Temas que me escapam

 coragem1

Há tantas coisas sobre as quais gostaria de escrever. Pego-me pensando por que não o faço. Tenho medo de alguns temas, de tão extensos e confusos na minha cabeça, acabarem virando livros e me prenderem por meses, quiçá até o fim da vida. Outros, temo que se esgotem em uma frase ou um parágrafo. Tomo cuidado porque não sei o que pode me acontecer quando descobrir que o que vejo como um furacão que me atormenta e me faz correr em desespero não tenha força para girar meu catavento.

Eu gostaria de escrever mais do que duas ou três linhas sobre o meu corpo. Morro de vergonha dele desde que me conheço por gente. Não vou à praia, não frequento clubes e nunca ninguém me viu de biquíni.

Também me agradaria escrever um pouco sobre a minha alimentação. Já comi cobra, jacaré, coelho, tatu, certamente gato, tartaruga, mas hoje não consigo colocar um pedaço de carne na boca. Parece que estou comendo gente. Na gravidez do Yuki isso, estranhamente, aconteceu. Eu podia estar morrendo de fome e me oferecerem a picanha mais suculenta. Meu organismo rejeitava. Fiquei preocupada porque nunca havia sentido aversão à carne. Assim que ele nasceu, voltei a minha dieta carnívora sem problemas. Há dois anos, meu corpo passou a rejeitar qualquer alimento que, se vivo, teve um coração batendo.

Teria muito e ao mesmo tempo pouquíssimo para falar sobre o mundo atual: estamos todos cegos de ódio e estou muito cansada desse ambiente.

Tenho necessidade de escrever sobre o meu medo de dormir sozinha que enfrentei como uma criança: na base da porrada. Quando comecei a viajar por conta do meu crescimento profissional, simplesmente não dormia. Não descansava. Chorava no quarto de hotel sozinha de pavor. Semana passada estive em Joinville e, com alegria, declarei-me curada. Sabe deus o quanto eu sofri para alcançar essa liberdade de espírito.

Escreveria um tratado sobre o quanto acho ridícula a fragilidade de muitos homens e atraentes de tantos outros.

Gostaria de me aprofundar sobre minha inquietude e falta de foco para tudo. Não consigo estudar, ler, dissertar sobre uma coisa só. Ao completar dois anos de carteira assinada como professora de física, resolvi fazer faculdade fisioterapia e cheguei a cursar três períodos. Queria algo-nada-a-ver mesmo com o que estava trabalhando. As aulas de anatomia, no entanto, foram um obstáculo que não consegui superar. Ao ver um corpo cujas unhas estavam pintadas de vermelho, vomitei. Voltei chorando da Barra (onde era a faculdade) até Madureira. Trabalhava de dia e estudava à noite. Cheguei em casa e abracei muito meu filho Hideo e minha filha Nara. Yuki não era nem pensamento ainda.

Poderia escrever uma história mega engraçada de como menti descaradamente na entrevista de doutorado dizendo que sabia italiano. A minha tese, disseram, exigiria muitas leituras cujas fontes primárias eram todas no idioma dos mama mia, tutti frutti capuccinoÉ claro que você sabe, né? Perguntaram-me. Claro que sim, respondi rindo pensando comigo que merda e agora que só sei falar pizza? Um ano depois daquela tarde, já conversava com desenvoltura nessa maravilhosa língua. Em dois, estava formada pelo Consulado da Itália. Era mãe de três filhos na época e foi uma loucura.

Tenho muitas experiências quase inacreditáveis envolvendo um, digamos, contato com a quinta, digamos de novo, dimensão. Sou ateia mas não sou burra e muito menos desatenta. Deus não existe, mas há muita coisa além do que sentimos. Isso é certo.

Gostaria de fazer um texto sobre o fato de eu não ir mais a médico há cinco anos. Mas não quero falar sobre isso porque não estou disposta a enfrentar julgamentos e com medo de me rogarem praga. Se sentir necessidade, irei. Mas, por enquanto, só quero distância.

Dissertaria páginas sobre o quanto exercícios físicos me fazem bem por me forçarem a descansar a minha mente e o quanto odeio ter que fazê-los.

Adoraria redigir uma linda redação sobre a necessidade de me mudar desta casa e o tamanho da preguiça que tenho para isso. 

Sobre ser reconhecida nas ruas, teria muito a dizer também. Tenho achado estranho as pessoas querendo me abraçar, agradecer, tirar fotos. Gosto muito, mas não consigo me acostumar com essa ideia e aceitar que comovo alguém.

Das estações, ah como me faltam palavras para descrever o que significa para mim uma primavera…

Poderia ficar horas tentando explicar o quanto me sinto insegura em todos os ambientes que frequento e as manobras mentais que faço para lidar com isso. A menina que existe em mim, a despeito de eu ter tentado de todas as formas exorcizá-la, não sai. E ela ocupa um lugar que deveria ser de uma adulta que, apesar de inúmeras tentativas de fecundá-la, não nasce.

Um dia ainda escrevo sobre minha aversão a qualquer vestimenta branca. Depois que soube o que significa um vestido de noiva e a importância do branco no dia do casamento, prometi com meus nove anos que nunca usaria isso em mim. Todas as vezes que uso qualquer roupa branca me dá um mal estar. Definitivamente, não sou pura.

Sobre a minha solidão ininteligível e essa tarde de domingo intragável, escrevo outra hora. Fiquei procurando palavras que exprimam essa sensação e não achei nada que chegue perto.

Já roubei muitas rosas. Mas sobre isso jamais escreverei.

1 comentário

Arquivado em Crônicas

Uma resposta para “Temas que me escapam

  1. Também intenso, né? Parece que hoje você se encontra imersa, na imensidade de teu próprio íntimo. O teu mundo, o mundo das palavras , da mente inquieta e criativa, da menina que foi e sempre será, da mulher , amante, professora, mãe, profissional e escritora que você é. Obrigada por nos deixar de vez em quando olhar e até bater na porta desse mundo que é tão interessante e que nos faz lembrar que há mesmo um mundo dentro de cada um de nós, e por alguma razão para qual não se tem explicação , embora haja milhões e milhões de pessoas no mundo, nos conectamos de alguma forma com alguns mundos nos quais vemos muito de nós mesmos ou vemos muito do que nos inspira viver a vida em toda sua plenitude.

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