Histórias íntimas de Filomena, Jacinta e Claudete

fontini

Amigas mães, amigas que não são mães, amigas de todo o Brasil que estão me assistindo, bom dia, amigas! O programa de hoje vai narrar a história de Filomena, Jacinta e Claudete. Os nomes são fictícios porque elas pediram sigilo total e nós do programa respeitamos a vontade de nossas queridas telespectadoras.

As três mocinhas que entraram em contato com a produção do programa são adultas entre 30 e 50 anos. Elas têm algo em comum. Todas se separaram e enfrentam a dura jornada de encontrar um homem com a qual elas se sintam à vontade, relaxadas e satisfeitas sexualmente. Já entraram (e saíram) de sites de relacionamentos e de motéis por esse mundo mundo vasto mundo.

Filomena é mãe de dois adolescentes que moram com ela, trabalha, gosta de ler, antenada com as notícias políticas e tem um corpo normal: barriga, peitos e celulites. Linda como todas nós e com toda essa exuberância “foi para pista”. Insegura como muitas de nossas telespectadoras, Filomena estava tensa com esse negócio de depilação. Afinal, não sabia quando as agendas dos filhos, do pai das crianças, do chefe e da própria Filomena iam coincidir com a agenda do macho que se deus quiser ligaria a qualquer dia. Temos que estar pronta para a guerra sempre, pensava Filomena toda preocupada. Filomena conheceu o que vamos chamar de macho 1 para diferenciar dos machos da Jacinta e da Claudete.

Macho 1 conversava bem, estava separado e fazia mil coisas. Não era tão acessível assim. Na sexta, do nada, disse que poderia pegar Filomena no trabalho e de lá darem um rolê. Era o final de semana do pai dos filhos de Filomena, o chefe havia liberado mais cedo, a depilação estava ok e ela não estava menstruada. O vale-sexo estava em suas mãos, amigas! Mas Filomena estava angustiada, nervosa, aflita porque não estava contando com essa ligação e havia saído de casa com um cirolão branco super confortável e um sutiã preto básico que não fazia conjunto com o cirolão. Meodeos meodeos!, pensava Filomena. E agora? E agora?!, chorava Filomena. Daí, amigas, vejam o que é a sagacidade de uma mulher.

Quando o macho 1 foi encontrar com ela, Filomena estava toda sorridente. Jantaram e no restaurante o macho 1 ficou doido de tesão porque percebeu que nossa amiga estava sem calcinha!

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Jacinta nos conta que estava feliz porque estava saindo com o macho 2 que era um rapaz muito bem aparentado. A mais nova de todas as nossas três amigas também era a mais desavergonhada e mais empoderada. O macho 2 tinha a mania de se trancar com Jacinta nos cômodos que conseguia (casa de amigos, banheiro públicos, sala de reunião do seu serviço…). Lá abaixava as calças e colocava as mãos nos ombros de Jacinta daquele jeito que os machos costumam fazer. Inicialmente, Jacinta o satisfazia. Mas, logo depois, começou a cobrar reciprocidade e advinhem, telespectadoras. O macho 2, assim como o macho 1, gostava de ver uma mulher pronta para servi-lo, mas não entendia nada sobre igualdade de cuidados. Não acertava a intensidade, a frequência, o período, nada. Impressionante a falta de jeito desses machos.

Jacinta comprou um brinquedo desses que vibram e, na frente do macho 2, o usava enquanto ele olhava com cara de tarado para ela que conquistava solitariamente o seu orgasmo. Jacinta descobriu que podia usar seu brinquedinho sem ter que colocar a boca mais em lugar nenhum de macho que pensa que, no sexo, somos como um cavalo onde eles sobem em cima para galopar, seguram a crina e nos batem para que atinjamos a velocidade que eles desejam.

Nananinha, falou nossa amiga.

Jacinta segue feliz e satisfeita. Melhor dizendo, muito satisfeita porque o brinquedo faz coisas, diz Jacinta, incríveis e tem proporcionado prazeres que nunca teve com nenhum outro macho. Não está fechada para relacionamentos, mas muito menos aberta como antes.

