina sorridente conhecia a minha mãe…

– Estou ótima… mamãe também… – respondi fechando um pouco as minhas pálpebras e olhando bem na alma da fulana para ver se conseguia captar alguma coisa.

– E aí, Elika! Tem ido lá ainda?

Lá onde, senhor? Escola, academia, curso, outback, samba da Ouvidor, Berinjela… lá onde? Tantos lás por onde andei, meu pai! O que responder agora???

– Não. Nunca mais fui lá… – respondi maldizendo a minha memória.

– O quêêêê? Vocêêêê nuuunca mais foi lá???? Não acredito, Elika! Sério???? Não acredito!!! Por que???? Jura????– Perguntou a menina me fazendo sentir péssima por nunca mais ter voltado lá.

Se lá era tão legal pra mim, por que eu deixei de ir? Como a vida dá voltas… às vezes a gente é empurrado para um caminho que a gente nem sonhava em seguir. Daí você deixa de ir a um lugar bom que te faz bem, por que? Porque a vida é um feroz carrossel! Bem que o Chico havia me avisado… Acabei ficando triste e tendo segundos de reflexão sobre o que ando fazendo com a minha breve existência nesse planeta… o que dizer das canções que hoje não ouço mais, das academias que não mais frequentei, dos cursos que parei, das ondas que não surfei, das léguas que não corri, dos sonhos que desisti, dos mistérios que parei de sondar…

– Juro. – Respondi envergonhada.

– Fala sério, Elika! Nunca pensei que você seria capaz disso! Depois de tudo aquilo que você falava! De como você se sentia quando saía de lá! A não ser que você mentia pra gente!

– Não! Eu? Jamais menti para vocês! – Disse sendo sincera.

– Você lembra do que você falou para eu fazer com o Carlos Augusto? Você é gênia, Elika!Estava louca para te contar! Elikaaaa, nem te conto! – Falou a menina fazendo barbeiragem no português.

Gente, quem foi Carlos Augusto na vida dessa mulher! Só pode ter sido um namorado… O que eu disse para ela fazer???

– Ele morreu, você sabia? E eu fui a última a falar com ele. – Ela me disse sorrindo.

Quase desmaiei. Ela matou o Carlos Augusto e fui eu a mandante do crime!

– Você matou o Carlos Augusto? – Perguntei baixinho puxando a menina pelo braço saindo da fila da pipoca bem quando era a minha vez.

– Elika, você bebeu? Por que eu mataria meu sogro? Não se lembra que ele estava no hospital e eu não falava com ele há três anos? Fui lá como você falou, pedi desculpas, disse que não guardava nenhuma mágoa dele, que ele sempre foi um pai maravilhoso…

Ai como sou fofa…meus olhinhos se encheram d´água ouvindo a história da…

– …e daí ele me disse: Janete, me perdoa, minha nora querida? Eu disse que sim e ele mo-réu.

JaneteJaneteJanete Janete….Janete!!!!!!!!!!! A manicure do salãozinho de beleza lá do Valqueire que eu ia quando trabalhava no Colégio Pentágono!!!!Janete!!!!

– Janete!!!!!!!!! Que saudades!!!!!!!!!!!!

– Pois é Elika!!! Como vai Nelson, Hideo e a Nara?

Ela era do tempo que Yuki não era nem pensamento, gente! Ah, a Janete…

– Eu tive mais um, Janete! Olha aqui a foto dele!

E daí que ela estava trabalhando em um salão lá em Copa e terminara o seu turno justo quando eu havia acabado de resolver uma pendência e vi o pipoqueiro. Dei carona para Janete porque assim como eu ela é subúrbia. Pegamos duas horas de engarrafamento que nem sentimos e nem foram suficientes para colocar as fofocas todas em dia!

