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Liberdade

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Ultimamente, ando pensando muito sobre o conceito de liberdade. Descobri que assim como o ‘tempo’, só sabemos o que é ‘liberdade’ enquanto não tivermos que explicá-la. Experimente a minha dificuldade e tente responder: O que é ser livre? Quanto custa a liberdade? Há regras que limitam e explicam a liberdade? O mundo é um obstáculo para a liberdade? Um escravo pode ser livre? Não é simples… Enfim, ando pensando sobre esse, como diria, estado de espírito (seria isso?). A lembrança de três eventos levou-me a não concluir de vez essas questões.

Ganhei há tempos atrás um livro de meu primo Marquinhos. Ele, agora vejam, lia-me lá no sertão e quando veio ao Rio para assistir o show do Elton John aproveitou a viagem para me presentear com uma preciosidade: ‘200 crônicas escolhidas de Rubem Braga’. Eu, sempre muito ignorante, pasmem, nunca havia lido o maior dos cronistas brasileiros.

Simplesmente devorei Rubem Braga e agradeci a Deus por ter tido essa experiência antes de morrer. A vida ganhou outro sabor. Passei a ver tudo diferente como uma gestante o faz turbilhada pelos hormônios, mas eu estava era imersa em brandura. Apossei-me das vísceras do poeta que escreve em prosa e quando estava já completamente nua em seus braços, totalmente entregue, ele sussurra ao pé do meu ouvido esquerdo parte da crônica intitulada O Morto, parágrafos da página 187, quase já no final do livro:

“Que o mistério que existe em toda morte fosse na minha dignificado pela simplicidade.

Que alguma desconhecida mulher, em uma hora de angústia ou abatimento, lesse por acaso alguma coisa minha e sentisse ali um conforto de mão de companheiro.

[…]

E tu, que foste a última de minhas amigas, que minha lembrança te fosse também suave – apenas a vaga mão pousando no teu ombro e a perdida voz dizendo teu nome, [Elika], com o mais simples carinho, e um tom quase contente.”

Lembro-me do espanto ao ler esta carta dirigida a mim. Se já estava sentindo falta do que jamais tive, saudades daquele entrelaçamento que não cessaria com o findar da leitura, desesperei-me ao ter que me despedir de quem ao olhar para meus olhos fixos em um livro aberto compreendeu todas as minhas inquietações e as acalmou. Rubem estava me dizendo adeus e voltando para o além, lugar de onde saiu para vir ao meu encontro quando percebeu que eu estava emocionada e cúmplice de seus dizeres impressos.

Chorei pedindo para que ficasse quem já havia partido.

Quando estava escrevendo a minha tese em que pesquisava como se deu a matematização da física no século dezoito, mergulhei fundo em muitos autores. Tive que ler várias cartas trocadas entre os físicos, matemáticos e filósofos daqueles idos e levei um susto ao perceber o quão complexo, discutível, controverso, obscuro e até perverso existe por detrás de ideias aparentemente simples que podem ser traduzidas por uma simples equação, tal como F= ma.

Pierre Louis Moreau de Maupertuis foi um dos homens que me mostrou a quantidade de, digamos, metafísica que há em ideias aparentemente claras e objetivas. Saber que a ciência exata que lecionava há anos (para quem não sabe sou professora de física) de exata não tem nada foi uma experiência que se iguala a, sei lá… ver Jesus talvez. Eu, infelizmente, jamais O vi, mas quem se depara com Ele jamais volta a ter o tamanho normal, tal como a mente quando é apresentada a uma nova ideia, como já dizia Einstein. Maupertuis escrevia cartas e cartas para mim. Com cuidado, com carinho. Teve muita paciência de me mostrar como uma equação pode provar a existência de Deus. Ora, Tuis, deixe de bobagem!, dizia eu para ele. Elika, pense comigo… e daí ele tentava me mostrar, naquele francês dos idos do Iluminismo, o quanto ele teve que transcender nas ideias para chegar a equação de um dos princípios variacionais mais importantes dentro da física: O Princípio de Ação Mínima. Maupertuis não olhava para o chão, para a matéria, para o objeto, para o que se pesa e sim para o que há além deles. Depois de nosso encontro, eu jamais consegui dar a mesma aula de física conforme outrora fazia. Acompanhei Tuis em todas as suas inquietações e discussões com outros físicos, filósofos e matemáticos da época. Reconheço a sua caligrafia de longe de tanto ler as cartas escritas por ele e seus rascunhos pessoais. Quando Euler escreveu para Lagrange comunicando a morte de Maupertuis, ao ler a correspondência que dava a notícia, entrei em pânico. Parei de escrever a tese durante um tempo. Vivi um luto inconformado.