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Neste nosso último bloco, para finalizar nosso programa de hoje, amigas que ainda estão me assistindo, temos a história da nossa amiga guerreira, professora de português, Claudete. Mulher de 43 anos, separada há dois. Claudete era super romântica mas sabia que essa história de príncipe não está mais com nada. Aliás, nunca esteve né migas. Claudete resolveu seguir os conselhos dos amigos e fazer sexo sem amor. O que não faltou a Claudete foi macho a querendo. Não por ela ser bonita, mas por ter uma ampla rede de amigos de todas as idades e aquilo que ela podia chamar de pê-á. Acabou que ela, descolou um desses pê-ás para sair. Escolheu um cabra bom. 27 anos. Marombado. Daqueles que tiram selfie em academia e postam no Instagram. Vou relaxar, eu mereço, pensou nossa amiga Claudete.

E lá foi ela para os braços fortes do macho 3.

Assim que chegaram no motel, o macho 3 arrancou a roupa de Claudete e ela se viu como uma personagem de filme pornô. Foi tacada na parede enquanto o macho 3 metia freneticamente em Claudete. Depois, o macho 3 a jogou na cama. Pegou as duas pernas e girou Claudete com força a colocando de quatro. Bateu em suas pernas e em sua bunda. Ficou em pé depois e colocou a mão nos ombros de Claudete como o macho 1 fez com Filomena. Claudete não sabia o que fazer. Tentava empurrar mas não tinha força. Falar não conseguia. Procurava avisar com gestos que não estava gostando mas o macho 3 não era nada sensível, assim como o macho 1 e 2, às sinalizações.

No dia seguinte, Claudete que sempre tomava banho com suas crianças, teve que esconder seu corpo todo cheio de hematomas para que elas não se assustassem. O macho 3 mandou mensagem fofa perguntando se poderiam repetir o programa. Claudete lhe contou sobre as marcas que ele havia deixado e ele perguntou se ela não havia gostado.

Bem, é  isso por hoje, amigas. O programa  está chegando ao fim. Gostaria  de perguntar a vocês, antes de me despedir, o quanto de Filomena, de Jacinta e de Claudete temos dentro de nós e como temos alimentado cada uma delas. Aproveito para deixar o questionamento sobre quanto tempo mais precisaremos viver para que esses machos entendam que não adianta bancar uma de bacana, a favor do feminismo, gentilzão se a quatro paredes nos tratam como um mero objetos cheio de orifícios.

Fazer com que fiquemos tensas antes de um encontro simplesmente por  não estarmos com uma lingerie sexy, depilada e menstruada não é coisa que sintamos perto de um homem decente. Fica a reflexão, amigas, se masculinidade não tem muito mais a ver com habilidades cognitivas e sensitivas do que  ser ou não um bom macho.

No nosso próximo programa, contaremos mais histórias sobre como as mulheres têm trucidado esse monstro de sete cabeças que é o medo de ficar só.

Beijo e até a próxima!

 


A ilustração deste texto é da artista Fotini Hamidieli Martou.  A fonte foi: http://artodyssey1.blogspot.com.br/

Caixa de Bombons

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Ontem a noite, em plena terça-feira depois de minha aulinha bombadésima de dança de salão na Tijuca, fui pegar Nara e Hideo, meus filhos de 17 e 22 aninhos, na Freguesia onde eles estavam ensaiando para a peça que entra em cartaz no próximo final de semana “Cabaré Opus305”. Vale observar que em 2015, depois do término de um casamento de mais de vinte anos com meu primeiro namorado, passei por uma crise de depressão que me imobilizou durante quase seis meses e a dança de salão foi usada como remédio. Super funcionou. Agora tenho um novo grupo de amigos, já consegui ir ao cinema sozinha pela primeira vez na vida e tenho feito o que der na telha. Sair ou ficar em casa são coisas que atualmente faço em paz. Povoei, enfim, o meu deserto.