Quando Janete saiu do carro fiquei pensando em tudo o que aconteceu e como posso definir o que Janete é para mim. Já ouvi tantas definições de amizade e em nenhuma delas Janete se enquadra. Engraçado… A amizade é algo tão complexo que sua essência jamais caberá numa frase. Querer explicá-la, justificá-la, julgá-la e moldá-la gera perdas de alguma espécie. Essa crônica, portanto, foi apenas uma tentativa de mostrar que a importância de uma pessoa não se mede com fita métrica, nem com dinamômetros, nem com palavras e nem com gestos! Acredito, depois de hoje, que uma boa medida da importância de uma pessoa seja a alegria que ela produza em nós. E eu amei ter reencontrado Janete!

Seguimos, então, tentando nos divertir nesse carrossel.

O Sagrado e o Profano

A mãe ouviu ao fundo a voz do pai gritando com o menino, coisa rara naquela casa, pois o menino que acabara de completar seis aninhos é muito bonzinho e obediente além de cuidar com carinho de todos os bichinhos da casa que consistiam em sete peixes, dois hamsters e um cachorrinho. Querendo saber o que estava acontecendo, a mãe deixou o resto da louça suja na pia e dirigiu-se para o cômodo da casa onde estavam o pai e o filho, o primeiro falando ainda de forma exaltada e com voz embargada, o segundo de cabeça baixa e aparentemente muito envergonhado.
– Você por um acaso… você…por um acaso… se eu ficasse doente, trocaria de pai? Da onde você tirou essa ideia? Com quem você tem andado, meu filho? Eu não esperava ouvir isso de você por toda a educação que nós temos te dado! Isso não é papel de homem, meu filho! Você quer me matar de desgosto falando uma coisa dessas? Você já viu o seu pai fazendo esse tipo de coisa por aí?
A mãe, sem ainda saber o motivo daquele emocionado discurso e sabendo que o pai jamais levantara a voz para criança daquela forma, como boa cúmplice, virou o rosto tenso para o filho e condenou com o olhar aquele ato indecoroso do menino. Balançava a cabeça negativamente e olhava o pai exclamando indignado. Com a mão direita espalmada por cima do peito esquerdo e com cara de choro, a mãe sentia a dor do pai como se fosse a dela.
– Vá beber uma água, Nelson. Se acalme, meu amor. Deixa que eu converso agora com ele, tá? O Kinho não vai fazer isso de novo, né, Kinho? – Alterou o semblante no mesmo instante em que olhou para o menino. O menino sabia que a mãe era mulher braba e curvou-se ainda mais de tanto medo e vergonha.
Nelson saiu do quarto vociferando sozinho pela casa. Onde erramos com ele? Que horror! Que horror! Isso não existe!!! A mãe mal se aproximara do menino quando ele começou a falar baixinho e chorando:
– Mãe, desculpa, eu disse pro pai que se ele mudasse eu ia com ele, que eu não vou deixar nunca o pai sozinho. Eu só quero ver o pai feliz…descuuuulpa, mãezinha, – soluçava nas vírgulas o menino arrependido – eu falei, mãezinha, que eu ia com ele… eu não quero ver mais o pai sofrer, mãe. Eu pensei que ele ia ficar mais feliz se a gente mudasse, mãe! Me desculpa, mãezinha…
– Ãhn? Mudar pra onde, Jesus? – Perguntou a mãe sem entender patavinas.
– Pro Fluminense, mãe. O Flamengo só perde… me desculpa, mãe, me desculpa…
O menino aprendera uma grande lição. Com o sagrado das pessoas não se mexe e que um homem não torce por um time, mas o consagra e o confunde com a própria consciência que tem de si mesmo.
– Ãhn?

