Carta para Lula

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Querido presidente,

Escrevo daqui do meu cafofo de Madureira, exatamente no mesmo lugar em que estava quando você me ligou pela primeira vez. Era quarta feira de cinzas. Dona Marisa havia acabado de falecer. E você, meu presidente, após ler um texto meu e ter percebido que eu estava precisando de um abraço, foi a única pessoa que me ligou para dizer: “Querida, tenha força. Os tempos estão difíceis, querem nos calar, mas seja forte, receba meu abraço e meu carinho.”

A emoção, presidente, foi demais. Se Aécio tivesse me ligado eu teria ficado feliz por ser considerada por alguém que tem uma certa importância no cenário político. Mas ter sido você, o homem que tirou o Brasil do mapa da fome, que construiu diversas escolas técnicas de excelente qualidade e mais sei lá quantas universidades federais, por ser reconhecido no mundo todo por ter diminuído a desigualdade social em um país com a extensão do Brasil… olha, eu sou a suburbana mais honrada deste planetinha.

Quando resolvi me filiar ao PT e quis entrar para a política, pedi para conversar com você pessoalmente. Fui desencorajada de cara, lembra-se? Você me disse que assim que eu vinculasse meu nome ao partido e a minha imagem a sua, eu seria apedrejada porque as pessoas aprenderam a odiar cegamente. Você quis me proteger e eu neguei essa proteção porque fui atrás de sua bênção e não de escudo. Ao perceber que eu era um soldado pronto, você sorriu para mim e me abraçou com carinho. Colocou a mão na minha cabeça e eu me senti vestida com um capacete.

Depois disso, nos encontramos por aí em alguns palanques. No meio de tanta gente importante, você sempre me reconheceu e perguntou dos meus filhos e de Lucimar, a moça que trabalha aqui em casa.

Agora você está preso. Tiraram-lhe a possibilidade de interação com outros seres, o que você faz de melhor. Perde o povo com o seu silêncio porque suas palavras são como um bom cobertor no inverno e, dependendo de onde estamos, sentimos uma frieza danada aqui fora. Você precisa saber que a temperatura caiu. Neva em alguns pontos do Brasil, presidente.

Sigo apanhando por te amar. Por achar tudo que aconteceu demasiado injusto e que o mundo piora muito quando não deixam você agir e fazer mais pelo povo. Mas, ainda que esteja plena de hematomas, quando vejo o olhar de quem me ataca e ouço o discurso dos que me xingam, reafirmo meu amor a você e, mais do que isso, ao que você representa.

Estarei te esperando aqui fora. Para que você me veja e me reconheça no meio da multidão quando sair, darei uma dica: estarei de vermelho e de braços abertos. Não vai ter erro, presidente, porque eu também virei uma ideia. Você irá reconhecê-la.

Até breve, meu presidente.

Com todo carinho e toda a saudade do mundo.

Elika Takimoto

MST. A quem pertence a terra?

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Latuff – 2013

Para aqueles que julgam que as pessoas que fazem parte do MST são um bando de criminosos e vagabundos, eu pergunto se, por acaso, sabem do que se trata esse movimento.

Entendo que o julgamento se dá porque as informações que nos chegam são dadas por uma mídia que tem interesse em estigmatizar quem atua no movimento como pessoas baderneiras e invasoras. Sabemos que os meios de comunicação que temos são instrumentos de poder das classes dominantes.

Peço para pensar se já viram o MST invadindo alguma indústria. Não, confere? Eles não fazem isso porque isso é crime já que houve um trabalho ali para se construir algo que não lhes pertence e, se tomarem esse local para eles, poderão ser presos. Só vemos o MST no meio de grandes fazendas porque a terra pertence a natureza e todos têm direito a ela.

A terra, para quem não sabe, pelas nossas leis, deve cumprir uma função social que tem a ver com o cuidado com o meio ambiente. A obrigação de fazê-la cumprir é do titular do direito de propriedade, que perde os direitos de proteção jurídica de seu título caso não cumpra.

Invasor foi quem tirou a terra de alguém (geralmente dos índios) e a demarcou dizendo que a comprou. Veja bem. “Comprou” um bem que era comum a todos. E pior. Para ou nada produzir ou trabalhar em uma monocultura que pode danificar o meio ambiente como a plantação de eucaliptos, por exemplo, esses desertos verdes que acabam com o solo e a biodiversidade local. Por lei, ele pode perder o direito a essa terra.