Pelo fato de eu ter me reerguido e voltado a viver com alegria, novidades andam acontecendo. Pessoas têm se aproximado e eu tenho permitido. Enquanto estava me sentindo extremamente só, evitei ao máximo qualquer tipo de contato, principalmente com homens. Viver a dor da solidão foi necessário e eu sabia disso. Caso contrário, ia cometer a mancada de sair por aí buscando alguém que me complete, a famosa outra metade, e acredito que para viver a dois, antes, temos que ser um inteiro.

Isso posto ainda que de forma extremamente resumida, ontem ganhei uma caixa de bombons e, voltando ao primeiro parágrafo e conectando as histórias, assim que Nara e Hideo entraram no carro, eu mostrei para eles o regalo toda feliz e contente.

– Vejam! Vejam! O crush está se chegando esbanjando fofura!

– Qual deles? – perguntou Nara que é giga antenada com tudo o que acontece comigo. – O que nasceu em 20 de janeiro ou 19 de Fevereiro?

Nara agora anda nessa de astrologia para meu total desgosto. Eu, como amante de física e ciências em geral, chegada a uma lógica e a uma coerência, abomino qualquer religião. Imagina se euzinha aqui mega inteligente vou aceitar a ideia de que meu comportamento pode ser moldado pela posição dos planetas… Aff. Mas história que segue:

– O que nasceu 20 de Janeiro às 10:40h da noite com ascendente em Aquário.- respondi.

– Você sabe que os capricornianos com esse ascendente são meio desapegados, não?

– Nara, perceba a fofurice. Ganhei bombons agora pouco e durante o dia ganhei coraçãozão no uátisápi. E todo mundo sabe que emoticon de coraçãozão é para começar a escolher a decoração da igreja.

– Mãe, precisamos conversar. Chegou a hora de termos um papo reto. Conversa séria. – disse Nara com um tom hiper assustador.

– Pode falar.

– Os homens costumam se aproximar da gente quando querem sexo. Fazem gracejos, dão bombons, flores, mas eles querem sexo, ok? Essa história de príncipe encantado não existe, certo? Isso é conto de fadas, mãe. A realidade é outra!, você está me entendendo?

– Nara, nem todos os homens são assim, minha filha. – expliquei para ela olhando para o céu estrelado pela janela do carro.

– Mãe, caraca!, me ouve. Depois você vai sofrer e vir para mim toda bagação. Ouve a sua filha que tem mais experiência que você. Sua vida, mãe, está apenas começando e eu tenho a obrigação de abrir os seus olhos!

– Mas, Nara, ele tem sido tão atencioso…

– Claro que sim, mas que fique claro o motivo! Daí, se você quiser ir aos finalmentes tudo bem. Mas não vai iludida pelamordedeos!

– Minha mãe não faz sexo, Nara! – gritou, de repente,  Hideo que estava dirigindo.- Minha mãe é uma santa! Parem com essa conversa que eu vou surtar e eu não tenho dinheiro para terapia! Minha mãe não faz essas coisas! E mudem de assunto que eu quero falar algo importante com vocês. Mudem de assunto!!!!

– Pera que ainda não terminei com ela. – interrompeu Nara cheia de atitude – Mãe, e embora eu saiba que você tenha as trompas ligadas, você tem que usar camisinha. Você vai me prometer que vai usar camisinha. Não se iluda com o perfume dele e nem se ele sair do chuveiro para cima de você com cheirinho de sabonete!

– Ai que eu vou surtar com essa conversa! Nara, minha mãe não precisa desses conselhos! Minha mãe não vai passar por isso!!! – urrava Hideo. – Né, mãe?

– Hideo, cala a boca! – salvou-me Nara. – Mãe, ouve: você não se iluda com homem cheiroso, está me entendendo? Você não sabe por onde ele andou!!! Doença sexualmente transmissível não é brincadeira.  Você para com essa mania de ficar sonhando, por favor! DST é uma realidade que temos que encarar nesse mundo que você está entrando!