Raciocínio Lógico

Estou em São Paulo participando de um Congresso de História da Ciência e da Tecnologia na USP. Ontem foi o único dia que deu para eu passear a tarde e aproveitei para conhecer alguns pontos turísticos. Fui no famoso bairro da Liberdade, na famosa Praça da Sé, no famoso Teatro Municipal e me desesperei no famoso engarrafamento onde percebi que os paulistas acreditam que o ato de buzinar pode fazer o carro da frente se desintegrar. Cheguei ao hotel cheia de dores de cabeça…
Hoje, porém, não deu tempo para nada. Houve atividades o dia inteiro no congresso e, para piorar, a tarde foi a minha apresentação de forma que eu estava mega concentrada com medo de esquecer alguma coisa caso balançasse muito a cabeça. O trabalho era sobre o desenvolvimento da Física no século XVIII, mostrei que o assunto é confuso e que eu não estou entendendo bulhufas da dinâmica da coisa. Na verdade o que eu apresentei foi a minha ignorância sobre o assunto. Ainda assim acho que agradei aos três espectadores. Fui super fofa, coloquei uns memes na apresentação quebrando todos os paradigmas enquanto pesquisadora séria. Me aplaudiram de pé no final. Primeiro porque eu era a última a apresentar e já estava todo mundo de saco cheio e doido para ir embora, depois porque é de praxe bater palmas para qualquer pessoa que fale absolutamente qualquer bobagem em congressos. Mas isso são detalhes que ninguém precisa saber.
Vamos ao que interessa e que me fez no final do dia vir aqui no meu blog para escrever. Voltando da USP quase chegando no hotel no início da noite passei por uma loja de roupas de mergulho. Como o dia foi tenso pensei: por que não? Não tenho roupa de mergulho e mergulhar deve ser bom. Vai que um dia eu precise, vai que um dia eu compre uma lancha ou vá a Miguel Pereira? Perdi uma oportunidade uma vez de curtir uma piscina lá só porque deteeeeesto água gelada. Eu via os amigos nadando, pulando na água sem medo, se divertindo a vera e a brinca* e morria de inveja. Taí. Ouvi dizer que essas roupas não deixam a gente sentir frio. Menos um problema na minha vida! Está tudo dando certo hoje!
Entrei na loja.
Veio o moço:
– O que a senhora deseja? – Perguntou o vendedor nada original.
– Eu desejo não sentir frio quando mergulhar. – Respondi claramente.
-A gente tem roupa de cinco milímetros. – Ele disse me olhando toda de cima a baixo.
– Muito engraçadinho, moço. Acho que sou maior do que isso.- Falei super antipática não gostando nem um pouco daquela brincadeira feita por um desconhecido.
Daí ele riu. Eu fiquei super aborrecida com a grosseria. Agradeci e dei-lhe as costas.
– Senhora, espere! Desculpe, deixe eu mostrar o que tenho aqui pra senhora. – Arrependeu-se, certamente, o vendedor.
– Eu quero essa grossa. De manga comprida. – Explanei decidida.
– Ok. Qual o seu tamanho?- Perguntou de novo o engraçadinho.
– Um metro e meio. – Falei séria.
– Eu estou falando se a senhora veste pê, eme ou gê, senhora. – O vendedor burro que não sabe nem perguntar sem ambiguidades, explicou-se.
– Pê.
– Eu acho que a senhora é eme. – Perdeu completamente a noção o cara.
– Pois sim que sou eme! Pois sim! Me dá a pê da grossa. – Ordenei já doida para sair dali.
– A senhora não vai experimentar?
Qual o quê…A loja tinha pouco movimento e havia somente dois vendedores machos. No mais, eu ando “me achando” pelas ruas e desconfiando que todo homem que se aproxima de mim quer me estuprar. Síndrome de gostosa-ligada-nas-notícias. Avaliei o local e achei que corria altos perigos.
– Muito obrigada. O pê vai servir com certeza. – Mandei na lata a minha excelente forma física.
– Ok. Qual a forma de pagamento? – Finalizou o tarado.
