Alunos à Prova

Este ano eu resolvi virar a mesa e as carteiras. Tudo começou quando desatei a pensar sobre o assunto. Narrei parte desses devaneios em dois textos: “Tô iluminado pra poder cegar, Tô ficando cego pra poder guiar” e Sobre a Educação e a Pobreza no Mundo. Daí, fui tomando coragem para sair da caixa. A primeira experiência foi descrita no texto Fé na Humanidade e a segunda, narro aqui hoje.

Apliquei, no CEFET/RJ onde trabalho, uma prova de física diferente (sobre Relatividade)  em que os alunos não tinham que responder nada e sim elaborar perguntas.

Eles podiam usar celular, internet, WhatsApp… Só pedi para não conversar entre eles para não atrapalhar a concentração do colega. A prova teve três folhas com um texto meu sobre o tema. Nem precisava de gúgol para obter mais informações sobre o assunto, mas se eles não gostassem do meu texto e quisessem ler outro, estava tudo liberado.

Tudo isso me ocorreu porque ando levantando a bandeira contra o sistema tradicional de ensino e lutando por uma escola que ensine os alunos a perguntar, a questionar, a pesquisar e a debater e não a responder.

“Professora, eu tenho que saber a resposta da minha pergunta?”, foi uma dúvida que surgiu na hora da prova. Preferencialmente, nem eu devo saber. Respondi.

Como disse Einstein: “a imaginação é mais importante que o conhecimento”. E não é que parece que ele está certo? Segue, para o vosso testemunho, algumas respostas (quer dizer, perguntas…) que li ontem.

Nunca me diverti tanto corrigindo prova. Vamos de Marx ao sentido do Amor Eterno passando pelo questionamento do que vem a ser a matemática e o livre-arbítrio! Li perguntas que grandes filósofos da ciência já fizeram em outros contextos. Fala sério!!!

Só orgulho dessa garotada. Só orgulho!!! E ainda ganho para isso…

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Tia Elika, qual foi a maior diferença que aconteceu depois que você começou a aplicar a Teoria da Relatividade na sua vida?x1

É necessário haver teorias que hoje nos parecem absurdas para que teorias aceitáveis surjam?x2

Quais seriam as consequências de se abstrair isso para o campo das ciências humanas? Se a realidade funciona de maneira diferente para cada observador, não haveria uma verdade só, mas diferentes verdades dependendo do observador. Como se debater política sem que se adote uma base materialista, sem que se aceite uma só realidade como sendo verdadeira?x3

…tudo não passa do nível das ideias?x4

A criação de realidades alternativas faz sentido científico?

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Sempre imaginei o tempo como sendo um rio, sempre em frente. Com base na Relatividade, posso associá-lo a quê?

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Podemos confiar nas equações matemáticas só porque elas têm lógica? Será que a matemática está mesmo presente na natureza fazendo com que os fenômenos físicos sejam equacionados ou será tudo uma lógica criada pelo homem?

Existe um limite para fatos e descobertas?x7

Se não se pode ultrapassar a velocidade da luz, o infinito temporal não existe?

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O que dilata o tempo é a luz?

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Estamos presos no passado?

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A pessoa irá para o tempo infinito e se perderá no espaço-tempo?!!!

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A imortalidade poderia existir se pudéssemos viajar na velocidade da luz?

De acordo com Einstein, se um objeto estivesse próximo a velocidade da luz poderia desaparecer. Por que e como isso é possível?

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… temos que aceitar que diversas coisas em nosso ambiente de vivência estão em tempos diferentes…?

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Sentindo-me confusa sobre a vida.

Se as coisas no espaço-tempo formam curvaturas ao seu redor e quando um outro corpo entra nessa curvatura fica preso… a que o Universo está preso?

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É concebível a ideia de tempo negativo?

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Se a distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão, significa que tudo o que eu fizer “agora” já estaria pré-determinado?

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O Universo está se expandindo e acelerando só no espaço? Só no tempo? Para onde?

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Adorei essa aqui:

Tenho uma prova de física para fazer e preciso de mais tempo. Eu poderia entrar em uma avião que voa a uma velocidade bem alta se afastando da Terra e fazer a prova lá e deixar a Elika esperando na Terra, já que quanto maior a velocidade, mais devagar o tempo passa? Será que funciona?

