Sobre Sexo, Virgindade, Sacanagem e o Amor com Tudo Isso.

sexo

Lembro-me de quando era criança e qualquer coisa que perguntasse para a minha  mãe sobre sexo ela desconversava ou respondia frases sem nexo cujo efeito era me fazer pensar mais ainda fixamente sobre o assunto. Recordo-me de ter tido uma curiosidade simples. Havia lido a palavra hímen na Revista Contigo que circulava pelos salões de cabeleireiro. Corri e perguntei à mamãe que diabos era aquilo. Minha filha, veja bem, olha, prestenção, bem, hímen?, ok, enrolava-me mamãe para finalmente responder: é uma pelinha que fica na perna e que quando a moça casa ela some. Valha-me Deus… aquilo havia sido muito pior do que entender a Santíssima Trindade! Mas, mãe, como a pelinha vai saber que eu casei? Ah, Elika!, vai brincar! Você não tem maturidade para entender isso! Conclusão: fui aprender o significado do vocábulo praticamente quando ele estava com os dias contados dentro de mim.

Exageros à parte, quando soube do que se tratava, fui questionar mamãe do porquê uma coisa que bloqueia a entrada da vagina que tem a função de proteger as meninas durante a infância dos riscos das infecções genitais estava conectado com a minha dignidade. Obtive como resposta que ele servia também e, principalmente, para que os maridos soubessem, de fato, se a sua esposa era virgem ou não, já que a tal pelinha se rompia na primeira relação sexual. E eu que fizesse o favor de proteger a minha pelinha a sete chaves sob o risco de, além de queimar no fogo do inferno por toda a eternidade, morrer solteira! Mamãe bateu na madeira e fez o sinal da cruz depois desse antológico conselho. Ah! E tem mais, minha filha, se o moço insistir, não ceda! porque todos fazem isso para nos testar! Não jogue no lixo a sua reputação e seu futuro! Eita nóis…

Mamãe nasceu em Itajubá, uma cidadezinha que fica no sul de Minas e chegou a ser freira. Tudo bem que ela foi expulsa do convento por ter mandado a madre superior para o Inferno, mas os valores de mamãe não foram exorcizados com esse fato. Como tantas de sua época, casou-se virgem. Fui educada para fazer o mesmo e a pressão para isso era terrível e vinha de tudo quanto é lado. De vovó, das tias, das primas mineiras e de algumas amigas tão aterrorizadas como eu. Ah! E do padre. Numa confissão que havia feito, que me rendeu quase uma hora rezando sabe deus quantos pais-nossos e mais outras tantas ave-marias, o reverendo me explicou calmamente a parada toda que seguia mais ou menos essa sequência: Primeiramente tem que se entender o significado da aliança que é a decisão de amar outra pessoa até morrer. Isso posto, é importante que se saiba que Deus fez uma aliança conosco e que, na Bíblia, para oficializar qualquer aliança dessa natureza há um derramamento de sangue. Geralmente, um cordeiro. Se a moça quiser, de fato, ter uma aliança no dedo e ser alguém para a sociedade, há de provar que é merecedora disso para seu parceiro. A verdadeira aliança ocorreria quando o marido visse o sangue no lençol na noite de núpcias. Virgem santa…

Esse papo havia me aterrorizado por completo. Daí que fui entender o branco da noiva e, uma vez isso tudo devidamente esclarecido, desejei jamais adentrar uma igreja para me casar. Cremdeuspai… A ideia d´eu entrando e todos me olhando sabendo que eu ia dar pela primeira vez naquela noite me enchia de constrangimento. Como assim, gente? Isso sim era, literalmente, uma pouca vergonha! Como pode essa exposição de uma intimidade que só diz respeito à moça e ao seu amor? Jamais! Isso nunca aconteceu e, de modo algum, ainda acontecerá comigo! Sei que atualmente perder o celular é motivo de muito mais drama e estardalhaço do que perder a virgindade, coisa que as meninas têm tirado de letra e as vezes até com a mão. O trauma, portanto, dessa educação esquizofrênica incapacita-me de colocar um vestido branco, ainda que seja só na imaginação, de uma forma leve e alegre. E sim, ainda sou virgem como verão os que me lerem até o final.

Como não fiz terapia, não é raro me ver também assustada pensando nas coitadas que foram obrigadas a se casar virgens e passar por toda aquela presepada, humilhação, vexame e exibição. Penso nas tímidas, nesse sentido, como eu. E quando considero as noites de núpcias de antigamente juntamente com o repúdio que a sociedade dirigia às desquitadas, Jesus… meupadinciço… aí me compadeço com tudo de mim das mulheres que foram tratadas com pouco carinho sabendo que assim seria para todo o sempre; das enrustidas, por medo de serem mal faladas; das frígidas, das que não viram beleza em um pênis ereto, das que morreram sem atingir um orgasmo, das que quiseram experimentar outros homens, das que deram e nada receberam. E não foram poucas, sabiam? Para se ter uma ideia de como funciona a nossa sociedade, somente no início do século 21 aprovaram por unanimidade a exclusão do termo “mulher honesta” do Código Penal. Antes disso, a definição de um crime sexual era: “Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”. É claro que o sentido de “honesta” é uma mulher virgem, casada, pudica, casta. Se desonesta, o cara era absolvido sob aplausos. Minhanossinhora…

Nunca falei sobre sexo aqui por ser um assunto tenso para mim (dado o pouco que aqui foi exposto que não corresponde a 10% da história). No entanto, hoje deixo o pudor de lado para explicitar o meu conceito de sacanagem e virgindade. Comecemos pelo último que, na minha opinião, não está conectado ao sexo em si, ao rompimento da pelinha na perna, como diria a minha mãe. Aliás, este é um conceito um tanto elástico quanto alguns hímens. Pelo modo que o entendo, todos nós, homens e mulheres, de uma forma ou de outra, morreremos virgens. Por mais que já tenhamos amado, gozado, seduzido, capturado, experimentado, por mais que sejamos rodados, não há experiência amorosa que se repita, pois as nossas paixões são variadas e nos transformamos demais a cada dia a ponto de sempre sermos novatos mesmo com vinte anos de casamento.  Sobre sacanagem queria registrar que se te contaram que tu és uma metade da laranja e que o amor é quando encontramos a outra metade, te sacanearam. Nascemos inteiros e não vamos colocar nas costas do outro a responsabilidade de sermos felizes porque isso sim é tipo ménage-à-vingt-trois! O amor, penso eu, se dá quando alguém pega a gente, laranjas inteiras rolando pelo mundo, e nos dá a sensação de ter nos colocado de volta à árvore. Sentimo-nos internamente florescer, amadurecer, vivos e, como dizia Aristóteles, no nosso lugar natural.

Isso tudo colocado, finalizo. Sexo sem amor é bom, interessante, quiçá intenso e inesquecível, mas não transcende. Com amor, o sexo se torna mega. Metafísico. E, pelo orgasmo – não nosso e sim de quem nos acolhe – recebemos a explicação de nossa existência e percebemos, até de olhos fechados, o verdadeiro movimento das estrelas.

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Arquivado em Crônicas, Opinião

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