Samurai e Somebody

arma

Quando minha irmã caçula nasceu, eu tinha doze anos e hoje com quase quarenta e dois chego a confundir as lembranças. Não sei se determinado episódio ocorreu com ela quando criança ou com minha filha, tamanho é o meu lado materno em se tratando das duas. Lyli – como lhe chamamos – mora sozinha em Florianópolis desde o dia seguinte em que pegou o seu diploma de médica. O reencontro com ela é sempre uma festa porque Lydiane sempre carrega uma mala cheia de novidades. Viajou, agora veja, para a Europa tendo como companhia ela mesma. Bastou-se para ser feliz em Florença. Pintou os cabelos de vermelho, colocou silicone, faz dança do ventre, compra roupas diferentes e, ó senhor, tatuou-se. Apareceu aqui outro dia com o corpo rabiscado.

Eu, desde que me entendo por gente, tenho o mesmo CEP por não conseguir ficar longe de mamãe e papai. Hoje mesmo, para mudar o estofado do sofá da sala, desesperei-me ao ligar para mamãe e ela não me atender. Como decidir se vou querer liso ou estampado sem que mamãe me ajude? Muito obrigada, moço. Amanhã  volto com mamãe. Pai, o que você acha d´eu mudar a cor do meu cabelo? Não vai ficar bom. Mas a Lyli mudou, pai. Não ficou bom nela. Não faça isso. Pronto. Vou ser a asa da graúna até a morte porque meu pai falou que ficarei feia. Lyli nem precisou perguntar nada para ninguém. Amanheceu ruiva, linda e sorridente como sempre.

No último aniversário da Lyli, eu comprei-lhe um presente. Fui em um antiquário desses na rua do Lavradio e depois de muito pesquisar, escolhi uma bolsinha de madeira, com travas, floralzinha por fora, forrada por dentro e com uma pequena alça de couro. Um mimo usado pelas mocinhas lá pelos idos do início dos novecentos. Se ela não usar para sair, pode colocar como enfeite de cabeceira, para guardar maquiagem ou algo que o valha, pensei. Mandei embrulhar para presente e aguardei ansiosa o momento de dar a ela o regalo.

Lyli pegou curiosa o embrulho. Abriu-o devagar. Eu estava com o olhar daqueles que esperam a opinião de quem prova um doce feito com carinho e com todo cuidado pela gente.

– Que linda, Eka!

(Todos que me amam muito me chamam de Eka com ká.)

Fiquei mega feliz. Afinal, não era um presente mesmo convencional e foi escolhido com muito amor pensando na menininha que Lyli sempre representou para mim, a despeito de estar literalmente voando sozinha – de parapente.

– Ideal para colocar a minha arma! Adorei!

Tóim tóim tóim. Mil martelos de brinquedos bateram na minha cabeça. Como assim, cara pálida, arma? Comprei a pastinha para colocar batom, jesus. Esmaltes vá lá. Arma? Que arma, meu padinciço?

Pois então. Lyli virou ninja a la Brasil. Fez curso de defesa pessoal, tem uma espada de samurai, usa como chaveiro spray de pimenta, acessoriza-se com arma de choque, tornou-se faixa preta em Muay Thai, Krav Magá, Kyusho-jitsu e capoeira. Fez curso de deusa do amor e de tiro. Empolgou-se com este último e acabou comprando uma pistola para os treinamentos que continua fazendo e que cabe exatamente na maletinha meiga que lhe dei. Aff.

Estive no sul esses dias para passar o Reveillon por lá. Lyli resolveu, ó senhor, me levar para conhecer o tal clube de tiro. Aceitei meio a contragosto, mas não quis fazer desfeita porque sei que ela anda treinando muito e certamente queria mostrar suas novas samuraizices. Fomos no carro falando de amores e desamores. Eu contando sobre meu problema de dormir sozinha, de minha inércia em me mudar para um bairro diferente, de minha terapia e coisa e tal quando, enfim, estacionamos o carro dirigido velozmente por ela.

O lugar era tipo sei lá jesus. Um clube de tiro. Cheio de armas penduradas de tudo quanto é tamanho, peso, calibre, cor e sabe deus mais o que é usado para categorizá-las. Todas trancadas numa vitrine de vidro porque é tudo giga perigoso. Também havia arco e flechas, dardos poderosos tipo mísseis, bolas de genkidama, habateku chidori, e kamehameha. Acho que foi mais ou menos isso que vi.

– Pega aquela ali para mim, Mônica, por favor. – Disse Lyli apontando para uma arma tipo assim muito grande quase um canhão para a moça que ficava atendendo, a Mônica.

– Quero também munição para a minha pistola. – E abriu a bolsinha linda vintage.

– Eka, segura aí. – E me deu… acho que era um fuzil. Ou uma carabina. Não sei a diferença. Sei que peguei com o mó  cagaço.