Geralmente, os adversários do MST são algumas forças partidárias que parecem desconhecer o contexto democrático. Porém, o verdadeiro inimigo dessas pessoas que querem terra para plantar são os grandes capitalistas do agronegócio, empresas que estão envenenando o solo brasileiro utilizando produtos que são proibidos em outros países dado o dano que causa para o nosso sistema nervoso.

Cada vez que os pobres se organizam para lutar pelos seus direitos, a mídia faz com que acreditemos que o que eles estão fazendo é algo muito errado. Jamais explicam o objetivo da luta e o motivo pelo qual a terra foi ocupada (e não invadida, vale frisar a diferença).

Temos hoje, segundo dados de documentos do MST, em torno de quatro milhões de famílias sem nenhuma terra. Em 30 anos de MST, eles conseguirem que 800 mil famílias conseguissem um pedaço de terra para produzir seus alimentos e há em torno de 200 mil famílias em acampamentos em processo de mobilização. Não se tratam de vagabundos e sim pessoas extremamente dispostas para trabalhar com a terra, produzir sem agrotóxico, organizar escolas e uma sociedade mais justa onde todos comem e estudam.

A nossa política inviabiliza o pequeno produtor. Há um acúmulo de grande capital na agricultura que é apoiado pelo poder judiciário e pela mídia que só favorece a produção de grande escala para exportação. Imagina se tivéssemos políticas públicas que fortalecessem a agricultura familiar em cada município? Certamente, haveria uma diminuição no êxodo pela melhoria de vida daqueles que vivem no campo, não? E, a longo prazo, quiçá uma diminuição da população das favelas dos grandes centros urbanos.

A reforma agrária é algo pelo qual o MST luta e por isso é taxado de comunista como se isso fosse, de fato, uma ofensa e não um grande elogio dado a essência dessa ideologia. Muitos não sabem que em grandes países capitalistas como o Japão houve a reforma agrária. Não é questão de ser ou não comunista e sim ser ou não democrático. No Brasil, a lei parece que só é aplicada para beneficiar uma classe.

Os integrantes do MST ocupam lugares onde empresas infringem leis para chamar a atenção da sociedade para aquele local. Eles entendem que não somente têm o direito de ocupar como o dever de fazê-lo para denunciar uma grande injustiça. Onde deveríamos agradecer por eles nos chamar a atenção, pela narrativa imposta pela grande mídia, acabamos por taxá-los de baderneiros. Quem, de fato, desobedecem às leis?

Saibam que o movimento é legítimo e tem como bandeira organizar os pobres do campo para que eles lutem por um direito que está assegurado na constituição. A população tem o direito de se manifestar. Se fosse contra a lei, essas 800 mil famílias que já estão assentadas deveriam ser presas. Nenhum juiz pode decretar prisão quando as massas ocupam um lugar como forma de protesto e ainda denunciam ilegalidades. As terras ocupadas são sempre terras férteis que podem ser usadas na reforma agrária.

Infelizmente, muitos desconhecem o trabalho do MST. Perdem por não aprender com quem sabe de verdade lições de sustentabilidade e cuidado com o solo. Hoje, há feiras orgânicas de produtos do MST pelo Brasil e eles são o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

Uma pena que haja tanto preconceito. Enquanto isso, o agronegócio está acabando com as terras indígenas e liberando mais e mais venenos para serem usados em plantações que são proibidos pelo resto do mundo.

Que fique claro que não venho aqui atribuir santidade para ninguém. Apenas gostaria de compartilhar o que tenho aprendido por andar conversando com pessoas diretamente ligadas ao movimento. Sempre me pergunto perplexa o porquê do que eles fazem em sua totalidade não ser divulgado na mídia e nas escolas.

A resposta me parece clara. E esse texto é uma mínima tentativa de fazer com que quem leu até aqui procure saber mais sobre o MST e (re)pensar com carinho e seriedade sobre o conceito de justiça, crime e democracia.

A onda

A onda fascista não para! Matar petista, comunista, esquerdista como falam agora virou modalidade de tiro ao alvo. Na caravana de Lula, houve casos gravíssimos. Agora, no acampamento em Curitiba, onde pessoas estão lá como uma forma de resistência a essa injustiça que é a prisão de Lula (sim temos ao nosso lado importantes juristas que mostram o quanto essa prisão não se justifica) houve um ataque de mais de 20 tiros em direção às pessoas que lá estavam!

Duas pessoas ficaram feridas e companheiro do movimento sindical de São Paulo, o Jeferson, está em estado muito grave e corre risco de morrer.

Esse estado de violência não pode ser aceito. Quem fica calado está perdendo a oportunidade de mostrar aos demais o quão absurda é essa atitude fascista ou então estão gostando do que estão assistindo.

