O Carteiro e o Poeta – versão Madureira

carteiro

Aqui onde eu moro em Madureira, no subúrbio do Rio, o carteiro é uma mulher. Uma carteira. Morena, lindona e mega simpática. Nelson, meu querido ex-marido, anda recebendo uma multa atrás da outra e sempre tenho que assinar para receber a notificação de infração de forma que eu e a carteira estamos já criando intimidade.

– Miga, entra, toma uma água. O Sol está de matar.- Falei no terceiro dia.

– Não, miga, minha garrafinha tá cheia. Muito obrigada! Miga, que tanto você leva multa?

– Sou eu não, miga. É meu ex.

– Grazadeus, né?, miga, se fosse com você ia ficar triste.

Outro dia:

– Miga, de novo o seu ex andou fazendo besteira por ai!

– Me conta, miga, outra multa dele? Tadinho. Deve estar mal sem mim.

– Faz muito tempo que vocês se separaram?

– Quase um ano. Mas olhe para mim, miga. Ficar longe de mim deve deixar qualquer um doido, concorda? – brinquei.

– Super concordo, miga.- E gargalhou da minha segurança.

– Mas eu e Nelson somos hiper amigos e eu não quero que ele leve multa… – Falei fofa.

– Liga para ele, miga. Fala para ele prestar mais atenção.

– Boa, miga.

Abre parêntese:

Assim que ela se foi, mandei um uátissápi para Nelson:

“Nelsu, terceira multa em menos de duas semanas. O qq tá com teseno?”

Nelson responde com emoticon: ” 😦 ”

“Nelsu, a carteira mandou você lê as placa.”

Nelson responde: “???”

Daí, liguei e expliquei tudo. Dei o recado da super-miga-carteira.

Fecha parêntese.

Hoje, a carteira me chamou no interfone para ir até lá, mais uma vez, assinar papel. Aff. Nelson de novo? Quando cheguei até a mocinha vestida de amarelinho e azul com chapeuzinho na cabeça, ela me falou:

– Miga, primeiro quero te dar um abraço.

E me deu um puxão seguido de um forte abraço.

– Hoje, sinto muito, miga. – disse ela olhando nos meus olhos com cara de enterro. – A multa está no seu nome e não mais no do Nelson.

– Nããããããão, miga. Não!

– Outro abraço, miga, vem.

Agora vejam vocês, recebi uma multa e dois abraços. Perdi 7 pontos na carteira, é verdade, mas tem algo aqui dentro que não me deixa ficar triste. Deve ser o efeito desse famoso gesto. A infração cometida fez-me ficar arrasada por um momento, mas essa atitude espontânea e giga carinhosa dessa funcionária dos Correios fez com que meus lábios ficassem congelados. Com a concavidade para cima. E eu aqui. Assim. Com essa cara de paisagem de primavera…

7 para o Detran. 10 para a amizade.

4 Comentários

Arquivado em Crônicas

4 Respostas para “O Carteiro e o Poeta – versão Madureira

  1. Legal! Quando morei em casa também mantive uma amizade com o carteiro. Ele até levava minhas cartas para a agência. Atualmente morando em condomínio, a amizade é com a funcionária do prédio.

    E moro em Irajá 🙂

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  2. Aurea

    Quem é esta carteira?
    Trabalho em Madureira e sou funcionária dos correios. Bj

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  3. Eu não supooooorto o carteiro do meu bairro. PelamordeDeus! Mais rude e impaciente impossível. Eu moro na casa de baixo e uma amiga do trabalho na casa de cima, a gente sempre recebe encomendas uma da outra. Mas esse senhor insiste em não deixar eu receber as correspondências da casa de cima, simplesmente por eu não morar na casa de cima, apesar de ser o mesmíssimo endereço . Aí fica lá berrando o dia inteiro no meu portão. Enfim. Adorava o carteiro do bairro onde eu morava em Campo Grande.

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