Chorei mais uma vez pedindo para que ficasse  quem já há muito havia se ido.

O mesmo se deu com Clarice Lispector. Separei-me há meses de uma pessoa com a qual convivi intensamente feliz por quase 25 anos. Fiz análise, tentei rezar, fui às compras, entupi-me de chocolate. Foi somente Clarice que conseguiu me explicar o que estava acontecendo e acalmar o meu furacão de incertezas e medos. Ao ler Lispector, entendi muito melhor a mim mesma. É terapêutico a vera. Devorei seus livros e senti necessidade de saber mais sobre sua vida pessoal. Clarice foi-me descortinada ao som de um azul celeste na biografia escrita por Benjamin Moser.

Assustei-me com a nossa conivência. Clarice, como eu, lado a lado de defender a própria intimidade, tem o desejo intenso de se confessar em público e não a um padre seus pecados. Minha Vida? É um Blog Aberto. Não que eu esteja comparando a qualidade literária de minha escrita com a dela. Imagina. Longe disso. O que eu quero dizer com isso é que Clarice sempre entendeu muito bem tudo o que fiz e justificou todas as minhas atitudes. Lispector me deu a sensação de não estar sozinha – como os incompreendidos – neste mundo.

O contato com a biografia narrada de forma majestosa tal como Moser o fez ressuscitou Clarice. Fiquei íntima da bruxa, li suas cartas direcionadas para seus amigos mais próximos, ouvi suas conversas ao telefone, vi seu álbum de retrato e cheguei até a me apaixonar pelo mesmo homem que arrancou fortes suspiros de Clarice: Lúcio Cardoso. Conforme o livro de Moser vai terminando, a doença de Clarice aparecendo e ela ainda dizendo que ia morrer escrevendo, o desespero, ah quanta dor! quanta dor!, começou a se apossar de mim. Não, Clarice, fique comigo pelo amor de Deus! Aguente firme, por favor! Mas ela vai e me diz:

“Elika, benditos sejam os seus amores. Será que estou com medo de dar o passo de morrer agora mesmo? Cuidar para não morrer. No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar.”

Chorei pela terceira vez  pedindo para que ficasse comigo quem já havia se despedido.

Um dia alguém me disse que sentimos saudades não quando experimentamos a falta de alguém e sim quando percebemos a presença deste alguém. Rubem Braga, Maupertuis e Clarice atenderam ao meu pedido e ficaram, de certa forma, comigo. Após conhecê-los, sinto sempre saudades deles. E, ao chamá-los, quando preciso, tenho sempre um dos três prontamente na minha frente.

Ocorrem-me, porém, depois do reencontro, sempre algumas – outras – dúvidas: O que é morte? A morte mata exatamente o quê? A morte liberta? O que é existir? Podemos sentir falta de algo que nunca tivemos? Para quem foi verdadeiramente um amigo, não será a sua ausência a mais forte das presenças? É preciso estar vivo para semear uma amizade? Só há um jeito de estarmos vivos? Os pensamentos são reais? Tudo o que existe é material? Podem os mortos terem acesso a mim? Podem os mortos compreenderem mais do que os vivos? Podem os mortos nos ajudar? As palavras apontam para alguma realidade? As palavras criam mundos? Existem duendes? E unicórnios?  O tempo é real? Há tempo por extenso? O que eu salvaria num incêndio: Clarice ou seus livros escritos?  Em que medida sou eu mesma? O que é que em mim é só meu? Quem sou eu? Bem, isso já é demais…

Continuo seguindo adiante sendo transformada a cada dia. Desentendendo os sentimentos. Mergulhando no que não conheço. Não me preocupando em desvelar e sim experimentar essas dúvidas que vão me ocorrendo. Viver é muito mais que compreender. Cá estou hoje, clamando para Guimarães Rosa ficar. Cada vez mais presa aos que me libertam.

Sentindo-me estranhamente livre somente ao lado de quem tenho extrema dificuldade em me despedir.

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Arquivado em Crônicas, reflexões