A cueca do Pipo

Reza a lenda que quando esquecemos algo em algum lugar é o nosso íntimo trabalhando para que voltemos para aquele local do qual não queríamos sair. Por mais que tomemos cuidado, uma mera piscada já é o suficiente para que nosso inconsciente nos pregue uma peça.

Isso posto, vamos aos fatos.

Pipo, o amor da minha vida, mora em Brasília e eu no Rio. De vez em quando, ele vai voando literalmente para minha casa e passa uns tempos comigo e vice versa. Da última vez, ele ficou uns 20 dias no meu cafofo. Foi lindo.

Meu quarto é uma suíte meia boca. Tem um micro banheiro ao lado da cama. Há outro tualéte, chamemos assim para valorizar o barraco, para todes os demais que o frequentam e moram comigo. Nara, Hideo, Sara (namorada do Hideo), Daniel (maride da Nara), Yuki, Ricciuto,…

Pipo lindo, outro dia, saiu do nosso banheiro vestido somente com uma cueca cinza fofa fofa fofa dizendo que o pai dele havia ganhado aquilo de presente, não gostou e deu para ele. Daí, meu príncipe, sem noção do perigo, virava de costas e de frente falando que aquilo não era nem cueca nem samba-canção e que, de fato, ele estava se achando estranho. Eu estava sentada na cama lendo, mas ao ver aquele Deus grego semi nu metralhei óvulos segurando a biografia do Leonardo da Vinci.

Pipo ah-droga-que-triste voltou para Brasília. No dia seguinte, fui tomar banho. Eu, a saudade encarnada, vi a cuequinha dele no meu banheiro secando na janela. Mandei mensagem dizendo que ele havia se esquecido de algo e ele ficou calado porque não é mesmo de interagir via Whatsapp. Falei que era uma cueca e Pipo mudou de assunto.

Tímido ele. Fofo fofo fofo.

Ficaríamos dias separados por uma distância de mais de mil quilômetros. Fiz o que qualquer pessoa normal faria. Dormi cheirando a cueca do meu amor. Vesti para ver se cabia. Deu certinho. Mega confortável. Nascemos um para o outro e vamos dividir até isso. Belabelabela nossa história. Coloquei a cueca cuticuti na cabeça em forma de touca enquanto lia porque sou dessas mega românticas. Levei para o trabalho na minha bolsa. Mostrei para as amigas para provar que ele havia sim senhoras esquecido algo e que, portanto, me amava e ia voltar. Ficava abraçada com ela como se fosse um ursinho de pelúcia, na verdade, como se ele estivesse ali dentro. Ele. Meu ursinho de pelúcia. Fofuréééésimo.

Daí vim para Brasília. Na mala, trouxe a cuequinha linda do Pipo para devolver. Fiquei aqui uns dias e hoje, ao me despedir dele, entreguei-a com todo carinho dizendo o quanto nos aventurados juntas. Qual foi minha surpresa ao ouvir:

– Amor, não conheço essa cueca.

Tóin tóin tóin. Mil martelos de borracha bateram na minha cabeça.

– Mas como não?! Era a cueca que seu pai te deu, amor! Aquela que não era nem barro nem tijolo!

Ele fazia que não com a cabeça. Foi até o armário dele e me mostrou as pseudos cuecas que seu Garcia havia lhe dado.

Mas gente. De quem era aquilo que cafunguei tanto e levei para os confins mais perversos de minha mente?! Será que fiquei com a cueca do Hideo como se fosse uma máscara de oxigênio nas minhas noites insones? Ou meodeos. Não me diga que inspirei o pano que cobriu o rabo do Daniel? Jesus. Que nojo.

Enquanto surtava, Pipo analisava a peça com cuidado e viu a etiqueta escrito Lovi.

– Amor. Nenhuma peça masculina tem etiqueta escrito Lovi, disse ele todo no século passado mesmo sabendo que tenho que esconder minhas saias do Daniel que adora usá-las.

– Mas isso é uma cueca, Pipo! Sua cueca!

– Não, amor. Não é minha e não existe cueca com etiqueta assim!

Grosso.

Era dele. Tinha que ser dele. Não havia outra explicação.

Momentos de tensão com a minha vida inteira passando pela minha mente.

Coloquei a foto da peça íntima no grupo do whats do qual participam meus filhos, Pipo, meu mano Ricciuto que já dormiu lá em casa e os demais agregades. Perguntei se alguém sabia de quem era aquilo.

Silêncio.

Mensagem entregue a todos.

Mensagem lida por todos.

Mais silêncio.

Nara digitando.

– Mãe! Minha calcinha preferida! O que você está fazendo com ela em Brasília?!

Vixi Maria que o mundo tá mesmo acabando.

Era a vaca da Nara que não sabe nem que calcinha é algo pequeno, rosinha, delicadinho e não um cirolão cinza feito com tecido de meia grossa. E que diabos a Nara estava usando meu banheiro e pendurando roupa íntima na janela com Pipo lá em casa?

Gente. Tudo errado…

Falei com detalhes para todes o que fiz com aquele pedaço de pano porque sou dessas de ir para o inferno acompanhada.

Hideo falou que vai ter que fazer dez anos de terapia para lidar com tanta informação. Daniel suspirou aliviado por não ser a cueca dele.

Nara, a desconstruidona, explicou-me calmamente que aquilo era uma calcinha-box. Coisa horrorosa, brochante, ridícula. E que tomou banho quando eu e Pipo não estávamos lá porque o outro banheiro estava ocupado e ela estava muito atrasada um dia aê. Esqueceu-se de tirar aquela bandeira feminista da janela. Só isso que essa loka fez na minha vida.

Cá estou eu voltando de Brasília com cara de paisagem refletindo sobre a vida depois que descobri que fiquei dias cheirando alucinadamente a cirola da Nara.

Ah gente. Que vida difícil essa viu. Como lidar com o fato do Pipo não ter esquecido nada lá em casa?

17 comentários em “A cueca do Pipo

  1. Com toda a certeza do mundo! Afirmo… Você é a melhor em tudo q faz… Acho q estão achando q sou louca.. Um Brt mega mega lotado e eu aqui com celular na mão (uma mão só) rindo igual louca do seu texto… Kkkk acho eu q esse depois daquele primeiro sobre o Pipo foi o melhor q li… MigasuaLoka… Td amor do. Mundo pra vcs! 🙏♥️

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  2. Elika, nessa vida corrida, eu tento ignorar teus textos, junto com outros tantos que pasam por mim; mas não tem como, é muito gostoso de ter – até quando tem um namorado na história, que podia gerar ciúmes na gente, tu és sedutora no teu texto. Essa da cueca, foi preciosa.. rs. abs.

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  3. chorei de rir agora… Obrigada por você existir, Élika… se nao existisse teria que ser inventada kkkkkkkkkk
    eu sou hiper mega ultra sua fã.. e adoooorooo os Melhores do Mundo… quando vi que você estava com o Pipo, me deu até esperança de que meu futuro utópico um dia possa exixtir! kkkkkkkk
    beijoooos

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