– Que entrando, Nara! Só ganhei uns bombons e estou feliz. Só isso!

– Ai meodeos, mãe!, não é só isso!!! Onde foi que eu errei com você que você não consegue enxergar as coisas mesmo eu sendo clara???  Promete pelo menos para mim que vai ficar esperta?

– Ok. Prometo. Pode falar agora, Hideo.- cortei para o Hideo já que estava ficando desconcertada com aquela conversa.

– É o seguinte – começou ele animado – pintou uma oportunidade de eu transar na sexta mas eu preciso que você me empreste o carro para isso. – explicou assim o problema com a maior naturalidade.

Mas gente… antes de eu ter filhos, eu li tudo quanto é revista de psicologia para ser uma boa mãe, aprender como dialogar com eles e bababá bububú. Mas nenhuma tinha esses exemplos especificamente ou nada parecido para eu usar como um guia. Estava tontinha da Silva Takimoto.

– Pode ficar com meu carro, meu filho. – falei pensando na logística de todos nós. – Conte comigo. – disse fofa fofa fofa super mãe miga, descolada e moderninha.

Mas pequei como sempre tagarelando muito mais do que devo:

– O rapaizinho dos bombons vai me pegar em casa na sexta para passearmos.

– Ah não, mãe! Ah não! Promete que não vai ceder para eu poder sair sem crise de consciência! Promete, mãezinha. – implorou Hideo com cara de desespero.

– Mãe, se joga! – disse Nara.

Enfim, eu não sei exatamente o que ando fazendo em relação aos meus filhos. Não sei se posso chamar isso que eles andam recebendo de mim de educação. Dá a entender, quando comparo por aí com outros lares, que o bagulho aqui tem outro nome. Mas uma coisa é certa: não há calça legue que seja mais sincera que a nossa amizade e muito menos parque de diversão que se equipare com o que construí com eles aqui.

E quanto a caixa de bombons que recebi…  Que tudo seja tão surpreendente quanto ela que me fez virar os zóio a cada mordida.

*-*

Falando de Sexo Em Família

EF

Fui convidada de novo para participar do programa de televisão Em Família do Canal Saúde/Fiocruz, emissora de televisão do ministério da saúde. Já havia participado de um em que discutíamos sobre privacidade na rede. Eu com o Minha Vida é um Blog Aberto fui lá para mostrar como podemos nos expôr sem fazer mal a nós mesmos. Mas no último programa que foi gravado ontem e que em breve vai ao ar, o tema era “Falando com os Filhos sobre Sexo”. Aceitei o convite, mas logo depois me desesperei. Fala sério eu em rede nacional falando de rami rami! Caraca! Se gaguejo na frente dos meus filhos, da televisão então…

Hideo, meu filho mais velho e guitarrista, pediu para eu aproveitar e dizer em rede nacional que ele é pegador profissional, Nara, minha filha que está saindo da adolescência, falou para eu contar, como eu já lhe expliquei um dia, aquela história que sai o negocim tipo um liquidozim do homem quando ele fica extremamente feliz tipo mega feliz mesmo. Yuki disse que aquele papo de rabo com semente de feijão na ponta desse rabo confunde ele até hoje (falei isso para ele na tentativa de explicar a reprodução humana de forma hiper didática e ele até hoje não entendeu). Enfim, eu não estava certa de que poderia contribuir com algo para esse tipo de programa mas vamu que vamu…

Meus dois filhos mais velhos me acompanharam no dia da gravação. Nara e Hideo sempre estão ao meu lado em momentos tensos como esse. Chegamos lá pontualmente às 9:30hs da manhã e ficamos em uma salinha esperando a hora de ir para o estúdio. Estávamos conversando com o produtor Telêmaco quando fomos interrompidos pela maquiadora me chamando para o camarim. Maquiadora?!? Ui! Que máximo! Levantei-me, e fui dançando ula-ula pelos corredores do canal mega feliz com o momento-estrela-de-roliúde.

