Expectativa. Realidade. E Mais Expectativas.

gansos1

Quando eu era criança, viajava sempre com papai, mamãe e meus dois irmãos para Itajubá, sul de Minas. A família da mamãe toda é de lá e as curvas da serra da Mantiqueira eram percorridas quase todo final de semana pelo nosso veloz takimóvel. Férias e feriados eram sempre em chácaras, roças, casas de primos e tios. O que não nos falta é história para contar.

Lembro-me de uma vez que lá na chacrinha do vovô, no final de uma tarde de um Domingo de inverno, eu peguei a bicicleta e meus nove anos para andarmos pela estrada de terra. Do alto do morro, eu vi um montão de patos branquinhos todos sentadins bem no meio da estrada pegando Sol. Na mesma hora vislumbrei uma cena de filme: euzinha passando pelo meio daquelas de aves aquáticas palmípedes lamelirrostras e elas voando para os lados abrindo caminho para eu passar com a minha super bike. Ia ser a coisa mar linda… Ande e o caminho se abrirá!, disse o padre na missa que havia assistido pela manhã. Como se tivesse ouvindo a voz de Jesus e buscando a paz, a felicidade, a liberdade e um bacião de pipoca doce acelerei na descida íngreme. Pedalei o mais rápido que minhas pernas conseguiram numa frequência que mal dava para enxergar o movimento dos meus pés, pois eles eram um círculo contínuo tamanha era a velocidade.

Estava chegando perto. Nada dos patos se mexerem.

Mais perto.

Não moviam nem uma pena.

Mais perto. Eles nem aí.

Até que  todos se levantam juntos de uma só vez. Mas não correram para os lados como a minha ingenuidade havia suposto. Tudo que imaginei tinha ido literalmente por morro abaixo. Os patos ao invés de voarem para não serem, no mínimo, atropelados, esticaram o pescoço, escancararam  o bico e me mostraram os dentes berrando ensurdecedoramente todos ao mesmo tempo. Começaram deste jeito e com toda essa pose a correr na minha direção.

Foi aí que fiquei sabendo a diferença entre patos e gansos.

Eram gansos aqueles animais e gansos não são de Deus!

Diante daqueles bichos alvoroçados barulhentos com bocas de hipopótamo vindo me comerem vivinha da Silva Takimoto com bicicleta e tudo, uma outra cena de filme me ocorreu. Havia duas opções: ou eu ser devorada por aquela subfamília dos anatídeos ou eu passar voando por cima deles como aquela inesquecível passagem do ET. Deus!, ET!, alguém me faça voar!, mas que Diabo de padre esse também que dá conselho errado pras crianças na missa das dez!, pensava eu com o coração a duzentas mil batidas por milésimo de segundo. Quando vi que não ia voejar de jeinenhum, ativei força máxima nos dois freios e ainda usei os dois pés que chegaram a esquentar tamanho era o atrito e a desaceleração. Virei o guidão a 180 graus. Manobra ultra radical. Isso é o que eu chamo de movimento retardado. Fui derrapando de lado e deitada até relar (lá em Minas a gente fala assim) naquele bando de belzebus vestidos de penas. Meia volta volver! Nunca mais subi um morro tão rápido em toda a minha vida.

Tirei dessa desventura uma grande lição. A dizer: a diferença entre  expectativa e realidade. Mais ainda, que uma boa forma de você se decepcionar é criando expectativas; que os gansos, quiçá as pessoas, não estão neste mundo para satisfazer os nossos sonhos, assim como não estamos aqui para corresponder a fantasia de nenhum animal.

Mas acredito que o mais importante foi que eu não me traumatizei e que tenho uma sorte danada de esquecer de algumas coisas com a mesma facilidade que as aprendo. A minha natureza não me permite assimilar nada para sempre. Não é raro pelas manhãs eu exigir para o meu dia a expectativa de uma surpresa e me pegar mega entusiasmada com os patos, com os gansos, com os burros, com toda a fauna que vive em nós. Na vida, a sensatez tem lá a sua praticidade. Admito que sim. Mas a alucinação, o delírio, a loucura, o desatino me invadem pedindo licença e eu, desmemoriada que só, dou permissão. Venham!, podem entrar!, tomem um café e um pouco de juízo.

Hoje, por exemplo, estou aqui, em plena paz, vivendo o meu primeiro congresso internacional, tirando o final de tarde para passear sozinha no parque El Rosedal em Buenos Aires repleto dessas aves e permitindo-me, sem medo algum, uma boa aproximação com essa espécie a despeito do antológico ataque nos arredores da chácara do vovô. Total confiança de que eles não vão me atacar, me ferir e sim fazer isso que estão fazendo: enfeitando mais ainda esse lago dando a ele um toque de paz, de serenidade, de sossego.

No mais, exorcizei aqueles gansos sozinha. E fiz isso com uma certa desenvoltura e facilidade quando consegui enxergar, sobretudo, quem havia colocado o demônio dentro deles.

ganso

Em 20/08/2014

 

 

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Arquivado em Crônicas

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