Os Porões de Vovó

A minha avó reclamava de que noutros tempos, quando as moradias tinham jardins e não umas jardineiras, um quintal e não uma área interna…que havia um porão nas casas, túmulo dos objetos que não mais nos serviam. Os museus particulares de cada família. Hoje – dizia minha avó queixosa há trinta anos atrás – no máximo temos um baú e toda a nossa história tem que caber nele! O espaço e o tempo dedicados para as recordações tem diminuído com o incansável rotacionar do nosso planeta, constatava vovó receosa com o meu futuro.
Vai que o medo de dona Anna tenha sentido… Pensando bem, há poucos anos atrás, por exemplo, quando não havia os celulares, tínhamos sempre uma agenda telefônica onde guardávamos, é claro, os números de telefone das casas de nossos amigos, parentes, médicos e quem mais fosse pintando pela nossa vida. Essa agenda assim como nós, com o passar do tempo, acabava rápido, mas no caso do bloquinho cheio de nomes e de números o problema se resolvia facilmente: era só comprar um novo.  Aqueles menos apegados à organização, enquanto não comprassem uma agenda mais moderninha, usavam o espaço das últimas letras para os joões em excesso na vida. Havia, então, o momento não raro e quase que ritualístico de “passar a agenda a limpo”. Enganam-se, porém, aqueles que acreditam que essa era uma simples tarefa que exigia tão pouco raciocínio e que causasse tão pouca emoção como o apertar de um control C seguido de um control V. Não, meu querido e jovem leitor que só troca o chip de celular. Às vezes parávamos com a caneta na mão e olhávamos para o céu ainda que dentro do nosso quarto. Será que devo passar o Beto para a nova agenda? Puxa, doutor Clodoaldo morreu, gostava tanto da secretária dele… Caramba… o Eric…! Como será que ele está? Ele tinha a voz tão bonita… Eram tão comuns essas travas que havia até quem ligasse para um amor devidamente não correspondido usando a desculpa de que estava passando a agenda a limpo e… bem, se lembrou dela por acaso e resolveu dar uma ligadinha. Mas o engraçado, é que voltando o olhar novamente para as duas agendas, a velha e a nova, decidíamos, mesmo diante da certeza de que jamais ligaríamos de novo para o Anderson ou para a Aninha, que ainda assim eles iriam para a nova agenda. Simplesmente pelo fato de que ao olhar para aqueles nomes éramos remetidos a algum passado com açúcar. Um pretérito perfeito!, cuja lembrança valia a pena sentir pelo futuro afora. E, acreditem!, fazíamos isso sem ao menos sentirmos uma mágoa ou sofrermos pelo fato dessa doce recordação não ter tido o potencial de se tornar presente (Ainda que no fundo, bem lá no fundo, somente por sermos perversos, perguntássemos “ E se…?”).

E era assim que por apenas ter nos dado um bom e duradouro instante de ternura, de desejo, de saudade… que um determinado nome possuía uma força própria que nos dava uma pequena e absurda pena de deixá-lo simplesmente ali na velha agenda.

Os tempos são outros, mas os sentimentos permanecem os mesmos. Há hoje os celulares com chips e o facebook. Resgatamos no meio dessa desarrumação feroz da vida os amigos de infância e da adolescência. Não negamos os ‘pedidos de amizade’ daquela amiga que te ensinou a dar um laço no tênis na escada da cantina. Agora, no entanto, essa imagem dentro de nós co-habita com as fotos dela na Disney, em Londres e na Lapa, com o cabelo de uma cor diferente, e com seus dois filhos calçados com sapatos de velcro. E, diante a necessidade imperiosa da distração que me obriga checar o facebook, certifico, com o mesmo temor de vovó, a força do impacto da suavidade de suas fotos, meu velho amigo, contra a minha memória. Tenho a impressão de que, caso não tenhamos um certo cuidado, ‘reencontrar’ pode se tornar um sinônimo de ‘perder’ e mesmo que ganhemos muito nesse reencontro virtual, o proveito não compense. O problema é que entre acompanhar o seu presente e fazer parte dele há uma pequena diferença. E que entre ‘ver e ser visto’ e ‘lembrar e ser lembrado’ essa desconformidade se agiganta e dependendo do tamanho pode ser fatal.
Eu agora, cheia de cronologia,  me pergunto se o futuro que vovó temia era esse. Falo isso porque no passar a limpo das agendas, imaginava eu, de vez em quando, que em algum lugar do mundo havia alguém que naquele determinado momento estivesse também pensando com a caneta em riste se o meu nome merecia ou não ser passado para a nova agenda. Se havia por Deus ao menos uma hesitação…ou quem sabe uma curiosidade: A Elika… por onde andará essa menina? Essa flor de maracujá? Eu não pensava somente nos amores avassaladores da minha adolescência, mas também nas amizades que outrora foram verdadeiras e que jurávamos até que seriam para sempre. Imaginava meu nome sendo escrito e ufa! Que alívio… O que devo fazer hoje para que meu nome merecesse esses segundos de reflexão de todos que me rodeiam? Eu, cheia somente de adolescência, pensava e pensava … Sim, fazia sentido a minha preocupação!, porque ainda hoje ao abrir uma gaveta onde guardo um tanto assim de papéis e cartas escritos pelos amigos percebi como alguns ainda vivem intensamente dentro de mim. E, assim como cada um de nós morríamos um pouco quando alguém, no tempo e na distância, perdia o ímpeto do pensar em nós e jogava o nosso nome no lixo com a velha agenda (deus me livre…), será que não estamos nos matando por tanta exposição sem reflexão? sobrepondo tanta atualidade à saudade?Quanta bobagem vovó até hoje me faz pensar.