– Quanto é?
Eu sabia que tinha duas notas de cem reais na carteira e borracha é coisa barata.
– Shyrtxlcentos reais. – Respondeu jack, o vendedor estripador.
Fala sério! Se fosse de seda vá lá! Mas de borracha? O outro vendedor se levantou e já estava embrulhando aquela goma elástica. Seria o maior mico falar que não queria mais. Estava vindo de um congresso. Com crachá e tudo. Toda de salto alto, meu povo.  O dia havia sido perfeito. O meu ego estava brilhando…Fala sério! Acabei dando o meu cartão de crédito e parcelei em trinta e seis vezes.
Assim que cheguei no hotel resolvi experimentar a nova aquisição que custou os olhos da cara e o orgulho da minha alma. Distendi três músculos tentando colocar a roupa. Tive que deitar na cama para fechar o zíper na frente do macacão. Fechei. Não consegui me levantar. Rolei e cai no chão. Com muito custo fiquei de pé. Fui até o espelho e tchanraaannnn! Adorei o que vi. Estava magéééérrima! Fiquei andando indo e voltando em frente ao espelho super feliz. Vou vestir a noite para o Nelson quando voltar amanhã pro Rio, pensei. Ele vai adorar a nova Elika Bunchen. Mas, a felicidade deu lugar a um giga desconforto. De repente a respiração começou a ficar comprometida e eu resolvi abrir o zíper todo de uma vez com medo de morrer. O barrigão pulou pra fora aliviado e eu comecei a expirar todo oxigênio do quarto ofegante achando que estava já raciocinando mal por falta desse gás comburente no cérebro.
Quando fui tentar tirar o traje colante entrei em desespero. Não havia movimento ou manobra que eu fizesse com os meus braços capaz de desgrudar dos meus ombros aquele bando de látex. O cabelo estava encharcado de suor. Não sabia mais o que fazer.  Liguei para o meu marido que estava em casa com as crianças.
– Neeelso, socorro! Estou presa!- Eu disse assim que ele atendeu o telefone em casa.
– O que houve? Presa como? – Perguntou Nelson todo preocupado.
– Em mim mesma! Neeeeelson, socorro! – Gritei.
Depois de tudo explicado, veio a solução. O que seria de mim sem Nelsim?
-Liga para a recepção e diga que está precisando da ajuda de uma mulher. – Expressou-se super calmo e me passando altas tranquilidades.
E foi exatamente e imediatamente o que eu fiz.
– Alô? É da recepção? Meu querido, estou com um probleminha aqui e preciso de ajuda urgente. Pode mandar uma mulher pro meu quarto, por favor?
Em menos de três minutos chega a camareira. Puxei a moça pelo braço para ela entrar rápido. Mostrei o meu estado. Barrigão branco pra fora, suada, com aquela borracha  fundida ao meu corpinho-bagulho.
– Por que a senhora vestiu isso aqui? – Começou a moça fantasiada de avental e touquinha a querer saber demais da conta.
– Me ajuda, moça, peloamordedeos, me ajuda! Puxa!- Coloquei as minhas costas nas mão dela. – Vai! Aí! Vai! Puxa! – Devia ter falado que queria uma mulher forte.
– Tô tentando, senhora. Por que a senhora fez isso? – Perguntou a fraquelóide.
– Puxa, moça! PUUXXAAA! Pode rasgar mas tira isso do meu corpo!
Ploft. As muxibas vieram abaixo! Que alívio! Eu rodei os meus braços peladona como se fossem hélices de helicóptero na frente da mocinha de touca e avental que me olhava assustada. Eu estava extremamente feliz com a liberdade!
Mais calma, expliquei para ela que eu ia ser estuprada na loja e patati patatá. Ainda como vim ao mundo e em êxtase dei -lhe um abração toda suada  e ela foi embora sem ao menos esperar uma gorjeta.
É isso por hoje. Amanhã de manhã vou explicar para uma turma de futuros-padres porque não acredito em Deus mas tenho Fé na Kátia . E assim vou terminando os meus dias de intelectual aqui em Sampa.
Até a próxima!
——————————
* Parafraseando Manoel de Barros.