Mal voltei para a salinha com o reboco da fuça nos trinques, chegou a outra convidada. Uma senhora para lá de simpática que se apresentou como Maria Cristina, psicóloga, terapeuta de casal e sexóloga.

– Que bom te conhecer! – disse Hideo. – Você é tudo o que minha mãe precisa!

– Mãe! Aproveita! Conversa com ela! – disse Nara mega animada.

Meus filhos acham que eu estou ficando maluca depois que me separei. Não que eu tenha feito nada excêntrico, mas ando, é verdade, sem entender o mundo e sobretudo a mim mesma. De qualquer forma, ser anunciada assim pelos filhos a uma profissional super fofa é meio barra pesada.

– Você trabalha com o quê, Elika?- perguntou-me ela curiosa.

– É. Bem. Acho que devo me apresentar primeiro como escritora. Tenho escrito muito mais do que dar aula e… ai que vergonha eu ao seu lado no programa, olha, eu não sei porquê me chamaram aqui e já te adianto que eu não sei nada sobre sexo, sou praticamente uma virgem e mal conheço esses dois aí. – disse apontando para meus filhos.

Nisso chega o produtor animado dizendo que já que Hideo e Nara estavam ali, poderiam eles também participar do programa. Oi? Eles não vão…

– Jura? Eu quero! – disse Nara.

– Posso dar meu telefone depois que eu falar tudo o que sei fazer? – perguntou Hideo.

Pronto. As chances daquilo virar uma crônica estavam definitivamente aumentando.

Nara foi chamada para se maquiar e eu resolvi acompanhá-la.

– E eu vou ficar aqui sozinho com a sexóloga? – perguntou Hideo se virando desesperado para a Maria Cristina que olhava para ele sorrindo com todos os músculos da face.

– Aproveita e se trata um pouco, meu filho! Cuida dele para mim, sim? – pedi olhando para ela que aparentemente se divertia com tanto doente em sua volta.

Hora da gravação. Na primeira parte do programa decidiram colocar a apresentadora, eu, Nara e Hideo. Somente no segundo bloco chamariam a profissional do assunto para ficar ao meu lado.

– E então, Hideo, é fácil conversar com sua mãe sobre sexo?

– Não. Impossível falar com ela sobre qualquer coisa. Tudo ela faz escândalo e chama todas as minhas namoradas de fedorentas.- respondeu ele super sério com cara de pobre coitado. Eu não estava acreditando…

– Nara, é fácil conversar com a sua mãe sobre sexo já que você é menina?

– Não. E nem posso contar todas as besteiras que ela fala para mim porque se chegar em casa ela me bate.

Mas, gente… quase dei uma bifa na Nara ali mesmo. Como assim? Helooou! Sabe lá o que é ter seus filhos diante das câmeras falando assim de você? Eles, para variar, estavam de gaiatice, mas o público não me conhece e minha imagem acabou ficando muito pior do que imaginei que ficaria se somente eu falasse sobre mim. Sei que os dois seguiram me esculachando e eu ali toda maquiada de cabelos escovados sendo bombardeada de perguntas cabeludas intercalados de comentários altamente travessos de Nara e Hideo.

No segundo bloco, entrou a Maria Cristina que chegou para salvar a minha imagem. Disse ela olhando para a apresentadora Yasmine que o importante é ter uma relação saudável, de intimidade e amizade com os filhos que o resto vem naturalmente, “algo como a relação da Elika com  a Nara e Hideo como pudemos ver”. Ufa. Amém.