Mas se tudo der errado e, na verdade, o meu avião estiver parado e a Terra estiver se mexendo muito rápido? Como eu vou saber? Eu posso estragar tudo e ter ainda menos tempo para fazer a prova?

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Extinguindo-s e a ideia de passado, presente e futuro e sabendo que o que vivemos agora pode não ser simultâneo em outro referencial, como entendemos o “destino” e o “livre-arbítrio”?

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Um astronauta da Nasa se atrasou para sua viagem. Mas seus superiores não brigaram nem descontaram seu salário. Por quê?

Einstein provou que o tempo absoluto não é absoluto, logo, em algum referencial o astronauta não estava atrasado. Os seus superiores não tem motivo para puni-lo.

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É possível amor eterno?

Acredito que sim. Com uma resposta simples. Leve um casal que se ama para o planeta da primeira questão, onde a gravidade tende ao infinito e o tempo tende a estar parado. Do referencial do casal o amor será eterno.

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E assim, aos pouquinhos, não vamos somente quebrando paradigmas e sim reduzindo-os a pó. Não tem essa de “aluno não quer nada”. Eles querem é sim muito mais do que lhes é oferecido.

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Saímos na Revista Galileu!

http://revistagalileu.globo.com/blogs/buzz/noticia/2015/11/professora-avalia-estudantes-pelas-questoes-que-eles-formularam-sobre-teoria-da-relatividade.html

Saímos na CONTI outra!

http://www.contioutra.com/alunos-a-prova/

Link no facebook onde tudo começou:

Relatividade e Dilatação do Tempo

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Estou terminando o bimestre apresentando a Teoria da Relatividade para meus alunos (para quem não sabe, sou professora de física). Pensar sobre o conceito de tempo é algo fascinante. Há anos observo que o tempo, de fato, é relativo e cada qual tem sua forma de medi-lo. Mas não falo de referenciais com velocidades próximas a da luz e sim do temperamento de cada um de nós, de nosso ofício, do ambiente em que vivemos e de nossos sonhos.

Há quem meça o tempo na base do dinheiro. Os autônomos e os profissionais liberais são um exemplo. Nessa esteira, o taxista de ontem me contou que tem que trabalhar trezentos reais por dia. Existe também o caso de pessoas que só se sentem adultos depois de terem um carro. Uma outra forma de mensurar os anos é dizer que só vai ter filho após conhecer a Europa. A verdade é que todos nós medimos de acordo com o nosso mundinho.

Minha cabeleireira me respondeu quando lhe perguntei em quanto tempo ela poderia me atender que eu deveria esperar duas escovas. A passadeira me informou que a cada cinco camisas sociais passadas ela checa o celular. O pedreiro me disse em uma ocasião que daqui a quinhentos tijolos ele encerraria o expediente.

Perguntei ao Hideo, meu filho de 22 anos, se ele ia demorar muito para voltar para casa. Só mais cinco cervejas e eu vou embora, mãe. Fiz a conversão rapidinho e entendi que poderia ler mais umas cem páginas de Sérgio Porto. Yuki, meu caçula, ao ser chamado para jantar pediu que eu esperasse mais dois gibis da Turma da Mônica. Eram equivalentes a umas quatro crônicas de Veríssimo. Nara, minha linda mocinha, pediu para eu ver um filme com ela, mas só depois “d’eu acabar de cuidar da Marie Curie”, nossa fofurésima vira-lata. Ok. Divido aqui somo lá, cinco páginas de Marcel Proust.

E há os poetas. Um dia li que a moça havia chorado muitos lenços. Achei lindo. Sofri doze poesias, confessou-me um que não teve o amor correspondido. Compreendi que foi um ano doloroso.

Eu, já divagando, quero que a noite de hoje dure inúmeras gargalhadas. Ou, vá lá, não custa sonhar, um cinco beijos bem dados e três suspiros intensos também me fariam bem feliz. Tudo junto – as gargalhadas, os beijos e a comunhão – seria algo similar ao que Einstein chamou de dilatação do tempo.

No meu referencial, uma eternidade.