Colocamos protetores de ouvidos, óculos de proteção e Lyli pegou um papel do tamanho de uma cartolina em que tinha um moço desenhado. Entramos no local cheio de homens armados atirando nos bonecos. Fiquei apavorada. Senti-me no Iraque. Lyli nos meteu em uma cabine, ou algo que o valha, prendeu o boneco em um varal, apertou um botão, e o homem-alvo foi para um pouco longe da gente. Senti-me dentro de um filme. Daí ela municiou a pistola dela com uma desenvoltura ninjiana que só vocês vendo, colocou-a em um parapeito lá que ficava entre a gente e o moço pintado no papel e disse (depois que me mostrou como se pega na arma, se mira e coisa e tal):

– Vai, atira nele.

– Ãhn? Como assim? Por que? Ãhn? Como assim?

– Vai. Atira ué. Você acha que a gente veio aqui para quê?

Ao ver que eu estava com medo, ela resolveu me mostrar como se faz.

– Abre as pernas, relaxa os ombros, coloca os polegares paralelos, coloca o dedo levemente no gatilho. Puxa devagar. A bolinha da frente da mira tem que se encaixar aqui. Puxa devagar e POW!

Acho que fazia tempo que não levava um susto tão grande. Gritei como aqueles que vêm a cara da menina do exorcista ou a barata voadora se aproximando. Os homens de verdade que estavam por ali se chegaram prontamente pensando que a Lyli tivesse me atingido, ou não. Sei lá. Sei que da arma saiu faísca, pulou uma cápsula e isso não foi legal. Mega normal, disse ela, mas não foi nada legal. Nada legal mesmo. Nada legal a cápsula ser cuspida quentelosa de cima da pistola.

– Está tudo bem, gente, ela se assustou. primeira vez, eheheheee. – Riu Lyli amareladamente para os coleguinhas franco atiradores.

Vou encurtar a história. Foram várias tentativas. Inúmeras diria. Lyli deu outros tantos tiros (todos seguidos de gritos (reflexos mega naturais meus)) para me mostrar que era maneiraça a parada. Ficamos lá mais ou menos uma hora, eu acho. Cada instante que eu pegava na arma me sentia manuseando uma arma. Quando apontava a arma para o boneco me sentia segurando uma arma apontando a arma para um moço. Arma arma arma. Os barulhos dos tiros das cabines ao lado não ajudavam. Lembrava-me de Platoon, do  Afeganistão e do morro da Serrinha. Mega tenso.

Elika segura a arma é uma oração onde o sujeito da frase não era para estar ali. Apertar o gatilho era algo que jamais pensei em fazer na minha vida. Mamãe e papai não me prepararam definitivamente para aquilo. Eu sou da paz. Sou amor, gente.

Mas eu estava ali.

E não estava me parecendo errado.

(Será divertido?)

Atirei.

E foi no alvo certo.

Em cima da arma desenhada no cartaz.

Não feri quase nada o boneco.

Yeah.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. A de valor nem se fala. Antes de eu puxar o gatilho e durante o ato, foi extremamente doloroso. Dúvidas e questionamentos que vinham do além. Não havia pernas abertas e músculos contraídos que me manteriam em pé após o disparo, era a sensação. A mão suava frio. O corpo tremia. Estava perdida em mim mesma. Mas enquanto tremulava, procurava-me e me achei. Perder-se também é um caminho, já dizia Clarice. Enlouqueci e deixei rolar.Tive toda a aparência atrapalhada de quem acertou sem querer, mas não sei. A mira, agora que estou calma, parece que de fato foi feita corretamente.

Lyli não acreditou em tamanha resistência. Mas respeitou a minha velocidade de assimilar a novidade. E para mostrar que ainda podemos mais, muito mais!, pegou o fuzil ou a carabina (já disse que não sei a diferença) colocou munição que era do tamanho de um pão francês (assim me lembro) mexeu no cano para lá e para cá para encaixar o projétil (igualzim como vemos nos cinemas) e atirou elegantemente com seus cabelos vermelhos e esvoaçantes no moço de papel. Riu do rombo que fez.

Na volta para casa, ela me contou que vai pular de paraquedas enquanto eu ainda estava sem acreditar no que havia feito. Consegui me despir do preconceito e das inúteis associações que fazia que só serviram para frear um disparo inofensivo, puro, quiçá infantil.

O tiro (o único tiro que dei na vida) foi certeiro, mas o mais importante naquele dia com a Lyli, foi eu ter vencido e superado a mim mesma e ter me concedido uma ousadia. Eu que temo tanto o desconhecido vi, ainda que em milissegundos, uma explosão. Mas em mim. E de coragem.

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Mais história sobre Lyli:

Chuva de vento

2 Comentários

Arquivado em Crônicas

2 Respostas para “Samurai e Somebody

  1. Texto maravilhoso! Ótima leitura, obrigado por ter me ajudado a começar tão bem o meu dia.

    Curtido por 1 pessoa

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