E seguiu o programa com várias discussões sobre esse tema cabeludo que tem andando bem careca dado a moda da depilação. E não adianta falar o contrário ou tentar dar receita de como abordá-lo. É tabu sim senhor e vai ser sempre. Expôr a sua sexualidade é ficar literalmente e metaforicamente nu. É tenso. Somos inseguros não importa a idade porque sobre sexo todos somos neófitos. Até mesmo a sexóloga. A diferença dela para nós é que ela sabe menos ainda sobre o assunto porque estudou muito mais e, portanto, fica paradoxalmente bastante segura ao dissertar sobre o tema por entender que nessa esteira todos somos estranhos uns para os outros. Por exemplo, sexo acrobata e brinquedinhos que tanto excitam muita gente por aí a mim pouco ou nada impressionam. Por outro lado, jamais vou entender porque a posição papai e mamãe é classificada como pouco prazerosa, careta, nada criativa e sinônimo de sexo insosso para várias pessoas. E paremos por aqui porque já falei demais!

Acho eu, sinceramente, que educação sexual teremos todos enquanto vivermos porque por mais que leiamos e experimentemos o assunto é inesgotável como qualquer ser humano em si o é. Espero ter deixado claro que eu só sei que nada sei e a única coisa que posso fazer como mãe é conversar com meus filhos menos para lhes explicar algo e muito mais para trocarmos angústias, dúvidas e curiosidades sobre sexo, um jogo onde, penso eu, não há regras.

É isso. Só queria dar uma prévia do que foi essa aventura. Certamente, ao final, eu mais atrapalhei do que ajudei mas, ainda assim, o produtor falou que todos adoraram e que o programa muito em breve vai ao ar. Aguardemos, então, o resultado final.

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Segue o link do programa: http://www.canal.fiocruz.br/video/index.php?v=Falando-de-sexo-com-os-filhos-EMF-0095

Sobre Sexo, Virgindade, Sacanagem e o Amor com Tudo Isso.

sexo

Lembro-me de quando era criança e qualquer coisa que perguntasse para a minha  mãe sobre sexo ela desconversava ou respondia frases sem nexo cujo efeito era me fazer pensar mais ainda fixamente sobre o assunto. Recordo-me de ter tido uma curiosidade simples. Havia lido a palavra hímen na Revista Contigo que circulava pelos salões de cabeleireiro. Corri e perguntei à mamãe que diabos era aquilo. Minha filha, veja bem, olha, prestenção, bem, hímen?, ok, enrolava-me mamãe para finalmente responder: é uma pelinha que fica na perna e que quando a moça casa ela some. Valha-me Deus… aquilo havia sido muito pior do que entender a Santíssima Trindade! Mas, mãe, como a pelinha vai saber que eu casei? Ah, Elika!, vai brincar! Você não tem maturidade para entender isso! Conclusão: fui aprender o significado do vocábulo praticamente quando ele estava com os dias contados dentro de mim.

Exageros à parte, quando soube do que se tratava, fui questionar mamãe do porquê uma coisa que bloqueia a entrada da vagina que tem a função de proteger as meninas durante a infância dos riscos das infecções genitais estava conectado com a minha dignidade. Obtive como resposta que ele servia também e, principalmente, para que os maridos soubessem, de fato, se a sua esposa era virgem ou não, já que a tal pelinha se rompia na primeira relação sexual. E eu que fizesse o favor de proteger a minha pelinha a sete chaves sob o risco de, além de queimar no fogo do inferno por toda a eternidade, morrer solteira! Mamãe bateu na madeira e fez o sinal da cruz depois desse antológico conselho. Ah! E tem mais, minha filha, se o moço insistir, não ceda! porque todos fazem isso para nos testar! Não jogue no lixo a sua reputação e seu futuro! Eita nóis…