 

Genealogia

 

Ela já era adulta quando eu havia nascido, mas ainda assim foi a minha grande companheira na infância. Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador amarelinho para dar de beber à minha amiga. Nunca brigou comigo nos momentos em que gravava meu nome, à ponta da faca – pega no piscar de olhos da mamãe -, em sua pele. Sabíamos que era uma coisa dolorosa, mas necessária, pois as grandes amizades são seladas sempre com algum ritual super macabro. Foi bem embaixo de seus olhos que papai enterrou Pituca, meu porquinho da índia de muita estimação e foi em seus ombros que eu chorei de soluçar. Aquela mangueira cresceu bem antes de mim e foi em sua sombra que passei os anos mais lentos e ingênuos de minha vida.

Havia uma piscina de plástico no nosso quintal. Eu mergulhava de olhos abertos com eles virados para o céu e ficava observando – até quando os pulmões aguentassem – aquela cabeleira verde refratada, borrada e muito engraçada. De vez em quando mamãe mandava cortar aquela juba verdejante. Vinham uns homens com escadas, serras, cordas e luvas. Deixavam o quintal coberto de galhos que nem ficava assim de cabelo o chão do cuafer da Ivonete, ali na esquina. Minha amiga usava um corte parecido com o do Michael Jackson quando era criança.

Em um de seus fortes braços, onde papai pendurou duas cordas e fez um balanço, ela não se cansava de me ver oscilar para lá e para cá e posso jurar ainda hoje que era ela quem algumas vezes me balançava. Acho até que posso jurar mais um pouco. Eu pulei muita corda quando criança porque enquanto ora eu ora a Tata girava a corda numa extremidade, na outra era ela, a mangueira, quem segurava durante o tempo em que ora Tata ora eu pulava no meio cantando assim: Um homem bateu em minha porta e eu aaa-bri. Senhora e senhores, ponha a mão no chão (e a gente colocava a mão no chão muito rápido mesmo enquanto a corda estava passando lá no alto). Senhoras e senhores, pule num pé só (daí a gente pulava só com o direito, só com o direito!!! (agora percebo a falta de sentido e concordância na música)). Senhoras e senhores, dê uma rodadinha (bem, vocês já entenderam) e vá pro olho da ruuua-aa-aa! E quem fosse pro olho da rua direitinho podia fazer tudo de novo. Quando era a Tata a colocar a mão no chão a corda às vezes girava mais rápido. E eu jurava que não era eu.

Com um coração que não cabia no tronco, se preocupava muito em segurar os ninhos bem direitinho como as crianças seguram os pintinhos. E como aqueles que usam o indicador como um galho onde pousa um passarinho ou uma joaninha, ela vinha me mostrar os morcegos que dormiam de cabeça para baixo segurando bem firme em uma de suas ramificações. Sabe aquelas avós de antigamente que faziam biscoitos para nós, os seus netos? Então, a minha amiga, espelhando-se nelas, preparava com carinho as mais deliciosas mangas-espada que jamais comi igual em minha vida.

