Elika, quem matou Estácio de Sá?

Imaginacao

Quando eu era criança, estudava com a minha mãe todo santo dia. Depois do almoço, ela deixava a gente brincar um pouco no quintal enquanto lavava a louça. Depois limpava bem a mesa da cozinha, colocava todo o meu material arrumadinho, os lápis apontados e me chamava para estudar. Quando não havia matéria nova, ela ficava fazendo revisão da antiga ou mandava eu ler alguma coisa ou ficar, por exemplo, ouvindo o disquinho da tabuada para memorizar aquela budega.

O ensino mudou muito. Hoje não se decora mais nada. Mas antigamente era tudo diferente. Mamãe procurava deixar as coisas o mais leve possível, mas para algumas perguntas, eu tinha que saber a resposta certeira. Pois muito bem. O assunto que cairia na prova seguinte era sobre o Rio de Janeiro.

Lembro-me de uma tarde que ficou literalmente para história. Minha mãe, como sempre, estava lendo o texto para mim e me explicando.

– Elika, Estácio de Sá era sobrinho do Governador Geral do Brasil, Mem de Sá. Em 1563 chegou a Salvador, Bahia, com a missão de fundar uma cidade nas terras da Guanabara e expulsar definitivamente os franceses que ainda permaneciam na Baía de Guanabara. No dia 1° de março de 1565, Estácio de Sá veio a fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Elika, quem fundou a cidade do Rio de Janeiro?

Pensava eu com meus oito nove anos: coitada da minha mãe…

Daí, ela repetia toda aquela ladainha mais alto e no final:

– Elika, quem fundou a cidade do Rio de Janeiro?

Morria de pena da mamãe. Ela havia enlouquecido de vez…

Vendo que não tinha jeito, ela tentou frases mais curtas:

– Durante a Batalha de Uruçu-mirim, Estácio de Sá foi ferido por uma flecha lançada por um índio bem no rosto, e faleceu em 20 de fevereiro, em decorrência dos ferimentos. Elika, quem matou Estácio de Sá?

Vixi. Agora eu estava morrendo de medo. Era pequena e não sabia como agir quando percebemos que nossa mãe não está batendo bem das ideias. Ela mesmo pediu socorro ao meu pai grazadeus.

– Takimoto! Corre aqui!

Eu quieta olhando assustada para ela.

– Veja isso, Taki! Elika, Estácio de Sá foi ferido por uma flecha lançada por um índio bem no rosto, e faleceu em 20 de fevereiro, em decorrência dos ferimentos. Elika, quem matou Estácio de Sá?

Eu olhava para meu pai na esperança que ele resolvesse aquele problemaço.

– Por que você não responde a sua mãe, filha? – Questionou-me papai para o meu desalento geral.

– Elika, QUEM MATOU ESTÁCIO DE SÁ? – Gritava a louca.

– Responde, Elika! – Papai se exaltava.

Papai é japonês e não teria capacidade de entender o quão biruta minha mãe estava. Eu já não sabia mais o que fazer. Se respondesse o que ela queria, corroboraria a doença.

– Elika, QUEM MATOU ESTÁCIO DE SÁ? – Berrava a doida varrida.

E ficamos um bom tempo assim. Papai desistiu e saiu de perto. Ela preocupada comigo e eu muito mais com ela. Lembro-me que eu estava firme, não responderia a perguntas sem sentido e, de fato, não o fiz!

– Elika, que dia que o Rio de Janeiro foi fundado? – Tentava ela outras perguntas.

–  1° de março de 1565. – Respondia eu prontamente.

– Elika, quem matou Estácio de Sá?

Silêncio.

Maluca.

A noite, antes de dormir, mamãe veio ao meu quarto me dar banoite como sempre fazia. Sentou-se na beira da minha cama, fez-me um carinho materno mega normal, abaixou-se para me dar um beijim mega nomal também, mas ao invés de me desejar a companhia dos anjos, falou:

– Elika, quem matou Estácio de Sá?

Benzi-me. Respirei fundo e respondi:

– Mãe, você está louca. Como pode Mem de Sá ser tio de Estácio de Sá? Isso é nome de lugar e não de gente. Como pode chão ser ferido no rosto? Como pode um terreno se auto fundar a si próprio? Como pode alguém se chamar Mem, mãe? Isso não existe! Nenhum índio fere um bairro ou uma rua com uma flecha, mãe! Mem não é nome de governador. Estácio não é nome de gente. Para com isso, mãe. Papo de doido, mãe. Para. Pelamordedeos…

Sei que minha mãe gargalhou alto como deve ter feito quem descobriu o Brasil, a dizer, Pedro (nome de gente. ok. beleza.) Álvares Cabral.

Enfim, depois de tudo esclarecido e também que Barros Filho, Bento Ribeiro, Brás de Pina, Cavalcanti, Cosme Velho entre outros, antes de serem nomes de bairros, foram apelidos de gente importante, eu, enfim, falei para alívio de Dona Ruth:

– Agora entendi tudo, mãe. Um índio matou Estácio de Sá que era sobrinho de verdade de um moço de verdade também chamado Mem. De Sá. Entendi. Brigado, mãe.

Eu estava mega feliz menos por ter compreendido a história do que pela alegria de voltar a ter uma mãe normal. A sensação daquela noite foi de ter dobrado o Cabo da Boa Esperança viu. Lembro-me direitim… Tal como o fez Bartolomeu Dias, em 1488, pensava quietinha olhando para o rosto de mamãe que sorria emocionada. Ele chegou lá nas águas cheias de tormentas, pegou o cabo que só podia ser de ferro e com a mó força, curvou-o lentamente. E renovado de forças e esperanças, descobriu as Índias. Assim eu me sentia, tal como Bartolomeu Dias.

Jamais vou me esquecer dessa história…

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Arquivado em Crônicas, Educação

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