Feijoada com ou sem Cristo?

Passo sempre indiferente por essa Igreja na final da 24 de Maio, mas outro dia um cartaz em sua fachada me fez meditar. “Tradicional feijoada do Encontro de Casais com Cristo”. Inicialmente a reflexão foi voltada para a ambiguidade da frase. O evento poderia ser para prestigiar duas coisas diferentes: Uma, que Cristo se encontraria com os casais e a feijoada seria apenas um detalhe. A outra, que Cristo estaria presente já antes na feijoada (assim como durante, é claro), que os casais viriam ao Seu encontro e poderiam ainda, com moderação, sorver o alimento rico em ferro. Esses são pormenores da nossa língua portuguesa que nos tornam imprecisos mesmo com Cristo… Confesso que a primeira opção não me faria parar tudo que ando fazendo para estar aqui divagando com meus fiéis seis leitores. Já a segunda (e que conforme me disse uma integrante da paróquia é o que acontece todo ano) me fez ponderar.  Eu que nada bebo mas de tudo como, parei para questionar se não estaria perdendo uma feijoada divina por não ter nenhuma religião e, Deus que me perdoe, pensei até em uma conversão só para participar dessa farra.
Farra? Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de permitir que a ‘feijoada com Cristo’ entre no meu estômago ao preço de deixá-Lo, antes, entrar na minha mente (ou vá lá, no meu coração). Colocando tudo na balança ruminei: O que seria afinal uma feijoada com Cristo? O que seria uma feijoada sem Cristo? Aquela que eu sempre como afinal…Ele está ou não presente? Não me lembro Dele ter sido convidado, mas também nunca vi ninguém impedindo a Sua entrada…
Quando pensamos nessa iguaria feita de feijão preto cozido com miúdos de porco, partes íntimas e gordurosas e quaisquer outras coisas nojentas, desde que contenham gordura suficiente e muita pele de qualquer quadrúpede, além de ingredientes trazidos pelo vento que a cozinheira diz ser folha de louro, não imaginamos gente triste ou com algum sentimento de culpa quer cozinhando quer  fazendo parte da degustação que pode levar horas. Não há espaço para o silêncio quando estamos diante desse manjar dos deuses e a falta de ruído jamais pode ser preenchida pela música clássica. Seria um sacrilégio. Não há quietude, sossego, calma e som de harpas…. Há de entrar pelos ouvidos uns ziriguinduns, telecotecos, balacobacos, borogodós e buruguduns para que a feijoada não fique sem sal. E nesse paticundum, pracatás, sabadás e badaiás, bailarinas vestidas de branco ou  de rosa clarinho com uma saia que parece feita de nuvem não tem vez! Ao nosso lado, compondo o prato, deve ter uma nega com salto alto, vestidinho estampado e bem curto sambando com o diabo no corpo. Risadas estridentes estimuladas pelas cervejas estupidamente geladas e ucas, açúcar, cumbucas de gelo e limão são imprescindíveis para engrossar o caldo (Saravá Chico!).  E nada de vinho pelo amor de deus!  
 
É. Definitivamente Cristo não pode fazer parte desse tipo de coisa e pensando bem, Ele nunca esteve presente em nenhuma feijoada em que fui.
O ponto é que não vejo como isso pode ficar mais divertido e gostoso se modificarmos algum ingrediente ou se acrescentarmos algo, ainda que esse um-tanto-a-mais seja supremo. Cristo nesse ambiente poderia ou ficar deslocado ou inibir nossas gargalhadas com dentes sujos à mostra ou pior! acabar se divertindo nesse meio. Deus me livre.
Isso posto, não irei a “Tradicional Feijoada do Encontro de Casais com Cristo” e agora, depois dessa meditação, não estou mais angustiada com uma certa sensação de perda. Estou bem mais tranquila. Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, disse que uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. Só quem já saboreou devidamente o pitéu percebe que a genialidade de Ponte Preta nessa proposição foi ter captado e expresso em poucas palavras a essência desse maravilhoso e fenomenal sustentoPercebo, então, sem me sentir uma perversa profana, que Jesus deve mesmo é ficar do lado de fora. Literalmente. Fazendo o que faz de melhor! Absolvendo-nos e guiando nossos passos até chegarmos ao nosso abençoado lar.
 