A mangueira ficou doente quando eu já estava formada e casada. Meus pais, que ainda moram na mesma casa, tiveram que mandar cortá-la antes que ela caísse de tão fraca que estava. Hoje vim aqui visitá-los e colocar um pouco Yuki na piscina (agora de fibra) e ao ver o quintal iluminado por esse Sol que castiga o Rio e a nossa pele no verão, lamentei profundamente como os que perderam um ente querido. Yuki teve que esperar até que o astro-rei baixasse um pouco a bola.

Dei por mim que nunca mais as cigarras cantaram na casa de mamãe. Os pardais, as rolinhas, as maritacas, os bem-te-vis e até os morcegos que sobrevoavam o meu quintal por uns tempos assim que a árvore – não mais tão bela – foi cortada, parecem que perderam a esperança. Não vi mais ninguém adejando por aqui hoje.

Certifico-me nesse ar severo, quase triste, que todos nós morremos um pouco na sua ausência, minha saudosa amiga.

 

 

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"Serei sempre seu confidente fiel se seu pranto molhar meu papel."

Enfim, tudo organizado.
A obra de um terraço que começou em maio do ano passado e que deveria ter acabado em dois meses se estendeu até janeiro deste ano. Não vou cansar o leitor com os percalços dessa empreitada e muito menos lamentar o prejuízo que tive. Quero apegar-me a essa sensação boa de completude que me fez largar um pouco o trabalho e escrever…
A primeira coisa que fiz assim quando a obra efetivamente começou foi esvaziar o meu escritório e levar toda a minha biblioteca para a casa de papai. Quando eu quero proteger algo muito precioso ajo sempre dessa forma. Isso me custou um dia inteiro de trabalho e três viagens com o carro arriado de tantas historias, álbuns, filosofias, física, contos e poesias. Esvaziei todas as prateleiras e um armário na certeza que em dois meses teria toda a minha biblioteca de volta e um terraço pronto. A construção, porém, se estendeu por oito meses e o meu mal estar começou a aumentar exponencialmente com o passar dos dias por estar vivendo numa casa sem livros e sem passado, pois, tudo o que existe nesse mundo que conte parte da minha história em letras ou em imagens estava na casa dos meus pais.
Em janeiro, grazadeus, fim de obra. Comecei o ano organizando aos poucos o escritório. Meus amigos não entendem porque não me desfaço dos livros que já li e certamente chamariam-me de louca ao ver alguns cadernos que usei ainda na adolescência mantidos sob os cuidados de um armário que se mantém sempre fechado. Ao fazer essa “mudança” mais uma vez percebi o quanto sou incapaz de aliviar o peso das prateleiras das minhas estantes ou aumentar o espaço do móvel do escritório onde guardo alguns registros feitos por mim e também alguns rabiscos feito pelas crianças.
Manusear esse tipo de material é muito diferente de arrumar um cômodo qualquer da casa. Gastei dias separando meus livros conforme o assunto, o autor e a minha idade ao abri-los pela primeira vez e deixei para a última viagem as brochuras preenchidas com a minha letra.
Engraçado. Às vezes guardamos coisas que sabemos que não terão mais nenhuma utilidade para a nossa vida a não ser… olhá-las de novo. E de alguma forma (que não tem nada ligado à praticidade) apegamo-nos a elas. Quem sabe porque ainda é permitido guardar uma lembrança boa e até uma leve tristeza que de tão leve consegue ser bonita a sua maneira; ou ainda, conceder a nós mesmos alguns minutos para confessarmos que sentimos saudades. Recordar um momento é também compreender que devemos ser felizes igualmente naquele instante, pois aquele instante também passará. Assumir a nostalgia é nos dar conta que houve momentos perfeitos que passaram, mas que não se perderam e se a lembrança deles tornar maior a nossa solidão que seja uma solidão menos infeliz.
A coisa poderia ter sido assim bem racional e equilibrada se Chico Buarque não tivesse nascido e a vida não estivesse passando tão rápido e se abrindo realmente num feroz carrossel. Diante de tantos livros e cadernos que jamais serão esquecidos num canto qualquer, cantei.  E foi assim, ao som desafinado de minha voz cantarolando “O Caderno”, entre muito pó, fungos e lágrimas que consegui organizar todo este cômodo da casa.
Cá estou eu agora. Mais calminha. Queria no início desse texto justificar porque estou me sentindo tão bem vendo as paredes coloridas com os meus livros e um armário grande, denso e fechado. Mas que bobagem a minha, não? Coisas assim simplesmente são.
(Sem nenhuma explicação).