É grave demais. A cada dia vemos a superação dessa violência contra nós.

E a história se repete mesmo. Há cartaz que é vendido no museu do Holocausto em Washington, para alertar as pessoas sobre os perigos do fascismo e como identificar seus primeiros sinais. Muitos já leram, mas vale a pena repetir o que está escrito:

1. Empoderamento nacionalista contínuo.
2. Desdém por direitos humanos.
3. Identificação do inimigo como causa unificadora.
4. Supremacia militar.
5. Sexismo desenfreado.
6. Controle de mídias de massa.
7. Obsessão com segurança nacional.
8. Governo e religião interligados.
9. Poder/direitos corporativistas protegidos.
10. Poder/direitos de trabalhadores suprimidos.
11. Desdém pelos intelectuais e pelas artes.
12. Obsessão por crime e punição.
13. Corrupção e nepotismo desenfreado.
14. Eleições fraudulentas. (tradução Loo Silva)

Nos últimos anos, o Brasil tem vivido exatamente todos os pontos que estão na lista: sexismo contra uma presidente democraticamente eleita, deputadas, senadoras e vereadoras, fizeram o povo acreditar que o PT é o inimigo da nação, fizeram acreditar quando havia concursos públicos e todos estavam empregados que o Brasil vivia seu pior momento econômico, candidatos que debocham dos direitos humanos sobem nas pesquisas, a religião dá as ordens, a corrupção segue de forma alarmante e as provas apresentadas contra políticos que não sejam o Lula não causam mobilização social ainda que sejam provas verdadeiras e as acusações muito mais graves, intervenções militares e perda de direitos trabalhistas, aumento de poder corporativista e o deboche contra a arte e os intelectuais.

Dilma havia avisado que o Brasil viveria uma crise institucional sem precedentes. E foi o que aconteceu. Muitas pessoas estão perdendo a fé nas principais instituições do país, bem como o senso de direito coletivo e individual. A Democracia, há tempos eu tenho falado, não existe mais por aqui.

Idiota midiático é quem insiste que estamos dentro da normalidade e que não enxerga o quão grave é a nossa conjuntura. Há vários andando por aí.

O ataque foi sério como foram todos os outros. E mais sério ainda é o silêncio de muitos.

Marielle

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Não tem sido dias fáceis para mim. Estive com Marielle duas vezes e ambas dividindo uma mesa onde debatíamos feminismo e políticas públicas. Trocamos telefone e algumas mensagens. Em todas as nossas interações, ela me deu todo o apoio para eu ingressar na política.

Marielle não deixou de me falar a importância de aumentarmos a quantidade de mulheres no Congresso porque representatividade é o que há. Não me induziu a entrar no PSOL, pelo contrário. Disse que não importava o partido, mas sim estar dentro. Que não seríamos inimigas nunca. Orientou-me a pesquisar onde me sentia mais à vontade e cair dentro.

Não seria sem essa força que me filiaria ao PT. Se me expunha de forma comedida, com Marielle, perdi o medo e, como muitas(os) de vocês que me acompanham testemunharam, a minha posição política ficou bem clara. Postar minha foto ao lado de Lula, por exemplo, que é o homem que mais admiro neste planeta, em tempos como esses, só foi possível por me espelhar na coragem e na força de Marielle.

Ver a mulher que eu usava como fonte de inspiração ter o fim que teve fez-me repensar a vida. Ataque verbal e ameaça recebo todos os dias. Em alguns momentos, foram bem intensos e já cheguei a denunciá-los. Mas nada que me fizesse retroagir porque existia a Marielle. Se ela não se aquietava, por que haveria eu de me esconder?

Nove tiros. Caixão lacrado no velório porque foram quatro no rosto.

Por um lado, quero sumir. Por outro, sei que se fizer isso, a morte dela será em vão. Assim sinto. Ao menos as ideias têm que ser à prova de balas. Somente assim garantimos a vida para além da existência do corpo.

Ficaria menos assustada se ouvisse de quem apoiou o golpe alguma reação que mostrasse uma comoção pela morte de uma mulher tão forte, tão guerreira, que fez tudo tão direitinho, que representou tão bem todos que nela votaram.

Mas não.

Pelo contrário.

Há os insanos que debocham de tudo isso, mas há o pior: o silêncio dos que nos tangenciam e que cismam em acreditar que ainda estamos em uma democracia. Nem com a morte política de Marielle enxergam alguma coisa, tamanha foi a lavagem cerebral que sofreram.