Não Curti

Entrei no elevador hoje no segundo andar do CEFET. Estava com preguiça de ir pela escada até o quinto. Dou de cara com um casalzinho emburrado. Em pleno 13 de junho que vem logo depois do dia 12 de junho, o dia em que mel em cima de cocada fica menos enjoativo do que as mensagens de amor no feicebuque.
– Rafa… – Ela disse logo que a porta se fechou.
– SSSHHHHH…- Fez o Rafa de cara feia olhando fixamente para baixo, exatamente para a minha pessoa, fazendo o sinal universal de cala a boca para a garota.
– Rafa, – insistiu a menininha fofa com cara de pobrezinha e com voz de meiguinha – eu só curti, Rafa…
– Só, Maria Eduarda, só curtiu? Só? Desde quando, Maria Eduarda, curtir seis vezes é ‘só’ curtir?!? – Caraca, Maria Eduarda havia pisado na bola legal. Todo mundo sabe que curtir uma vez é ser simpático, duas é ser colega, três, amizade, quatro, interesse, cinco, vem cá que eu tô facinha, seis?!?  Fala sério! Que decepção, Maria Eduarda! Que decepção!!!
– Mas você quer o que, Rafa? – perguntou a safada e sem-vergonha na maior cara de pau! Eu olhei rápido para o Rafa querendo só ver que tipo de homem ele era.
– O que eu quero, Maria Eduarda? O que eu quero? – Afe. Esse Rafa é do tipo que começa respondendo perguntando tudo duas vezes…- O que eu quero? Você ainda me pergunta? – Recriminei-o com um olhar severo. O meu andar estava chegando…Caraca, ômi, fala logo que quer que ela te respeite!, desembucha essa raiva direito ao invés de ficar perguntando igual um coió. Explica que ela fazendo esse tipo de coisa acaba com a sua masculinidância enquanto homem no feicebuque! Gasta esse latim, Rafa!
– Você quer que eu deixe de ter as minhas opiniões? Quer que eu me anule no feicebuque? – Maria Eduarda estufou o peito e falou balançando o queixo igualzinho um sino e com a mão na cintura. Como essas pessoas conseguem fazer isso com a cabeça? Sempre tentei e nunca consegui. Enquanto eu olhava a vaca da Maria Eduarda oscilando aquela fuça a porta do elevador se abriu.
Hesitei. Se eu saísse não poderia mais dar aquele apoio moral pro Rafa.
Pensa rápido, Elika, pensa rápido!
– Vocês vão descer aqui? – Perguntei com firmeza, pensando em segui-los só até o Rafa dar um fora na Maria Eduarda.
– Não. – Respondeu a hexa-curtidora descarada.
– Não? Não??? Como não? – Pronto. Peguei a doença do menino. – Esse não é o último andar?
– É, mas estávamos descendo, daí a senhora entrou e apertou o quinto. Esses elevadores do CEFET são meio malucos. – Respondeu o coiócudo do Rafael que além de tudo não deixou a porta se fechar segurando-a para eu sair em segurança. Fofurésimo. – A senhora não vai descer aqui?
– Eh, bem, eu ia, mas acabo de me lembrar que tenho que ir ao banco. – Se tem uma coisa que eu admiro em minha pessoa é meu raciocínio com a velocidade da luz.
E a porta se fecha.
Silêncio.
Mais silêncio.
Como é que é, meu povo! Bóra discutir essa relação que meu tempo é curto!
E o elevador despencando em queda livre!
Que situação! Que situação em que fui me meter! Que estresse!Que estresse!
Comecei a rodar o meu anel do mindinho e a olhar sério pro Rafa com a minha testa tensa, linguagem universal dos que acham que Maria Eduarda pisou na bola e que ele tem toda razão de ficar chateado e deve exigir mais respeito da parte dela.
– Ok, Maria Eduarda, desculpa. É que eu sou meio inseguro mesmo…
A porta se abriu, meu queixo caiu e os dois saíram abraçadinhos. Isso que dá a gente se envolver emocionalmente com o problema dos outros. O acesso ao elevador começou se estreitar cada vez mais, meu nariz quase ficou preso… congelei sem entender nada… fiquei com a maior cara de bananada diet a um centímetro daquela fenda emborrachada.
 Como essa garotada de hoje é imatura. Vou te contar, viu…

