Arquivo do mês: agosto 2013

Por que o Mundo Existe?

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Há dois anos resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava simplesmente cansada de viver com dor e quando sem ela, com medo de senti-la. Pedi ajuda de uma forma moderna: postei no feicebuque a minha decisão e pedi aos amigos conectados a indicação de algum médico bom que tratasse do assunto. Por um desses motivos que teimo em interpretar como o acaso, um amigo de escola que havia virado doutor, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo (que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração), estava onláine e disse: acho que posso te ajudar. Passou-me seu telefone e colocou, em cima da minha mesa onde fica o meu computador, a dúvida sobre o que eu deveria fazer com toda aquela impactante informação. É claro que estava esperando um telefone de um médico, mas não de um conhecido! E não era um conhecido qualquer. Era o Leonam!

Diante da possibilidade de reencontrar o colega, estremeci.

No tempo de escola, eu, apesar de sempre ler sobre algumas coisas, jamais gostava de estudar o que era falado em sala de aula e muito menos tinha capacidade de prestar atenção no que era dito por um professor que não fosse de matemática. Sentava-me estrategicamente em um lugar em que pudesse aguentar sem surtar o tempo em que não podia  falar e sim só ouvir sentada o que um adulto estivesse discorrendo. Colocava sempre outros livros na frente dos que deveriam estar abertos. Fingia que copiava as coisas do quadro quando, na verdade, escrevia as minhas elucubrações no caderno e, vez ou outra, pegava-me olhando, sem entender e plena de inveja, os colegas cê-dê-efes que sentavam lá na frente, balançavam a cabeça positivamente para o professor e anotavam o que estava sendo dito sobre as briófitas e pteridófitas, sobre os rios Japurá, Solimões e Xingu, sobre as Guerras de Independência da América Espanhola…Leonam fazia parte desse universo organizado e eu, de um mundo completamente caótico e imprevisível.

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Naquela época, eu jamais teria coragem de tentar dialogar com um colega-nerd com medo de que ele saísse gargalhando alto de minha falta de conhecimento ou simplesmente ficasse assustado por estar diante de alguém de tão parca inteligência. Esperta que sou e sempre fui, nunca alimentei o sonho de um dia ficar uma hora, dez minutinhos sequer!, conversando com um Leonam da vida, falando de coisas que poderiam ser interessantes para ele. O tempo passou, tive filhos, casei-me, arrumei emprego, enfim, virei uma adulta e, com certeza, a possibilidade de ligar para o amigo médico estava completamente descartada. Ao mesmo tempo, pensava que se eu não ligasse poderia estar perdendo a oportunidade de ser tratada por um dos melhores médicos do mundo. E eu já havia tentado de tudo para ficar livre de minha dor: homeopatia, terapia, pilates, reza forte, chá de erva amarga, banho de pipoca… Se Leonam não rodou a baiana na faculdade, soltou a franga e se rebelou contra o sistema, ele era O Médico de Confiança que, de fato, resolveria o meu problema.

No tempo em que éramos adolescentes, eu, imatura que era, resolveria esse impasse arrancando pétalas de uma flor: ligo, não ligo, ligo, não ligo, ligo, não ligo… Como já tinha três filhos, isso não fazia mais sentido. Chamei meu caçula e pedi para ele bater em uma das minhas mãos fechadas depois de ter misturado as duas no ar e colocado um pulso em cima do outro formando um xis. Bate em uma, Yuki. Numa mão estava um papel escrito liga, e na outra (já me conhecendo direitinho), pense bem. Abri bem devagarinho o papel…

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O mundo gira, a Lusitana roda e, quem diria, na semana seguinte estava com o doutor Leonam na minha frente, ouvindo-me atentamente.Falei sobre meus problemas, minhas inquietações, meu jeito de viver, minhas noites maldormidas, meus sonhos não realizados, meu doutorado sofrido. Falei que fazia tudo mal feito, que meus filhos reclamavam que eu lhes dava pouca atenção, que meu marido reclamava que eu lhe dava pouca atenção, que meu orientador pedia que eu me dedicasse mais, que meus alunos pediam mais explicações e que parei com a terapia porque a analista falou que eu não melhoraria se não me entregasse mais ao tratamento.