Marielle foi muito. E foi tanto que não quero dirigir nenhum sentimento que não seja para ela. Tristeza, saudade, dor. Ela merece meu luto. Merece meu choro. Meu desespero.

Nem por um minuto Marielle merece que eu perca meu tempo deixando de sentir algo bom pelo fato de ela ter existido para sentir raiva de quem não consegue entender que Marielle só queria um mundo mais agradável de se viver.

Sigo pensando nos meus próximos passos, evitando dar voz para fascistas – como tenho visto muitos de vocês fazendo – e buscando um caminho que proteja a minha vida mas que, também e principalmente, faça valer a da mana Marielle.

Se eu morrer amanhã (parafraseando o eterno Cony)

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Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades dessa gente burra que tem medo e fica falando mal do comunismo em pleno mundo do jeito que está.

Também não sentirei saudades dessa galera que encheu a nossa paciência por causa de uma criança encostando no pé de um homem nu em um museu cheio de gente e se cala com um homem condenado a 12 anos de prisão por exploração sexual de menor assumindo a vaga de deputado federal que foi aberta com a licença de Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, que se afastará para ser ministra do Trabalho e responde por ter infringido leis trabalhistas. Puta merda. Não vou sentir saudade de nada disso.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades desses coxinhas hipócritas que foram às ruas se dizendo contra a corrupção e que querem a prisão de Lula mesmo não tendo provas contra ele.

Se eu morrer amanhã, quero que quem odeia o PT se exploda porque para todos que eu pergunto por que diabos odeia um partido que tirou o Brasil do mapa da fome e diminuiu a desigualdade social só sabe me dizer que o PT acabou com o país, mas não sabem me dizer como. Gente imbecil não vai me deixar saudades se eu morrer amanhã.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades desses homens que querem até dizer como as feministas devem se comportar.

Irei embora cagando pitangas para essas pessoas que só comentam para criticar, julgam-me por uma frase e, se eu falo um palavrão,dão print e falam nooossaaa olha a professora de esquerda mal educada noooossqaaa olha como não sentirei saudades nenhuma dessa gente chata do carvalho.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades de nenhuma pessoa que se disse meu amigo ou minha amiga e que não conseguiu ficar feliz com nenhuma das inúmeras conquistas que fiz na vida. Vou partir mandando todos para a polta que parel.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades de nenhum médico que me tratou (mal) porque nenhum deles olhou para mim como ser humano e foi capaz de pedir desculpas por me fazer esperar mais de uma hora para ser atendida.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades de nenhum movimento pró-aborto.

Se eu morrer amanhã, não sentirei saudades do meu passado. Não sentirei a menor falta das gaiolas nas quais já estive aprisionada sendo a pior delas a religião.

Se eu morrer amanhã, sentirei saudades somente do que tenho hoje. Minha família (incluo os verdadeiros amigos nela), meus futuros alunos e dos livros que ainda não publiquei.

Genesis Revisitado

genesis

No princípio, era o impeachment.

E a coisa era aparentemente sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo.

E disseram: Solta o áudio de Jucá.

E vimos que o áudio era bom e uma luz, pois incriminava Romero Jucá, Aécio Neves e o próprio Michel Temer deixando muito claro o envolvimento do judiciário e da mídia.

E fez-se separação entre a luz e as trevas.

E daí chamamos o impeachment de golpe; e a democracia chamamos de passado. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

E disseram os golpistas: que venha a PEC 241 que congela gastos públicos por 20 anos, o que deve provocar o sucateamento da saúde, da educação e da Previdência Social. Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.

E fizeram os alunos a Ocupação, e assim a separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.

E chamaram eles a ocupação de crime, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

E disse Temer: Vamos privatizar tudo.

E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

E disseram eles: Proíbam as greves.

E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

E disseram eles: desocupem as escolas ou levarão bala.

E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E disseram eles: proíbam os professores de debaterem com seus alunos em sala de aula.

E fez o governo Temer as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua vontade, e todo o réptil da terra conforme a sua necessidade; e viram eles que era bom e fácil.

E disseram os deputados e senadores: Façamos o certo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: homem, macho, branco e hétero. E dominemos sobre os negros das favelas, e sobre as mulheres em casa, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o analfabeto sem instrução que se move sobre a terra.

E que a discussão de gênero seja proibida e que não se fale sobre
a denúncia da Odebrecht contra José Serra, na qual o ministro das Relações Exteriores foi acusado de receber R$ 23 milhões via caixa 2 por meio de uma conta na Suíça.

E viram eles tudo quanto tinha feito, e eis que dar um golpe era muito fácil; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

Quem aqui está sendo doutrinado?