Mamãe nasceu em Itajubá, uma cidadezinha que fica no sul de Minas e chegou a ser freira. Tudo bem que ela foi expulsa do convento por ter mandado a madre superior para o Inferno, mas os valores de mamãe não foram exorcizados com esse fato. Como tantas de sua época, casou-se virgem. Fui educada para fazer o mesmo e a pressão para isso era terrível e vinha de tudo quanto é lado. De vovó, das tias, das primas mineiras e de algumas amigas tão aterrorizadas como eu. Ah! E do padre. Numa confissão que havia feito, que me rendeu quase uma hora rezando sabe deus quantos pais-nossos e mais outras tantas ave-marias, o reverendo me explicou calmamente a parada toda que seguia mais ou menos essa sequência: Primeiramente tem que se entender o significado da aliança que é a decisão de amar outra pessoa até morrer. Isso posto, é importante que se saiba que Deus fez uma aliança conosco e que, na Bíblia, para oficializar qualquer aliança dessa natureza há um derramamento de sangue. Geralmente, um cordeiro. Se a moça quiser, de fato, ter uma aliança no dedo e ser alguém para a sociedade, há de provar que é merecedora disso para seu parceiro. A verdadeira aliança ocorreria quando o marido visse o sangue no lençol na noite de núpcias. Virgem santa…

Esse papo havia me aterrorizado por completo. Daí que fui entender o branco da noiva e, uma vez isso tudo devidamente esclarecido, desejei jamais adentrar uma igreja para me casar. Cremdeuspai… A ideia d´eu entrando e todos me olhando sabendo que eu ia dar pela primeira vez naquela noite me enchia de constrangimento. Como assim, gente? Isso sim era, literalmente, uma pouca vergonha! Como pode essa exposição de uma intimidade que só diz respeito à moça e ao seu amor? Jamais! Isso nunca aconteceu e, de modo algum, ainda acontecerá comigo! Sei que atualmente perder o celular é motivo de muito mais drama e estardalhaço do que perder a virgindade, coisa que as meninas têm tirado de letra e as vezes até com a mão. O trauma, portanto, dessa educação esquizofrênica incapacita-me de colocar um vestido branco, ainda que seja só na imaginação, de uma forma leve e alegre. E sim, ainda sou virgem como verão os que me lerem até o final.

Como não fiz terapia, não é raro me ver também assustada pensando nas coitadas que foram obrigadas a se casar virgens e passar por toda aquela presepada, humilhação, vexame e exibição. Penso nas tímidas, nesse sentido, como eu. E quando considero as noites de núpcias de antigamente juntamente com o repúdio que a sociedade dirigia às desquitadas, Jesus… meupadinciço… aí me compadeço com tudo de mim das mulheres que foram tratadas com pouco carinho sabendo que assim seria para todo o sempre; das enrustidas, por medo de serem mal faladas; das frígidas, das que não viram beleza em um pênis ereto, das que morreram sem atingir um orgasmo, das que quiseram experimentar outros homens, das que deram e nada receberam. E não foram poucas, sabiam? Para se ter uma ideia de como funciona a nossa sociedade, somente no início do século 21 aprovaram por unanimidade a exclusão do termo “mulher honesta” do Código Penal. Antes disso, a definição de um crime sexual era: “Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”. É claro que o sentido de “honesta” é uma mulher virgem, casada, pudica, casta. Se desonesta, o cara era absolvido sob aplausos. Minhanossinhora…

Nunca falei sobre sexo aqui por ser um assunto tenso para mim (dado o pouco que aqui foi exposto que não corresponde a 10% da história). No entanto, hoje deixo o pudor de lado para explicitar o meu conceito de sacanagem e virgindade. Comecemos pelo último que, na minha opinião, não está conectado ao sexo em si, ao rompimento da pelinha na perna, como diria a minha mãe. Aliás, este é um conceito um tanto elástico quanto alguns hímens. Pelo modo que o entendo, todos nós, homens e mulheres, de uma forma ou de outra, morreremos virgens. Por mais que já tenhamos amado, gozado, seduzido, capturado, experimentado, por mais que sejamos rodados, não há experiência amorosa que se repita, pois as nossas paixões são variadas e nos transformamos demais a cada dia a ponto de sempre sermos novatos mesmo com vinte anos de casamento.  Sobre sacanagem queria registrar que se te contaram que tu és uma metade da laranja e que o amor é quando encontramos a outra metade, te sacanearam. Nascemos inteiros e não vamos colocar nas costas do outro a responsabilidade de sermos felizes porque isso sim é tipo ménage-à-vingt-trois! O amor, penso eu, se dá quando alguém pega a gente, laranjas inteiras rolando pelo mundo, e nos dá a sensação de ter nos colocado de volta à árvore. Sentimo-nos internamente florescer, amadurecer, vivos e, como dizia Aristóteles, no nosso lugar natural.