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Ok. Entendi, Elika. Ok, entendi… Entendi. Ok. Ok. Preciso checar mais umas coisas, disse Leonam sério. Daí ele pegou o estetoscópio e auscultou o ritmo frenético de minhas sístoles e diástoles. Pediu para eu respirar fundo. Por muito pouco eu gritei: eu já tentei! Eu já tentei!!! Percebi a tempo que ele não estava falando metaforicamente e sim querendo ver se eu estava suspirando como os que tem saúde e não como os poetas. Depois, ele pediu para ver os meus olhos ao mesmo tempo em que acendia uma lanterninha supimpa e mirava para a minha íris. Logo a seguir, me fez muitas perguntas que eu, confesso, tive dificuldades em responder, menos por não saber do que por vergonha, pois tratavam de coisas que diziam muito a respeito do funcionamento do meu organismo tipo o que entra, o que sai e como sai.

Foi uma experiência sem precedentes em minha vida que exigiu manobras psicológicas que ninguém jamais havia me ensinado… Ao final, uma possível solução que meu corpo mostrou ser a certa. Leonam percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. As dores passaram, a vida continuou seguindo de forma alucinada, mas aparentemente muito melhor. Sem dor. Um efeito colateral, portanto, não estava previsto: o aumento da minha taxa de questionamentos.

Até que ponto não sentir dor é bom para mim? De que maneira a leitura que eu faço do mundo, as (des)crenças que constituí sobre ele, direcionaram a minha (falta de) dor? Tomar um remédio diário é sinônimo de qualidade de vida melhor? Falei o suficiente para que Leonam entendesse o meu real problema? E sobre os sentimentos que não consigo expressar por palavras por mais articulada que eu seja? O que Leonam entende por ‘solução’, resolve o ‘meu’ problema? Leonam toma remédio para dormir?

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Há um mês atrás, resolvi seguir o ensinamento grego “conheça-te a si mesmo” e decidi associá-lo com um outro oriental “mente sã em corpo são”. Fui, então, tentar, sem a droga, conhecer-me. As minhas enxaquecas deveriam estar associadas a um desequilíbrio psico-neuro-imuno-endócrino-metabólico que eu trataria de resolver sozinha. Ficaria atenta principalmente as minhas limitações e fraquezas que sempre busquei vencer a todo custo. Desprezaria-as. Dispus-me a redimensionar minhas questões e focar em atitudes que promovessem a minha saúde. Dormi cedo, alimentei-me bem, exercitei-me, enfim, fiz tudo certim e, ao final de alguns dias, pisando em ovos para lidar comigo mesma, tive a pior crise de enxaqueca da minha vida. Surtei. Agi como uma louca dentro de casa. Gritei com o aspirador de pó e com a Nara que é o que eu tenho de mais certo e perfeito na minha vida. Disse que tacaria a cabeça dela na parede se ela não me obedecesse.

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O leme que pensei que assumiria sequer existe.

Quem está no controle, afinal?

De novo, pensei muito se deveria ligar para o Leonam. E já era hora de resolver isso sem mais rodeios e criancices. Fui rápida dessa vez . Cara liga coroa esquece. Joguei a moeda pro alto. Deu cara. Entrei em contato, marquei uma consulta e terça passada lá estava eu, pela segunda vez como paciente, diante dele.