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Acho que todos aqui já ouviram várias pessoas se dizerem contra a doutrinação marxistas nas escolas feitas por professores comunistas esquerdopatas. Quem fala isso fala como se estivesse havendo uma lavagem cerebral ideológica em massa nas escolas públicas brasileiras com a “injeção” de crenças marxistas na mente de crianças e adolescentes. E nem vamos falar dos que tentam diminuir Paulo Freire. Mentira. Vamos sim.

O que não me parece que seja levado em consideração é que desde que o mundo é mundo e a escola tal qual a conhecemos sempre utilizou de métodos educacionais doutrinários.

Muitos parecem não se dar conta já que nunca tiveram contato com outros métodos de ensino que incentivassem o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, verdade seja dita, fomos submetidos a doutrinadores durante toda a vida.

O que não podemos negar é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas” (ou Paulo Freire) que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Por exemplo, se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que é o que defende Olavo de Carvalho, por exemplo), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida.

Se não fomentamos o debate em sala de aula, estamos dizendo com essa atitude que o debate público é uma perda de tempo, que o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho. Ou seja, dizemos para nossos alunos como já disseram tantas vezes para nós com todas as letras para esquecermos os outros e nos preocuparmos somente com nós mesmo porque a vida é dura, o que há aí fora é competição e se não estivermos preparados para competir sofreremos as consequências disso.

Isso é uma mentia? Claro que não! Mas poderíamos repensar sobre o propósito de tudo isso que está acontecendo no mundo de, por exemplo, ao invés de competição, alimentarmos mais a ideia da empatia. Por que não? Ao invés de ficar repetindo que o mundo é assim e que se não estudar vai ser pedreiro (o que não seria vergonha nenhuma, vale observar), por que não pensarmos em formas de melhorar o mundo para o pedreiro?

Acho que as pessoas têm todo o direito de não gostar de Marx ou de Paulo Freire, e de fato há um forte vínculo entre os dois. Mas o legado de Paulo Freire vai muito além do marxismo. Reduzí-lo a ideias comunistas ou doutrinantes é um delírio de quem vê inimigos vermelhos por toda parte.

Paulo Freire é uma das grandes referências (se não a maior) da educação brasileira no exterior, não vamos jogá-lo fora junto com a água suja da  banheira.

A história dessas pessoas é muito parecida. Quando crianças eram educadas por uma família conservadora (como eu fui).  “Aprenderam” no ambiente doméstico e religioso valores preconceituosos, discriminatórios e excludentes porque seus responsáveis também foram assim criados e achavam que o mundo dessa forma fosse o natural. Um mundo onde os gays não podem amar livremente, as mulheres serem independente, os negros exercerem cargos de chefia… tudo isso era visto como algo bizarro e anti natural.

A maioria de nós que estudamos em escolas tradicionais e que hoje somos os adultos da sociedade passou por uma escola que nos fez entender que a meritocracia era um conceito dado na natureza. Que o mundo era assim, que vença o mais forte, portanto, estude para ser alguém na vida (sinônimo de ganhar dinheiro) e saiba que o seu coleguinha (estudante secundarista) é seu inimigo porque vai disputar a mesma vaga em uma universidade que você. Eu ouvi isso N vezes e sei que muitos também.

E nem vamos falar da televisão que sempre fortaleceu essas ideias. A mídia tem um papel fundamental na doutrinação de um modelo correto de sociedade passado em novelas, revistas e jornais.

O que temos hoje? Temos desde os idos da virada do século, um avanço da inclusão social e um aumento no volume do grito (antes mudo) das minorias. Incrivelmente, e esse é um ponto em que tenho estudado, lido e conversado muito porque não entendo, esse movimento de pedido de aceitação e menos preconceito foi visto como algo de esquerda, ou “coisa do PT”. Assim, aqueles que não tem simpatia pelas ideias da esquerda, o que não há o menor problema em pensar diferente, passaram a  odiar e rejeitar quase de maneira irracional os movimentos de inclusão (sejam eles de qual tipo for!).

Será que não pensam que eles foram as maiores vítimas de doutrinação já que nunca fomos estimulados a refletir nas nossas escolas sobre crenças políticas, nunca ou quase nunca nos deram oportunidade de aprender a usar o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estivemos na escola?

Daí, ao se deparar com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos diferentes dos tradicionais de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

O que se prega é exatamente uma educação não doutrinadora. Está se colocando e propondo o debate de textos dos mais variados temas. Não é estranho quando temos um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo ser visto como doutrinador?