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Dividindo pra poder sobrar

Cromo somos xx!!

 

Em luta pela dignidade humana!


Acordei diferente. Hoje será a passeata contra a redistribuição dos royalties da exploração do petróleo e eu decidi na segunda-feira que não posso morrer sem participar de uma passeata. Sinto muita inveja daqueles que já desfilaram com a cara pintada ou apenas gritando algo de cara limpa mesmo no meio de uma multidão. Muito lindo as pessoas andando com os braços direitos levantados e punhos fechados que se movimentam no ritmo de brados retumbantes, segurando faixas, cantando Geraldo Vandré…nossa, acho isso o máximo e sinto até vergonha de nunca ter feito nada parecido. Mas resolvi que seja lá o que forem esses royalties, eles são é nossos. O Rio é nosso! O petróleo é nosso! Abaixo a injustiça!!! Se o impacto é nosso, os royalties também! Vou arrebentar nessa passeata. Estou até me vendo fazendo parte da história. Maneiro.
Senti, porém, pela manhã um desconforto semelhante ao que experimentei na minha abençoada infância quando comungava sem antes me confessar. Precisava resolver uns probleminhas para ir com a consciência tranquila lutar por esse Rio maravilhoso. Ter me lembrado disso hoje me deixou até feliz, confesso. Moro, no entanto, no subúrbio carioca, na parte calma de Madureira. Tenho umas multas para pagar e o Itaú mais perto do meu domicílio fica em Cascadura. O panorama não era dos mais animadores, ainda mais sabendo que não há mais estacionamento em lugar algum do planeta quanto mais em Cascadura. Restavam-me duas opções: ir de ônibus ou ir a pé. Julguei que uma caminhada me faria bem. Precisava me preparar fisicamente para a tarde.
Saí de casa às dez. Entupi-me de protetor solar e lá fui eu com a honra daqueles que não se envergonham dos seus erros e os reconhece sem orgulho, é claro, perante seja lá quem for. Com uma multa vencida por andar na faixa de ônibus em plena avenida Brasil (sem querer), com várias taxas de incêndio atrasadas desde 2009 e mais tantos outros pecados que couberam entre as folhas de um livro de Rubem Braga, caminhei com meu nariz em pé e protegido do Sol. Atravessei aquele viaduto todinho pensando em como o Rio precisa de mim e questionei como esse pobre subúrbio vai sobreviver sem esses Royalties… A falta de beleza dessas bandas nunca me fez sentir tão bem disposta.
De casa até o Itaú, ‘o banco do Rio’, eu vi tanta coisa… Eu vi uma mulher procurando o isqueiro na bolsa com o cigarro pendurado na boca enquanto esperava o trem na estação, eu vi um homem sentado todo agasalhado debaixo do sol e bem no vão central do viaduto, eu vi uma mulata bonita de cabelos longos e de salto alto sorrindo quando os homens da construção fizeram fiu fiu. Vi três pessoas vestidas de iogurte, puxando um carrinho-iogurte vendendo iogurte no saco a uma bagatela de centavos. Eu vi um carrinho de mão cheio de aipim-manteiga na calçada, vi uma mulher vestida de branco que media a pressão por um real. Vi o bicheiro. Vi um açougue cheio de carne pendurada, um coelho pelo avesso também suspenso, e vários frangos assando dentro desse mesmo estabelecimento. Vi uma loja fedorenta de artigos de macumba. Vi a imagem do capeta. Vi uma churrasqueira feita de um tonel por duzentos e noventa e nove reais. Vi um homem com um saco preto enorme