Contei tudo para o meu amigo sobre a pior dor da minha vida, mas limitada pelas palavras e pelo meu parco vocabulário. Por mais que falava, sentia que não era o suficiente. Pensei em dançar, fazer um quadro (as cores seriam suficientes?) ou uma escultura de, vá lá, massinha de modelar. O efeito poderia ser mais desastroso, pois danço como boneco de posto e desenho e faço esculturas com a mesma habilidade que um lutador de luta livre faz tricô. Pensei em pedir para ele ouvir My Way enquanto eu fazia mímica, ♪My friend, I’ll say it clear I’ll state my case of which I’m certain ♫, e talvez nem se eu soubesse e executasse tudo isso junto conseguiria fazer com que ele entendesse o que estava sentindo.

I’ve planned each charted course
Each careful step along the by way
And more, much more than this
I did it my way

Certamente, Leonam não captou tudo. Ninguém nos aproveita tanto quanto gostaríamos e uma parte disso é porque nos expressamos muito mal. Por que não me ligou, Elika? Se pessoalmente está difícil, pense a desgraça que seria por telefone, meu amigo…

Yes there were times, I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out

Imagina: no Sábado de Sol toca o telefone: Alô, Leonam! Se houver evolução espiritual, Deus e o Diabo a quatro… por que me fizeram assim? Preciso passar por isso? Tomar um remédio todo dia é curar-me? O que é saúde? É ausência de enfermidade? O que movimenta o mundo? Qual a força por detrás de minhas resistências? Quem é o autor da minha vida?

I faced it all and I stood tall
And did it my way!

Leonam escolheu uma forma de vida como sendo a mais adequada com a sua prática médica. (Essa frase, de qualquer forma que seja dita, faz sentido: Leonam escolheu sua prática médica como adequada a sua forma de vida. A prática médica escolheu Leonam, adequadaço, como uma forma de vida…). A eleição dele foi feita a partir de um padrão dominante do qual tendo a discordar por saber vagamente como isso tudo se estruturou e por nunca, nem quando não sabia, conseguir me adequar a ele. Máquinas a vapor, Idade Moderna, Revolução Industrial, saúde, valor e comércio são algumas palavras que usaria para dissertar sobre o tema. Porém, do que me serve esse conhecimento se não consigo agir sem fazer parte dessa dinâmica que insiste em olhar somente para a doença e não mais para o ser humano? O ponto é que eu não consigo colocar nada imaterial no lugar de um remédio!

I’ve loved, I’ve laughed and cried
I’ve had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing

Geralmente, quando nos deparamos com alguém que pensa diferente, que possui uma estrutura lógico-formal distinta daquela à qual estamos habituados, não compreendemos e não aceitamos ouvi-lo. Esse era o meu grande medo. Do meu mundo completamente caótico, imprevisível e inútil, de novo, não conseguir interação com o universo organizado de Leonam.

E eis que ele me mostra que a despeito de todos os meus questionamentos fazerem sentido e de entender que o Universo com grau de entropia zero no qual ele sempre viveu poder ser uma ilusão, podemos fazer um escambo entre nós com as nossas visões de mundo. Afinal, ainda que haja um critério para considerarmos uma forma de raciocínio mais adequada que outra, há uma forma completamente segura de averiguarmos uma inadequação?

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Não. Não há.

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Além desse grande presente de troca de ideias, ao final da consulta, ganhei do meu médico um outro: um livro.  Ao passar na livraria na semana anterior ao nosso encontro, Leonam viu um livro que, agora veja, fez com que ele se lembrasse de mim. “Um mistério existencial. Por que o Mundo Existe?” de Jim Holt.

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Ao contrário do que supus, o ser humano, além da doença, é pensável.

E a doença quiçá estimulada…

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Em tempo, todos os desenhos que me ajudaram nesse texto foram feitos pelo artista Sergio Ricciuto Conte. Somente o primeiro foi feito para mim quando, em uma palestra para um grupo de seminaristas, explanei sobre o que creem os que não creem. Ao ouvir meus devaneios, ele disse exatamente isso.

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Ah sim, o Frank Sinatra deu uma forcinha, fazendo o fundo musical desse texto.

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