Exílio, jardins e botequins

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O ano começou com a decisão louca de passar as férias com ele. Havia conhecido Pipo em abril de 2017 e estava, como dizem por aí, perdidamente apaixonada desde o primeiro minuto em que o vi. Li muita filosofia, mas encontrei de forma satisfatória a explicação do que sinto nas músicas sertanejas. Nesse nível que ando superlativa e hiperbólica, gente.

Eu e Pipo não tínhamos quase tempo para conversar. Coincidir a minha agenda com a dele é modalidade olímpica. Tudo poderia acontecer porque a convivência revela coisas que encontros furtivos nos poupam.

Lá fui eu para Brasília deixando, pela primeira vez, todos meus filhos em casa.

Em Janeiro, eu ainda em Brasília, trabalhei intensamente para a finalização do meu livro Isaac no Mundo das Partículas. O livro já havia virado espetáculo infantil cuja estreia foi no dia 27 de Janeiro. Voltei de Brasília e ainda consegui pegar os ensaios finais. Houve trocas profundas de ideias por telefone entre mim e Joana Lebreiro, a diretora do espetáculo no tempo que estive longe do Rio.

Fui buscar os livros em São Paulo onde consegui uma gráfica mais em conta. Eu, que tenho pavor em andar só, fui sem ninguém ao meu lado dirigindo até sampa. Mas voltei com muitos livros. Meu carro se transformou na nave que Isaac usa para viajar no tempo e no espaço. Dentro dela, carreguei, além de infinitas partículas, um universo de sonhos a ser compartilhado,

Isaac no Mundo das Partículas foi lançando em fevereiro com a presença do ilustrador e grande artista Sérgio Ricciuto Conte. Saindo da noite de autógrafos, fomos direto para a Sapucaí ver a Tuiuti, sambar e gritar porque já sabíamos que nossa voz poderia ser, em breve, calada.

Foram mais de mil livros vendidos em menos de um mês. Todos embrulhados, etiquetados e postados por mim com ajuda da trupe lá de casa.

Em julho, tirei licença do CEFET para participar da minha primeira campanha. Era também a primeira vez em 25 anos que me afastava das salas de aula.

Ser do PT e fazer campanha nas ruas do Rio de Janeiro ao lado de Marcia Tiburi, Benedita e outras figuras nas quais sempre me inspirei não são coisas fáceis para serem assimiladas. Não dormia de tanta ansiedade. Visitei ocupações, sindicatos, comunidades, conheci artistas que já sabiam meu nome. Fui xingada e ameaçada por pessoas que votarão em um fascista.

Não. Não foi fácil administrar tanta adrenalina.

Estar no palanque foi o grande desafio a ser vencido. Não sabia exatamente como agir diante toda aquela grandeza sem me perguntar o que estava fazendo ali. Falar com uma plateia sedenta de grito de guerra estando eu tão insegura com a minha capacidade para lidar com tudo aquilo foi como escalar um muro de cimento à unha com um cachorro raivoso latindo e pronto a me morder caso caísse.

Sou desajeitada com os chamados.

Tive que aprender a trabalhar em equipe. A peça Isaac foi um trabalho coletivo, mas só participei do processo como espectadora. Na campanha não. Tudo estava centralizado em mim e eu não agia mais pela minha vontade e sim pelo consenso de uma equipe na qual confiei 100%.

Acordava sem saber para aonde ia e que horas o dia terminaria.

Quase 29 mil votos. Fui a candidata do PT mais votada no município do Rio de Janeiro. Superei parlamentares antigos do partido. Ganhei moral, a primeira suplência e uma bagagem de toneladas de tanto aprendizado.

Mal terminou a campanha, o livro Filosofilhes ficou pronto e parti para trabalhar a entrega de todos que colaboraram com o financiamento coletivo. Foram mais de 100 livros autografados, embrulhados e postados. Tudo feito por mim.

Durante a campanha, trabalhei na revisão do livro e com a necessidade de mudar o nome da criança na última hora. Já havia uma empresa com o nome Filhosofia e por pouco não perdi muito dinheiro. Dá-lhe reuniões, consultas, advogados e novas decisões.

Enquanto tudo isso vai acontecendo, o espetáculo Isaac que ficou em cartaz por 3 meses no Rio foi indicado para vários prêmios. Lembro-me que saí do avião voltando de Brasília, onde havia feito o lançamento do Filosofilhes + Isaac (em que faltaram livros para tanta demanda), e fui direto para a cerimônia de premiação. Choro cada vez que vejo a nave do meu filho viajando por esse universo. Ela ganhou altitude e não a controlo mais.

Em cada canto que vou, conheço mais pessoas. Famosas ou não, é cada constelação em essência que vem até mim que nem sei viu. Recebi infinitos abraços e em todos eles fechei meus olhos. Não aceito nada menos do que 100%.

Ainda há muito para acontecer. Companheiros estão sendo ameaçados e mortos. Lula está preso de forma arbitrária e injusta. A cadela do fascismo está copulando devassamente. Há livros para serem escritos, outros tantos para serem lidos e uma guerra a ser vencida. Prometi a Lula que estaria na linha de frente e se tem algo que tenho, além de muito medo, é palavra.

Como se tudo não bastasse, resolvi me mudar para morar com o Pipo e começar uma nova etapa da minha vida em um outro lar em que ambos construiremos do zero. A convivência, de fato, me revelou coisas que encontros furtivos jamais me mostrariam: uma conexão ímpar mais a surpresa de que há em mim um tesão infinito.

Acertei quando fui até ele.

O medo me cativa assim como a escuridão. Meu espetáculo não é ensaiado e sim feito de improvisações. Tem sido muito melhor fazer – mesmo sem ter garantia nenhuma – do que assistir a hora passar na paz que somente os sofás oferecem. Vivo fora da zona de conforto, esse lugar que se morre em vida. Cansa mas há muita poesia na exaustão.

Quanto ao Brasil, perdemos muitos amigos mas fizemos muito irmãos. E com eles caminharemos juntos seja lá para qual exílio, jardim ou botequim essa estrada nos levar.

Que as deusas me protejam porque meu Deus. Como estou animada para viver.

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