de lixo cheio de bucha dentro. (Cinco buchas dois real). Vi o Natal no Amigão. Vi um senhor que conserta panela de pressão sentado consertando uma pipoqueira. Vi duas senhoras com óculos conferindo o troco na porta de uma farmácia. Vi várias pessoas acima do peso comendo pastel e bebendo caldo de cana. Vi dois chineses. Vi vários senhores na praça jogando cartas e conversa fora. Vi crianças também na praça matando aula e mexendo nos celulares. Também na praça, vi um menino no balanço, descalço e com um vidro de cola em uma das mãos. Vi um punhado de coisa nessa praça. Vi umas roupas secando no banco (da praça). Procurei o dono daqueles parcos trajes. Não o vi. Vi uma mulher que fazia artesanato nos panos de prato. Bordava o nosso nome em vinte minutos, um troço de doido. Vi muitos pombos e nenhum passarinho.
Enfim, vi o Itaú.
Até aí, eu estava super animada para lutar contra a injustiça e em defesa do Rio. Mas…
Entrei.
Fiquei quarenta minutos na fila, li seis crônicas do Rubem Braga e quando cheguei no caixa, a moça de unhas decoradas me falou que eu teria que tirar uma segunda via da multa vencida no terminal eletrônico lá embaixo. Fui lá embaixo. Toquei a tela várias vezes e consegui. Apertei sim quando a máquina perguntou se eu queria impresso. Tirei o papel. Subi. Esperei mais um tanto. Quanto ao outro documento, eu teria que conversar com a gerência lá embaixo, disse a moça de unhas decoradas e de cabelos alisados. Fui lá embaixo. Dirigi-me até o local onde cinco mulheres bem vestidas trabalhavam em mesas bem grandes. Li mais cinco crônicas. Desisti de ler. Fui mandar mensagens no celular. O guarda brigou comigo. Não pedi desculpas e ainda passei a frente de duas velhinhas que estavam na fila conversando e nem perceberam que foram chamadas. Perdi a noção. Peguei a porcaria de um número com a gerente que estava com uma bolsa certamente falsificada da Louis Vuitton na mesa. Subi. Aguardei mais um tanto assim de uma crônica e meia. A moça de unhas decoradas, de cabelos alisados e de sobrancelhas ultra-finas disse agora tá tudo certo. Olhei bem dentro daquelas lentes de contato coloridas. Senti necessidade de urrar. Tive vontade de jogar um balde d´água naqueles cabelos.  E eu também queria chutar as mesas e jogar todas as cadeiras longe. Precisa falar um tantão de palavrão aos berros. Visualizei os estudantes da USP me ajudando a quebrar tudo aquilo. Tentei sair de lá correndo e fiquei presa na porta giratória na saída! Tive que mostrar as chaves, o celular interdito e aaaaah como eu queria mostrar uma arma.
Fiz sinal pro ônibus e ele passou direto. Voltei andando, ou melhor, voltei correndo. Era mais ou menos como se tivesse apertado a tecla ‘voltar’ de um controle de DVD na velocidade 4x. Saco de bucha, homem-iogurte, bonecão do capeta, bicheiro, mulher de branco, mendigo, chinês, Natal no Amigão,… aquele pesadelo todo de novo.  Nem  o pedaço de madeira preso no asfalto com pregos para consertar um vazamento fez-me mudar o meu novo foco que está agora no meu umbigo. Precisava me isolar o mais rápido possível e evitar todo e qualquer contato social.
Agora? A minha luta agora será para resgatar a minha dignidade!  E isso não se faz de uma hora para a outra.
Paciência. Não será hoje que farei parte da história. 
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