Isso tudo colocado, finalizo. Sexo sem amor é bom, interessante, quiçá intenso e inesquecível, mas não transcende. Com amor, o sexo se torna mega. Metafísico. E, pelo orgasmo – não nosso e sim de quem nos acolhe – recebemos a explicação de nossa existência e percebemos, até de olhos fechados, o verdadeiro movimento das estrelas.

Ser mãe é aprender no paraíso.

paciencia

Amanhã eu vou gravar um vídeo com essa penca de filhos que eu fiz na vida. Já me programei com eles. Com Yuki, meu caçulinha, e Nara, minha adolescente, tudo certo. Hideo, meu eterno bebê de vinte anos, porém, tem suas demandas e para tê-lo comigo tive que me reinventar como pessoa. Ser mãe é ser uma eterna aprendiz.

– Mãe, tem que ser amanhã?
– Tem que. E você tem que ir. Qual o problema?
– Bem. Porque hoje a noite eu vou fazer sexo.
– Caceta! Precisa me dizer isso?
– Mas esse é o meu problema!
– Ok. – Elika, haja naturalmente. Isso é algo natural meeessssmo. Não surte, LK. Respira. Inspira. Expira… – Quanto tempo você demora? Eu te levo e posso te esperar no carro. Mesmo porque amanhã a gente vai ter que sair cedo para aproveitar a luz da manhã.

Mega fofa eu ajudando meu filho. Super moderninha eu e giga madura. Quase podre.

– Eu vou fazer sexo na Barra. Estava pensando em dormir lá na casa do meu pai.
– Hideo, na Barra não. Arruma uma cocota periguete por aqui mesmo, meu filho. Cocota subúrbia arrebenta no riscado, meu filho.
– Não é assim, mãe. Eu vou te explicar. A menina me ligou querendo dar e eu combinei de receber amanhã. Como diz meu avô Toninho…
-… um sábio contemporâneo…
– Isso. Bimbinha quando aparece, tem que aproveitar. Se não nunca mais volta.
– Tipo passarinho, meu filho?
– Tipo isso, mãe.
– Entendi.  Mas não pode fazer sexo a tarde? Faz hoje a tarde e vem dormir em casa, meu bem! Pronto. Problema resolvido!

Nisso chega a Nara:
– Você está ajudando o Hideo a escolher a hora que ele vai fazer sexo? É isso que eu estou ouvindo??? Que legal! Posso participar?

Depois do problema explicado para a Nara, continuamos. Família é isso. Temos que atender e respeitar a necessidade de todos. Sem alarde. Tipo super natural.

– Então, gente, ela trabalha até às oito.
– Beleza. Então marca às nove e às dez eu te pego. Uma hora você resolve o seu problema?
– Não. Não é assim, mãe. Pra fazer direito preciso de mais tempo. Se você deixar eu fazer sexo aqui em casa, ela dorme aqui e fica tudo certo.
– Não. Isso não! Isso não!!! – Disse eu mega séria em um ímpeto impensado de mãe surtadíssima.  – Foco no local agora, querido. Longe daqui, sim?

E assim, com Hideo respeitando os meus limites emocionais,  depois de muito discutirmos, chegamos a uma logística onde tudo se resolverá da melhor forma para todos e o Universo-meu-lar, em sua plenitude, sorrirá amanhã satisfeito. Passarei o Domingo fazendo arte com toda a minha família.

Que todos e quaisquer diálogos surreais tenham abertura nesse mundo. Quando a queda de protocolo for uma necessidade para que fiquemos mais e mais unidos, que essa barreira seja sempre derrubada com um sopro.

Salve o eterno aprendizado.