Primavera-me, Genário

eunice

Eunice era assim. Gostava tanto de Genário que rezava sempre ajoelhada ao pé da cama antes de se deitar ao lado dele para agradecer a Deus o que lhe aconteceria assim que fizesse do marido a sua coberta. Enquanto ele a esperava já pensando em como relaxaria o seu corpo no corpo de Eunice, ela conversava com o infinito e bem se sabe o quanto o além nos exige em orações subordinadas. Genário não tinha tantas profundezas, ele trabalhava como técnico em eletricidade passando fios e levando luz – não aquela que se traduz como ideias e sim a que viaja pelos fótons – à cabeça das pessoas.

– Bora com isso, Eunice. Quero fechar logo esse circuito.

Eunice com a cabeça ainda virada para o teto do quarto, olhou Genário de soslaio e sorriu em malandra pureza. Voltou para agradecer mais ainda a maior vitória: menos a de ser querida depois de tão velha e amolecida, e muito mais por querer Genário depois de tantos anos de correntes alternadas e resistências em série que o fio da vida oferece principalmente às fêmeas.

– Anda, Eunice.

E Eunice se demorava. Além do normal. Muito mais do que a eternidade no referencial da impaciência de Genário. Até que Eunice se benzeu mais vagarosa do que todas as outras vezes. Levantou calmamente. Ereta se desnudou para Genário que olhou  fixamente e cheio de desejo o seu sexo e foi subindo a mira de suas pupilas dilatadas. Os seios. Ah os seios de Eunice, que delícia beijá-los!

-Vem, Eunicinha. Vem.

E então, Genário olhou o rosto de sua Eunice que, espreita, chorava. Gotas de mar saíam dos olhos daquela que, em breve, viraria cachoeira nos braços de seu único amor.

– Oras, Eunice, por que choras?

Genário que era vontade em potência, transformou-se em corrente de afeto.

– Fale, Eunicinha, conversa com seu Genário não com seu corpo, mas com sua alma. O que te afliges?

Eunice explicou. Pediu a sua própria morte a Deus naquela longa oração. Se é para morrer que seja quando Genário estivesse feito ondas na praia em sua ilha cercada de carne. Ela lhe disse que não há maneira melhor de morrer do que na cama, mas não quando ficamos moribundos e sim quando de olhos fechados vemos todas as cores.

Genário desacreditava no que estava ouvindo. Eunice enlouquecera? Qual o quê. Eunice o olhava sorrindo. Serena. Como os convictos. Queria Eunice morrer no flagrante da fragrância de Genário.

– Brochei, Eunice.

Ela, então, se deitou ao lado de Genário e reverteu com maestria aquele apagão. Trocou a bateria de seu brinquedo preferido e sussurrou ao pé do ouvido de Genário poucas semvergonhices.

– Continua, Genário.

Genário virou um lago calmo.

– Vem, Genário, vem, força, meu homem.

Genário imitou o mar. Depois virou Oceano Índico e se enredou, gemente.

Eunice sabia que aquela morte não era morrer. Era suicídio de japonês que entende tudo como passagem, até quando o coração deixa de bater para sempre. A si mesma, Eunice se enfrentava. Seus olhos fechados testemunhavam a despedida de seu corpo e de Genário. Eunice gritava de prazer, se eletrizava e se contorcia. Genário ondulava como uma bandeira hasteada e dançava com sua Eunice como se os invernos e os infartos não existissem. Eunice primaverava. Comungava e conjugava: quando tu flores eu flor, Genário.

As pálpebras de Eunice borboletaram enfim.

No átimo do ápice do ótimo do gozo de seu amor.

Pedaço de Céu

image

Foi ali, em plena Visconde de Pirajá, neste Domingo chuvoso pela manhã e ensolarado no início da tarde, que eu, ao sair da livraria que me acolheu do frio, tive um ataque de tosse. Pensei que fosse morrer. Mas não. Na calçada pisada pelas pessoas bem vestidas e também mal amadas como qualquer suburbano, vomitei um pássaro azul.

O bicho saiu inteiro das minhas entranhas e estivera tanto tempo dendimim que, agora vejam, sabia falar.

As pessoas olhavam, sem entender, o passarinho coberto de catarro que se debatia para se livrar da minha gosma. Mais leve, levantou o bico e perguntou o que estavam todos olhando.

– Ele fala? – Perguntou-me um senhor que vestia uma calça colada e um sapato esquisito.

Eu, ainda fraca daquele parto ao avesso, nada estranhei e respondi com a voz meio falhada, certamente irritada pelas penas:

–  Não vêem que sim? E acho bom não abusar dele. Não é de circo. Não foi treinado. Age por conta própria. -Avisei.

Peguei a ave, um pedaço de céu que estava crescendo no meu corpo, e arrumei-a em cima da minha cabeça com o cuidado que as madames dos séculos passados faziam de frente a um espelho quando colocavam um chapéu.

Eu suspeitava que meu estômago não é dado para borboletas e sim lagartas que viviam a confeccionar o casulo numa lentidão que pelo amor de deus… Mas qual o quê. Criava eu o tempo todo um passarinho.

Uma senhora chique, com cabelos grandes e grisalhos e um ar de cemitério sem flor, aproximou-se e disse a todos:

– Esse pássaro vem da fronteira da vida. Alguém perdeu um ente querido por agora? É uma oportunidade…

Pronto. Eu que queria ir embora logo e terminar o meu domingo acompanhada de meus filhos tive que voltar para dentro da livraria para uma sessão, digamos, espírita. Ave Maria…

– Jorge, disse uma outra senhora olhando para o pássaro que não saía da minha cabeça, você consegue contato com o Jorge?

O passarinho desatou a falar um monte de coisas.

– O que ele está dizendo? – perguntou-me a viúva de Jorge.

– É Jorge que está falando, senhora. Aproveite a ligação.- Esclareci.

– Mas com essa voz de passarinho?

– E a senhora quer que pássaro fale com voz de rinoceronte? – Respondi impaciente.

Puxei um livro recém comprado enquanto a senhora estava perguntando coisas como senha de banco, de que forma fazia para ver as milhas no cartão e que diabos a fatura no visa havia vindo tão alta no último mês se eles mal saíram de casa, ela pelo menos. Jorge, sempre para caminhar e conversar com os amigos no calçadão.

– Não enche, Juraci. – Disse o passarinho.

Cansada daquela ladainha que apenas começara mas que já tinha acabado com a minha paciência, levantei-me, pedi licença a todos que estavam boquiabertos ainda com tudo aquilo e ofereci meu dedo indicador para que o bicho nele subisse. Quem quiser apreciar a beleza de uma ave, jamais olhe para suas patas. Parece que Deus não trabalhou direito ou Darwin, muito. Os pés dos pássaros parecem guardar algo do passado, uma herança escamosa dos lagartos dos quais evoluíram. Com a ave nas minhas mãos, atordoada por aquela observação, saí novamente para a rua.

Vai, conte a todos que viverei não sei mais quantos verões, mas que vomitei as Primaveras.

E assim o passarinho voou e pousou numa lata de lixo cor de abóbora amarrada no poste.

Vim para casa sozinha. Aqui chove. E não paro de pensar naquela ave embaixo da chuva sem saber a quem se dirigir primeiro para dar o meu recado.